O suicídio do reitor e as universidades que exploram o nosso minério de ferro

O reitor Luiz Cancellier, em foto de Henrique Almeida / Agecom/UFSC

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Durante anos, quando trabalhava no Jornal do Brasil e na Rádio Alvorada, a Veja foi minha leitura obrigatória. Boa revista, no tempo em que era dirigida por Mino Carta. Foi piorando e, há muitos anos, só leio alguma coisa que ela publica quando vou uma vez por mês ao barbeiro ou se descubro, em algum blog, algo dessa revista que ainda me interesse, como aqui.

“É mais que um belíssimo e sensível trabalho dos repórteres Monica Weinberg e Thiago Prado, da Veja. É um libelo acusatório contra as monstruosidades que estão sendo feitas, em nome da moral e da Justiça, humilhando pessoas, prendendo-as antes de serem ouvias, violando suas intimidades até físicas. A morte do reitor Luiz Cancellier não foi, até agora, tão bem descrita, nem a brutalidade que o levou ao suicídio tão bem narrada. O dia em que, finalmente, este país tiver uma lei que puna o abuso de autoridade, que ela seja conhecida como Lei Cancellier, como a Maria da Penha deu nome à da violência contra a mulher”, analisa Fernando Brito, que republica toda a reportagem em seu blog.

Qualquer coisa que eu acrescentasse ao “belíssimo e sensível trabalho” dos repórteres, seria presunção minha. Mas posso destacar um detalhe sobre a prisão do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina que exemplifica o abuso de autoridade:

Desde cedo, já voava nas redes sociais a notícia de que a Polícia Federal deflagrara uma operação de combate a uma roubalheira milionária na UFSC. A página oficial da PF no Facebook, seguida por 2,6 milhões de pessoas, destacava a Ouvidos Moucos: “Combate de desvio de mais de 80 milhões de reais de recursos para a educação a distância”. Ainda acrescentava duas hashtags para celebrar a ação: “#euconfionapf” e “#issoaquiépf”. A euforia não encontrava eco nos fatos. Na coletiva, a delegada Érika explicou que, na realidade, não havia desvio de 80 milhões de reais. O valor referia-se ao total dos repasses do governo federal ao programa de ensino a distância da UFSC ao longo de uma década, de 2005 e 2015, mas não soube dizer de quanto era, afinal, o montante do desvio. Como a PF não se deu ao trabalho — até hoje — de corrigir a cifra na sua página do Facebook, os 80 milhões colaram na biografia do reitor. Em seu velório, uma aluna socou o caixão e bradou: “Cadê os 80 milhões?”.

Não preciso me alongar mais, certo de que o leitor que se interessou não deixará de ler essa excepcional reportagem de Veja.

Posso, então, tratar de outra reportagem, também ligada a universidades, dessa vez dos Estados Unidos. Quem souber inglês e tiver tempo e interesse pode ler aqui. O New York Times escreve sobre investimentos feitos por trás dos panos pela Columbia e pela Duke, duas universidade de prestígio, numa controversa operação brasileira de minérios. Ambas desviam receitas para outros países, via paraísos fiscais, numa estratégia para engordar seus lucros, evitando tanto o pagamento de impostos quanto os protestos dentro de seu campus.

Columbia e Duke são algumas das universidades dos EUA que fazem a cabeça de brasileiros, como o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Os mesmos “Paradise Papers” que revelaram como Meirelles investe sua fortuna em paraísos fiscais expuseram as duas universidades, que usam empresas offshores para ganhar com minério de ferro no Brasil. O ministro e os reitores imitam, de fato, gigantescas corporações e as pessoas mais ricas do mundo. Para eles, não há risco de suicídio.

É verdade, diz o NYT, que universidades têm sido pressionadas por estudantes e ativistas a optarem por investimentos “verdes”, em resposta às mudanças climáticas. Bem como a levar em consideração assuntos de política social e de boa governança ao planejar investimentos.

No entanto, Columbia e Duke, que estão no ranking das 20 universidades privadas mais ricas dos Estados Unidos, compraram em 2015 ações da Ferrous Resources, multinacional registrada num paraíso fiscal, a Ilha de Man, e cujo negócio principal é a mineração de ferro no Brasil.

Projeto e implantação da britagem terciária – Mina de Viga da Ferrous Resources do Brasil. Foto: Alfa Engenharia / Divulgação

A Ferrous foi criticada, inclusive por mim, por querer construir um mineroduto de 480 quilômetros, de uma mina em Minas para um porto no Espírito Santo.

“Houve grandes manifestações contra esse projeto, que culminou com a criação de uma campanha”, diz o NYT, citando artigo publicado no jornal Society & Nature. Um estudo ambiental feito em 2010 revelou que mais de 110 mil pessoas seriam afetadas pelo barulho, pela poeira, pela degradação do solo e pela perda de qualidade da água, se o mineroduto tivesse sido construído.

Procurada pelo NYT, a Ferrous não quis comentar, limitando-se a dizer que o projeto havia sido suspenso. A Columbia, que é dona de mais de 8 milhões de ações da Ferrous, ou 1,1% do total, negou-se a falar a respeito. E vários fundos de investimento ligados à Duke, que também se calaram, detêm mais de 2 milhões de ações da Ferrous.

Já a Ferrous Resources do Brasil, fundada em 2007, com sede em Belo Horizonte, afirma em seu site ser “uma empresa brasileira que extrai e beneficia minério de ferro nas minas Viga (Congonhas), Esperança (Brumadinho) e Santanense (Itatiaiuçu), todas no Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais”. Acrescenta que espera estar, nos próximos anos, entre as maiores empresas de mineração do país, devendo produzir em longo prazo mais de 40 milhões de toneladas por ano.

Se essa projeção se realizar, com a ajuda do que resta do governo Temer, as duas universidades vão acabar tendo lucro. E os mineiros que se danem.

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