Contribuição de leitor: ‘La La Land’ e ‘Eu, Daniel Blake’, dois filmes sociais

Cenas de "La La Land" e "Eu, Daniel Blake"

Cenas de “La La Land” e “Eu, Daniel Blake”

O texto abaixo foi enviado pelo leitor Douglas Garcia, que é professor de filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Você também quer enviar um texto seu para ser publicado no blog? Entre em contato e seu trabalho será avaliado com carinho 😉


“Ao contrário do que possa parecer, é difícil explicar para si mesmo e para os outros por que um filme é bom.

Vou tentar fazer isso como dois filmes muito bons e muito diferentes entre si, o americano e “romântico” (explico a razão das aspas mais adiante) “La La Land” e o drama britânico “Eu, Daniel Blake”, ambos em cartaz atualmente em Belo Horizonte. Sem spoilers!

“La La Land” ganhou recentemente os principais prêmios no “Globo de Ouro”. É um musical colorido, alegre e divertido. Quem assistiu a trechos de divulgação dos números musicais do filme antes de ir vê-lo no cinema, como é o meu caso, tem uma primeira surpresa: “Pensei que era um filme de época!”. Não, não é, e isso é importante para o sentido do filme. Pois ele tem a ver com uma certa nostalgia em relação aos grandes musicais do cinema americano, bem como para com a grande tradição do jazz. Na verdade, é possível pensar em uma nostalgia ampliada, dirigida a um outro tipo de relação das pessoas entre si, bem como a um outro tipo de relação com a cultura, especialmente a música e o cinema. O filme tem êxito ao tornar palpável o sentimento de que se perdeu uma relação de atenção e cuidado para com a singularidade, o caráter único e insubstituível de cada pessoa, cada artista, cada disco, cada filme. A história do casal de personagens do filme é a da maneira como cada um lida com esse sentimento de perda.

Há três características formais de “La La Land” que gostaria de apontar, que remetem a como o filme elabora essa nostalgia. A primeira, o seu ritmo de filmagem das cenas coreografadas, que privilegia o plano-sequência, sem cortes, de modo a “dar tempo ao tempo” da dança e do encontro. A segunda, a repetição de situações em que um corte abrupto intervém, geralmente na forma de um barulho “tecnológico”, como um celular que toca na hora errada, indicando que vivemos em uma situação social e cultural na qual o nosso tempo é recortado por todo tipo de interferências, que dificultam que as pessoas realmente parem e prestem atenção no que estamos fazendo ou dizendo. A terceira, a recorrência de cenas filmadas ao crepúsculo, entre o dia e a noite, como a sinalizar a suave e inevitável passagem do tempo, e a beleza daquilo que é evanescente.

Nessa estruturação muito inteligente, “La La Land” pode ser tomado como um filme não apenas “romântico” no sentido mais comum da palavra, daquilo que tem relação com a experiência amorosa, mas também no sentido mais técnico, da filosofia e da literatura, relativo à exploração dos sentidos infinitos da mudança das coisas no tempo e na imaginação. Nesse sentido, penso que “La La Land” pode ser visto como um filme social também. Por que motivo? Quando a imaginação se restringe e a atenção às coisas e às pessoas se perde, trata-se do resultado de toda uma cultura.

Quando se põe, lado a lado, dois filmes como esses, o lírico e fantasioso “La La Land” e o realista e dramático “Eu, Daniel Blake”, vem à mente uma questão que marcou época na estética filosófica moderna: “Que tipo de representação artística do mundo tem mais valor, a realista ou a imaginativa?” Com a passagem do tempo e muitas discussões depois, viu-se que a questão está mal colocada. Adorno, entre outros teóricos importantes, mostrou que a fantasia é uma força social e que a obra mais imaginativa e aparentemente distante do presente pode ser a mais interessante para entendê-lo – como foi o caso das obras de Kafka e Beckett, para o século XX.

Vamos a “Eu, Daniel Blake”, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. É um drama social, sério, contido e digno. O seu sentido mais íntimo liga-se ao esboço de uma contraposição entre a solidariedade de pessoas comuns, capazes de cultivar afeto e cuidado em suas relações, por um lado, e a frieza e abstração dos aparatos da administração estatal e do mercado, que se orientam pela lógica impessoal da burocracia e do lucro, por outro. É um filme simples, na sua estrutura, que tem uma narrativa clara e linear, mas é também um filme profundamente tocante, pelo trabalho dos atores e pela elaboração da fragilidade e da dignidade de seus personagens.

Em “Eu, Daniel Blake” o presente é tão ameaçador, na forma da dificuldade da sobrevivência econômica, que a nostalgia, quando aparece, rapidamente dá lugar a outras preocupações. No contexto de sentido do filme, isso é doloroso para seus personagens, pois a destituição econômica a que eles estão sujeitos prolonga-se em uma destituição subjetiva, de suas memórias e afetos. Na forma do filme, o diretor elabora essa quase impossibilidade de um quadro estável de memórias adotando dois procedimentos estéticos: primeiro, ele corta totalmente a música, que poderia criar uma impressão de desdobramento psicológico dos personagens no tempo; além disso, ele abre um tempo longo para as cenas em que o personagem do título tenta preencher os formulários, fazer ligações telefônicas e responder a questionários das agências públicas responsáveis pela concessão de seu auxílio previdenciário. Em outros termos: tudo é mostrado de modo tão “abstrato”, impessoal e protocolar como é na realidade.

O “romântico” e imaginativo “La La Land” e o dramático e realista “Eu, Daniel Blake”, na verdade, são ambos bons filmes que mostram que o amor é histórico e social, e que o social é íntimo demais a ponto de ser sentido no registro dos afetos.”

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