Os tempos difíceis de Dickens não voltam mais com Bolsonaro

Texto escrito por José de Souza Castro:

Era comum ver crianças trabalhando nas fábricas inglesas do século 19. [Não sei autoria da foto]

Vinte anos depois de comprar “Hard Times”, edição da Oxford University Press, estou relendo o livro escrito em 1854 por Charles Dickens, em plena revolução industrial inglesa. Por mais desastroso que seja o governo almejado pelo ex-capitão Bolsonaro, com telescópio invertido para 1964, a situação dos trabalhadores brasileiros dificilmente regressará às condições de 164 anos atrás. Mas, de toda forma, eles viverão “Tempos Difíceis”.

No começo de 1999, enquanto eu lia “Hard Times”, o tucano Fernando Henrique Cardoso iniciava sua nova gestão de quatro anos, sob o signo da crise do real. Em janeiro, depois da posse, a moeda se desvalorizou bruscamente e os juros pagos pelo governo chegaram a 45% ao ano. Aos trancos e barrancos, a economia foi se recuperando, mas não o suficiente para manter em mãos tucanas o comando do país.

Em 2002, Lula se elegeu. Só então a situação dos trabalhadores melhorou.

Já então, poucos se lembravam dos conceitos de utilitarismo e de economia política, concebidos pelos economistas ingleses Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823), criticados por Dickens. Esses economistas defendiam que a distribuição da riqueza era governada por leis imutáveis da natureza, que a prosperidade nacional dependia do lucro dos empresários, e os salários dos trabalhadores não podiam aumentar sem pôr em risco a harmonia econômica e dar prejuízo, tanto para os trabalhadores quanto para os industriais.

Afinal, nada havia posto mais em risco a indústria brasileira como a implementação, no governo FHC, de políticas econômicas deflacionistas (juros elevados e baixo investimento estatal), associadas a um câmbio semifixo sobrevalorizado e à abertura indiscriminada da economia, com consequente aumento dos déficits comerciais e enfraquecimento da indústria nacional.

Não por acaso, um personagem relevante de Tempos Difíceis é o banqueiro Bounderby, que se orgulhava das condições de vida em Coketown, cidade fictícia criada por Dickens, inspirado em outras cidades industriais inglesas, onde os trabalhadores – homens, mulheres e crianças – eram mantidos trabalhando nas usinas entre 14 e 16 horas por dia, com folga só aos domingos.

Segundo o banqueiro, na cidade enfumaçada pelas chaminés das fábricas movidas a carvão e vapor, não existia em Coketown nenhum operário – homem, mulher e criança, aos quais chamava indistintamente de Hands (Mãos) – que não sonhasse em comer tartaruga e carne de veado com uma colher de ouro.

A poluição faz um bem danado aos pulmões. Não é?!

Não vão comer com uma colher de ouro, avisava o banqueiro, que tinha sua própria definição para o trabalho feito pelos Hands: “É o mais agradável trabalho que existe, o mais leve trabalho que existe e o mais bem pago trabalho que existe”.

Não havia motivo, também, para reclamar da poluição em que todos viviam e trabalhavam, pois fumaça “é a coisa mais saudável no mundo em todos os aspectos, particularmente para os pulmões”.

Bolsonaro e seus generais iam se divertir, se lessem “Hard Times”.

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Sobre empréstimos e devoluções — um Conto de Natal inacabado

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Trabalhando em dia de Natal pela segunda vez na vida (geralmente meus plantões caem no Réveillon), não consegui deixar de pensar no clássico de Charles Dickens, “Um Conto de Natal”. Ebenezer Scrooge, o muquirana, economizava até no carvão pra aquecer a salinha onde o pobre Bob Cratchit trabalhava até tarde na véspera de Natal. Claro que no meu caso é bem diferente, uma verdadeira questão de “ossos do ofício”, mas a história — uma das minhas favoritas de todos os tempos — pairou na minha cabeça durante parte do expediente ontem. Decidi: vou chegar em casa e assistir ao meu DVD com uma das mais belas versões do livro.

Já em casa, sofá-cama aberto, pipoca estourada, suco nos copos, fui vorazmente até a estante em busca do meu precioso DVD. E lá estava ele: o buraco, indicando que eu tinha emprestado o filme a alguém, só deus sabe quem.

Imaginem a frustração.

Eu adoro emprestar as coisas (e também pegar emprestado!). Quando eu morava sozinha, sempre fazia questão de entregar uns dez filmes de uma vez aos meus amigos que também moravam sozinhos — vejam este!, muito bom! –, com mil recomendações. Também gosto muito de emprestar livros. Mas depois, se a pessoa não me devolve, eu posso nunca mais revê-los, porque não consigo lembrar de jeito nenhum para quem emprestei.

Quando eu era mais nova, nos tempos do colégio, chegava a fazer uma cadernetinha pra anotar os empréstimos, como fazem as bibliotecas. Fui perdendo a organização com o tempo. E, claro, também e desprendendo mais das coisas. Mas continuo com a mesma frustração quando fico doida para ver um filme e não o encontro.

Como já contei por aqui, adoro separar roupas para doação. Brinquedos e comidas também. Utensílios de casa, sapatos. Me desfaço de certos bens com a maior facilidade e desprendimento. Mas sou muito apegada a meus livros, CDs e DVDs. Meu sonho de criança era ter uma biblioteca e, na falta de imponentes estantes, as caixas de leite faziam as vezes de um depositário de livros. Eu me orgulhava daqueles livros, que deixava debaixo da cama (imaginem a poeira!), em ordem alfabética de autores, e buscava sempre, para reler ou emprestar. Isso deve explicar meu prendimento de hoje.

Por isso, acho que todo mundo que gosta de pegar livros e filmes emprestados (e me incluo nessa) deveria fazer assim: anotar num papelzinho de quem é aquele precioso bem (porque o que pegou emprestado também pode se esquecer), colocar lá dentro do livro, como um marcador, e deixá-lo numa estante especial, para ser livro ou visto logo que possível e devolvido assim que acabado, deixando todos felizes — inclusive o Natal de uma certa jornalista de plantão 🙂