Os tempos difíceis de Dickens não voltam mais com Bolsonaro

Texto escrito por José de Souza Castro:

Era comum ver crianças trabalhando nas fábricas inglesas do século 19. [Não sei autoria da foto]

Vinte anos depois de comprar “Hard Times”, edição da Oxford University Press, estou relendo o livro escrito em 1854 por Charles Dickens, em plena revolução industrial inglesa. Por mais desastroso que seja o governo almejado pelo ex-capitão Bolsonaro, com telescópio invertido para 1964, a situação dos trabalhadores brasileiros dificilmente regressará às condições de 164 anos atrás. Mas, de toda forma, eles viverão “Tempos Difíceis”.

No começo de 1999, enquanto eu lia “Hard Times”, o tucano Fernando Henrique Cardoso iniciava sua nova gestão de quatro anos, sob o signo da crise do real. Em janeiro, depois da posse, a moeda se desvalorizou bruscamente e os juros pagos pelo governo chegaram a 45% ao ano. Aos trancos e barrancos, a economia foi se recuperando, mas não o suficiente para manter em mãos tucanas o comando do país.

Em 2002, Lula se elegeu. Só então a situação dos trabalhadores melhorou.

Já então, poucos se lembravam dos conceitos de utilitarismo e de economia política, concebidos pelos economistas ingleses Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823), criticados por Dickens. Esses economistas defendiam que a distribuição da riqueza era governada por leis imutáveis da natureza, que a prosperidade nacional dependia do lucro dos empresários, e os salários dos trabalhadores não podiam aumentar sem pôr em risco a harmonia econômica e dar prejuízo, tanto para os trabalhadores quanto para os industriais.

Afinal, nada havia posto mais em risco a indústria brasileira como a implementação, no governo FHC, de políticas econômicas deflacionistas (juros elevados e baixo investimento estatal), associadas a um câmbio semifixo sobrevalorizado e à abertura indiscriminada da economia, com consequente aumento dos déficits comerciais e enfraquecimento da indústria nacional.

Não por acaso, um personagem relevante de Tempos Difíceis é o banqueiro Bounderby, que se orgulhava das condições de vida em Coketown, cidade fictícia criada por Dickens, inspirado em outras cidades industriais inglesas, onde os trabalhadores – homens, mulheres e crianças – eram mantidos trabalhando nas usinas entre 14 e 16 horas por dia, com folga só aos domingos.

Segundo o banqueiro, na cidade enfumaçada pelas chaminés das fábricas movidas a carvão e vapor, não existia em Coketown nenhum operário – homem, mulher e criança, aos quais chamava indistintamente de Hands (Mãos) – que não sonhasse em comer tartaruga e carne de veado com uma colher de ouro.

A poluição faz um bem danado aos pulmões. Não é?!

Não vão comer com uma colher de ouro, avisava o banqueiro, que tinha sua própria definição para o trabalho feito pelos Hands: “É o mais agradável trabalho que existe, o mais leve trabalho que existe e o mais bem pago trabalho que existe”.

Não havia motivo, também, para reclamar da poluição em que todos viviam e trabalhavam, pois fumaça “é a coisa mais saudável no mundo em todos os aspectos, particularmente para os pulmões”.

Bolsonaro e seus generais iam se divertir, se lessem “Hard Times”.

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O fantasma e o fantasma do Palácio da Alvorada

Texto escrito por José de Souza Castro:

O jornalista Kiko Nogueira escreveu neste domingo artigo que me lembrou um livro meu, escrito para a filha de 12 anos. É possível que ela tenha sido a única leitora do que eu havia escrito durante meu ócio de desempregado. A Cris me disse, na época, que amou o livro. Anos depois, o incluiu na biblioteca deste blog.

O artigo do Kiko tem como título “O diálogo de Temer com o fantasma do Palácio da Alvorada”. Como sabem, Michel Temer morou com a família nesse palácio durante 11 dias, depois “de gastar mais de 20 mil reais numa reforma que envolveu a instalação de uma rede de proteção para o filho numa varanda”.

Ao justificar porque preferiu voltar ao Palácio do Jaburu, disse Temer que sentiu no Alvorada uma coisa estranha lá. “Eu não conseguia dormir, desde a primeira noite. A energia não era boa. A Marcela sentiu a mesma coisa. Só o Michelzinho, que ficava correndo de um lado para outro, gostou. Chegamos a pensar: será que tem fantasma?” Continuar lendo

Taxa de juros sobe. Qual a novidade?

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Texto escrito por José de Souza Castro*:

A notícia divulgada no dia 29 de abril não chamou muita atenção, pois está se tornando costumeira. É a quinta alta consecutiva da taxa básica de juros (Selic), que chegou agora a 13,25% ao ano, com possibilidade de novo aumento na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em junho.

A escalada dos juros começou há dois anos e só foi interrompida durante o período eleitoral. O que se assiste é a retomada incontestável da política de 1999, do governo Fernando Henrique Cardoso, de usar a Selic como instrumento de política monetária.

Indaga-se: o que não deu certo naquela época, dará agora pelas mãos treinadas na gestão do Bradesco do ministro Joaquim Levy?

Certamente, dará certo para o Bradesco e outros bancos que há muito tempo vivem em clima de festa no Brasil. O balanço trimestral do Bradesco não deixa dúvidas. No mesmo dia em que o Copom decidiu elevar a Selic, o banco revelou que obteve nos primeiros três meses do ano lucro líquido de R$ 4,2 bilhões.

Em comparação com o quarto trimestre do ano passado, quando Levy era ainda diretor-superintendente, desde junho de 2010, do Bradesco Asset Management, o lucro do Bradesco aumentou 6,3%. Em comparação com o primeiro trimestre de 2014, invejáveis 23,3%.
Vejamos o que ocorreu em 1999.

Numa sexta-feira de janeiro, chamada na época de “sexta-feira negra”, o clima no país beirava o pânico, com previsões catastróficas e boatos alarmistas sobre feriado bancário e confisco financeiro. O presidente FHC demitiu o presidente do Banco Central, Francisco Lopes, e desvalorizou o real, abandonando o regime de câmbio fixo. O país passou a operar no regime de câmbio flutuante, até hoje.

Em setembro de 1998, faltando pouco para a sua reeleição, o presidente havia admitido que era grave a crise brasileira. Talvez tivesse sido melhor que Dilma Rousseff, que vem seguindo agora os passos de FHC nos rastros de Levy, tivesse feito o mesmo em setembro passado.

Para contornar a crise, Fernando Henrique tratou também de aumentar impostos, para tentar tapar o buraco do déficit fiscal. Empresários da indústria reagiram. Sabiam que com altas taxas de juros e baixo crescimento econômico, as chances de sobrevivência de muitas indústrias diminuíam a cada dia. Era falir ou vender para alguma multinacional de olho gordo no mercado consumidor brasileiro.

As perspectivas seriam diferentes hoje? O Banco Central parece pouco preocupado com a produção. Pelo menos, bem menos que com a inflação e com o desempenho dos bancos aos quais tem o dever de fiscalizar. No comunicado sobre o último aumento da Selic, ele repetiu o discurso das duas últimas reuniões, de que tomou a decisão “avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação”. Uma frase com efeitos anestésicos, talvez, pois a gritaria hoje é menor que em 1999.

Quem sabe esse comportamento de resignação do Brasil não anima o Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) a aumentar as taxas de juros, apesar da freada em sua recuperação econômica? No primeiro trimestre deste ano, o PIB americano cresceu apenas 0,2%, comparado com o mesmo período de 2014. No quarto trimestre, o crescimento foi de 2,2%. Se pelo menos os juros no exterior fossem maiores, as indústrias brasileiras aguentariam mais tempo, não? Porque, aqui, eles não caem.

Os bancos brasileiros – e os estrangeiros que para aqui vieram no governo FHC – não deixam. Eles têm muito a lucrar, quando a Selic sobe, pois os juros que cobram no mercado acompanham essa alta, mas em escala maior. Só o governo federal deve R$ 2,44 trilhões. Parte dessa dívida é cobrada pelos bancos com base na Taxa Selic.

Não tenho informações recentes. Mas, há um ano, a participação dos títulos corrigidos pela Selic na dívida interna era de 9,5%. Se o percentual se manteve, a alta que ocorre pela quinta vez consecutiva tem reflexo significativa no endividamento público. Ninguém gosta de falar sobre isso, aparentemente. Sobretudo na imprensa.

Enquanto isso, o financiamento imobiliário ao consumidor caiu 4,6% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2014. A primeira retração para o período, nos últimos 13 anos. Os depósitos da caderneta de poupança, principal fonte de recursos do setor, ficaram menores R$ 30,2 bilhões neste ano, até o dia 23 de abril.

Diante de recursos escassos, a Caixa Econômica Federal fez dois reajustes nos juros cobrados e passou a dar prioridade aos empréstimos voltados à baixa renda e a imóveis novos, vendidos pelas construtoras, especialmente dentro do programa Minha Casa, Minha Vida.

O governo parece mais preocupado em como garantir o pagamento da dívida, com medidas de ajuste fiscal para tentar cumprir a meta, tendo anunciado corte de despesas de R$ 18 bilhões neste ano. E não se fala em taxar mais os ricos, mesmo com a queda de R$ 14,8 bilhões na arrecadação no primeiro trimestre deste ano, comparado o primeiro trimestre de 2014.

Em compensação, deixou de gastar R$ 1,7 bilhão para subsidiar as contas de energia elétrica. Quem pagou foi o consumidor.

E não é culpa dele, pois não come minério de ferro, que a Vale registrou prejuízo líquido de R$ 9,5 bilhões no primeiro trimestre…

O governo não vai taxar as grandes fortunas, pois parece que Dilma Rousseff não tem disposição para enfrentar mais esse desafio. Mas, que tal pôr a Receita Federal para obrigar os mais ricos a pagarem o que devem? Por que o silêncio em relação à sonegação de mais de R$ 19 bilhões constatada na Operação Zelotes desfechada pela Polícia Federal há pouco mais de um mês e já esquecida?


 

* A blogueira continua de férias, mas o blogueiro seguirá postando sempre que puder, viu? 😉

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Dilma pode sentir na pele o golpe paraguaio

Texto escrito por José de Souza Castro:

Do blog do jornalista Ricardo Kotscho, que foi assessor de Lula, neste 4 de fevereiro: “Foi dada a largada. Em caudaloso artigo publicado domingo no Estadão, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu a senha: como não há clima para um golpe militar, a derrubada do governo de Dilma Rousseff deve ficar por conta do Judiciário e da mídia, criando as condições para votar o impeachment da presidente no Congresso Nacional o mais rápido possível.” Íntegra AQUI.

Do jornalista Acílio Lara Resende, arguto observador político tucano, em artigo que “O Tempo” publica hoje:

“Veja bem, leitor: além dos problemas por que passa o país – na economia, na educação, na saúde, na mobilidade urbana, na volta da inflação, nos transportes, no aumento do desemprego, na infraestrutura, na falta de água, na falta de energia etc, que envolvem responsabilidade direta do atual governo, a presidente terá que explicar o que de fato aconteceu, durante anos, na Petrobras; e, de lambuja, ainda correrá o risco de um impeachment, analisado, recentemente, em longo e minucioso parecer, pelo ilustre jurista Ives Gandra da Silva Martins.”

Concordo com Ricardo Kotscho, mas não acho que a largada foi dada agora, e sim quando o presidente dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama, nomeou, no dia 14 de junho de 2013, a nova embaixadora no Brasil, Liliana Ayalde, em substituição a Thomas A. Shannon, que ocupava o cargo desde 2009, final do governo Lula.

Shannon foi incapaz de impedir a eleição de Dilma Rousseff e, Ayalde, a sua reeleição. Mas não terá faltado esforço de ambos. Cabe agora à primeira mulher no comando da embaixada dos EUA no Brasil ajudar a impedir que a primeira presidenta do país governe por mais quatro anos. Pior, que possa ser sucedida, em 2019, por Lula.

Mas esse trabalho da embaixadora tem que ser feito de forma muito discreta, pois Obama, assim como Kennedy no começo da década de 1960, não gostaria de escancarar a ajuda dos Estados Unidos a um golpe para derrubar mais um governo democraticamente eleito. Kennedy sim, pois começou a governar em 1961 e só não viu a queda de João Goulart, em 1º de abril de 1964, porque ele morreu assassinado, em Dallas, quatro meses antes.

Toda a preparação para o golpe militar foi feita durante seu governo. Eu era adolescente em Lagoa da Prata, com menos de 5.000 moradores em 1962, e a cidade já era inundada com panfletos publicados pelo IBAD – muitos deles encartados em jornais do Rio de Janeiro e São Paulo – para preparar os brasileiros para o golpe militar. A USAID, agência na qual a atual embaixadora dos Estados Unidos trabalhou durante 24 anos, tendo sido diretora de missão na Nicarágua, Bolívia e Colômbia, antes de ser nomeada embaixadora no Paraguai, entre 2008 e 2001.

No Paraguai, ela preparou, com grande competência, o golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo. Os interessados podem ler AQUI um bom artigo escrito pela repórter investigativa brasileira Natália Viana. Foi publicado pela Agência Pública no dia 4 de fevereiro de 2013, oito meses depois que um conluio entre o Congresso Nacional e a Corte Suprema resultou no afastamento de um presidente eleito pela esquerda paraguaia. Natália expõe a forma como o governo dos Estados Unidos mantinha influência em todas as esferas de poder que foram fundamentais para a remoção de Fernando Lugo. Selecionei alguns trechos:

  • Na véspera do julgamento do impeachment que o destituiu da presidência do Paraguai em 22 de junho do ano passado, Fernando Lugo reuniu-se com o embaixador norte-americano James Thessin na capital Assunção. A reunião estava marcada havia muito tempo, bem antes da matança de Curuguaty – uma operação policial de reintegração de posse na região de Curuguaty que deixou 17 mortos no dia 15 de junho de 2012, e foi usada como argumento pelo Congresso para depor Lugo uma semana depois. Seguindo o protocolo, Thessin convidou Lugo para a recepção de celebração ao 4 de julho, data da independência americana, a ser realizada na embaixada, que toma um quarteirão inteiro no centro da capital paraguaia. “Mas você está me convidando para eu ir como presidente ou como cidadão?”, indagou Lugo.  “Como presidente, é claro”, tranquilizou-o Thessin. Lugo já não era mais o presidente do Paraguai no dia 4 de julho e não compareceu à cerimônia, que teve direito à execução dos dois hinos nacionais, refrescos e tira-gostos. A data marcava o fim de uma semana de trabalho duro em relação à deposição do ex-bispo da presidência e à ascensão do seu vice, o liberal Federico Franco, ao poder. Um trabalho que envolveu mais do que diplomatas americanos e foi realizado silenciosamente – os EUA só se pronunciaram sobre o Paraguai 20 dias depois do impeachment.

  • Lugo não estava errado ao indagar o embaixador americano sobre seu futuro quando convidado para o 4 de julho. Afinal, o apoio dos EUA é fundamental para o futuro de qualquer governo naquele país. As reticências dos americanos em relação à sua presidência foram bem descritas pela antecessora de Thessin na embaixada, Liliana Ayalde, que escreveu em telegrama enviado em 7 de dezembro de 2009, e vazado pelo Wikileaks: “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”.

  • A influência americana sobre o Paraguai não é apenas uma questão diplomática. Através de doações administradas pela USAID de mais de US$ 100 milhões (em cinco anos) a empresas, ONGs e órgãos governamentais dificílimos de monitorar, os americanos garantiram a proximidade com diversas esferas de poder no país. “Atores políticos de todos os espectros nos procuram para ouvir conselhos”, resumiu a ex-embaixadora Ayalde no mesmo relatório confidencial. “E a nossa influência aqui é muito maior do que as nossas pegadas”, pontuou.

  • O treinamento das forças de segurança paraguaias estava entre os principais programas financiados pela USAID. Entre 2005 e 2010, cerca de mil militares e policiais foram treinados – a maioria em 2009, ano seguinte à posse de Lugo – e dali saíram alguns comandantes das Forças Armadas nomeados por Franco quando assumiu o poder. A Polícia Nacional foi a responsável pela operação que resultou na matança de Curuguaty. O Ministério Público, que baseou-se exclusivamente em depoimentos de policiais para atribuir aos camponeses a culpa pelo massacre, e a Corte Suprema, que negou dois recursos movidos pela defesa de Lugo, também foram contemplados com programas financiados pela USAID.

  • Documentos obtidos pela Pública através da Lei de Acesso à Informação dos EUA revelam que, antes mesmo da votação do impeachment, o encarregado da USAID por zelar pela democracia paraguaia já planejava seus passos com o novo governo: “Comecei a fazer reuniões internas para avaliar e traçar uma estratégia sobre a melhor maneira de manter o andamento dos programas no novo governo”, explicou Eschleman em um email às 17h20 do fatídico 22 de junho para a direção da Millenium Challenge Corporation (MCC), agência financiadora ligada ao Congresso americano. Observando que “às seis horas, Franco já deve ser presidente”, Eschleman escreveu: “Provavelmente vai levar alguns dias para saber quem serão os novos ministros e como podemos abordar a nova liderança para garantir não só estabilidade nos programas, mas a habilidade para caminhar adiante”. Mas, ressaltou, a mudança governamental significava “boas novas” para a USAID: “Franco e a sua equipe conhecem muito bem o programa Umbral porque trabalharam próximos a nós nos últimos anos”. Duas horas depois o diretor da USAID enviou outro email contando que, logo após o discurso de posse, o novo presidente nomeou novos ministros. Mais “boas novas”: “Tanto o ministro do Interior (Carmelo Caballero) quanto o novo Chefe da Polícia (Aldo Pastore) trabalharam conosco no programa Umbral, e são pessoas que chamaríamos de aliados!” Depois, sobre o ministro de Finanças, Manuel Ferreira Brusquetti, e o chefe de Gabinete de Franco, Martín Burt, celebrou: “Conhecem e respeitam a USAID, e trabalharam conosco no passado”.

  • Não era bem isso que dizia a embaixadora Liliana Ayalde nos despachos enviados em 2009 ao Departamento de Estado. Na mesma época em que destinava 2,5 milhões de dólares à Corte no programa Umbral, em um despacho diplomático Ayalde afirmava que a Corte, “ampla e corretamente”, era vista como corrupta, mais focada “em interesses políticos e pessoais do que em questões legais”. E escreveu: “A interferência política é a norma; a administração da Justiça se tornou tão distorcida, que os cidadãos perderam a confiança na instituição”.

  • “O controle político da Suprema Corte é crucial para garantir impunidade dos crimes cometidos por políticos hábeis. Ter amigos na Suprema Corte é ouro puro”, escreveu no despacho, em 25 de agosto de 2009.  “A presidência e vice-presidência da Corte são fundamentais para garantir o controle político, e os Colorados (oposição a Lugo) controlam esses cargos desde 2004. Nos últimos cinco anos, também passaram a controlar a Câmara Constitucional da Corte”.

  • Presente há cinquenta anos no Paraguai, a USAID sempre foi um forte braço da política norte-americana para o país. Um estudo detalhado sobre a sua atuação feito pelo Instituto Base Investigações Sociales (Base-IS), revela que a presença da USAID cresceu progressivamente no país a partir de 2008, quando Lugo foi eleito. “Em termos de fundos, houve um aumento importante na assistência norte-americana para o Paraguai: de US$ 17,25 milhões em 2007 para US$ 36,2 milhões em 2010”, diz o estudo. Porém, os fundos de assistência distribuídos a uma infinidade de ONGs e órgãos governamentais são difíceis de monitorar, como descobriram os pesquisadores do Base-IS. “É complicado conseguir fechar os números reais, porque os fundos provêm de diferentes fontes, inclusive dentro das USAID, a atores diversos, alguns deles diretamente ao governo ou canalizados por ONGs internacionais”, explica Marielle Palau, que coordenou o estudo. O quadro se complica com a tendência à privatização da assistência internacional. Desde o ano de 2000, os recursos da USAID repassados diretamente para empresas privadas americanas a título de consultoria vêm crescendo, e são elas que, na prática, comandam a distribuição do dinheiro em cada país. Somente no ano de 2010, 40 empresas faturaram mais de US$ 6,7 bilhões em contratos com a USAID – uma enorme fatia dos recursos da agência para aquele ano.

Raramente os Estados Unidos tiveram no Brasil um representante tão discreto como a embaixadora Liliana Ayalde, que fala fluentemente o português. E a USAID, tão serelepe nos anos 60 e 70, quase nunca aparece na imprensa brasileira. Gostam de trabalhar em silêncio, nos bastidores. Sem deixar pegadas.

Não precisam aparecer, pois têm quem o faça, com grande acesso à mídia – quando não a própria mídia e alguns programas, como o Millenium da Globo News. Entre os porta-vozes informais dos Estados Unidos, ousaria citar Fernando Henrique Cardoso e, por que não, Ives Gandra da Silva Martins – mas a lista é imensa. Após afirmar isso, recorro ao artigo de Kotscho, citado no início:

“O primeiro a responder prontamente ao chamado foi o sempre solícito advogado Ives Gandra Martins, 79 anos, que já na terça-feira apresentou a receita do golpe no artigo “A hipótese de culpa para o impeachment”, publicado pela Folha, em que o parecerista aponta os capítulos, parágrafos, artigos e incisos para tirar Dilma da presidência da República pelas “vias legais”.

Candidamente, Martins explicou na abertura do seu texto: “Pediu-me o eminente colega José de Oliveira Costa um parecer sobre a possibilidade de abertura de processo de impeachment presidencial por improbidade administrativa, não decorrente de dolo, mas apenas de culpa. Por culpa, em direito, são consideradas as figuras de omissão, imperícia, negligência e imprudência”.

E quem é o amigo José de Oliveira Costa, de quem nunca tinha ouvido falar? Graças ao repórter Mario Cesar Carvalho, da Folha, ficamos sabendo nesta quarta-feira a serviço de quem ele está nesta parceria com o notório Gandra Martins, membro atuante da Opus Dei e um dos expoentes da ala mais reacionária da velha direita paulistana .
“Sou advogado dele”, explicou Costa ao repórter, referindo-se, também candidamente, ao seu cliente Fernando Henrique Cardoso, um detalhe que Martins se esqueceu de apresentar na justificativa do seu parecer a favor do impeachment de Dilma.

Conselheiro do Instituto FHC, o até então desconhecido advogado negou, porém, que a iniciativa da dupla tenha qualquer caráter político. FHC, claro, disse que só ficou sabendo da operação pelo jornal. São todos cândidos, esses pândegos finórios, que estão brincando com fogo, em meio à mais grave crise política e econômica vivida pelo país desde a redemocratização.”

E concluo com uma frase que encerra o artigo de Acílio Lara Resende, meu chefe na sucursal do “Jornal do Brasil” em Minas, nas décadas de 1970 e 80:

“Valha-nos Deus e… São Pedro!”

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FHC, o homem da Avenue Foch

Paisagem na Avenue Foch. Foto: Wikipedia

Paisagem na Avenue Foch. Foto: Wikipedia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Alguém lembra, num site muito lido na Internet, o artigo escrito por Janio de Freitas e publicado pela “Folha de S.Paulo”, no dia 12 de janeiro de 2003, sob o título “O endereço”.

Transcrevo aquilo que continua interessando, 12 anos depois, “em tempo de murici”. Aquele tempo bicudo no qual, conforme o coronel Pedro Tamarindo, em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, “cada um cuida de si” – do que parece não ter-se dado conta (e nem eu) o ex-presidente da República que tanto tem escrito sobre corrupção no governo atual. Escreveu Janio de Freitas:

“Data imprecisada, ou imprecisável, e não recente. Fernando Henrique Cardoso, no uso de toda a simpatia possível, discorre para os comensais suas apreciações sobre fatos diversos e pessoas várias. De repente, intervém a mulher de um brasileiro renomado, há muito tempo é figura internacional de justo prestígio, ministro mais de uma vez, com importantes livros e ensaios. Moradores íntimos de Paris por longos períodos, mas não só por vontade própria, consta que nela nada restringe a franqueza. Se alguém na conversa desconhecia a peculiaridade, ali testemunhou um motivo para não esquecê-la:

— Pois é, mas nós sabemos do apartamento que Sérgio Motta e você compraram na Avenue Foch.

Congelamento total dos convivas. Fernando Henrique é quem o quebra, afinal. Apenas para se levantar e afastar-se. Cara fechada, lívido, nenhuma resposta verbal.

A bela Avenue Foch, seus imensos apartamentos entre os preços mais altos do mundo, luxo predileto dos embaixadores de países subdesenvolvidos, refúgio certo dos Idi Amim Dada, dos Bokassa, dos Farouk e, ainda, de velhos aristocratas europeus.

Avenue Foch, onde a família Fernando Henrique Cardoso está instalada. No apartamento emprestado, é a informação posta no noticiário, pelo amigo que passou a figurar na sociedade da fazenda também comprada por Sérgio Motta e Fernando Henrique Cardoso, em Buritis.

Avenue Foch, é ela que traz de volta comentários sobre a historieta, indagações de sua autenticidade ou não, curiosidade em torno do que digam outros possíveis comensais.”

Já que estamos em fase de recordações, vale lembrar, para os ingênuos que acham que a corrupção na ditadura militar era menor que a atual (e não era; apenas menos divulgada pela imprensa, por razões diversas). O fato é que a imprensa brasileira preferia não falar sobre corrupção no governo, sobretudo porque ela envolvia, desde sempre, grandes empresas públicas e privadas.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com o terceiro livro do jornalista mineiro José Carlos de Assis, que conheci na década de 1970, no Copy do Jornal do Brasil, no Rio. Depois de a editora Paz e Terra ter lançado com sucesso dois de seus livros – “A Chave do Tesouro” e “Os Mandarins da República” –, o editor Fernando Gasparian se animou a publicar no ano seguinte (em 1984, quando a ditadura já agonizava), “A Dupla Face da Corrupção”. Saiu com uma tiragem ambiciosa, para os padrões brasileiros da época. Mas os 45 mil exemplares ficaram em grande parte encalhados no depósito da editora, pois não receberam a divulgação esperada. O livro pode ser encontrado para compra na internet. Por exemplo, AQUI. Certamente, em tempo de murici, é um livro bem atual.

Mais que os recentes artigos de Fernando Henrique Cardoso, o homem do apartamento da Avenue Foch, um dos endereços mais caros do mundo.

Ah, e quem acha que o Brasil é um dos países mais corruptos do mundo, convém se informar melhor. Por exemplo, AQUI.

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