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Sem uma rua das ilusões perdidas

Nota da Cris: já fazia quase 2 meses que meu pai não enviava seus excelentes artigos para o blog! Ontem consegui finalmente convencê-lo a escrever uma crônica sobre a vizinha que foi expulsa de sua rua. Mesmo sabendo que meu pai é um dos melhores escritores do mundo, eu não imaginava que o texto viria tão lindo e emocionante assim. Que essa pandemia passe logo para que ele – e tantos de nós – nos sintamos menos solitários! Boa leitura a seguir.

 

Vista da janela foi mudando ao longo de quase 30 anos… Foto: Adrien Olichon / Unsplash / Divulgação (Imagem ilustrativa)

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Moro há quase 30 anos em um bairro tradicional de Belo Horizonte. Quando para aqui mudei, vindo do pujante Bairro Sion, me sentia na fazenda de minha infância, tanto pelas dezenas de galos que cantavam à noite nos quintais das casas vizinhas, como pela algazarra dos pássaros ao nascer do dia. Estes viviam nas árvores e arbustos que ocupavam o grande terreno ao lado do prédio em que eu morava com minha mulher e os quatro filhos. Esse terreno começava em uma pracinha e, subindo o morro, chegava a uma tranquila rua sem saída.

Das janelas, no quinto andar, eu podia ver o Conjunto JK, a Catedral de Lourdes e a sede do Banco do Desenvolvimento de Minas Gerais. Um horizonte que foi desaparecendo com o passar dos anos, estreitado pelos espigões erguidos no meio do caminho.

O que me fez mais falta foi o desaparecimento das casas ao meu redor, dos galos nos quintais, e da grande área verde e seus pássaros, substituídos por amplo edifício que vi nascer desde a terraplanagem, as fundações, e a escada de 104 degraus que vai da praça (que mudou para um nome burocrático) à rua. Oh, tempos!

Hoje, no apartamento de quatro quartos, moram dois velhos – minha mulher e eu – mais solitários do que nunca, por causa do casamento dos filhos e, principalmente, da pandemia do Covid-19, que afastou filhos, netos e amigos.

Moradora de rua morava nesta tenda, junto com 4 cachorros. Foto: Cristina Moreno de Castro, julho de 2020

Nesta última semana, minha noite se tornou mais vazia. Não escuto mais o latido insistente dos quatro cachorros que moravam, com a dona, amarrados a um poste dentro e fora do barraco de plástico erguido num pequeno espaço cimentado ao lado da escada naquela rua sem saída.

Por que será que os cachorros latiam tanto, de dia e de noite? Um vizinho neurótico, que gritava da janela de um prédio ao lado, dizia à dona para dar comida aos cães, pois latiam por causa da fome – e não o deixavam dormir. Ele xingava aos berros a pobre mulher, que mal podia alimentar a si mesma e criava quatro cães, e que respondia ainda mais alto, com palavrões ainda mais pesados. Toda a gritaria deixava os cães mais excitados e barulhentos. Um espetáculo que se repetia noite após noite e, às vezes, também durante o dia.

Um dos melhores livros que já li na vida! Foto: Reprodução

Foram meses e meses escutando esse drama, colocando-me no lugar de um ou outro personagem, enquanto os vizinhos dormiam ou fingiam dormir. Às vezes, eu acendia a luz e ia ler um livro até que as coisas se acalmassem. Li e reli muitos livros. Um deles, “A Rua das Ilusões Perdidas“, de John Steinbeck, escrito em 1945, retrata, com saudosismo do autor que já havia morado nessa rua – a Cannery Row, em Monterey – o tempo da Grande Depressão.

Sim, bons tempos aquele. Havia depressão econômica e grande pobreza nos Estados Unidos e no resto do mundo, mas em meio a tudo o autor não perdia o bom humor, nem a esperança. Engraçado que sei o nome daqueles moradores da Cannery Row e até de seus cães, mas não sei o da pobre moradora de rua e de seus cachorros que viviam aqui ao lado. Nem sei para aonde foram morar, expulsos daqui por não sei quem.

No lugar em que eles moravam, estão sendo plantadas mudas de mangueira e outras árvores, para que não haja espaço ali para mais nenhum morador de rua e sua barraca de lona.

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Nesta semana, passei por lá. Subi a escadaria de 104 degraus que leva da minha rua à rua sem saída. Não tive saudades daqueles vizinhos barulhentos, mas voltei a sentir falta das crianças de até 6 anos de idade que alegravam a rua onde fica uma Escola Municipal de Educação Infantil. Nessa EMEI estudavam, até a chegada da pandemia, minha neta Rafaela e os netos Felipe e Luiz. Este, já bem conhecido dos leitores deste blog. Até completar 6 anos, estudara nessa EMEI também a neta Bruna. Rafaela não deve voltar mais, independentemente do retorno às aulas. Ficou velha.

No lugar dos lotes vagos de que falei no começo, não há mais passarinhos. Mas da janela de meu apartamento, posso assistir todas as manhãs e tardes de sol muitas crianças, filhas dos moradores do grande edifício vizinho, gritando na espaçosa área de lazer enquanto brincam.

Quando me vejo pensando que o mundo de antes era muito melhor, tenho que reconhecer que não é ele que ficou pior. Sou eu, que fiquei mais velho. Para essas crianças, não há nenhuma rua das ilusões perdidas. Que assim seja!

Para as crianças, vista de hoje ainda vai ser muito melhor que a de daqui a 30 anos… será? Foto: Jeff Hendricks / Unsplash / Divulgação (Imagem ilustrativa)

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

6 comentários em “Sem uma rua das ilusões perdidas Deixe um comentário

  1. Adorei a crônica! Eu também fico olhando pela janela a lembrar dos lugares e das pessoas da vizinhança. Quanta saudade da linda casuarina que tínhamos plantado em nosso quintal e que foi maldosamente cortada pelos novos moradores logo depois que vendemos a casa… Continuamos no mesmo bairro Caiçara, agora totalmente diferente, mas nosso, desde que construímos em área antiga pertencente a nossos avós. Fiquei curiosa para saber de qual bairro o autor está falando, será Barro Preto ou São Bento, ou Serra?…
    Essa pandemia traz também tanta saudade… Obrigada ao sr. José e a você Kika, por compartilharem essas lembranças. Abraços.

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    • Obrigada pelo lindo comentário, Simone! Esta pandemia é pura saudade e reflexão, né? Meu pai tinha até colocado o bairro na crônica, mas achei melhor tirar porque sou muito preocupada com deixar informação demais sobre as nossas vidas dando sopa na internet, né? Doidos não faltam por aí hehe! Volte sempre 🙂

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