O humor na tragédia, o belo no feio

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Li este livro pela primeira vez quando eu tinha 15 anos. Ele foi escolhido a dedo, junto a vários outros livros, de estantes abarrotadas de volumes, que minha tia Maria Afonsa me ofereceu. “Vai lá embaixo e pegue quantos quiser”, ela me disse. Fui lá com meu pai e saímos colhendo todos aqueles tesouros. Foi um dos dias mais divertidos da minha vida.

Esta edição, da Record, já está com as páginas amareladas pelo tempo. Não diz a data em que foi impressa no Brasil, mas deve ser de muitos anos atrás. Mesmo assim, não dá alergia. Deve ser de tão bom que o livro é!

Passados 15 anos, resolvi relê-lo. E lá estão Mack e os rapazes, Doc e seus discos de música clássica, Lee Chong e seu mercado que tudo vende e Dora, a cafetina de coração grande. Além desses personagens principais, há também diversos adjacentes, todos moradores da Cannery Row, uma rua da cidade de Monterey, na California. Pobre, em plena depressão dos anos 30, com andarilhos, meninos de rua, trabalhadores, pescadores, marinheiros, prostitutas, malucos e outra porção de seres humanos interessantíssimos.

John Steinbeck (um dos meus ídolos) é mestre em descrever esses tipos humanos e dar vida e carisma às figuras mais incríveis. Ele nos transporta para esse mundo de “madeiras lascadas, calçadas rachadas, terrenos baldios cobertos de mato e pilhas de lixo, tabernas imundas” e, mesmo em meio a toda essa miséria, com tanta tragédia humana — suicídios, brigas e desastres de toda sorte –, ele consegue nos fazer rir. Sim, porque o grande mérito de Steinbeck é colocar uma lupa nesse universo de uma rua e encontrar humor até nos lugares e situações mais improváveis.

Reli com gosto e, talvez, com um sabor diferente, agora aos 30 anos de idade. E farei questão de reler de novo aos 45, aos 60 anos, e até quando minhas vistas permitirem. Porque este é um clássico que nunca se perde no tempo.

Só hoje descobri que Steinbeck retomou alguns dos personagens de Cannery Row em um livro escrito nove anos depois, “Doce Quinta-feira”, de 1954. E já tratei de encomendar um exemplar para mim, por meio de um sebo virtual lá de Porto Alegre (viva a internet!), a meros R$ 7,90. Provavelmente chegará com as páginas amareladas, mas não vai dar alergia.

A Rua das Ilusões Perdidas (Original: Cannery Row, de 1945)
John Steinbeck
Ed. Record
207 páginas
De R$ 15,20 a R$ 20

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10 comentários sobre “O humor na tragédia, o belo no feio

  1. “Doce Quinta-Feira” não é tão bom, mas é imperdível. Não é tão bom, porque o leitor não consegue se livrar de um certo travo amargo, ao longo da leitura, apesar dos doces temperos de humor e ironia steinbeckianos ressaltados em “Vinhas da Ira”. Acho que o li durante o curso de jornalismo, na excelente biblioteca da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), na rua Carangola. Até 1972, pelo menos, a biblioteca havia escapado milagrosamente dos expurgos feitos pelos censores oficiais pós-64 e tinha as obras de Steinbeck e muitos outros que, na época, eram tidos como comunistas leprosos a serem mantidos à distância das mentes jovens. Espero que a biblioteca ainda exista com seus livros amarelados mas não corroídos pelo tempo.

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  2. Comprei este livro em meu aniversário – quando eu vou à livraria e “me presenteio” – no formato “bolso”, da Best Bolso (que é da Editora Record, no final das contas). Ele está aguardando aqui na fila, mas a sua resenha me deixou com mais vontade ainda para a leitura. 🙂

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      • Cris, voltei para dizer que este livro é sensacional! As personagens são cativantes e eu não conseguia conter a minha curiosidade se Mack e os rapazes conseguiriam realizar a surpresa ao Doc – e conseguiram, mas que surpresa! hehehe Não tive nenhuma vontade em experimentar milk shake de cerveja ( eca!), mas de vez em quando não dá aquele desejo de cometer uma pequena insensatez e confrontar certos padrões? rs (nada tão radical: uma comida diferente, uma visita a uma parte da cidade onde nunca passamos, a leitura de um gênero literário, essas pequenas coisas)

        Um ótimo livro, sem dúvida! 🙂

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      • Ah, sabia que você ia gostar!!!! Que alegria! Ele é demais mesmo! Agora estou finalmente lendo o clássico “Vinhas da Ira”, que estava devendo. E o próximo talvez já seja aquele “Doce Quinta-Feira”, com os mesmos personagens impagáveis da Rua das Ilusões Perdidas 😀

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  3. O único livro de Steinbeck que li foi “a pérola”, há muitos e muitos e muitos anos atrás – estava no colégio, tinha uns 14, 15 anos, por aí.
    Achei tão boboca que nunca li mais nada do autor, mesmo sempre tendo ouvido falar da qualidade de sua produção. Sabe a força da primeira impressão, né?
    Mas depois desse seu post fiquei com muita vontade de ler “Doce quinta-feira”. Já encomendei na Amazon. Espero que mude minha opinião sobre o autor…
    Abraços!

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    • Ele é um dos meus autores favoritos! Mas ainda não li este “A Pérola” (e agora nem vou ler mais hehehe)
      Às vezes temos o contato com algum bom autor muito cedo, quando não temos a sensibilidade ideal para entender o que ele escreve, né? Lendo mais tarde, podemos gostar muito mais. abração!

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