Copa começa com revolta e festa

Foto: leo Fontes / O Tempo - 2.6.2010 (antes de os barraqueiros deixarem o Mineirão)

Foto: leo Fontes / O Tempo – 2.6.2010 (antes de os barraqueiros deixarem o Mineirão)

A avenida Amazonas é um dos principais corredores da cidade. Em cada semáforo dela (e são muitos os semáforos!), sempre vejo um vendedor ambulante, geralmente oferecendo água e pipoca doce. Já escrevi sobre eles, pois já fui salva por alguns, nos dias de mais calor.

Pois ontem, quando eu passava por ali, vi um verdadeiro aparato em volta de dois desses ambulantes: policiais militares, guardas municipais e funcionária da prefeitura, de pranchetinha em punho.

“É por isso que as pessoas se revoltam! Eles precisam trabalhar! Por que não deixam eles terem o ganha-pão deles? Não estão roubando!”, ouvi de minha carona, moradora de Ibirité, furiosa, enquanto observava um dos ambulantes ser levado pelo guarda municipal, carregando dois sacões quase do tamanho dele, cheios de pipoca.

Pode-se argumentar que eles não recolhem imposto, e que o trabalho informal não é o ideal nem para os próprios trabalhadores. Mas não se discute que é o ganha-pão deles — e sou mil vezes mais favorável ao vendedor de água no dia de sol quente (um trabalho no mínimo lógico) do que ao flanelinha, que já ganhou até uniforme da prefeitura para “tomar conta” dos carros estacionados.

Independente dessa discussão, uma coisa é certa: eles nunca foram incomodados antes, e agora a ânsia para tirá-los das ruas, com a chegada da Copa do Mundo, é visível.

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Ontem mesmo vi com preocupação outra notícia, de mesmo caráter higienista: moradores de rua foram abordados por policiais e funcionários da prefeitura pela manhã e — mais grave — tiveram seus bens recolhidos, segundo relataram. Não custa lembrar que abordar uma pessoa que mora na rua, para oferecer que ela vá ao abrigo, é uma medida correta e corriqueira, mas é ilegal forçar a retirada, coagir com o uso policial e, principalmente, recolher bens pessoais dessa pessoa.

E fica aquela pulga atrás da orelha: fizeram isso respaldados por um decreto de dezembro do ano passado, às vésperas da Copa, na Savassi, região turística e “nobre” da cidade… Sei.

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Não bastasse a coincidência, foi também ontem que uma rádio da cidade noticiou que pipoqueiros estão sendo retirados das calçadas. Calma lá, não mexam com os pipoqueiros! Nesse caso, o respaldo é de uma lei de 2010, promulgada pelo já prefeito Marcio Lacerda (PSB), que proíbe trabalhador com veículo de tração humana se estiver em calçada. É claro que a lei não pegou, os pipoqueiros, organizados em sindicato desde 1956, resistiram, mas agora estão sendo removidos de novo, às vésperas da Copa.

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Vale lembrar que esse problema com os ambulantes não é de hoje. Os primeiros afetados foram os barraqueiros do entorno do Mineirão, que foram removidos de lá em 2010, quando começou a reforma no estádio, para a Copa. Só que o Mineirão foi inaugurado em dezembro de 2012, teve seu primeiro jogo em fevereiro do ano passado — e nada de os barraqueiros voltarem.

Nem precisa dizer que o público lamentou a perda dos tradicionais tropeirões e pães com pernil, vendidos ali. E a prefeitura não buscou uma solução clássica, como a demarcação do lugar das barracas, distribuição de uniforme (como fez com os flanelinhas) e recolhimento de imposto. Tivesse buscado, todos ficariam felizes.

Os cerca de 150 homens e mulheres simplesmente seguiram fora do lugar onde costumavam trabalhar havia mais de 50 anos.

A solução apresentada — também nesta semana, veja só outra coincidência! — foi que retomassem seu posto na área externa do Mineirão — mas só depois da Copa. Quer faturar com comida típica mineira no evento da Fifa, onde milhares de pessoas vão circular? Não pode! Depois da Copa, bem, a gente conversa.

E assim começamos a Copa nesta quinta-feira: com parte do povão varrida pra debaixo do tapete, pra inglês não ver. “Por isso o povo protesta!”, ouço a voz daquela minha carona. Por falar nisso, nada menos que 7.200 pessoas (enquanto escrevo) confirmaram presença no protesto de Beagá, ao meio-dia de hoje. Bom, não exatamente um protesto, mas uma festa, com direito a quadrilha junina e pelada.

No fim das contas, tenho pra mim que tudo será mesmo uma festa, e haverá mais festa do que revolta. E acho que talvez assim seja melhor. Afinal, depois de tanto ralar, o brasileiro merece se divertir. Seja ele o que vai jogar uma pelada no “protesto” da Praça Sete, o que vai dar um jeito de vender água em outros semáforos calorentos e faturar com a cidade cheia, ou o que, ainda em luta para voltar a trabalhar onde sempre trabalhou, e prejudicado pela Copa, vai espairecer se reunindo com os amigos para torcer pela Seleção.

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P.S. Chegaram a fazer um abaixo-assinado para que os barraqueiros do Mineirão voltem ao lugar a tempo da Copa. Mas esse abaixo-assinado foi muito tardio e dificilmente vai atingir o número de assinaturas que pretende, a tempo da estreia do Mineirão no sábado. De qualquer forma, se quiser assinar, pode CLICAR AQUI.

P.S.S. Enquanto escrevo este post, escuto fogos de artifício estourando na minha janela há vários minutos. E não me canso de pensar: vai Victor!, vai Jô!, vai Bernard! 😀

Adendo às 12h: O post acima foi escrito pensando em Beagá. Em São Paulo, como sempre, a confusão está sendo muito maior. Vejo a transmissão ao vivo na TV e o que vejo é uma guerra, em pelo menos três pontos diferentes de São Paulo. PM usando bombas de gás, black blocs arrancando placas de sinalização e ao menos 5 feridos (enquanto escrevo), sendo 3 jornalistas.

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2 comentários sobre “Copa começa com revolta e festa

  1. Vai Brasil!!! Parabéns Cris pela cobertura da Copa, a festa e a revolta, tudo acontecendo neste paisão nosso!! Beijos e bom trabalho!

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