#PérolasDoLuiz – Melhor que muito médico de verdade

Acordei no último sábado passando mal, depois de vômitos e diarreia madrugada adentro – provavelmente alguma coisa estragada que comi. Luiz, que adora brincar de “dotô”, ficou sabendo que “mamãe estava dodói”, me deitou na cama e começou a me examinar.

Pegou uma seringa e me tascou uma injeção na barriga. Depois, com a lanterninha, examinou meus ouvidos, olhos, garganta – exatamente como a dra. Rita faz nos exames de rotina dele. Cenho franzido, rosto sério, disse: “Vou escrever os ‘memédios’ que mamãe precisa tomar”.

Pegou um papel, a caneta, e começou a rabiscar, enquanto ia enumerando:

Receituário do Luiz

  • “Kaloba [o único nome de remédio que ele conhece],
  • ÁGUA, muita água,
  • limonada também,
  • limão azedo com mel,
  • o memédio de bolinha da mamãe,
  • sorinho no nariz,
  • ver Masha e o Urso na tevê,
  • massagem.”

 

Depois, foi até o armário, pegou o massageador de pescoço que eu tenho, voltou pra cama e começou a fazer massagem nas minhas costas.

Depois disso, sarei rapidim 😉

 

Não pude deixar de pensar: Luiz já é melhor do que 90% dos médicos que consultei na vida!

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A fábula do menino de 2 anos que aprendeu a valorizar o que tem

Luiz se divertindo com baldinhos cheios de terra e água | Foto: arquivo pessoal

– OLHA O QUE EU GANHEI, PAPAI!

Foi assim que o Luiz chegou em casa, no último sábado. Todo alegre, ele mostrava ao pai o que tinha acabado de ganhar no passeio que fez comigo, na livraria infantil do bairro.

Era um pedacinho de papel rosa, com um número “3” escrito a caneta no meio.

O pai ficou meio sem entender. Expliquei:

– A livraria sorteou três livros, depois que a contação de histórias terminou. Não ganhamos nenhum livro, mas o Luiz adorou o papelzinho rosa com seu número no sorteio.

Claro que desandei a pensar num monte de coisas por causa desse singelo episódio.

Em como as crianças ficam maravilhadas com pequenas coisas, com pequenos gestos, surpresas, presentes-sucata de papel, caixinhas, embrulhos, tão ou mais valiosos que seus conteúdos.

Em como, para o Luiz, o simples fato de ter participado de um sorteio, com a aventura de poder ganhar um presente a partir da sorte, do aleatório, já foi emocionante.

Em como perder, no fim das contas, não desmerece o percurso da expectativa de ganhar.

Em como seríamos todos mais felizes, os adultos, se soubéssemos valorizar e agradecer por essas pequenas trivialidades que compõem a vida, em vez de estarmos sempre esperando pelas conquistas grandiosas, as mais difíceis, que só acontecem de vez em quando.

Em como sou sortuda, pra começo de conversa, por ser mãe desse baixinho sorridente, que sente felicidade em empunhar um papelzinho rosado, e que me faz pensar em todas essas coisas.

É muita fortuna junta!

 

E aí na sua casa? Quantos papeizinhos rosas te deixaram contentes nos últimos dias? E quantos vocês simplesmente jogaram fora sem nem reparar?

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O poder de um ‘bom dia’

Foto: Aziz Acharki

 

Eu andando toda cabisbaixa e um “psiu” interrompe meus pensamentos:

— Alguém já te deu bom dia hoje? — pergunta um senhor jovial, apesar de aparentar ter uns 100 anos.

Respondo no automático um “não”, surpresa com a pergunta.

— E num dia lindo desses! — continua o velhinho sorridente — Tenha um BOM DIA!

Ele diz a expressão em maiúsculas assim mesmo, frisando pela entonação alegre da voz. Devolvo o bom dia e penso em como ainda existem pessoas bacanas no mundo.

E sigo meu rumo bem menos cabisbaixa agora, desejosa de distribuir cumprimentos a desconhecidos que cruzem meu caminho.

 

 


P.S. Adoro ouvir bom dia e adoro responder ao cumprimento! Costumo dizer que se uma porta criar vida e me desejar bom dia, responderei com alegria. Não entendo pessoas amargas que ouvem um bom dia ou boa tarde e passam reto, ignoram. Já trabalhei com várias assim. Que pena que existam.

Toda criança tem algum objeto de devoção: a fase do boi

Boi da cara preta 🙂

O pai do Luiz foi com ele a uma livraria pequenininha que existe aqui no bairro, por onde eles passam quase todos os dias. Desta vez, entraram, e o Luiz pôde escolher o livro que quisesse de presente. Ele viu um livro com um boi imenso na capa e imediatamente escolheu aquele.

O pai comentou com a dona da lojinha:

— Luiz é doido com boi! (Já foi doido com passarinho, depois com urso — por causa de Masha e o Urso –, mas agora ele só fala em boi, pede para ouvir a música do boi da cara preta, pede para ver ilustrações de bois nos livros, pede para achar bois no YouTube etc.)

Ao que ela respondeu:

— Engraçado, cada criança que vem aqui tem alguma fixação diferente. Tem menino que é louco por carros, outros são doidos com aviões, outros preferem dinossauros. Mas toda criança é doida por alguma coisa!

Em casa, quando ouvi essa história, concluí que a fixação do Luiz é com animais. Todos os dias, antes de dormir, ele pede para ver um livro de contos favorito. Fica irritado quando tento ler um conto: o que ele quer mesmo é sair ditando os animais, um a um, enquanto corro para encontrar suas ilustrações pelas páginas. Começa sempre pelo boi. Depois é o peixe, o urso, o fapo (sapo), o au-au, a popó, o gol (Galo), a anhanha (aranha), o côrco (porco), e assim por diante. É emocionante ver a empolgação com que ele narra essas palavrinhas lindas, nomes de animais, que estão entre as primeiras de seu já extenso vocabulário, e vai brilhando os olhos à medida que reconhece os desenhos correspondentes a cada nome.

Depois, ele se despede do livro e me pede de novo: “Boi! Boi”. Desta vez, sei que ele quer é ouvir minha versão adaptada para a música do boi da cara preta, que hoje é sua favorita para a hora de dormir:

Como eu disse mais acima, o boi não foi sempre o rei das preferências do Luiz. Já foi precedido pelo urso e pelo passarinho. E suspeito que logo dará lugar a outro herói mais fácil de se encontrar nos desenhos animados e produtos licenciados. Até que talvez chegue o dia em que ele não tenha mais nenhuma fixação, em que nada faça seus olhinhos brilharem com a mesma alegria devota de hoje. Ele terá, então, deixado de ser criança.

***

Conte para mim: seu filhote é doido com quê? Qual é a fixação dele/a?

O engenheiro Geraldo e a navalha de Maugham

Texto escrito por José de Souza Castro:

W. Somerset Maugham, romancista e dramaturgo nascido em Paris em janeiro de 1874, já havia publicado 39 livros ao lançar, em 1946, “The Razor’s Edge” (“O Fio da Navalha”). Eu estava na faculdade quando li esse livro pela primeira vez. Na época, com menos de 30 anos de idade, não me chamou a atenção um parágrafo sobre a velhice, ao contrário de agora, quando o estou relendo.

“Pela primeira vez em quarenta anos Elliott não passava a primavera em Paris. Embora não aparentasse essa idade, estava agora com setenta anos e, como acontece comumente com homens tão idosos, havia dias em que se sentia cansado e doente. Ia aos poucos abandonando os exercícios e agora quase que só se limitava aos passeios a pé. Preocupava-se muito com a saúde e seu médico vinha vê-lo duas vezes por semana, para espetar alternadamente numa das nádegas uma agulha com a injeção da moda. Em todas as refeições, tanto em casa como fora, Elliott tirava do bolso um estojinho de ouro e dele extraía um comprimido, engolindo-o com o ar compenetrado de quem está cumprindo um rito sagrado.”

Quando se é jovem, um homem de 49 anos parece velho. Foi nessa idade que Plínio Carneiro, meu professor de Relações Públicas no curso de Jornalismo da UFMG, morreu em consequência de um aneurisma cerebral, deixando viúva e duas filhas adolescentes. Eu gostava muito dele e me consolei pensando que Plínio já havia vivido muito – e bem.

Mas Maugham, ao escrever aquilo, estava com 70 anos. Teve tempo e disposição para escrever depois mais 15 livros, incluindo “A Servidão Humana”. Foi um escritor incansável. Aos 13 anos, teve publicado seu livro de estreia, “O Pecado de Liza”, e aos 87, “Purely for My Pleasure”, o último de seus 55 romances, livros de viagem e crítica, aos quais se somam mais 24 peças teatrais. Só morreu em dezembro de 1965, faltando um mês para completar 90 anos.

Eu pensava nisso, sem tantos detalhes, quando encontrei no clube em que caminho diariamente por uma hora e faço mais meia hora de ginástica, um velho desconhecido que estava tentando ver seu peso numa balança, com dificuldade para enxergar, perto dos pés, os números. Continuar lendo