Contribuição de leitor: ‘A Morte do Escritor’

O conto a seguir foi enviado pelo escritor Junior Salvador, que acaba de lançar o livro Vidas Breves. Se você curtir o texto abaixo, que está presente no livro, pode ler mais do mesmo autor, clicando AQUI. Você também escreve contos, crônicas, poemas, resenhas, análises…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

 

“Nesta madrugada fui acometido do pior dos males: solidão. No quarto escuro, sentado diante de meu laptop, ouvia apenas o soprar do vento, lentamente chocando-se contra as paredes frias. Na tela resplandecia a ausência completa de tudo, estava vazia como os cômodos da casa. O ar gélido que entrava por debaixo da porta fazia com que meus pés congelassem. Sentei-me para escrever por volta das vinte e três horas. A tela continuava em branco às cinco e meia. Após iniciar, apagar e reescrever várias histórias, saí do meu estado de transe quando o sol da manhã apontou no horizonte e sua luz bateu contra a janela entreaberta, refletindo nas arestas da persiana.

A luz teimava em entrar pelas frestas e pequenos feixes cortavam a escuridão da madrugada solitária que se esvaía. Era possível ver a poeira dispersa no ar. Quando respirava, acontecia uma revolução no espaço. As partículas moviam-se desvairadas, uma ao encontro das outras, depois tudo se acalmava. Passei algum tempo brincando com a poeira, passando meus dedos pelo feixe de luz, apenas para ver como os grãos reagiriam ao movimento do ar. Na minha cabeça, a lembrança dela começava a ficar ainda mais forte. Continuar lendo

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A Revolução da Rapadura

Foto: Moacir Ximenes / Wikimedia

Texto escrito por Beto Trajano:

A rapadura é um doce simples, produzida em alguns pontos do interior de Minas, que remete a tradições de séculos atrás, da época da colonização do país. É feita da cana, matéria-prima da tradicional cachaça mineira. Às vezes passa despercebida em lojas, mercados, bares e restaurantes.

Porém, é muito apreciada até hoje, a ponto de ter provocado uma verdadeira revolução. Sim, é isso mesmo o que está acontecendo no mais frequentado self-service na região onde moro: a Revolução da Rapadura.

Até pouco tempo, o restaurante oferecia de cortesia, após o almoço, chá, café e uma deliciosa rapadura. Ficava perto do caixa, bem abaixo de um quadro de sugestões. Todos os clientes, de forma quase que espontânea, antes ou depois de pagar a conta, aproveitavam a iguaria. E o café com rapadura virou tradição, sem que os donos percebessem.

Mas, com o tempo, não só os humanos, mas também outros visitantes indesejados descobriram a vasilha de doces: Continuar lendo

Contribuição de leitor: ‘Eu vi’, por Nuno Kembali

Livro de contos de Nuno Kembali

Nuno Kembali / Reprodução

Fazia tempos que o blog não recebia uma contribuição de leitor, mas, para compensar, esta que chegou está realmente incrível. O conto abaixo foi enviado por Nuno Kembali, 55, escritor brasileiro nascido no Recife. Ele é autor das novelas “O Matagal ou o vão combate é mais embaixo” e “Rota 12: sobre jaguaretês e outros bichos no diadema do tempo”, com playlists disponíveis no Spotify. Quem quiser saber mais sobre o Nuno pode encontrá-lo no Facebook e no Wattpad.

 

Agora vamos ao excelente conto de Nuno Kembali! Boa leitura: Continuar lendo

Vida e morte da borracha

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Foi quando a atendente da livraria pegou uma para retocar a marca de etiqueta removida que eu me dei conta: não uso uma borracha há ANOS!

Nem me lembro da última vez que descartei, com as costas da mão, os farelinhos que persistem na folha de papel. Talvez ainda no colégio. Ou seja, há uns 14 anos. Terei ficado isso tudo sem usar uma borracha?

Me bateu uma agonia, misturada a nostalgia de um tempo que não existe mais. O tempo em que eu enchia cadernos sem fim, com palavras escritas a lápis ou lapiseira, a letra cada dia mais feia (feiúra proporcional à velocidade com que fui aprendendo a fazer anotações), mas de forma organizada, como só fazemos na época escolar.

Como repórter, ainda escrevi, e sigo escrevendo muito, inclusive em bloquinhos de mão, mas quase sempre uso caneta. E, mesmo quando vou de lápis, não dou a mínima para os erros. Eles viram um rabisco e sigo na narrativa taquigráfica dos anotadores compulsivos, sem nenhuma preocupação com organização ou capricho. (A preocupação vem depois, quando tenho que decifrar meus garranchos a duras penas…)

E a verdade é que mais e mais me pego escrevendo no celular, pra não falar do óbvio computador. Foi-se o tempo em que eu precisava escrever a mão porque os versos fluíam mais facilmente. Agora só consigo escrever um texto se estou diante de um teclado. Como se meu cérebro estivesse na ponta dos dedos.

E aí, meu caro, é simples: errou, delete. Continuar lendo

Resposta da mamãe do bebê de 9 meses

luizempeeditadoMeu bebê,

Li sua cartinha e passei a semana inteira pensando em como te responder. Depois de muito matutar, concluí que esta é a mensagem que quero te passar:

Você já aprendeu uma das coisas mais importantes da vida: não podemos mesmo fazer tudo o que queremos. Às vezes é o bom senso que nos impede. Às vezes existem normas ou leis que nos restringem. Às vezes é só uma questão de facilitar a convivência harmoniosa entre várias pessoas, quando não de garantir nossa saúde ou sobrevivência.

Quando estiver maiorzinho, você logo vai aprender que não pode atravessar a rua sem olhar para os dois lados, ou você pode acabar atropelado. Depois vai aprender que não pode furar a fila nem colar na prova. Vai aprender também que não pode roubar beijo nem dirigir depois de beber. Não pode furtar, nem matar.

Os limites não são sempre ruins: eles nos dão uma referência para a vida. É como se tivéssemos sempre 10 caminhos para escolher, mas 8 deles são bloqueados por cercas ou muros. Então só restam dois totalmente desimpedidos, e isso facilita nossa jornada.

Enquanto você é pequenininho, sua mamãe e seu papai vão sempre te ajudar a enxergar esses limites com o nosso “Não pode!”. É com esse grito de guerra que vamos te proteger, seja de acidentes, de riscos ou de frustrações. Você vai chorar se não entender o motivo do limite, mas, à medida que for compreendendo que é para o seu bem, vai procurar enxergar os dois ou três caminhos que ainda restam, cheios de flores e passarinhos.

O importante é você saber que, mesmo que existam tantas coisas que a gente não pode fazer, existem infinitas mais que a gente pode. A gente sempre pode sorrir. Cantar. Dançar. Sentir o vento na cara. Aspirar um perfume. Dar um abraço apertado. Brincar. Correr. Experimentar sabores de tantas comidas. Conversar. Chorar.

São tantas coisas, tantas coisas que a gente pode fazer que mal percebemos como elas são importantes. Até outro dia você não conseguia se mover, hoje já rola para um lado e para o outro, se arrasta pra frente e pra trás, engatinha, gira o corpo 360 graus, fica assentado, muda de sentado para gatinhas e de gatinhas para sentado – e, no fim de semana passado, para nossa alegria, já aprendeu até a ficar de pé! São pequenos movimentos que a gente só dá valor quando descobre que pode fazer. Como um bebê em constante evolução. Ou um adulto observador, ainda capaz de se encantar com tantas pequenas habilidades que possui e que pode, sempre, fazer. Se mexer. Comunicar. Pensar.

Meu pequeno bebê! Mamãe quer que você saiba que não pode. Não pode mesmo, um monte de coisas. Mas que nunca perca de vista que você pode muito mais. Seja feliz, meu amor!

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