Autonomia do Banco Central, lucro dos bancos estrangeiros e a taxa de juros

Texto escrito por José de Souza Castro:

A ideia de dar independência aos Bancos Centrais não é coisa nova. Surgiu da tendência de políticos, quando governantes, de manipularem para baixo as taxas de juros, buscando aumentar sua popularidade. Jair Bolsonaro não entende de economia, embora tenha ficado rico com a política, e se deixou levar, numa boa, para que o BC se torne independente. Legalmente, pois de fato ele é independente desde o governo Fernando Henrique Cardoso.

O tema é complexo e polêmico. Para um político como Ciro Gomes, do PDT, em busca de popularidade depois de mais uma derrota na sua ambição de ser eleito presidente da República, se o projeto de Bolsonaro for aprovado, é caso “de ir para a rua e quebrar tudo.”

Eu não irei e não aconselho ninguém a ir. É ruim entrar em briga de cachorro grande. Mesmo concordando que dar independência legal ao BC é uma forma de torná-lo ainda mais dependente de meia dúzia de bancos que dominam o Brasil.

“Isso é a violenta e definitiva formalização de entrega do destino da nação brasileira a três bancos”, disse Ciro Gomes em entrevista.

A ideia de dar independência aos Bancos Centrais surgiu nos Estados Unidos na década de 1970 e foi acompanhada por países ricos da Europa e até mesmo pobres de outras partes do mundo. Mas faz parte do “alinhamento estúpido do Brasil com interesses estrangeiros”, como bem definiu Ciro Gomes.

Um alinhamento que não vem de agora. Quando ministro do Planejamento no governo do general Castelo Banco, entre 1964 e 1967, Roberto Campos ganhou o merecido apelido de “Bob Fields”, tal o seu alinhamento com Tio Sam.

Ele é avô do presidente do BC, Roberto Campos Neto, economista formado pela Universidade Califórnia, em Los Angeles, onde fez especialização em Finanças. Antes de ser nomeado por Bolsonaro, foi executivo do mercado financeiro, durante 18 anos, no Banco Santander – um banco espanhol que arranca do Brasil a maior parte de seus lucros.

Antes desse mais novo “Bob Fields”, o BC era presidido por Ilan Goldfajn, nascido em Haifa (Israel) em 1966. Ao ser nomeado por Michel Temer, ele era economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco.

O fato é que, na sua gestão no BC, os bancos brasileiros lucraram muito. O último relatório do Banco Central afirma que, no ano passado, apesar do fraco crescimento da economia, as instituições financeiras tiveram os maiores lucros. Foi a melhor rentabilidade registrada em dezembro desde 2011.

O Itaú Unibanco, em 2017, primeiro da gestão de Goldfajn, registrou lucro líquido de R$ 23,965 bilhões, o maior já registrado por um banco com ações no Bovespa. Em 2018, quebrou o próprio recorde, com lucro líquido de R$ 24.977.

Antes de assumir a presidência do BC, Goldfajn anunciou que vendera suas ações do Itaú Unibanco e que se desligara desse banco, o maior do Brasil. Ah, bom…

Concluo dizendo que só não concordo inteiramente com Ciro Gomes porque acho que, se Bolsonaro tivesse o controle do Banco Central, o que era ruim podia piorar ainda mais. Aliás, uma hipótese improvável, pois nunca os donos dos grandes bancos no Brasil que mandam no governo dariam a ele esse poder.

Por fim, tornado legalmente independente, o Banco Central do Brasil se vê inteiramente responsável pelo que disse seu presidente em entrevista em Washington, nos Estados Unidos):

“Existe um prêmio de risco na parte longa da curva de juros, na incerteza da política monetária ter influência do ciclo político e, quando você faz isso [autonomia], desfaz o vínculo do ciclo político com o ciclo de política monetária e isso reduz esse prêmio e permite ter uma taxa de juros estrutural mais baixa que beneficia todo mundo”.

Entendeu? “Bob Fields” Neto prometeu taxas de juros mais baixas no Brasil. O mesmo que Dilma Rousseff, quando ela pensava mandar no BC.

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Ainda mais difícil explicar nossas altíssimas taxas de juros

Charge do Glauco na Folha de S.Paulo, em 2009

Charge do Glauco na Folha de S.Paulo, em 2009

Texto escrito por José de Souza Castro:

A política do Banco Central do Brasil de tentar controlar a inflação com altas taxas de juros fica mais indefensável depois do artigo de André Lara Resende, o principal teórico do Plano Real, publicado no dia 13 deste mês pelo jornal “Valor Econômico”. Segundo ele, “o juro alto não só agrava o desequilíbrio fiscal, como no longo prazo mantém a inflação alta”.

Sem o embasamento teórico desse economista que hoje é “senior research fellow na Columbia University”, critiquei em alguns artigos neste blog, como NESTE, a política equivocada do BC. Antes de tentar interpretar o artigo acadêmico de André Lara Resende, recorro ao experiente Luís Nassif, que faz a seguinte análise:

“Vinte anos de juros elevadíssimos promoveram o mais profundo processo de concentração econômica da história, que praticamente consumiu todos os excedentes orçamentários que poderiam ter sido investidos na infraestrutura, em educação, saúde, na economia real. A diferença entre o Brasil que é e a potência que poderia ter sido está nos trilhões desviados do orçamento para pagamento de juros. Continuar lendo

Os juros altos e a encíclica do papa

Foto: Korean Culture and Information Service

Foto: Korean Culture and Information Service

Texto escrito por José de Souza Castro:

Não posso dizer que entendo de economia, embora tenha sido editor dessa área no jornal “Estado de Minas” e tenha feito muitas reportagens no “Jornal do Brasil” e no “Globo” sobre assuntos econômicos. No curso de jornalismo da UFMG, tive quatro semestres de economia, com ênfase no estudo dos “Fundamentos de Análise Econômica”, de Paul A. Samuelsen, publicado em 1947. Por isso, sempre que escrevo contra os juros altos praticados no Brasil, desde quando Delfim Neto era ministro da Economia, fico com uma pulga atrás da orelha: será que estou errado? E já escrevi muito sobre isso.

Foi com alívio, portanto, que li o artigo de Paulo Kliass, doutor em economia pela Université de Paris 10 (Nanterre/França) e integrante da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal. Ver AQUI. Ele pensa como eu, salvo engano.

“As pressões inflacionárias não serão resolvidas apenas pelo aumento da Selic, cuja alta compromete a própria tentativa de conter gastos públicos. Uma alternativa curiosamente pouco lembrada nos meios do sistema financeiro e na imprensa, mas que poderia ser mais eficaz, é o aumento da alíquota do depósito compulsório”, diz Kliass.

Não vou tentar resumir o artigo, escrito em linguagem clara, entendida por quem não é economista. “Apesar de todas as dificuldades para cumprir com os objetivos de redução de despesas do Orçamento da União, permanece a intenção oficial de atingir os 1,1% do PIB como valores assegurados para o pagamento dos juros da dívida pública”, diz ele.

O raciocínio atrás dessa decisão é retirar recursos do mercado para reequilibrar os preços de uma forma geral e evitar a inflação. Além disso, a elevação dos juros orientaria recursos que não iriam para o consumo, sendo direcionados à poupança, em busca da maior rentabilidade oferecida pelos títulos no mercado financeiro. Mas não é o que acontece no mundo real. E, defende Kliass, alguns aumentos de preços não devem ser combatidos por juros altos.

A alternativa à elevação da taxa de juros para obter o mesmo resultado de redução da pressão da demanda sobre a oferta é o aumento da alíquota do depósito compulsório sobre os depósitos à vista, atualmente de 44%. No primeiro semestre de 2003, primeiro ano do governo Lula, estava em 60%. Em 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso, oscilou entre 65% e 75%. Ninguém no governo ou na imprensa pensa nisso, mas se o governo Dilma Rousseff pretende endurecer a política monetária, ele pode aumentar o compulsório, ao invés de elevar a Selic. O efeito sobre a redução da demanda agregada será no mesmo sentido. O impacto sobre o nível de preços será da mesma magnitude. Quem diz é Kliass.

Resta ao governo explicar por que optou pela elevação das taxas de juros, sendo que os atuais 13,75% comprometem a tentativa de conter gastos públicos, pois cada ponto percentual de aumento da taxa de juros corresponde a uma elevação de despesas com serviços da dívida de R$ 25 bilhões anuais. Ou seja, apenas com os aumentos praticados ao longo de 2015, os gastos federais já teriam subido por volta de R$ 38 bilhões.

Não é pouca coisa. E explica por que os bancos no Brasil que emprestam preferencialmente ao governo lucram tanto.

Pensando bem, explica também por que há tanta desigualdade no mundo, apesar de todas as promessas de governos. Para examinar isso, recorro a Leonardo Boff e à análise dele a encíclica do papa Francisco. É certo, diz Boff – e o papa – que o sistema mundial é insustentável sob vários pontos de vista porque deixamos de pensar os fins do agir humano e nos perdemos na construção de meios destinados à acumulação ilimitada à custa da injustiça ecológica (degração dos ecossistemas) e da injustiça social (empobrecimento das populações). A humanidade simplesmente “defraudou a esperança divina”, conclui.

Não vou me estender, porque li há pouco que Boff é um idiota. E o papa, certamente. Porque só um idiota – e talvez Jesus – poderia ter escrito isso, na tradução portuguesa da encíclica:

“Nalguns lugares, rurais e urbanos, a privatização dos espaços tornou difícil o acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza; noutros, criaram-se áreas residenciais ‘ecológicas’ postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar que outros entrem a perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes encontra-se uma cidade bela e cheia de espaços verdes e bem cuidados nalgumas áreas ‘seguras’, mas não em áreas menos visíveis, onde vivem os descartados da sociedade.”

Ou isso:

“A desigualdade não afecta apenas os indivíduos mas países inteiros, e obriga a pensar numa ética das relações internacionais. Com efeito, há uma verdadeira ‘dívida ecológica’, particularmente entre o Norte e o Sul, ligada a desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso desproporcionado dos recursos naturais efectuado historicamente por alguns países. As exportações de algumas matérias-primas para satisfazer os mercados no Norte industrializado produziram danos locais, como, por exemplo, a contaminação com mercúrio na extracção minerária do ouro ou com o dióxido de enxofre na do cobre. De modo especial é preciso calcular o espaço ambiental de todo o planeta usado para depositar resíduos gasosos que se foram acumulando ao longo de dois séculos e criaram uma situação que agora afecta todos os países do mundo. O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra, especialmente na África, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos no rendimento das cultivações. A isto acrescentam-se os danos causados pela exportação de resíduos sólidos e líquidos tóxicos para os países em vias de desenvolvimento e pela actividade poluente de empresas que fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital: ‘Constatamos frequentemente que as empresas que assim procedem são multinacionais, que fazem aqui o que não lhes é permitido em países desenvolvidos ou do chamado primeiro mundo. Geralmente, quando cessam as suas actividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento dalgumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode sustentar.”

O bom de ler a encíclica, para quem não acha que o papa é um tolo, é que nosso problema com os juros altos se torna quase irrelevante. E podemos assim, tolos que somos e descartado esse problema menor, dormir o sono dos justos.

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Taxa de juros sobe. Qual a novidade?

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Texto escrito por José de Souza Castro*:

A notícia divulgada no dia 29 de abril não chamou muita atenção, pois está se tornando costumeira. É a quinta alta consecutiva da taxa básica de juros (Selic), que chegou agora a 13,25% ao ano, com possibilidade de novo aumento na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em junho.

A escalada dos juros começou há dois anos e só foi interrompida durante o período eleitoral. O que se assiste é a retomada incontestável da política de 1999, do governo Fernando Henrique Cardoso, de usar a Selic como instrumento de política monetária.

Indaga-se: o que não deu certo naquela época, dará agora pelas mãos treinadas na gestão do Bradesco do ministro Joaquim Levy?

Certamente, dará certo para o Bradesco e outros bancos que há muito tempo vivem em clima de festa no Brasil. O balanço trimestral do Bradesco não deixa dúvidas. No mesmo dia em que o Copom decidiu elevar a Selic, o banco revelou que obteve nos primeiros três meses do ano lucro líquido de R$ 4,2 bilhões.

Em comparação com o quarto trimestre do ano passado, quando Levy era ainda diretor-superintendente, desde junho de 2010, do Bradesco Asset Management, o lucro do Bradesco aumentou 6,3%. Em comparação com o primeiro trimestre de 2014, invejáveis 23,3%.
Vejamos o que ocorreu em 1999.

Numa sexta-feira de janeiro, chamada na época de “sexta-feira negra”, o clima no país beirava o pânico, com previsões catastróficas e boatos alarmistas sobre feriado bancário e confisco financeiro. O presidente FHC demitiu o presidente do Banco Central, Francisco Lopes, e desvalorizou o real, abandonando o regime de câmbio fixo. O país passou a operar no regime de câmbio flutuante, até hoje.

Em setembro de 1998, faltando pouco para a sua reeleição, o presidente havia admitido que era grave a crise brasileira. Talvez tivesse sido melhor que Dilma Rousseff, que vem seguindo agora os passos de FHC nos rastros de Levy, tivesse feito o mesmo em setembro passado.

Para contornar a crise, Fernando Henrique tratou também de aumentar impostos, para tentar tapar o buraco do déficit fiscal. Empresários da indústria reagiram. Sabiam que com altas taxas de juros e baixo crescimento econômico, as chances de sobrevivência de muitas indústrias diminuíam a cada dia. Era falir ou vender para alguma multinacional de olho gordo no mercado consumidor brasileiro.

As perspectivas seriam diferentes hoje? O Banco Central parece pouco preocupado com a produção. Pelo menos, bem menos que com a inflação e com o desempenho dos bancos aos quais tem o dever de fiscalizar. No comunicado sobre o último aumento da Selic, ele repetiu o discurso das duas últimas reuniões, de que tomou a decisão “avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação”. Uma frase com efeitos anestésicos, talvez, pois a gritaria hoje é menor que em 1999.

Quem sabe esse comportamento de resignação do Brasil não anima o Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) a aumentar as taxas de juros, apesar da freada em sua recuperação econômica? No primeiro trimestre deste ano, o PIB americano cresceu apenas 0,2%, comparado com o mesmo período de 2014. No quarto trimestre, o crescimento foi de 2,2%. Se pelo menos os juros no exterior fossem maiores, as indústrias brasileiras aguentariam mais tempo, não? Porque, aqui, eles não caem.

Os bancos brasileiros – e os estrangeiros que para aqui vieram no governo FHC – não deixam. Eles têm muito a lucrar, quando a Selic sobe, pois os juros que cobram no mercado acompanham essa alta, mas em escala maior. Só o governo federal deve R$ 2,44 trilhões. Parte dessa dívida é cobrada pelos bancos com base na Taxa Selic.

Não tenho informações recentes. Mas, há um ano, a participação dos títulos corrigidos pela Selic na dívida interna era de 9,5%. Se o percentual se manteve, a alta que ocorre pela quinta vez consecutiva tem reflexo significativa no endividamento público. Ninguém gosta de falar sobre isso, aparentemente. Sobretudo na imprensa.

Enquanto isso, o financiamento imobiliário ao consumidor caiu 4,6% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2014. A primeira retração para o período, nos últimos 13 anos. Os depósitos da caderneta de poupança, principal fonte de recursos do setor, ficaram menores R$ 30,2 bilhões neste ano, até o dia 23 de abril.

Diante de recursos escassos, a Caixa Econômica Federal fez dois reajustes nos juros cobrados e passou a dar prioridade aos empréstimos voltados à baixa renda e a imóveis novos, vendidos pelas construtoras, especialmente dentro do programa Minha Casa, Minha Vida.

O governo parece mais preocupado em como garantir o pagamento da dívida, com medidas de ajuste fiscal para tentar cumprir a meta, tendo anunciado corte de despesas de R$ 18 bilhões neste ano. E não se fala em taxar mais os ricos, mesmo com a queda de R$ 14,8 bilhões na arrecadação no primeiro trimestre deste ano, comparado o primeiro trimestre de 2014.

Em compensação, deixou de gastar R$ 1,7 bilhão para subsidiar as contas de energia elétrica. Quem pagou foi o consumidor.

E não é culpa dele, pois não come minério de ferro, que a Vale registrou prejuízo líquido de R$ 9,5 bilhões no primeiro trimestre…

O governo não vai taxar as grandes fortunas, pois parece que Dilma Rousseff não tem disposição para enfrentar mais esse desafio. Mas, que tal pôr a Receita Federal para obrigar os mais ricos a pagarem o que devem? Por que o silêncio em relação à sonegação de mais de R$ 19 bilhões constatada na Operação Zelotes desfechada pela Polícia Federal há pouco mais de um mês e já esquecida?


 

* A blogueira continua de férias, mas o blogueiro seguirá postando sempre que puder, viu? 😉

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O novo Evangelho dos bancos centrais

Texto escrito por José de Souza Castro:

Espero que a “Folha de S. Paulo” traduza e publique, como fez com outros textos do mesmo autor, o artigo de Binyamin Appelbaum publicado no dia 25 deste mês de agosto na página B1 do “New York Times” com o título “Central Bankers’ New Gospel: Spur Jobs, Wages and Inflation”. Pode ser lido AQUI.

O repórter do NYT cobriu a conferência sobre política econômica realizada em agosto em Jackson Hole, no Estado norte-americano de Wyoming. Segundo ele, pela primeira vez desde 1994, a agenda focalizou os mercados de trabalho. Naquele ano, Alan Blinder, vice-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, escandalizou a audiência ao advertir que os bancos centrais vinham se preocupando muito com reduzir a inflação e não o suficiente com o desemprego.

Vinte anos depois, Alan Blinder participou da conferência como um economista da Princeton University. Considerada uma heresia sua advertência de 1994, ele viu que a heresia havia se transformado no novo Evangelho dos dirigentes dos maiores bancos centrais do mundo.

Blinder ouviu durante essa conferência, encerrada no último sábado, serem ditas coisas que os responsáveis por tais bancos nunca disseram antes. No Fed, disse o ex-vice-presidente, não há mais ninguém que afirme que não se deve prestar atenção no desemprego. Sumiu de lá o hawkish, defensor de juros mais altos e de uma política de austeridade mais forte.

Os bancos centrais se acham agora focados em elevar o nível de emprego e os salários dos trabalhadores. A busca por uma inflação menor foi substituída pela convicção de que a inflação está atualmente muito baixa para o bem da economia.

Algo bem diferente do que prega um ex-presidente do Banco Central brasileiro no governo Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga, que será ministro da Fazenda se Aécio Neves vencer as eleições. Ou do que defendem assessores econômicos de Marina Silva, candidata do PSB. Se não mudarem de posição, correm o risco de serem os últimos de uma espécie ora em extinção, o hawkish.

Seria bom se prestassem atenção ao discurso de Janet L. Yellen, a presidente do Fed, na abertura da conferência. Ela fez uma explanação paciente sobre a necessidade de manter baixas as taxas de juros para apoiar o crescimento do emprego. Ou à fala de Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu. Ele disse que está expandindo os estímulos à criação de empregos e convocou os governos europeus a fazerem o mesmo. O Banco do Japão já segue esse novo Evangelho, segundo seu presidente, Haruhiko Kuroda.

O mais curioso é que, embora o emprego tenha aumentado nos Estados Unidos, neste ano, os salários continuam baixos. E isso tem preocupado o Fed. Seus economistas estão debruçados sobre essa questão. Os do lado de cá, sobretudo os que assessoram os candidatos Aécio Neves e Marina Silva, certamente vão esperar por suas conclusões. Espero que eles tenham, pelo menos, tomado conhecimento dessa conferência e do novo Evangelho dos bancos centrais dos países mais desenvolvidos. Para que não sejamos arrastados de volta ao atraso, caso Dilma Rousseff seja derrotada.

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