Ainda mais difícil explicar nossas altíssimas taxas de juros

Charge do Glauco na Folha de S.Paulo, em 2009

Charge do Glauco na Folha de S.Paulo, em 2009

Texto escrito por José de Souza Castro:

A política do Banco Central do Brasil de tentar controlar a inflação com altas taxas de juros fica mais indefensável depois do artigo de André Lara Resende, o principal teórico do Plano Real, publicado no dia 13 deste mês pelo jornal “Valor Econômico”. Segundo ele, “o juro alto não só agrava o desequilíbrio fiscal, como no longo prazo mantém a inflação alta”.

Sem o embasamento teórico desse economista que hoje é “senior research fellow na Columbia University”, critiquei em alguns artigos neste blog, como NESTE, a política equivocada do BC. Antes de tentar interpretar o artigo acadêmico de André Lara Resende, recorro ao experiente Luís Nassif, que faz a seguinte análise:

“Vinte anos de juros elevadíssimos promoveram o mais profundo processo de concentração econômica da história, que praticamente consumiu todos os excedentes orçamentários que poderiam ter sido investidos na infraestrutura, em educação, saúde, na economia real. A diferença entre o Brasil que é e a potência que poderia ter sido está nos trilhões desviados do orçamento para pagamento de juros.

E, agora, o principal formulador das políticas monetária e cambial do plano Real, André, escreve um artigo em tom acadêmico aceitando que todas as críticas contra essa loucura estavam corretas. Em “Juros e conservadorismo intelectual”, dá a mão à palmatória, trata como mero conservadorismo acadêmico erros intencionais que praticamente destruíram o futuro do país. E traz as últimas novidades da teoria econômica:

  • Taxas de juros elevada não combate inflação, pelo contrário: além de não afetar a demanda, sinaliza para o mercado que o Banco Central está apostando em inflação mais elevada.
  • Taxas de juros elevadas pressionam as contas públicas, aumentam o déficit nominal, obrigando o governo a cortar mais ainda as despesas primárias e, desse modo, impactando o nível de atividade; do outro lado atraem dólares apreciando o câmbio e reduzindo preços de importados, à custa de desequilíbrios de monta nas contas externas. Assim, o controle da inflação se faria de forma torta, com enormes sequelas na economia.
  • Taxa de juros mais baixa não é inflacionária. Essa conclusão tardia do André – fundada nas últimas “descobertas” da fronteira do conhecimento econômico – derrubam essa baboseira de que Dilma Rousseff derrubou a taxa de juros sem ter condições e isso provocou mais inflação.”

Concluo transcrevendo o início do artigo de André Lara Resende, na esperança de que o leitor se interesse em ler todo ele:

“Desde a estabilização da inflação crônica, com o Real – e já se vão mais de 20 anos -, a taxa básica de juros no Brasil causa perplexidade entre os analistas. Por que tão alta? Inúmeras explicações foram ensaiadas, como distorções, psicológicas e institucionais associadas ao longo período de inflação crônica com indexação; baixa poupança e alta propensão ao consumo, tanto pública como privada; ineficácia da política monetária, entre outras. Embora todas façam sentido e possam, no seu conjunto, ajudar a entender por que os juros são tão altos, nenhuma delas foi capaz de dar uma resposta convincente e definitiva para a questão.

As altíssimas taxas brasileiras ficaram ainda mais difíceis de serem explicadas diante da profunda recessão dos últimos dois anos. Como é possível que depois de dois anos seguidos de queda do PIB, de aumento do desemprego, que já passa de 12% da força de trabalho, a taxa de juro no Brasil continue tão alta, enquanto no mundo desenvolvido os juros estão excepcionalmente baixos? Há quase uma década, nos Estados Unidos e na Europa, e há três décadas no Japão, os juros estão muito próximos de zero, ou até mesmo negativos, mas no Brasil a taxa nominal é de dois dígitos e a taxa real continua acima de 7% ao ano.”

Difícil mesmo explicar as altíssimas taxas de juros no Brasil.

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2 comentários sobre “Ainda mais difícil explicar nossas altíssimas taxas de juros

  1. Citei o Luís Nassif, cujo jornal eletrônico publica agora esclarecedor artigo sobre a equipe econômica do governo Temer. Trecho:

    O monetarismo praticado pelo Banco Central é uma completa aberração intelectual. Fazer política sueca em um País emergente e cheio de carências, pior ainda uma política que nem sequer tem como desculpa ser eficiente do ponto de vista das elites produtivas, é ruim para todos menos para rentistas de dois tipos: os pendurados na folha do Estado com altos salários e os que vivem de juros de aplicações financeiras, ambas classes improdutivas mas que drenam recursos escassos de toda a população. São estas castas que pilotam o Banco Central desde o Plano Real e representam nele a economia improdutiva cujo porta voz é o Boletim FOCUS e a sua assessoria de comunicação é a GLOBONEWS, que se congratula (Programa Fatos e Versões de 14 de janeiro) com duas vitórias, a inflação dentro da meta e a baixa da taxa Selic, completando com “Henrique Meirelles, o esteio do governo”, na opinião da âncora (Cristiana Lobo) e dos dois convidados. A inflação dentro da meta foi conseguida pelo desemprego e paralisia econômica e a baixa da Selic não é vitória, é ato de vontade do BC.

    Íntegra aqui:http://jornalggn.com.br/fora-pauta/comemorando-a-recessao-por-andre-araujo

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