A aposentadoria e a irracionalidade dos juros altos

Charge do Glauco na Folha de S.Paulo, em 2009

Charge do Glauco na Folha de S.Paulo, em 2009

Texto escrito por José de Souza Castro:

A taxa de juros é um remédio muito sério, que deveria ser usado por um período intensivo e muito curto. Não por décadas seguidas. O resultado é que, de 1999 até hoje, a dívida pública está quase duas vezes superior ao que poderia estar se estivéssemos praticando uma taxa de juros neutra. Isso sustenta um rentismo financeiro.

Quem afirma o óbvio é o novo presidente do IBGE, economista Paulo Rabello de Castro, em entrevista publicada pela “Folha de S.Paulo”. Por ser óbvio, talvez, não tenha chamado a atenção de ninguém. Com exceção do jornalista Clóvis Rossi. Em sua coluna deste domingo no mesmo jornal, Rossi comentou a entrevista. Diz ele:

“Por fim, alguém ousou tirar do armário um tema (a conta dos juros no Brasil) que parece o belzebu, aquele que ninguém ousa dizer o nome, certamente pela avassaladora hegemonia do que os argentinos chamam, com toda razão, de a ‘pátria financeira'”.

A própria repórter que entrevistou o novo presidente do IBGE parece ter-se visto diante de belzebu, pois não se animou a prosseguir no tema regurgitado por Paulo Rabello, e partiu para questões menos arriscadas.

Mas Clóvis Rossi, um jornalista acostumado a muitas refregas, pegou o pião na unha. Lembrou que em janeiro de 2003, logo depois da posse de Lula na Presidência da República, se encontrou em Davos com o novo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e perguntou a ele como havia conseguido convencer o líder petista, crítico acerbo dos juros indecentes vigentes no governo FHC. “Lula/Meirelles haviam elevado os juros de já indecentes 25% para obscenos 26,5%”, explica o jornalista.

Como resposta, Rossi ouviu de Meirelles, hoje ministro da Fazenda, que dissera a Lula que, sempre que a inflação chega aos dois dígitos no Brasil, ela dispara. Logo, era preciso uma dose cavalar de juros para controlá-la. Se convenceu Lula, foi menos convincente a Rossi, que comentou neste domingo:

“Não parecia ciência e, sim, fazer política econômica jogando búzios. Afinal, não está nas Escrituras que a inflação sempre dispara ao atingir os dois dígitos (depende, como é óbvio, das circunstâncias de cada momento).”

Aliás, um vudu danado de maligno, digo eu. Por causa dos juros elevados, a dívida pública hoje está “quase duas vezes superior ao que poderia estar se estivéssemos praticando uma taxa de juros neutra”, conforme o novo presidente do IBGE. Acrescenta Clóvis Rossi que a “bolsa-juros” rende aos rentistas “em um ano o que o governo dedica à Bolsa Família em 14 anos”.  E completa:

“O mais elementar sentido comum diria que não é razoável que se dê aos mais ricos 14 vezes mais que o que vai para os pobres entre os pobres. No entanto, ninguém nem sequer discute os juros.”

De fato, conclui o colunista da “Folha”, tem alguma racionalidade “discutir o corte de aposentadorias, que já são minguadas, e não discutir simultaneamente o corte do gasto maior, que é com juros?”

Não sou economista. Mas, leitor de Kafka, sinto-me seguro em responder a isso: não tem racionalidade alguma; mas dá um lucro danado a alguns, à custa de muitos.

Depois de escrever essa frase, tive acesso a um vídeo da professora Denise Gentil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela analisa a reforma da Previdência. Diz que o projeto enviado pelo governo Temer ao Congresso Nacional é genocídio. Reduz o salário dos trabalhadores e, mais uma vez, garante o pagamento dos juros altos.

Denise Gentil é pesquisadora do Instituto de Economia da UFRJ, onde defendeu sua tese de doutorado intitulada “A falsa crise da Seguridade Social no Brasil: uma análise financeira do período 1990 – 2005”, na qual aponta que boa parte do excedente de uma Previdência superavitária “vem sendo desviada para cobrir outras despesas, especialmente de ordem financeira”. Sobre isso, o Jornal da UFRJ publicou em janeiro deste ano entrevista com Denise, muito esclarecedora, como pode ser lida AQUI.

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2 comentários sobre “A aposentadoria e a irracionalidade dos juros altos

  1. Do industrial Benjamin Steinbruch, hoje, em sua coluna na “Folha de S. Paulo”, (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/benjaminsteinbruch/2016/12/1840852-e-preciso-dar-um-choque-nos-juros-e-nao-da-para-esperar-janeiro.shtml):

    “Passamos o ano inteiro sob intensa tempestade recessiva sem lançar mão de um instrumento banal em condições como essa, a redução dos juros. Só agora no fim do ano, com o barco praticamente virado, é que foram feitas duas míseras reduções de 0,25 ponto percentual na taxa básica.

    Alguém por acaso imagina que alguma economia poderia crescer com uma taxa básica de juros da ordem de 14% ao ano, que se reflete em juros reais de uns 8% ao ano? Só se for por ordem divina.

    Alguém poderia imaginar que a irresponsabilidade dessa política, que agora começa a ser criticada até pelo setor financeiro, o maior beneficiário imediato dela, não acirraria a crise econômica do país, levando-o à crise social gravíssima que já se esboça?

    Então, a economia precisa de um “choque de juros”, com a imediata redução da Selic em pelo menos dois pontos percentuais. E não dá para esperar janeiro. A redução precisa ser já.”

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  2. Finalmente alguém para ecoar o belo trabalho da Dra. Gentil (essa sim é doutora) sobre a previdência. Por meses tento divulgar sua idéia em meus modestos grupos de amigos e redes sociais. Mas, como bem disse no texto, parece que ninguém gosta de falar nisso. Lembra de quando falávamos sobre câncer nos anos 80…. Vale lembrar que é possível baixar a tese dela na íntegra e vale a pena ser lida.
    E… em minha medíocre opinião sobre juros elevado, penso que no mundo moderno vale o pensamento de que é preciso defender a economia a qualquer custo. Mesmo que o social(diga-se pessoas) seja afetado. Investidores ganham no Brasil 10x mais em aplicações que em qualquer parte do mundo civilizado. “Investir” aqui é lucro certo, rápido e com garantia governamental. Pra defender essa classe econômica só juros no espaço pra deixar o dinheiro muito mais caro, pois o dinheiro é a única mercadoria do sistema financeiro no capitalismo.
    Taxa de juros para o bem do povo brasileiro é no máximo o dobro da americana (e olhe lá… já ganha muito). Temos, também, que esquecer a idéia de o povo brasileiro é caloteiro e juros é pra cobrir calote. Em diversos países pelo mundo o povo dá mais calote que aqui e os juros que refletem no cartão de crédito, por exemplo, são muitas vezes menores.
    O mesmo estão fazendo com a previdência. Estão defendendo uma tal “economia”.
    Pense comigo…. se o texto da aposentadoria passar, no dia seguinte metade do Brasil estará fazendo previdência privada em algum banco… SACOU ! ! !

    Parabéns e obrigadão… lol

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