
Texto escrito por José de Souza Castro:
A taxa de juros é um remédio muito sério, que deveria ser usado por um período intensivo e muito curto. Não por décadas seguidas. O resultado é que, de 1999 até hoje, a dívida pública está quase duas vezes superior ao que poderia estar se estivéssemos praticando uma taxa de juros neutra. Isso sustenta um rentismo financeiro.
Quem afirma o óbvio é o novo presidente do IBGE, economista Paulo Rabello de Castro, em entrevista publicada pela “Folha de S.Paulo”. Por ser óbvio, talvez, não tenha chamado a atenção de ninguém. Com exceção do jornalista Clóvis Rossi. Em sua coluna deste domingo no mesmo jornal, Rossi comentou a entrevista. Diz ele:
“Por fim, alguém ousou tirar do armário um tema (a conta dos juros no Brasil) que parece o belzebu, aquele que ninguém ousa dizer o nome, certamente pela avassaladora hegemonia do que os argentinos chamam, com toda razão, de a ‘pátria financeira’”.
A própria repórter que entrevistou o novo presidente do IBGE parece ter-se visto diante de belzebu, pois não se animou a prosseguir no tema regurgitado por Paulo Rabello, e partiu para questões menos arriscadas.
Mas Clóvis Rossi, um jornalista acostumado a muitas refregas, pegou o pião na unha. Lembrou que em janeiro de 2003, logo depois da posse de Lula na Presidência da República, se encontrou em Davos com o novo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e perguntou a ele como havia conseguido convencer o líder petista, crítico acerbo dos juros indecentes vigentes no governo FHC. “Lula/Meirelles haviam elevado os juros de já indecentes 25% para obscenos 26,5%”, explica o jornalista.
Como resposta, Rossi ouviu de Meirelles, hoje ministro da Fazenda, que dissera a Lula que, sempre que a inflação chega aos dois dígitos no Brasil, ela dispara. Logo, era preciso uma dose cavalar de juros para controlá-la. Se convenceu Lula, foi menos convincente a Rossi, que comentou neste domingo:
“Não parecia ciência e, sim, fazer política econômica jogando búzios. Afinal, não está nas Escrituras que a inflação sempre dispara ao atingir os dois dígitos (depende, como é óbvio, das circunstâncias de cada momento).”
Aliás, um vudu danado de maligno, digo eu. Por causa dos juros elevados, a dívida pública hoje está “quase duas vezes superior ao que poderia estar se estivéssemos praticando uma taxa de juros neutra”, conforme o novo presidente do IBGE. Acrescenta Clóvis Rossi que a “bolsa-juros” rende aos rentistas “em um ano o que o governo dedica à Bolsa Família em 14 anos”. E completa:
“O mais elementar sentido comum diria que não é razoável que se dê aos mais ricos 14 vezes mais que o que vai para os pobres entre os pobres. No entanto, ninguém nem sequer discute os juros.”
De fato, conclui o colunista da “Folha”, tem alguma racionalidade “discutir o corte de aposentadorias, que já são minguadas, e não discutir simultaneamente o corte do gasto maior, que é com juros?”
Não sou economista. Mas, leitor de Kafka, sinto-me seguro em responder a isso: não tem racionalidade alguma; mas dá um lucro danado a alguns, à custa de muitos.
Depois de escrever essa frase, tive acesso a um vídeo da professora Denise Gentil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela analisa a reforma da Previdência. Diz que o projeto enviado pelo governo Temer ao Congresso Nacional é genocídio. Reduz o salário dos trabalhadores e, mais uma vez, garante o pagamento dos juros altos.
Denise Gentil é pesquisadora do Instituto de Economia da UFRJ, onde defendeu sua tese de doutorado intitulada “A falsa crise da Seguridade Social no Brasil: uma análise financeira do período 1990 – 2005”, na qual aponta que boa parte do excedente de uma Previdência superavitária “vem sendo desviada para cobrir outras despesas, especialmente de ordem financeira”. Sobre isso, o Jornal da UFRJ publicou em janeiro deste ano entrevista com Denise, muito esclarecedora, como pode ser lida AQUI.
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