Taxa de juros sobe. Qual a novidade?

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Texto escrito por José de Souza Castro*:

A notícia divulgada no dia 29 de abril não chamou muita atenção, pois está se tornando costumeira. É a quinta alta consecutiva da taxa básica de juros (Selic), que chegou agora a 13,25% ao ano, com possibilidade de novo aumento na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em junho.

A escalada dos juros começou há dois anos e só foi interrompida durante o período eleitoral. O que se assiste é a retomada incontestável da política de 1999, do governo Fernando Henrique Cardoso, de usar a Selic como instrumento de política monetária.

Indaga-se: o que não deu certo naquela época, dará agora pelas mãos treinadas na gestão do Bradesco do ministro Joaquim Levy?

Certamente, dará certo para o Bradesco e outros bancos que há muito tempo vivem em clima de festa no Brasil. O balanço trimestral do Bradesco não deixa dúvidas. No mesmo dia em que o Copom decidiu elevar a Selic, o banco revelou que obteve nos primeiros três meses do ano lucro líquido de R$ 4,2 bilhões.

Em comparação com o quarto trimestre do ano passado, quando Levy era ainda diretor-superintendente, desde junho de 2010, do Bradesco Asset Management, o lucro do Bradesco aumentou 6,3%. Em comparação com o primeiro trimestre de 2014, invejáveis 23,3%.
Vejamos o que ocorreu em 1999.

Numa sexta-feira de janeiro, chamada na época de “sexta-feira negra”, o clima no país beirava o pânico, com previsões catastróficas e boatos alarmistas sobre feriado bancário e confisco financeiro. O presidente FHC demitiu o presidente do Banco Central, Francisco Lopes, e desvalorizou o real, abandonando o regime de câmbio fixo. O país passou a operar no regime de câmbio flutuante, até hoje.

Em setembro de 1998, faltando pouco para a sua reeleição, o presidente havia admitido que era grave a crise brasileira. Talvez tivesse sido melhor que Dilma Rousseff, que vem seguindo agora os passos de FHC nos rastros de Levy, tivesse feito o mesmo em setembro passado.

Para contornar a crise, Fernando Henrique tratou também de aumentar impostos, para tentar tapar o buraco do déficit fiscal. Empresários da indústria reagiram. Sabiam que com altas taxas de juros e baixo crescimento econômico, as chances de sobrevivência de muitas indústrias diminuíam a cada dia. Era falir ou vender para alguma multinacional de olho gordo no mercado consumidor brasileiro.

As perspectivas seriam diferentes hoje? O Banco Central parece pouco preocupado com a produção. Pelo menos, bem menos que com a inflação e com o desempenho dos bancos aos quais tem o dever de fiscalizar. No comunicado sobre o último aumento da Selic, ele repetiu o discurso das duas últimas reuniões, de que tomou a decisão “avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação”. Uma frase com efeitos anestésicos, talvez, pois a gritaria hoje é menor que em 1999.

Quem sabe esse comportamento de resignação do Brasil não anima o Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) a aumentar as taxas de juros, apesar da freada em sua recuperação econômica? No primeiro trimestre deste ano, o PIB americano cresceu apenas 0,2%, comparado com o mesmo período de 2014. No quarto trimestre, o crescimento foi de 2,2%. Se pelo menos os juros no exterior fossem maiores, as indústrias brasileiras aguentariam mais tempo, não? Porque, aqui, eles não caem.

Os bancos brasileiros – e os estrangeiros que para aqui vieram no governo FHC – não deixam. Eles têm muito a lucrar, quando a Selic sobe, pois os juros que cobram no mercado acompanham essa alta, mas em escala maior. Só o governo federal deve R$ 2,44 trilhões. Parte dessa dívida é cobrada pelos bancos com base na Taxa Selic.

Não tenho informações recentes. Mas, há um ano, a participação dos títulos corrigidos pela Selic na dívida interna era de 9,5%. Se o percentual se manteve, a alta que ocorre pela quinta vez consecutiva tem reflexo significativa no endividamento público. Ninguém gosta de falar sobre isso, aparentemente. Sobretudo na imprensa.

Enquanto isso, o financiamento imobiliário ao consumidor caiu 4,6% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2014. A primeira retração para o período, nos últimos 13 anos. Os depósitos da caderneta de poupança, principal fonte de recursos do setor, ficaram menores R$ 30,2 bilhões neste ano, até o dia 23 de abril.

Diante de recursos escassos, a Caixa Econômica Federal fez dois reajustes nos juros cobrados e passou a dar prioridade aos empréstimos voltados à baixa renda e a imóveis novos, vendidos pelas construtoras, especialmente dentro do programa Minha Casa, Minha Vida.

O governo parece mais preocupado em como garantir o pagamento da dívida, com medidas de ajuste fiscal para tentar cumprir a meta, tendo anunciado corte de despesas de R$ 18 bilhões neste ano. E não se fala em taxar mais os ricos, mesmo com a queda de R$ 14,8 bilhões na arrecadação no primeiro trimestre deste ano, comparado o primeiro trimestre de 2014.

Em compensação, deixou de gastar R$ 1,7 bilhão para subsidiar as contas de energia elétrica. Quem pagou foi o consumidor.

E não é culpa dele, pois não come minério de ferro, que a Vale registrou prejuízo líquido de R$ 9,5 bilhões no primeiro trimestre…

O governo não vai taxar as grandes fortunas, pois parece que Dilma Rousseff não tem disposição para enfrentar mais esse desafio. Mas, que tal pôr a Receita Federal para obrigar os mais ricos a pagarem o que devem? Por que o silêncio em relação à sonegação de mais de R$ 19 bilhões constatada na Operação Zelotes desfechada pela Polícia Federal há pouco mais de um mês e já esquecida?


 

* A blogueira continua de férias, mas o blogueiro seguirá postando sempre que puder, viu? 😉

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As três razões para meu voto

Como prometido, hoje vou escrever sobre meu voto. Apesar de muitos terem dito que eu não deveria declarar meu voto, por estarmos em um momento de muita agressividade na internet, acho que estas são eleições em que não podemos nos omitir, temos que tomar um partido, sair do muro, porque muita coisa está em jogo. Claro que não escrevo este post para aqueles que já estão convictos de seu voto (e todos têm seus motivos para escolher um ou outro candidato, que devem ser respeitados), mas para os que ainda estão abertos a mudar de opinião (ou tomar uma posição), a partir da reflexão. E, para contribuir com essa reflexão, trago uma planilha com diversos dados que coletei a partir de registros oficiais, além de mais de 70 links para notícias confiáveis, selecionadas a partir de critério jornalístico, que detalham o que escrevo ao longo do post, e que podem ser consultadas como fonte de informação. Espero que os leitores, mesmo os que discordem de mim, mantenham o respeito, como sempre mantiveram neste blog 😉

Decidi que vou votar 13, ou seja, pela reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT). Por três razões principais:

  1. Porque seu governo conseguiu conquistas importantes em algumas áreas;
  2. Porque as principais críticas que são feitas ao governo perdem força se comparadas com o governo de Fernando Henrique Cardoso, último presidente da República filiado ao PSDB;
  3. Porque, embora eu considere a alternância de poder muito importante para uma democracia, não acho o princípio válido quando a alternativa é Aécio Neves, personagem que venho acompanhando de perto desde que assumiu o governo de Minas pela primeira vez, em 2003.

Passo a explicar melhor cada uma dessas razões.

1) Para mim, as melhores conquistas do governo Dilma, que foi um governo de continuidade do Lula, dizem respeito:

Para mim, é uma conquista impressionante que o número de miseráveis e de subnutridos no meu país tenha sido reduzido tão consideravelmente em tão pouco tempo. Me parece que isso só foi possível por ter havido uma política de Estado que priorizou isso, antes de qualquer outra coisa. Vejo que a vida do povo, de modo geral, melhorou muito, com o acesso ao ensino superior e a bens de consumo importantes. No campo da economia, a cartilha desenvolvimentista seguida pelo governo de Dilma tem sido defendida por Bancos Centrais de todo o mundo, e os neoliberais, da linha de Armínio Fraga, estão começando a perder espaço.


2) A inflação está nas alturas? O crescimento está baixíssimo? A cesta básica está impossível de pagar? A Petrobras está sucateada? Não é o que os números me mostram, pelo menos não dessa forma tão trágica como vem sendo alardeada pelos defensores do Estado mínimo.

Vamos aos fatos:

  • a inflação no mês passado foi de 0,57%. No mesmo mês de 1998 (primeiro mandato de FHC), houve deflação de 0,22%. No mesmo mês de 2002 (segundo mandato de FHC), foi de 0,72%.
  • O ano de 1998 fechou com inflação de 1,65%. Já em 2002, fechou a 12,53% (o governo FHC já tinha conseguido reduzir a hiperinflação a quase zero, que foi seu grande mérito no primeiro mandato, então não é mais válido o argumento de que a inflação estava a 1000% antes de chegar a 12,5%; no segundo mandato, o presidente do Banco Central, responsável direto pelo controle da inflação, era Armínio Fraga, que Aécio escolheu agora como seu ministro da Fazenda). Em 2013, fechou a 5,91% (abaixo do teto da meta) e o acumulado nos últimos 12 meses está em 6,75%.
  • Uma das razões para o aumento da pressão sobre os preços nesta época do ano é a prolongada seca (veja AQUI também); portanto, há chances de o ano fechar com inflação dentro da meta estipulada pelo BC, como em todos os outros anos do atual governo (2011, 2012 e 2013).
  • Considerando a média da inflação em todo o mandato, a do governo Dilma é a mais baixa desde o Plano Real, inclusive que as dos governos FHC e Lula.

O crescimento está terrível? Pibinho? Em relação ao crescimento chinês do governo Lula, está mesmo. Em relação ao governo FHC, não é bem assim.

  • O país cresceu 0,04% em 1998 (último ano do primeiro mandato de FHC) e 2,66% em 2002 (último ano do segundo mandato).
  • Em 2013, o crescimento foi de 2,49%. Em 2014, o acumulado em 12 meses está em 0,93%.
  • Gozado é que, pelo menos desde 2013, o PIB de Minas tem crescido ainda menos que a média nacional. E, sim, o Estado também foi prejudicado pela seca.

A cesta básica custa R$ 303,54 em Belo Horizonte (setembro), segundo o Dieese. Subiu muito em relação aos R$ 93,58 que custava em 1998, certo? Errado: graças ao aumento do salário mínimo, que saltou de R$ 130 (ou o equivalente a R$ 362,29, tendo em vista a inflação acumulada no período) para R$ 724, o trabalhador que gastava mais de 158 horas de trabalho para bancar esta cesta hoje gasta 92 horas, ainda segundo o Dieese.

A Petrobras, que tinha lucrado R$ 701,7 milhões em 1998 e R$ 8,089 bilhões em 2002, lucrou R$ 23,6 bilhões em 2013 (foi a empresa que mais lucrou no país em 2013, dentre todas as 313 de capital aberto) e, só no primeiro semestre de 2014, já lucrou R$ 10,4 bilhões. O valor de mercado da Petrobras caiu em relação ao auge que atingiu no governo Lula (de R$ 380 bilhões em 2010 para R$ 240 bilhões nesta semana). Mas era de R$ 15,5 bilhões em 2002. (Leia mais AQUI)

Também é legal comparar o olhar que o Brasil passou a ter no resto do mundo. Em 2002, tivemos que recorrer ao FMI para empréstimo de US$ 41 bilhões. Apenas três anos depois, Lula quitou a dívida, que estava em US$ 15 bi e, em 2009, tornou-se credor do organismo, emprestando US$ 14,5 bi para ajudar países em dificuldades financeiras. Em 2012, já no governo Dilma, o Brasil aumentou o aporte no FMI, enquanto fez exigências para que países em desenvolvimento tenham mais participação no Fundo. Esse histórico pode ser visto AQUI, em infográfico do jornal “O Globo”. É inquestionável como o Brasil cresceu aos olhos do mundo, passando a ser mais respeitado desde o governo Lula e o surgimento dos Brics, em 2006/2011, grupo que criou seu primeiro banco de desenvolvimento neste ano. Para ficar em um exemplo fácil, a Copa do Mundo, que todos diziam que seria caótica, foi vista como “a melhor dos últimos tempos” pelo britânico “Financial Times“.

Por fim, vale comparar a gestão da energia nos dois governos. Apesar de estarmos com os reservatórios com níveis inferiores aos de 2001, numa das secas mais prolongadas da história, não houve necessidade de racionamento de energia, nem houve apagão – como naquele ano, durante a gestão de FHC.

Não consegui reunir todos os dados que eu queria, porque isso é uma coisa que demanda tempo e isso tem-me faltado. Queria ter coletado mais informações e números, sobre educação e investigações da Polícia Federal, por exemplo, como o cineasta Pablo Villaça fez tão bem. Mas é possível ver estes indicadores acima e outros que encontrei, com as respectivas fontes para cada um deles, na planilha que montei. CLIQUE AQUI para acessá-la.


3) Se o PT e o PSDB nos enojam com o aparelhamento de Estado para benefício do partido — como demonstraram os escândalos do mensalão e este agora da Petrobras (que já resvalou em um dos ícones tucanos, Sérgio Guerra, e em todo o PSDB), e os escândalos do mensalão tucano (que tem como um dos réus Clésio Andrade, vice de Aécio no primeiro mandato e marido da atual presidente do TCE, Adriene Barbosa, que tomou posse como conselheira em 2006, indicada por Aécio quando Clésio ainda era seu vice), a máfia dos fiscais do ISS (que atinge as prefeituras de José Serra, Gilberto Kassab e Fernando Haddad), as propinas milionárias pagas pela Alstom e Siemens para ficarem com os trens e metrôs de São Paulo, além de dezenas de outros escândalos descobertos nos governo FHC, Lula, Dilma, Alckmin, Serra, Eduardo Azeredo e outros –, Aécio Neves me preocupa ainda mais porque, além de também ter aparelhado as estatais mineiras, como Cemig e Codemig, usou seu governo em Minas para benefício próprio ou de sua família, como podemos inferir pelas notícias sobre o aeroporto de Cláudio (e muitas outras práticas coronelistas em Cláudio, que incluem até suspeita de compra de votos), a pista de Montezuma, práticas de nepotismo, que podem ter favorecido diretamente empresas da família — tudo com a conivência completa do Ministério Público do Estado e do já citado TCE presidido por sua amiga, a mulher de Clésio Andrade — ou, muito antes, no início de sua carreira política, por Aécio ter sido nomeado diretor da Caixa por seu parente, que era ministro da Fazenda (e há suspeita de que ele tenha sido conivente, ou pelo menos omisso, em relação à Máfia das Lotecas).

Fora essa parte dos escândalos, que pode ser encontrada por qualquer eleitor que “der um Google” por aí, questiono (e não só eu!) a forma como ele governou Minas Gerais (direto do Rio de Janeiro, onde mais morou), com um choque de gestão questionadíssimo (ver AQUI e AQUI), com relatos de ter deixado um “Estado quebrado” para Anastasia, com educação sucateada (e salários abaixo do piso nacional, como se vê nesta carta de professores), investimentos em saúde e educação questionados na Justiça até hoje, falta de transparência, inclusive nos gastos com publicidade, que explodiram em seu governo e foram destinados, em parte, a empresas de telecomunicações de sua família (ou, agora, a contribuir para a campanha eleitoral, conforme entendimento do TSE), e construção de uma obra faraônica, a Cidade Administrativa, por R$ 1,2 bilhão, que já teve que ser reformada um ano depois de pronta; questiono sua nulidade como senador e, antes, como deputado; e não gosto de seus traços autoritários, ao sair processando tudo e todos, até o Google, o Twitter e blogueiros, só por publicarem informações ou opiniões que lhe desagradam. “Traços”, aliás, foi bondade minha, porque considero que muitas das ações do pessoal de Aécio foram tentativas claras de intimidação e de censura prévia, que não condizem com a democracia que estamos tentando construir para o Brasil. (Dois documentários já foram produzidos a respeito: veja AQUI e AQUI).

Ainda vale ressaltar que, embora os governos de Lula e de Dilma tenham apanhado de todos os lados, seja nas redes sociais, na blogosfera ou na imprensa, não tenho conhecimento de ações judiciais movidas por eles para tentar calar as pessoas ou os veículos de comunicação. Como esse assunto, da liberdade de expressão e de imprensa, me é muito caro, acho importante registrar essa diferença abissal entre os dois candidatos nesse assunto. Não se trata de corporativismo de jornalista, mas de um princípio básico da democracia. É importantíssimo, fundamental mesmo, que a imprensa — e as pessoas de um modo geral — sejam livres para se expressarem em uma democracia, porque só com a crítica pode haver evolução.

É tudo mentira? Conspiração da “blogosfera comunista” e da “esquerda caviar”? Bom, deixei os links de diversos jornais, com todos os matizes ideológicos, para que você tire suas próprias conclusões. Mas, lendo a análise de apenas um dos debates presidenciais, feita pela “Folha de S.Paulo” (que está longe de poder ser tachada como petista), é fácil verificar qual candidato distorceu mais o que disse, em detrimento da verdade. (Atenção, que tem o “não é bem assim” e o “é bem assim”.)

Para concluir, olhando para o futuro, como diz Aécio, não gosto da perspectiva de um Brasil presidido por um candidato que tem o apoio de Bolsonaro, RonaldoMarco Feliciano, Silas Malafaia e Levy Fidelix. Claro que Dilma também reúne a seu redor um monte de políticos das trevas, mas percebo que a nata do conservadorismo brasileiro, que apoiou o regime militar e elegeu Collor em 1989, está “fechada com Aécio“. E o PMDB, que já foi um bom partido e hoje está longe disso, estará com qualquer um dos dois (alguém se surpreende?).


Enfim. Quero, sim, que haja alternância de poder, queria que fosse possível uma presidência sem blocão com o PMDB, quero que esses escândalos parem de ocorrer com todos os partidos, quero que o Brasil continue crescendo mais e mais, mas não vejo como Aécio Neves possa ser aquela alternativa que muitas pessoas pensam que é.

Concorda comigo? Compartilhe o post 😀 Discorda? Espero que com argumentos e com educação 😉


Fecho o post com o necessário bom humor, que acho que deve prevalecer mesmo durante discussões ou em momentos de tensão 😀

paul

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O sujo quintal dos Estados Unidos

Texto escrito por José de Souza Castro:

Os Estados Unidos não cuidaram bem de seu quintal, como mostra o relatório “Estado das Cidades da América Latina e Caribe-2012″, divulgado ontem (21 de agosto) pelo programa ONU-Habitat. A região tem pouco do que se orgulhar perante o mundo. Senão vejamos:

• É a mais desigual do mundo: 20% da população mais rica possui renda per capita 20 vezes superior à renda dos 20% mais pobres. A renda per capita média é de US$ 4.823. A média mundial chega a US$ 5.868.

• A maior economia da região, o Brasil, só tem melhor distribuição de renda do que Guatemala, Honduras e Colômbia. A melhor distribuição é a da Venezuela de Hugo Chaves, que tem índice Gini de 0,41, contra 0,38 dos Estados Unidos. Quanto menor o índice, melhor. O do Brasil é superior a 0,56, bem ruinzinho. Mas avançou em relação a 1990, quando era o campeão da iniquidade na América Latina.

• Metade da população da região, ou 222 milhões de pessoas, vive em cidades com menos de 500 mil habitantes. E 14% (65 milhões) moram nas 55 cidades com mais de 5 milhões. O déficit habitacional está entre 42 milhões e 51 milhões de residências. E apenas 20,6% dos habitantes estão em áreas rurais nas Américas do Sul e Central e no Caribe.

• A população dessas regiões cresceu oito vezes desde o começo do século passado, saltando de 60 milhões para 588 milhões de habitantes em 2010, ou 8,5% da população mundial. Nas últimas décadas caiu a natalidade, para uma taxa anual de 1,15% ao ano, com tendência de baixa para 1% até 2030. O número de filhos por mulher, que era em média de 5,8 em 1950, caiu para 2,09 em 2010. A população em idade ativa (15 a 64 anos) representa 65% do total, o que é bom para os aposentados – eles só têm a temer, por enquanto, da corrupção no sistema previdenciário.

• A mancha urbana continua se expandindo, apesar da desaceleração do aumento da população. As cidades ocupam cada vez mais território, um padrão de crescimento horizontal “que não é sustentável”.

• Quase metade da população (42% dos habitantes) vive a uma distância máxima de 100 quilômetros da costa, embora essa zona litorânea corresponda a apenas 20% do território da América Latina e Caribe. Há, portanto, diz o relatório, uma oportunidade para desenvolver o interior – e a floresta amazônica que se cuide.

• Mais de 30 milhões de pessoas (5,2% da população) vivem no estrangeiro, tendo emigrado para Estados Unidos, Espanha e Canadá, principalmente. O maior número de expatriados é de brasileiros, embora proporcionalmente apenas 0,4% da população viva no exterior.

• O peso da América Latina na economia global avançou pouco, de 6,5% do PIB mundial em 1970, para 7% agora. O Brasil tem 32% do PIB da região, o que é proporcional ao seu peso demográfico. Em relação a 1970, seu PIB aumentou oito pontos percentuais. A Argentina foi a que mais perdeu.

• As 40 maiores cidades da região produzem um PIB anual de US$ 842 bilhões, mas há uma tendência de desconcentração da geração de riqueza para cidades menores.

• O menor crescimento da produtividade é a principal razão para o crescimento menor do PIB da região, comparativamente ao de outras regiões e países emergentes. Em 20 anos, a produtividade na América Latina cresceu 1,4% ao ano, em média, contra 8,4% na China e 4,7% na Índia.

• As mulheres nunca trabalharam tanto na região: cresceu em sete pontos percentuais sua participação na força de trabalho, entre 1990 e 2009, chegando a 43%.

• No quintal dos Estados Unidos, 180 milhões de pessoas (ou 33% do total dos habitantes) viviam em 2009 em condições de pobreza. Já foi pior: em 1990, eram 48%. Mas existem ainda 71 milhões de indigentes.

• América Latina e Caribe são a região com a maior taxa de homicídios do mundo: mais de 20 por grupo de 100 mil habitantes, contra 7 na média global. Resultado de “baixo desenvolvimento humano e econômico e grandes disparidades de renda”, conforme a ONU.

Dilma Rousseff e o complexo de vira-latas

Foto tirada do site da Jovem Pan.

Texto de José de Souza Castro:

No dia 27 de dezembro do ano passado, escrevi um artigo que intitulei “O Rolls-Royce da mãe dos pobres”, sobre o automóvel que desde os anos 50 fazem parte de nosso complexo de vira-latas. Complexo ao avesso, quando se trata da Presidência da República.

Volto ao tema caro a Nelson Rodrigues para comentar notícia divulgada nesta semana pela “Folha de S. Paulo”, dando conta de que a reforma e os eletrodomésticos da casa em que Dilma Rouseff vai passar com a família as férias no litoral baiano custaram aos contribuintes, pelas mãos generosas de nossa Marinha, cerca de R$ 650 mil.

Somos ainda a sexta economia mais desenvolvida do mundo, pelo que se noticiou nesta semana, mas a Presidência da República do Brasil já se comporta como a primeira – os Estados Unidos.

Passamos a Grã-Bretanha em Produto Interno Bruto. É o que nos faz crer um estudo do CEBR (Centro de Pesquisa Econômica e de Negócios), instituição londrina, mas temos 11 milhões de pessoas vivendo “clandestinamente” em favelas, pois sem uma residência que possam chamar de sua.

Mas temos uma Presidência da República e uma Marinha – aquela mesma que há apenas um século ainda castigava a chibatadas os pobres marinheiros – que não se avexam de comprar para a casa em que Dilma Rousseff está gozando suas férias, os seguintes itens, segundo dados levantados pela ONG Contas Abertas e reproduzidos pelo jornal: oito TVs de LCD, sete DVDs e um home theater. “Outros R$ 37 mil foram destinados a comprar cortinas de tecido linho misto e blackouts. A compra incluiu ainda espreguiçadeiras (R$ 5.599), uma chaise longue dupla (R$ 4.212), três guarda-sóis (R$ 426 cada) e seis frigobares (R$ 4.885)”, detalha o jornal.

E o ritmo da reforma da casa da Marinha é bem um retrato do Brasil eficiente. Informação do mesmo jornal paulista: “A residência já havia passado por uma reforma avaliada em R$ 800 mil, em 2009, quando hospedou o então presidente Lula. A nova restauração custou ao governo R$ 195.427,40. O restante do valor [ou cerca de 455 mil reais] é para a compra de eletrônicos e móveis.”

A casa fica na Praia de Irema, privativa da Marinha, situada no litoral baiano. A presidente está acompanhada, nas curtas férias, da filha Paula, da mãe Dilma Jane, do neto Gabriel, do genro Rafael Covolo, do ex-marido Carlos Araújo e de uma tia cujo nome não foi revelado pelos repórteres Márcio Falcão, Lúcio Vaz, Andreza Matais e Graciliano Rocha, que contaram a história aos leitores da “Folha”.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, certamente não vai comentar tais gastos cobertos pelos impostos que o governo nos obriga a recolher, mas ele se prontificou a falar sobre a pesquisa do CEBR, que põe o Brasil entre as seis maiores economias do mundo – atrás apenas de Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França – e reconheceu que o país pode demorar de 10 a 20 anos para atingir o padrão de vida europeu.

Otimista, o Mantega!

O Brasil ocupa hoje a 84ª posição entre 187 países no ranking de desenvolvimento humano da ONU, divulgado em novembro passado. Tenho por mim que os gastos exorbitantes e injustificados da Presidência da República não contribuem para apressar o processo de nosso desenvolvimento humano. E não há como contê-los, pois quem o poderia fazer – o Legislativo e o Judiciário – só fazem por aumentar seus próprios gastos e mordomias… e o povo que se dane!

Com Dilma falando, sigilo pra quê?

Texto de José de Souza Castro:

“Tanta coisa acontecendo… Você não vai escrever sobre a Dilma?” Escuto o grilo falante, a voz da consciência. É preciso sair dessa letargia, desse estado de catatonia cívica, dessa descrença de tudo o que cheire a política. Romper o ceticismo. A incompreensão.

Preciso entender essa questão do sigilo nas obras da Copa do Mundo, por exemplo. Por que não recorrer à fonte limpa, se a própria presidenta se animou a dar uma entrevista coletiva, em Ribeirão Preto, para esclarecer tudo? Nem preciso escutar a gravação e correr o risco de recair no estado catatônico. Na Internet, há uma transcrição fiel (bota fiel nisso!) da entrevista. Debruço-me sobre o texto:

“Trata-se do seguinte. É inclusive integrante das melhores práticas do OCDE e da União Europeia. Pra evitar que a pessoa que está, o licitante, né, quem está fazendo a oferta, utilize a prática de elevação dos preços e de formação de cartel, qual é a técnica que se usa? Você não mostra pra ele qual o seu orçamento. Mas o, quem te fiscaliza sabe direitinho qual é o valor. Aí cê faz a licitação. Aí quiqui acontece? Ele não vai saber qual é o preço que cê acha que pode pagar. Isso significa que ele vai dar um preço menor. E se der fora de orçamento, o órgão de controle sabe que deu fora do orçamento. E além disso ocê explicita o orçamento na sequência. Eu lamento a má interpretação que se deram a esse ponto.”

[E eu que achava que o presidente Lula é que falava mal o português!] Mas Dilma Rousseff, o fruto bendito de uma brasileira com um búlgaro, uma simbiose linguística ímpar de mineirês com o gauchês, não desanima diante da cara de bobo dos repórteres. Ela é didática:

“Em momento algum se esconde o valor do órgão de controle, tanto interno quanto externo”, garante a presidenta. “Segundo: quem não sabe o valor é quem está dando o lance. Puqui que ele não sabe? Porque se ele souber que eu dou, vamos supor, vamos fazer uma hipótese, vamos supor que ele ache que é cem, um número cem, vamos supor que no orçamento do governo teja, esteja, 120. A hora que ele vê que é 120 o valor mínimo, ele vai pra 120. Este foi um recurso que nós usamos pra diminuir os preços das obras da Copa. Não há da parte do governo nenhum interesse em ocultá. Pelo contrário, de quem que não se oculta? Não se oculta da sociedade, depois que ocorreu o lance, e não se oculta, antes do lance, dos órgãos de controle.”

Ah, bom… Vamos ver se entendi: nas licitações do governo brasileiro, o preço ficou 20 reais maior, a cada 100 reais pagos, e a partir de agora ficará em 100, não mais em 120? Se o governo soubesse disso há mais tempo, a dívida pública interna não teria ultrapassado os R$ 1,6 trilhão… Ou não é nada disso, o problema são os juros altíssimos sobre a dívida astronômica? Como saber? É esse tipo de incompreensão dos pagadores de impostos que parece indignar nossa presidenta, que acrescenta na célebre entrevista:

“Eu sinto muito essa, essa má interpretação daquele artigo. E acredito que nada, é, que pode ser corrigido, porque as pessoas conversando elas esclarecem e cada uma vai explicar do que que entendeu, aonde que tá o problema, aonde que tá, porque também tem limite, não é possível chamar o governo de que está garantindo roubalheira ou qualquer coisa assim. Isso foi negociado com o TCU”.

Desisto. Não sei qual o pior, o sigilo ou o discurso da Dilma. Suponho que o Brasil vai agüentar a roubalheira: a dívida é ainda inferior ao PIB anual. Sediar a Copa do Mundo compensa o sacrifício (sonhei isso, ou ouvi na Globo?).