As três razões para meu voto

Como prometido, hoje vou escrever sobre meu voto. Apesar de muitos terem dito que eu não deveria declarar meu voto, por estarmos em um momento de muita agressividade na internet, acho que estas são eleições em que não podemos nos omitir, temos que tomar um partido, sair do muro, porque muita coisa está em jogo. Claro que não escrevo este post para aqueles que já estão convictos de seu voto (e todos têm seus motivos para escolher um ou outro candidato, que devem ser respeitados), mas para os que ainda estão abertos a mudar de opinião (ou tomar uma posição), a partir da reflexão. E, para contribuir com essa reflexão, trago uma planilha com diversos dados que coletei a partir de registros oficiais, além de mais de 70 links para notícias confiáveis, selecionadas a partir de critério jornalístico, que detalham o que escrevo ao longo do post, e que podem ser consultadas como fonte de informação. Espero que os leitores, mesmo os que discordem de mim, mantenham o respeito, como sempre mantiveram neste blog 😉

Decidi que vou votar 13, ou seja, pela reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT). Por três razões principais:

  1. Porque seu governo conseguiu conquistas importantes em algumas áreas;
  2. Porque as principais críticas que são feitas ao governo perdem força se comparadas com o governo de Fernando Henrique Cardoso, último presidente da República filiado ao PSDB;
  3. Porque, embora eu considere a alternância de poder muito importante para uma democracia, não acho o princípio válido quando a alternativa é Aécio Neves, personagem que venho acompanhando de perto desde que assumiu o governo de Minas pela primeira vez, em 2003.

Passo a explicar melhor cada uma dessas razões.

1) Para mim, as melhores conquistas do governo Dilma, que foi um governo de continuidade do Lula, dizem respeito:

Para mim, é uma conquista impressionante que o número de miseráveis e de subnutridos no meu país tenha sido reduzido tão consideravelmente em tão pouco tempo. Me parece que isso só foi possível por ter havido uma política de Estado que priorizou isso, antes de qualquer outra coisa. Vejo que a vida do povo, de modo geral, melhorou muito, com o acesso ao ensino superior e a bens de consumo importantes. No campo da economia, a cartilha desenvolvimentista seguida pelo governo de Dilma tem sido defendida por Bancos Centrais de todo o mundo, e os neoliberais, da linha de Armínio Fraga, estão começando a perder espaço.


2) A inflação está nas alturas? O crescimento está baixíssimo? A cesta básica está impossível de pagar? A Petrobras está sucateada? Não é o que os números me mostram, pelo menos não dessa forma tão trágica como vem sendo alardeada pelos defensores do Estado mínimo.

Vamos aos fatos:

  • a inflação no mês passado foi de 0,57%. No mesmo mês de 1998 (primeiro mandato de FHC), houve deflação de 0,22%. No mesmo mês de 2002 (segundo mandato de FHC), foi de 0,72%.
  • O ano de 1998 fechou com inflação de 1,65%. Já em 2002, fechou a 12,53% (o governo FHC já tinha conseguido reduzir a hiperinflação a quase zero, que foi seu grande mérito no primeiro mandato, então não é mais válido o argumento de que a inflação estava a 1000% antes de chegar a 12,5%; no segundo mandato, o presidente do Banco Central, responsável direto pelo controle da inflação, era Armínio Fraga, que Aécio escolheu agora como seu ministro da Fazenda). Em 2013, fechou a 5,91% (abaixo do teto da meta) e o acumulado nos últimos 12 meses está em 6,75%.
  • Uma das razões para o aumento da pressão sobre os preços nesta época do ano é a prolongada seca (veja AQUI também); portanto, há chances de o ano fechar com inflação dentro da meta estipulada pelo BC, como em todos os outros anos do atual governo (2011, 2012 e 2013).
  • Considerando a média da inflação em todo o mandato, a do governo Dilma é a mais baixa desde o Plano Real, inclusive que as dos governos FHC e Lula.

O crescimento está terrível? Pibinho? Em relação ao crescimento chinês do governo Lula, está mesmo. Em relação ao governo FHC, não é bem assim.

  • O país cresceu 0,04% em 1998 (último ano do primeiro mandato de FHC) e 2,66% em 2002 (último ano do segundo mandato).
  • Em 2013, o crescimento foi de 2,49%. Em 2014, o acumulado em 12 meses está em 0,93%.
  • Gozado é que, pelo menos desde 2013, o PIB de Minas tem crescido ainda menos que a média nacional. E, sim, o Estado também foi prejudicado pela seca.

A cesta básica custa R$ 303,54 em Belo Horizonte (setembro), segundo o Dieese. Subiu muito em relação aos R$ 93,58 que custava em 1998, certo? Errado: graças ao aumento do salário mínimo, que saltou de R$ 130 (ou o equivalente a R$ 362,29, tendo em vista a inflação acumulada no período) para R$ 724, o trabalhador que gastava mais de 158 horas de trabalho para bancar esta cesta hoje gasta 92 horas, ainda segundo o Dieese.

A Petrobras, que tinha lucrado R$ 701,7 milhões em 1998 e R$ 8,089 bilhões em 2002, lucrou R$ 23,6 bilhões em 2013 (foi a empresa que mais lucrou no país em 2013, dentre todas as 313 de capital aberto) e, só no primeiro semestre de 2014, já lucrou R$ 10,4 bilhões. O valor de mercado da Petrobras caiu em relação ao auge que atingiu no governo Lula (de R$ 380 bilhões em 2010 para R$ 240 bilhões nesta semana). Mas era de R$ 15,5 bilhões em 2002. (Leia mais AQUI)

Também é legal comparar o olhar que o Brasil passou a ter no resto do mundo. Em 2002, tivemos que recorrer ao FMI para empréstimo de US$ 41 bilhões. Apenas três anos depois, Lula quitou a dívida, que estava em US$ 15 bi e, em 2009, tornou-se credor do organismo, emprestando US$ 14,5 bi para ajudar países em dificuldades financeiras. Em 2012, já no governo Dilma, o Brasil aumentou o aporte no FMI, enquanto fez exigências para que países em desenvolvimento tenham mais participação no Fundo. Esse histórico pode ser visto AQUI, em infográfico do jornal “O Globo”. É inquestionável como o Brasil cresceu aos olhos do mundo, passando a ser mais respeitado desde o governo Lula e o surgimento dos Brics, em 2006/2011, grupo que criou seu primeiro banco de desenvolvimento neste ano. Para ficar em um exemplo fácil, a Copa do Mundo, que todos diziam que seria caótica, foi vista como “a melhor dos últimos tempos” pelo britânico “Financial Times“.

Por fim, vale comparar a gestão da energia nos dois governos. Apesar de estarmos com os reservatórios com níveis inferiores aos de 2001, numa das secas mais prolongadas da história, não houve necessidade de racionamento de energia, nem houve apagão – como naquele ano, durante a gestão de FHC.

Não consegui reunir todos os dados que eu queria, porque isso é uma coisa que demanda tempo e isso tem-me faltado. Queria ter coletado mais informações e números, sobre educação e investigações da Polícia Federal, por exemplo, como o cineasta Pablo Villaça fez tão bem. Mas é possível ver estes indicadores acima e outros que encontrei, com as respectivas fontes para cada um deles, na planilha que montei. CLIQUE AQUI para acessá-la.


3) Se o PT e o PSDB nos enojam com o aparelhamento de Estado para benefício do partido — como demonstraram os escândalos do mensalão e este agora da Petrobras (que já resvalou em um dos ícones tucanos, Sérgio Guerra, e em todo o PSDB), e os escândalos do mensalão tucano (que tem como um dos réus Clésio Andrade, vice de Aécio no primeiro mandato e marido da atual presidente do TCE, Adriene Barbosa, que tomou posse como conselheira em 2006, indicada por Aécio quando Clésio ainda era seu vice), a máfia dos fiscais do ISS (que atinge as prefeituras de José Serra, Gilberto Kassab e Fernando Haddad), as propinas milionárias pagas pela Alstom e Siemens para ficarem com os trens e metrôs de São Paulo, além de dezenas de outros escândalos descobertos nos governo FHC, Lula, Dilma, Alckmin, Serra, Eduardo Azeredo e outros –, Aécio Neves me preocupa ainda mais porque, além de também ter aparelhado as estatais mineiras, como Cemig e Codemig, usou seu governo em Minas para benefício próprio ou de sua família, como podemos inferir pelas notícias sobre o aeroporto de Cláudio (e muitas outras práticas coronelistas em Cláudio, que incluem até suspeita de compra de votos), a pista de Montezuma, práticas de nepotismo, que podem ter favorecido diretamente empresas da família — tudo com a conivência completa do Ministério Público do Estado e do já citado TCE presidido por sua amiga, a mulher de Clésio Andrade — ou, muito antes, no início de sua carreira política, por Aécio ter sido nomeado diretor da Caixa por seu parente, que era ministro da Fazenda (e há suspeita de que ele tenha sido conivente, ou pelo menos omisso, em relação à Máfia das Lotecas).

Fora essa parte dos escândalos, que pode ser encontrada por qualquer eleitor que “der um Google” por aí, questiono (e não só eu!) a forma como ele governou Minas Gerais (direto do Rio de Janeiro, onde mais morou), com um choque de gestão questionadíssimo (ver AQUI e AQUI), com relatos de ter deixado um “Estado quebrado” para Anastasia, com educação sucateada (e salários abaixo do piso nacional, como se vê nesta carta de professores), investimentos em saúde e educação questionados na Justiça até hoje, falta de transparência, inclusive nos gastos com publicidade, que explodiram em seu governo e foram destinados, em parte, a empresas de telecomunicações de sua família (ou, agora, a contribuir para a campanha eleitoral, conforme entendimento do TSE), e construção de uma obra faraônica, a Cidade Administrativa, por R$ 1,2 bilhão, que já teve que ser reformada um ano depois de pronta; questiono sua nulidade como senador e, antes, como deputado; e não gosto de seus traços autoritários, ao sair processando tudo e todos, até o Google, o Twitter e blogueiros, só por publicarem informações ou opiniões que lhe desagradam. “Traços”, aliás, foi bondade minha, porque considero que muitas das ações do pessoal de Aécio foram tentativas claras de intimidação e de censura prévia, que não condizem com a democracia que estamos tentando construir para o Brasil. (Dois documentários já foram produzidos a respeito: veja AQUI e AQUI).

Ainda vale ressaltar que, embora os governos de Lula e de Dilma tenham apanhado de todos os lados, seja nas redes sociais, na blogosfera ou na imprensa, não tenho conhecimento de ações judiciais movidas por eles para tentar calar as pessoas ou os veículos de comunicação. Como esse assunto, da liberdade de expressão e de imprensa, me é muito caro, acho importante registrar essa diferença abissal entre os dois candidatos nesse assunto. Não se trata de corporativismo de jornalista, mas de um princípio básico da democracia. É importantíssimo, fundamental mesmo, que a imprensa — e as pessoas de um modo geral — sejam livres para se expressarem em uma democracia, porque só com a crítica pode haver evolução.

É tudo mentira? Conspiração da “blogosfera comunista” e da “esquerda caviar”? Bom, deixei os links de diversos jornais, com todos os matizes ideológicos, para que você tire suas próprias conclusões. Mas, lendo a análise de apenas um dos debates presidenciais, feita pela “Folha de S.Paulo” (que está longe de poder ser tachada como petista), é fácil verificar qual candidato distorceu mais o que disse, em detrimento da verdade. (Atenção, que tem o “não é bem assim” e o “é bem assim”.)

Para concluir, olhando para o futuro, como diz Aécio, não gosto da perspectiva de um Brasil presidido por um candidato que tem o apoio de Bolsonaro, RonaldoMarco Feliciano, Silas Malafaia e Levy Fidelix. Claro que Dilma também reúne a seu redor um monte de políticos das trevas, mas percebo que a nata do conservadorismo brasileiro, que apoiou o regime militar e elegeu Collor em 1989, está “fechada com Aécio“. E o PMDB, que já foi um bom partido e hoje está longe disso, estará com qualquer um dos dois (alguém se surpreende?).


Enfim. Quero, sim, que haja alternância de poder, queria que fosse possível uma presidência sem blocão com o PMDB, quero que esses escândalos parem de ocorrer com todos os partidos, quero que o Brasil continue crescendo mais e mais, mas não vejo como Aécio Neves possa ser aquela alternativa que muitas pessoas pensam que é.

Concorda comigo? Compartilhe o post 😀 Discorda? Espero que com argumentos e com educação 😉


Fecho o post com o necessário bom humor, que acho que deve prevalecer mesmo durante discussões ou em momentos de tensão 😀

paul

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A caixa-preta da Polícia Militar mineira

policia

Em 26 de novembro de 2012, um servente de pedreiro foi assassinado por policiais militares durante uma suposta troca de tiros no Aglomerado da Serra. O caso foi investigado pela Corregedoria da PM. Acompanhei de perto o episódio e, no dia 28, entrevistei uma liderança do aglomerado, que me explicou que o clima estava tenso desde a morte de tio e sobrinho em fevereiro de 2011, também por policiais.

Naquele mesmo dia, entrei com um pedido de informações para o Governo de Minas, usando a Lei de Acesso à Informação. Para quem não sabe, esta é uma lei de 2011 que permite a qualquer cidadão solicitar e receber dos órgãos e entidades públicos, de todas as esferas e Poderes, informações de interesse público.

Na minha solicitação, fiz os seguintes questionamentos:

“Gostaria de solicitar do governo de Minas, por meio de sua Polícia Militar, informações sobre: 1) quantas denúncias de agressão, letal ou não, a cidadãos, foram recebidas contra cada Batalhão da PM em Belo Horizonte, em 2012 e historicamente. 2) na lista, quantas dessas denúncias dizem respeito a agressão letal. 3) dessas denúncias, quantas foram apuradas pela Corregedoria de Polícia. 4) desses processos abertos, quantos resultaram em punição e quantas prisões de policiais denunciados ocorreram, por BPM.”

De acordo com a Lei de Acesso à Informação, “se a informação estiver disponível, ela deve ser entregue imediatamente ao solicitante. Caso não seja possível conceder o acesso imediato, o órgão ou entidade tem até 20 (vinte) dias para atender ao pedido, prazo que pode ser prorrogado por mais 10 (dez) dias, se houver justificativa expressa.”

Eu tinha a doce ilusão de que nossas polícias e nossa Secretaria de Estado de Defesa Social possuíam (ou possuem) um sistema informatizado, com registro de todos os crimes, em especial os cometidos por seus agentes. Ou seja, os 30 dias de prazo previstos pela Lei de Acesso à Informação seriam mais que suficientes para tabular o que foi pedido por mim, considerando apenas os batalhões de Belo Horizonte, pelo menos no que diz respeito ao ano de 2012.

Mas, como eu disse, isso é uma doce ilusão.

No dia 21 de janeiro de 2014, passados mais de um ano do meu pedido, portanto, o Controlador-Geral do Estado, Plínio Salgado, enviou um ofício para o Comandante-Geral da Polícia Militar, Márcio Martins Sant’Ana, pedindo resposta à minha demanda — dentre outras — em caráter de urgência, por estarem pendentes desde 2012.

A resposta da PM veio apenas em 20 de março, chegando até mim na última sexta-feira, dia 25 de abril, assinada pelo coronel da PM Renato Batista Carvalhais, Corregedor da instituição. Com 16 meses de atraso.

Em sua resposta, ele traz 13 parágrafos com justificativas sobre o funcionamento do sistema de informática da PM, dizendo que ainda não foi definido pela PM, passados mais de dois anos da promulgação da Lei de Acesso à Informação, os dados que serão classificados como se natureza sigilosa e concluindo: “nos vemos impossibilitados de atender à demanda apresentada”. Você pode ler os documentos clicando aí: Of 2146 Lei de acesso à Informação.

A resposta só não foi de todo perdida porque o corregedor disse, a certa altura, que o sistema de Procedimento Administrativo Disciplinar Informatizado (PADI) registrou, em 2012, 293 casos de agressões cometidas por policiais, 71 fatos de lesão corporal, 8 de tentativa de homicídio e 23 de homicídio consumado. Em 2013, o mesmo sistema registrou 285 agressões, 19 fatos de lesão corporal, 3 tentativas de homicídio e 9 homicídios consumados.

Há ainda fatos registrados nos dados do Sistema Informatizado de Recursos Humanos (SIRH), que não foram informados na resposta.

Não foi esclarecido se esses fatos registrados no sistema PADI são de todo o Estado, se são ocorrências em investigação pela corregedoria e qual a diferença entre o sistema PADI e o SIRH. Muito menos foi respondido o que perguntei, sobre o nível de letalidade dos nossos batalhões, sobre quantos processos terminaram com investigação e quantos culminaram em uma punição etc.

Assim, sabemos apenas que houve 32 homicídios provocados por policiais militares em dois anos, provavelmente em todo o Estado, que chegaram ao sistema da Corregedoria da PM. De um total de quantos? Não fazemos ideia.

O que podemos concluir disso tudo? Primeiro, que a Lei de Acesso à Informação ainda é tratada como piada pelos nossos órgãos públicos (lembrem-se de como foi a resposta que tive da BHTrans, no âmbito municipal). Segundo, que ainda não temos o direito de saber, como cidadãos, se a parcela de policiais que cometem crimes graves está sendo devidamente investigada e punida e qual é essa parcela. Ou mesmo se moramos perto de um batalhão que é significativamente mais violento que outro.

Tenho pra mim que é apenas com transparência que os problemas se resolvem. Em Minas, esta transparência parece inexistir.

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A caixa-preta da BHTrans (e a do governo de Minas)

caixapreta

Pouco depois que voltei a Beagá, ainda com o espírito de repórter de trânsito e transporte, abri três manifestações junto à Prefeitura de Belo Horizonte, solicitando, via Lei de Acesso à Informação (que vale pra qualquer cidadão comum), informações sobre o transporte público da cidade.

  1. No primeiro registro, pedi o relatório atualizado de índices, reclamações, denúncias e demais dados relacionados a cada uma das linhas de ônibus da cidade; punições aplicadas pela BHTrans para cada irregularidade; índice de atraso das linhas; quantidade de passageiros atendidos pelos ônibus de BH e comparação com números de 2011; índice de lentidão, principais vias congestionadas da cidade e comparação com 2011; gastos e investimentos da autarquia em 2012, por tipo.
  2. No segundo, pedi as infrações cometidas por motoristas de ônibus da capital, por tipo; quantidade de infrações e mais frequentes; quais linhas com mais infrações; as cometidas por trocadores de ônibus.
  3. No terceiro, pedi o número e detalhamento (carro/carro, carro/bicicleta, moto/bicicleta etc) de acidentes de trânsito em BH em 2012 e comparativo com 2011; as ruas onde houve mais acidentes e mais atropelamentos e as medidas adotadas nesses locais; quanto foi investido em 2012 em segurança de trânsito e campanhas educativas.

Meu foco era, naquele momento, principalmente o serviço prestado pelas linhas de ônibus, índice de congestionamento da cidade e índice de acidentes. Muito por causa de algumas matérias que eu tinha feito no G1 e também por já ter pedido os mesmos dados à CET, de São Paulo, em diversos momentos, e eles terem sido divulgados numa boa (muitos dos quais estavam disponíveis no site, como os índices de lentidão, o que me permitia tabular sozinha para fazer minhas reportagens).

Meus registros foram feitos em 3 de dezembro. No dia 28 de dezembro, recebi uma resposta dizendo que os “relatórios solicitados” estavam disponíveis na Ouvidoria-Geral do Município. Fui lá buscar. Referiam-se apenas ao primeiro registro e, mesmo assim, ainda estavam incompletos, sem os índices de lentidão, de atraso e quantidade de passageiros, dentre outros dados.

No dia 4 de janeiro, o assessor da presidência da BHTrans me procurou para agendar uma conversa pessoalmente. Por culpa mais minha que dele, tive que adiar a visita duas vezes e ela só aconteceu em 14 de março. Fui muito bem recebida, conversamos por bastante tempo sobre as políticas públicas da BHTrans para a cidade, mas a maioria dos dados que eu tinha solicitado não foram passados naquele momento. Outros, eles disseram que nem têm a medição, como os índices de congestionamento. Ficou combinado que os dados que mais me interessavam seriam passados para mim naquele mesmo dia, por email. No dia 19 de março, enviei o email reforçando os pedidos.

Nunca mais tive resposta. Depois, em 13 de maio, enviei um segundo email, também ignorado.

A Lei de Acesso à Informação, ainda tão pouco cumprida e subutilizada mesmo por jornalistas, prevê acesso imediato à informação solicitada ou, quando isso não for possível, um prazo de 20 dias, prorrogáveis por mais dez, para isso. E até hoje, passados sete meses, ainda não obtive todas as informações solicitadas.

Agora que os protestos tomaram conta das ruas da cidade e do país com um foco muito grande na qualidade e custo do transporte público, os pedidos feitos pela população e pelos jornalistas vão muito mais a fundo que os que eu fiz: querem ver os contratos, saber quais foram as propostas dos consórcios que participaram da última licitação, saber quanto lucram as empresas concessionárias do serviço público. Nada disso é informado e diz-se até mesmo que a própria BHTrans desconhece alguns desses dados. Oi? Ela não é o órgão público responsável por fiscalizar as empresas de ônibus da cidade? Ou então a BHTrans informa só percentuais, sem revelar os valores. O contrato em que o serviço se baseia também dá margem a vários problemas, por sua subjetividade.

Enfim, a caixa-preta continua vedada. E o que se mantém oculto pode esconder muitas falhas ou coisas mais graves, como corrupção ou benefícios indevidos a um consórcio em detrimento de outro. O usuário de um serviço em geral péssimo que se estrepe na outra ponta.

***

A Prefeitura ao menos tem um canal para registro de pedidos de informação e, embora demore ou deixe de prestar esclarecimentos, ao menos chegou alguma resposta. E achei surpreendentemente positivo me convidarem para a conversa na sede da BHTrans. Se quiserem registrar algum pedido de informação, CLIQUEM AQUI.

Já o Estado mineiro é muito pior. Solicitei em 28 de novembro duas informações à Secretaria de Estado de Defesa Social. A primeira delas foi respondida, com atraso e parcialmente, via publicação dos dados no site da pasta (mas não me mandaram nada por email avisando, etc). A segunda, muito mais importante para mim, jamais foi respondida por qualquer canal. Já se passaram mais de sete meses e nada. Meu protocolo continua guardado, esperançoso: 119552. O governo de Minas nunca foi transparente e eu ainda queria que cumprissem a Lei de Acesso à Informação… Sou mesmo uma ingênua. Quer registrar um pedido ao governo de Minas? Boa sorte! Sua tentativa pode ser feita CLICANDO AQUI.

Leia também:

  1. Plebiscito pra quê?
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Com Dilma falando, sigilo pra quê?

Texto de José de Souza Castro:

“Tanta coisa acontecendo… Você não vai escrever sobre a Dilma?” Escuto o grilo falante, a voz da consciência. É preciso sair dessa letargia, desse estado de catatonia cívica, dessa descrença de tudo o que cheire a política. Romper o ceticismo. A incompreensão.

Preciso entender essa questão do sigilo nas obras da Copa do Mundo, por exemplo. Por que não recorrer à fonte limpa, se a própria presidenta se animou a dar uma entrevista coletiva, em Ribeirão Preto, para esclarecer tudo? Nem preciso escutar a gravação e correr o risco de recair no estado catatônico. Na Internet, há uma transcrição fiel (bota fiel nisso!) da entrevista. Debruço-me sobre o texto:

“Trata-se do seguinte. É inclusive integrante das melhores práticas do OCDE e da União Europeia. Pra evitar que a pessoa que está, o licitante, né, quem está fazendo a oferta, utilize a prática de elevação dos preços e de formação de cartel, qual é a técnica que se usa? Você não mostra pra ele qual o seu orçamento. Mas o, quem te fiscaliza sabe direitinho qual é o valor. Aí cê faz a licitação. Aí quiqui acontece? Ele não vai saber qual é o preço que cê acha que pode pagar. Isso significa que ele vai dar um preço menor. E se der fora de orçamento, o órgão de controle sabe que deu fora do orçamento. E além disso ocê explicita o orçamento na sequência. Eu lamento a má interpretação que se deram a esse ponto.”

[E eu que achava que o presidente Lula é que falava mal o português!] Mas Dilma Rousseff, o fruto bendito de uma brasileira com um búlgaro, uma simbiose linguística ímpar de mineirês com o gauchês, não desanima diante da cara de bobo dos repórteres. Ela é didática:

“Em momento algum se esconde o valor do órgão de controle, tanto interno quanto externo”, garante a presidenta. “Segundo: quem não sabe o valor é quem está dando o lance. Puqui que ele não sabe? Porque se ele souber que eu dou, vamos supor, vamos fazer uma hipótese, vamos supor que ele ache que é cem, um número cem, vamos supor que no orçamento do governo teja, esteja, 120. A hora que ele vê que é 120 o valor mínimo, ele vai pra 120. Este foi um recurso que nós usamos pra diminuir os preços das obras da Copa. Não há da parte do governo nenhum interesse em ocultá. Pelo contrário, de quem que não se oculta? Não se oculta da sociedade, depois que ocorreu o lance, e não se oculta, antes do lance, dos órgãos de controle.”

Ah, bom… Vamos ver se entendi: nas licitações do governo brasileiro, o preço ficou 20 reais maior, a cada 100 reais pagos, e a partir de agora ficará em 100, não mais em 120? Se o governo soubesse disso há mais tempo, a dívida pública interna não teria ultrapassado os R$ 1,6 trilhão… Ou não é nada disso, o problema são os juros altíssimos sobre a dívida astronômica? Como saber? É esse tipo de incompreensão dos pagadores de impostos que parece indignar nossa presidenta, que acrescenta na célebre entrevista:

“Eu sinto muito essa, essa má interpretação daquele artigo. E acredito que nada, é, que pode ser corrigido, porque as pessoas conversando elas esclarecem e cada uma vai explicar do que que entendeu, aonde que tá o problema, aonde que tá, porque também tem limite, não é possível chamar o governo de que está garantindo roubalheira ou qualquer coisa assim. Isso foi negociado com o TCU”.

Desisto. Não sei qual o pior, o sigilo ou o discurso da Dilma. Suponho que o Brasil vai agüentar a roubalheira: a dívida é ainda inferior ao PIB anual. Sediar a Copa do Mundo compensa o sacrifício (sonhei isso, ou ouvi na Globo?).