Duros de matar – e a charge continua

Charge do ilustrador Nando Carvalho, do jornal "O Tempo"

Charge do ilustrador Nando Carvalho, do jornal “O Tempo”

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Conheci Wolinski, não sei se no final da década de 60 ou início de 1970, lendo “O Pasquim”. Este jornal nasceu em junho de 1969 para substituir “A Carapuça”, que era editado por Sérgio Porto – o Stanislaw Ponte Preta –, falecido no ano anterior. E morreu em novembro de 1991, no Rio, depois de enfrentar por muitos anos a ferocidade de censores oficiais que não tinham censo de humor.

Wolinski foi assassinado neste 7 de janeiro, em Paris, por desconhecidos igualmente mal-humorados que invadiram fortemente armados a redação do jornal satírico “Charlie Hebdo” e mataram ali outras 11 pessoas. Entre elas, quatro chargistas. Uma gente dura de matar.

Chamei os assassinos de mal-humorados. Não é um bom adjetivo, diante da gravidade do crime que cometeram. Vai muito além. A Associação Mundial de Jornais e o Fórum Mundial de Editores expressam isso bem melhor, na nota divulgada pouco depois do atentado em Paris:

“Com 61 jornalistas mortos em 2014 e o ano novo começando sob condições tão terríveis, nós observamos que um ataque desta natureza atinge o coração das liberdades que a imprensa da França defende tão apaixonadamente. Não é apenas um ataque contra a imprensa, mas também contra a sociedade e os valores pelos quais todos lutamos. Isto deve ser um alerta para todos nós nos impormos contra o crescente clima de ódio que ameaça fraturar nossa compreensão de democracia.”

A palavra democracia remete novamente a “O Pasquim”, que foi lançado no dia 26 de junho de 1969, com tiragem de 20 mil exemplares, exatamente 195 dias depois da publicação do Ato Institucional nº 5 que orientou o golpe militar de 1964 rumo a uma longa e sangrenta ditadura. E que instaurou a censura prévia e impôs uma coercitiva Lei de Imprensa ao país

Em novembro de 1970, depois que “O Pasquim” publicou uma sátira do quadro de D. Pedro I às margens do Ipiranga gritando “Eu quero mocotó” em vez de “Independência ou morte”, toda a equipe responsável pelo jornal foi em cana e só saiu da prisão em fevereiro de 1971.

Os militares que esperavam com a prisão matar o jornal se decepcionaram, pois ele continuou saindo com a ajuda de muitos colaboradores. Em alguns momentos, com mais de 200 mil exemplares.

É o que se espera que aconteça agora com o jornal francês, atacado, ao que parece, por causa de suas charges irreverentes do profeta Maomé.

“O Pasquim” só morreu três anos depois da Constituição de 1988. Já havia cumprido sua missão de castigar, pelo riso, os costumes vigentes durante a ditadura. E entrou para a história do jornalismo brasileiro, com os traços irreverentes de Jaguar, Henfil, Ziraldo, Millôr, Prósperi, Claudius, Fortuna, Gudacci, Redi, Laerte, Miguel Paiva, Angeli, Luscar, Coentro, Duayer, Nilson, Nani, Edgar Vasques, Lailson, Santiago, Mariano, Solda, Cláudio Paiva, Hubert, Alcy, Biratan, Mariza, Paulo e Chico Caruso, Bosc, Crumb, Quino, Steinberg.

E Wolinski.

Para rememorar tais nomes, me vali de um artigo de Gregório Macedo, comemorando os 40 anos de “O Pasquim”, em junho de 2009.

Aos ditadores, reacionários e fanáticos de toda ordem que buscam extirpar o humor da face da Terra, um aviso: não vão conseguir. Como mostra este artigo do “Portal O Tempo“, chargistas do Brasil e do mundo inteiro não se renderão.

Publicados no mesmo dia da matança…

Notável também o artigo do veterano jornalista brasileiro João Batista Natali sobre a história do jornal “Charlie Hebdo”. Ele nasceu de uma censura ao jornal satírico “Hara-Kiri”:

“Em novembro de 1970, morria aos quase 80 anos o general Charles de Gaulle, militar, estadista e ex-dirigente da Resistência à ocupação alemã. Ele se retirara, aposentado, numa pequena aldeia da Normandia, Colombey-les-Deux-Églises. O jornal satírico “Hara-Kiri” estampou em manchete: “Baile Trágico em Colombey: um morto.”

A publicação foi proibida de circular pelo então ministro do Interior, o gaullista conservador Raymond Marcellin, com o aval do então presidente Georges Pompidou, também gaullista.

Os jornalistas e cartunistas do jornal decidiram então contornar a proibição e lançaram o “Charlie Hebdo”, versão semanal do mensal “Charlie”, que mantinham em homenagem a Charles Brown, personagem de histórias em quadrinho do norte-americano Charles Schulz (1922-2000).”

Que o terror não venha jamais a matar esse Charlie! Que não aconteça com ele o mesmo que a “O Pasquim”, que só começou a morrer, já nos estertores da ditadura, quando terroristas passaram a incendiar bancas que vendiam esse jornal. Metade delas se submeteu à ameaça. As vendas despencaram. Mesmo assim, ele sobreviveu por mais alguns anos. Duro de matar!

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As três razões para meu voto

Como prometido, hoje vou escrever sobre meu voto. Apesar de muitos terem dito que eu não deveria declarar meu voto, por estarmos em um momento de muita agressividade na internet, acho que estas são eleições em que não podemos nos omitir, temos que tomar um partido, sair do muro, porque muita coisa está em jogo. Claro que não escrevo este post para aqueles que já estão convictos de seu voto (e todos têm seus motivos para escolher um ou outro candidato, que devem ser respeitados), mas para os que ainda estão abertos a mudar de opinião (ou tomar uma posição), a partir da reflexão. E, para contribuir com essa reflexão, trago uma planilha com diversos dados que coletei a partir de registros oficiais, além de mais de 70 links para notícias confiáveis, selecionadas a partir de critério jornalístico, que detalham o que escrevo ao longo do post, e que podem ser consultadas como fonte de informação. Espero que os leitores, mesmo os que discordem de mim, mantenham o respeito, como sempre mantiveram neste blog 😉

Decidi que vou votar 13, ou seja, pela reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT). Por três razões principais:

  1. Porque seu governo conseguiu conquistas importantes em algumas áreas;
  2. Porque as principais críticas que são feitas ao governo perdem força se comparadas com o governo de Fernando Henrique Cardoso, último presidente da República filiado ao PSDB;
  3. Porque, embora eu considere a alternância de poder muito importante para uma democracia, não acho o princípio válido quando a alternativa é Aécio Neves, personagem que venho acompanhando de perto desde que assumiu o governo de Minas pela primeira vez, em 2003.

Passo a explicar melhor cada uma dessas razões.

1) Para mim, as melhores conquistas do governo Dilma, que foi um governo de continuidade do Lula, dizem respeito:

Para mim, é uma conquista impressionante que o número de miseráveis e de subnutridos no meu país tenha sido reduzido tão consideravelmente em tão pouco tempo. Me parece que isso só foi possível por ter havido uma política de Estado que priorizou isso, antes de qualquer outra coisa. Vejo que a vida do povo, de modo geral, melhorou muito, com o acesso ao ensino superior e a bens de consumo importantes. No campo da economia, a cartilha desenvolvimentista seguida pelo governo de Dilma tem sido defendida por Bancos Centrais de todo o mundo, e os neoliberais, da linha de Armínio Fraga, estão começando a perder espaço.


2) A inflação está nas alturas? O crescimento está baixíssimo? A cesta básica está impossível de pagar? A Petrobras está sucateada? Não é o que os números me mostram, pelo menos não dessa forma tão trágica como vem sendo alardeada pelos defensores do Estado mínimo.

Vamos aos fatos:

  • a inflação no mês passado foi de 0,57%. No mesmo mês de 1998 (primeiro mandato de FHC), houve deflação de 0,22%. No mesmo mês de 2002 (segundo mandato de FHC), foi de 0,72%.
  • O ano de 1998 fechou com inflação de 1,65%. Já em 2002, fechou a 12,53% (o governo FHC já tinha conseguido reduzir a hiperinflação a quase zero, que foi seu grande mérito no primeiro mandato, então não é mais válido o argumento de que a inflação estava a 1000% antes de chegar a 12,5%; no segundo mandato, o presidente do Banco Central, responsável direto pelo controle da inflação, era Armínio Fraga, que Aécio escolheu agora como seu ministro da Fazenda). Em 2013, fechou a 5,91% (abaixo do teto da meta) e o acumulado nos últimos 12 meses está em 6,75%.
  • Uma das razões para o aumento da pressão sobre os preços nesta época do ano é a prolongada seca (veja AQUI também); portanto, há chances de o ano fechar com inflação dentro da meta estipulada pelo BC, como em todos os outros anos do atual governo (2011, 2012 e 2013).
  • Considerando a média da inflação em todo o mandato, a do governo Dilma é a mais baixa desde o Plano Real, inclusive que as dos governos FHC e Lula.

O crescimento está terrível? Pibinho? Em relação ao crescimento chinês do governo Lula, está mesmo. Em relação ao governo FHC, não é bem assim.

  • O país cresceu 0,04% em 1998 (último ano do primeiro mandato de FHC) e 2,66% em 2002 (último ano do segundo mandato).
  • Em 2013, o crescimento foi de 2,49%. Em 2014, o acumulado em 12 meses está em 0,93%.
  • Gozado é que, pelo menos desde 2013, o PIB de Minas tem crescido ainda menos que a média nacional. E, sim, o Estado também foi prejudicado pela seca.

A cesta básica custa R$ 303,54 em Belo Horizonte (setembro), segundo o Dieese. Subiu muito em relação aos R$ 93,58 que custava em 1998, certo? Errado: graças ao aumento do salário mínimo, que saltou de R$ 130 (ou o equivalente a R$ 362,29, tendo em vista a inflação acumulada no período) para R$ 724, o trabalhador que gastava mais de 158 horas de trabalho para bancar esta cesta hoje gasta 92 horas, ainda segundo o Dieese.

A Petrobras, que tinha lucrado R$ 701,7 milhões em 1998 e R$ 8,089 bilhões em 2002, lucrou R$ 23,6 bilhões em 2013 (foi a empresa que mais lucrou no país em 2013, dentre todas as 313 de capital aberto) e, só no primeiro semestre de 2014, já lucrou R$ 10,4 bilhões. O valor de mercado da Petrobras caiu em relação ao auge que atingiu no governo Lula (de R$ 380 bilhões em 2010 para R$ 240 bilhões nesta semana). Mas era de R$ 15,5 bilhões em 2002. (Leia mais AQUI)

Também é legal comparar o olhar que o Brasil passou a ter no resto do mundo. Em 2002, tivemos que recorrer ao FMI para empréstimo de US$ 41 bilhões. Apenas três anos depois, Lula quitou a dívida, que estava em US$ 15 bi e, em 2009, tornou-se credor do organismo, emprestando US$ 14,5 bi para ajudar países em dificuldades financeiras. Em 2012, já no governo Dilma, o Brasil aumentou o aporte no FMI, enquanto fez exigências para que países em desenvolvimento tenham mais participação no Fundo. Esse histórico pode ser visto AQUI, em infográfico do jornal “O Globo”. É inquestionável como o Brasil cresceu aos olhos do mundo, passando a ser mais respeitado desde o governo Lula e o surgimento dos Brics, em 2006/2011, grupo que criou seu primeiro banco de desenvolvimento neste ano. Para ficar em um exemplo fácil, a Copa do Mundo, que todos diziam que seria caótica, foi vista como “a melhor dos últimos tempos” pelo britânico “Financial Times“.

Por fim, vale comparar a gestão da energia nos dois governos. Apesar de estarmos com os reservatórios com níveis inferiores aos de 2001, numa das secas mais prolongadas da história, não houve necessidade de racionamento de energia, nem houve apagão – como naquele ano, durante a gestão de FHC.

Não consegui reunir todos os dados que eu queria, porque isso é uma coisa que demanda tempo e isso tem-me faltado. Queria ter coletado mais informações e números, sobre educação e investigações da Polícia Federal, por exemplo, como o cineasta Pablo Villaça fez tão bem. Mas é possível ver estes indicadores acima e outros que encontrei, com as respectivas fontes para cada um deles, na planilha que montei. CLIQUE AQUI para acessá-la.


3) Se o PT e o PSDB nos enojam com o aparelhamento de Estado para benefício do partido — como demonstraram os escândalos do mensalão e este agora da Petrobras (que já resvalou em um dos ícones tucanos, Sérgio Guerra, e em todo o PSDB), e os escândalos do mensalão tucano (que tem como um dos réus Clésio Andrade, vice de Aécio no primeiro mandato e marido da atual presidente do TCE, Adriene Barbosa, que tomou posse como conselheira em 2006, indicada por Aécio quando Clésio ainda era seu vice), a máfia dos fiscais do ISS (que atinge as prefeituras de José Serra, Gilberto Kassab e Fernando Haddad), as propinas milionárias pagas pela Alstom e Siemens para ficarem com os trens e metrôs de São Paulo, além de dezenas de outros escândalos descobertos nos governo FHC, Lula, Dilma, Alckmin, Serra, Eduardo Azeredo e outros –, Aécio Neves me preocupa ainda mais porque, além de também ter aparelhado as estatais mineiras, como Cemig e Codemig, usou seu governo em Minas para benefício próprio ou de sua família, como podemos inferir pelas notícias sobre o aeroporto de Cláudio (e muitas outras práticas coronelistas em Cláudio, que incluem até suspeita de compra de votos), a pista de Montezuma, práticas de nepotismo, que podem ter favorecido diretamente empresas da família — tudo com a conivência completa do Ministério Público do Estado e do já citado TCE presidido por sua amiga, a mulher de Clésio Andrade — ou, muito antes, no início de sua carreira política, por Aécio ter sido nomeado diretor da Caixa por seu parente, que era ministro da Fazenda (e há suspeita de que ele tenha sido conivente, ou pelo menos omisso, em relação à Máfia das Lotecas).

Fora essa parte dos escândalos, que pode ser encontrada por qualquer eleitor que “der um Google” por aí, questiono (e não só eu!) a forma como ele governou Minas Gerais (direto do Rio de Janeiro, onde mais morou), com um choque de gestão questionadíssimo (ver AQUI e AQUI), com relatos de ter deixado um “Estado quebrado” para Anastasia, com educação sucateada (e salários abaixo do piso nacional, como se vê nesta carta de professores), investimentos em saúde e educação questionados na Justiça até hoje, falta de transparência, inclusive nos gastos com publicidade, que explodiram em seu governo e foram destinados, em parte, a empresas de telecomunicações de sua família (ou, agora, a contribuir para a campanha eleitoral, conforme entendimento do TSE), e construção de uma obra faraônica, a Cidade Administrativa, por R$ 1,2 bilhão, que já teve que ser reformada um ano depois de pronta; questiono sua nulidade como senador e, antes, como deputado; e não gosto de seus traços autoritários, ao sair processando tudo e todos, até o Google, o Twitter e blogueiros, só por publicarem informações ou opiniões que lhe desagradam. “Traços”, aliás, foi bondade minha, porque considero que muitas das ações do pessoal de Aécio foram tentativas claras de intimidação e de censura prévia, que não condizem com a democracia que estamos tentando construir para o Brasil. (Dois documentários já foram produzidos a respeito: veja AQUI e AQUI).

Ainda vale ressaltar que, embora os governos de Lula e de Dilma tenham apanhado de todos os lados, seja nas redes sociais, na blogosfera ou na imprensa, não tenho conhecimento de ações judiciais movidas por eles para tentar calar as pessoas ou os veículos de comunicação. Como esse assunto, da liberdade de expressão e de imprensa, me é muito caro, acho importante registrar essa diferença abissal entre os dois candidatos nesse assunto. Não se trata de corporativismo de jornalista, mas de um princípio básico da democracia. É importantíssimo, fundamental mesmo, que a imprensa — e as pessoas de um modo geral — sejam livres para se expressarem em uma democracia, porque só com a crítica pode haver evolução.

É tudo mentira? Conspiração da “blogosfera comunista” e da “esquerda caviar”? Bom, deixei os links de diversos jornais, com todos os matizes ideológicos, para que você tire suas próprias conclusões. Mas, lendo a análise de apenas um dos debates presidenciais, feita pela “Folha de S.Paulo” (que está longe de poder ser tachada como petista), é fácil verificar qual candidato distorceu mais o que disse, em detrimento da verdade. (Atenção, que tem o “não é bem assim” e o “é bem assim”.)

Para concluir, olhando para o futuro, como diz Aécio, não gosto da perspectiva de um Brasil presidido por um candidato que tem o apoio de Bolsonaro, RonaldoMarco Feliciano, Silas Malafaia e Levy Fidelix. Claro que Dilma também reúne a seu redor um monte de políticos das trevas, mas percebo que a nata do conservadorismo brasileiro, que apoiou o regime militar e elegeu Collor em 1989, está “fechada com Aécio“. E o PMDB, que já foi um bom partido e hoje está longe disso, estará com qualquer um dos dois (alguém se surpreende?).


Enfim. Quero, sim, que haja alternância de poder, queria que fosse possível uma presidência sem blocão com o PMDB, quero que esses escândalos parem de ocorrer com todos os partidos, quero que o Brasil continue crescendo mais e mais, mas não vejo como Aécio Neves possa ser aquela alternativa que muitas pessoas pensam que é.

Concorda comigo? Compartilhe o post 😀 Discorda? Espero que com argumentos e com educação 😉


Fecho o post com o necessário bom humor, que acho que deve prevalecer mesmo durante discussões ou em momentos de tensão 😀

paul

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Aécio Neves contra 66 usuários do Twitter

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Não dá mais para ficar alienada, nem um pouquinho. Como avisei por aqui, fiquei desconectada do mundo desde a quarta-feira da semana passada. Sem ler jornal, numa ilha onde mal funcionava a internet, onde não podia entrar nenhum carro (quatro dias sem ver carros!), onde eu mantive a televisão devidamente desligada (só liguei para ver as vitórias do Galo sobre o Palmeiras e o Botafogo). Pois é. Quando volto, descubro que:

  • houve um atentado terrorista no Chile, deixando 14 feridos num metrô;
  • um monte de figuras públicas importantes foram denunciadas por supostamente terem desviado recursos da Petrobras;
  • um presidenciável acionou a Justiça pela quarta vez, contra rede social, para identificar “detratores”.

Das três notícias bombásticas, a terceira me afeta mais diretamente, porque diz respeito à minha bandeira particular, da liberdade de expressão e de imprensa. Não é de hoje que acompanho o uso da máquina do judiciário para coibir a livre expressão e a livre imprensa e, em alguns casos, tentar promover a censura.

O primeiro caso que acompanhei, lá atrás, em 2006, foi o do jornalista Lucas Figueiredo. Um resumo da ópera pode ser lido AQUI. Em 2008, acompanhei a orquestração judicial movida pela Igreja Universal do Reino de Deus contra o jornal “Folha de S.Paulo”. Pode ser relembrada AQUI. Mais tarde, em 2012, houve mais dois casos de censura pela via judicial, como se vê AQUI e AQUI. Meu blog já foi alvo de tentativas de censura similares em duas ocasiões, como se vê AQUI e AQUI. E, mais recentemente, o chargista Duke, do jornal “O Tempo”, de quem sou fã, começou a passar pela via-crúcis, como pode ser lido AQUI.

Enfim, é um tema que me é bastante caro. Por isso achei que valia a pena registrar aqui no blog que o candidato Aécio Neves (PSDB) mais uma vez se valeu do judiciário para pedir ao Twitter para revelar os perfis de 66 usuários — entre os quais ao menos alguns jornalistas, uma professora universitária, um escritor e um cineasta –, sem avisá-los, e sob segredo de Justiça.

O pedido pode ser lido na íntegra abaixo:

O jornal “Folha de S.Paulo” fez uma reportagem sobre o assunto (creio que o único jornal, até o momento), que saiu na edição de hoje e pode ser lida AQUI. Segundo o jornal paulista, “o magistrado Helmer Augusto Toqueton Amaral determinou que a banca do tucano envie relatórios comprovando a publicação de calúnias ou difamações contra Aécio nesses perfis. Ele rejeitou pedido do tucano para que a ação tramitasse em segredo de Justiça e para que os usuários não fossem avisados sobre o procedimento”. É graças a essa decisão inicial que diversos blogs e outros perfis no Twitter e de outras redes sociais tomaram conhecimento da ação e vêm repercutindo tudo desde o dia 7 de setembro.

Como eu estava desconectada, só fui tomar conhecimento ontem, e só hoje fui ler as coisas com calma, junto com as graves denúncias sobre os desvios na Petrobras e o grave atentado ao metrô do Chile. Me surpreendi ao constatar que há, entre os 66 perfis de Twitter, até o perfil oficial do site “Diário do Centro do Mundo“, do jornalista Paulo Nogueira, que é vinculado ao portal iG. E o do jornalista Altamiro Borges. E de ao menos duas pessoas que não conheço, mas com quem sempre interajo no Twitter e posso garantir que não são um “robô”, como sugere a ação, a Cássia V.F. e a Beatriz Amorim. Ou seja, há, entre os 66 “detratores orquestrados”, jornalistas e outros seres pensantes, que simplesmente exercem seu direito sagrado e constitucional de livre manifestação. Possivelmente muitos desses perfis nem atingem muitas pessoas, e tampouco causariam grande “estrago” à imagem de Aécio Neves, caso se dediquem exclusivamente a publicar notícias ou análises contrárias aos interesses do candidato tucano.

Na minha opinião, o que causa estragos mesmo é essa insistência do candidato em pedir que o Google, o Yahoo!, o Bing, o Twitter etc, vigiem usuários/cidadãos que têm o direito de não gostarem de algumas informações já divulgadas por diversas vias e que desabonam o candidato. E olha que esta opinião é partilhada por especialistas, como pode ser lido nesta reportagem da maio, ainda da “Folha de S.Paulo”. Sou sempre favorável aos que conseguem aceitar que uma democracia só se sustenta se houver liberdade para se fazer críticas e apontar malfeitos — que são alguns dos papéis da imprensa.

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A notícia mais triste do dia 10.2.2014

Agência O Globo

Agência O Globo

A quatro meses da Copa,
o protesto é só por tarifa
Vai cobrir, longe da tropa
que já cegou jornalista.

Ele é os olhos do Brasil,
câmera a postos, filma tudo
Atento às brigas em frente
Às costas, fica sem escudo.

(Sem máscara, capacete, colete,
porque os veículos de imprensa
desconhecem a CLT
e o artigo 166 dispensam)

Explode o vulcão, cai a lava.
Morre o homem Santiago Andrade
Pai de quatro, 49 de idade
Morre o homem que só trabalhava
Um jornalista em plena atividade

Estava no lugar errado?
Ou foi o alvo premeditado
dos que protestam contra a imprensa
chutando  o lado assalariado?

Outros 117 jornalistas feridos
desde junho do ano passado
um cego, um surdo e agredidos
por polícia ou manifestante armados
(É bom que mudos não tenham ficado.)

Uma caixa de rojão:
Setenta reais.
Uma arma de borracha:
de graça, a policiais.

(Um cérebro pensante
— explodido —
já não informa mais.)

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De novo, mais um caso de tentativa de censura à imprensa

dukecensurado

Quem acompanha este blog desde os primórdios (ou me acompanha desde os primeiros blogs) sabe que não transigimos com nenhuma tentativa de censura à liberdade de imprensa, de expressão e de opinião. Várias vezes tivemos que abordar o assunto neste espaço, e nós mesmos já fomos vítimas de tentativas de cerceamento  intimidação, ao longo dos anos (leia no pé do post). Trata-se da maior e mais antiga bandeira que eu e meu pai carregamos por esta internet.

Por isso não podíamos deixar de registrar uma decisão judicial absurda, que obriga o chargista Duke, do jornal “O Tempo”, e a Sempre Editora, responsável pelo periódico, a indenizarem em R$ 15 mil cada um árbitro de futebol que se sentiu ofendido por uma charge. Detalhe: o árbitro em questão também é assessor jurídico da 11ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, mesmíssimo lugar onde o caso foi julgado.

Ninguém melhor que o próprio Duke para relatar o fato, como ele fez em sua página do Facebook, no dia 24 último. Um trecho:

A charge se refere ao jogo Cruzeiro x Ipatinga pelo Campeonato Mineiro de 2010, em que foram cometidos pelo juiz quatro erros bisonhos contra o Ipatinga. A arbitragem neste jogo foi tratada por toda a imprensa como vergonhosa e desastrosa.
O caso foi julgado pela 11ª Câmara Cível, exatamente onde Ricardo Marques trabalha como assessor jurídico do presidente, o desembargador Wanderley Salgado de Paiva, que é conselheiro do Cruzeiro.
A 11ª Câmara Cível não só manteve a condenação em 1ª instância como mais que dobrou o valor da indenização.
O desembargador Wanderley Paiva, presente na sessão, se declarou impedido de julgar o caso por ser cruzeirense, não mencionou o fato de Ricardo Marques trabalhar na 11ª Câmara como seu assessor jurídico.
Vale ressaltar que o desembargador possui vários processos contra veículos de comunicação em Minas Gerais, incluindo rádios e TVs.
São fatos. Acho que ninguém poderá me processar agora apenas por relatar fatos, espero eu.
Da minha parte, fico temeroso pelos rumos que nosso país tem dado à liberdade de expressão e criação. Acho que este caso abre um precedente perigosíssimo para os chargistas, humoristas e jornalistas. Ainda nos resta tentar recurso no STJ, tenho esperança de que isso se reverta.
Caso se mantenha a condenação, serei obrigado a fazer uma vaquinha como o Genoíno e o Delúbio, pois tenho mulher e 3 filhos para sustentar, e o salário de chargista não é lá essas coisas.
A parte da “vaquinha” foi uma piada, ok? Pois não posso perder o humor mesmo estando abalado psicologicamente e emocionalmente.
O resto é tudo verdade.

A charge em questão é a seguinte:

chargedukeO caso completo pode ser lido AQUI e AQUI e a íntegra da decisão está AQUI.

Nem vem ao caso dizer que o Duke é um grande chargista, talentoso, engraçado, crítico e muito respeitado, cheio de seguidores e fãs. Porque o absurdo caberia mesmo se ele fosse um péssimo chargista. A liberdade de expressão e de imprensa é uma garantia constitucional de todos os brasileiros.

Acho difícil que essa condenação não seja derrubada pelo STJ, se o processo tiver que chegar até lá. Mas, enquanto isso, vamos fazer nossa parte de divulgar bastante, aos quatro ventos, tanto o teor da condenação quanto a charge, e sem esquecer do “nome aos bois”: o árbitro de futebol Ricardo Marques Ribeiro, o desembargador relator Marcos Lincoln e os demais desembargadores que votaram com ele, Alexandre Santiago e Mariza de Melo Porto. Essa deve ser uma bandeira de todo mundo que preze pela democracia real no país que, há 50 anos, recebia seu mais recente golpe de Estado.

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