A província

A fábula abaixo dispensa comentários complementares, porque já traz, por si só, reflexões poderosas a quem a lê. Foi escrita pelo meu amigo e professor Marcelo Soares, premiado jornalista da “Folha de S.Paulo”, que sabe muito sobre tudo. Ele publicou em sua página no Facebook e, com sua autorização, reproduzo o conto aqui no blog. Boa leitura! 😀


 

“A notícia de que terroristas atacaram o semanário francês “Charlie” e mataram seis cartunistas que trabalhavam na publicação abalou o mundo. Abalou também as maiores autoridades de uma distante província.

Mal se soube da notícia, houve uma reunião urgente entre o governador, o bispo local, o presidente do Legislativo e o diretor da escola secundária local.

— Fato lamentável, mas percebam que eles mexeram com o sagrado, e com o sagrado não se mexe — disse o bispo.

— De fato, leio que publicavam coisas ofensivas e de mau gosto –, disse o governador. — Passarinho que come pedra sabe a dor que lhe advém.

Ninguém queria que algo semelhante ocorresse em seu território, porém, e medidas drásticas precisariam ser tomadas. Não era por ser distante que a província estaria a salvo.

Esses terroristas não respeitam fronteiras, lembrou o diretor da escola. Nada os impediria de tomar um dos três ônibus que paravam toda semana na rodoviária local, orgulho da província, e matar a população inteira em poucos minutos caso se sentissem ofendidos por algo publicado na “Trombeta”, o jornal local – que, como todos na reunião sabiam, não tinha jeito.

O presidente do Legislativo, sem demora, teve a ideia de criar uma lei que evitasse as causas do ataque. A lei criava um guichê onde toda a população da distante província informaria coisas que achassem ofensivas e de mau gosto.

A partir do registro no Grande Livro das Ofensas, algo que ofendesse uma pessoa sequer não poderia mais ser dito ou visto naquela distante província.

As primeiras contribuições foram quase de consenso.

Não pode falar mal de qualquer religião, o que implicaria também que não se pode falar bem de qualquer religião porque há quem se ofenda com a religião alheia.

Não pode ficar falando dos parentes de ninguém, isso é consenso, e como todo mundo tem família fica proibido falar de quem quer que seja.

Não se pode citar um fato desfavorável sem citar todos os fatos desfavoráveis sobre quaisquer outras coisas que possam ser vistas como relacionadas ou opostas. Por exemplo: para poder dizer que Fulano roubou, se Fulano não for parente de ninguém, é preciso lembrar também que Beltrano roubou, Sicrano roubou e seguir a listagem até chegar a São Dimas, o Bom Ladrão da Bíblia (lembrança do bispo). Sem essa longa ponderação, não se pode citar fatos desfavoráveis. Reduziu-se muito a fofoca.

Não pode olhar para as mulheres na rua. Olhar para homem também não pode. As mulheres também ficam proibidas de usar roupas muito olháveis (o diretor da escola era pai da moça mais cobiçada da província), e os homens ficam proibidos de sair malvestidos. Lactantes ficam proibidas de amamentar em público. Dirigir a palavra a estranhos é proibido.

Não pode falar mal do time dos outros. Bem do próprio time também não se pode falar, porque dizer “meu time foi campeão” ofende quem torce para o time que perdeu. Os dois times locais, que todo domingo disputavam o clássico da província no ginásio, sob intensa torcida, saíram contentes.

O governador e o presidente do Legislativo incluíram a provisão de que não se pode falar mal de político. Não se poderia falar bem de político também, porque todo político é adversário de algum outro e falar bem de um implica desfavor a outro.

Um ponto contencioso foi o musical. Muitos propuseram vetar o pagode. Outros propuseram vetar o rock também. Ainda outros vetaram a bossa nova. O governador, em sua sabedoria, propôs vetar a música como um todo, e portanto não se ouve mais música naquela província.

Beijar na rua: não pode. Usar pochete: não pode. Andar sem camisa: não pode. Rir alto: não pode. Rir baixo: menos ainda. Falar difícil: elitismo, não pode. Falar fácil: coisa de burro, não pode. Contar o fim do filme a quem não viu: NÃO PODE. Ler livros em público: ofende quem não tem o hábito da leitura, portanto não pode. Ler livros escondido: é suspeito, não pode.

Foram semanas de intensa deliberação, quando inclusive o nome daquela província foi considerado inadequado, e portanto não poderia ser dito. Foi apagado dali para a frente de todos os registros, e por isso não o mencionamos aqui.

Ao final da deliberação, decidiu-se que, em nome da paz, nada mais poderia ser dito a respeito de coisa alguma.

Parece que todos foram felizes depois — não há registros para garantir, porém.”

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25 charges sobre o ataque terrorista em Paris e a liberdade de expressão

Na quarta-feira da semana passada — há exatamente uma semana, portanto — dois irmãos jihadistas declarados invadiram um semanário satírico de Paris, o “Charlie Hebdo”, e abriram fogo contra as pessoas que lá estavam, deixando 12 mortos. Dois dias depois, houve mais dois atos terroristas — cometidos pelos mesmos irmãos e por um terceiro homem, assumidamente ligado ao Estado Islâmico –, com reféns, que levaram a mais cinco mortes. Enquanto escrevo, o assunto começa a desaparecer aos poucos do noticiário e das conversas de bar. Para não deixá-lo morrer, publico abaixo 25 charges que selecionei de vários veículos ao longo da última semana, que abordam não só a tragédia em si, mas também um assunto muito caro a este blog: a liberdade de expressão.

Goste-se ou não do trabalho que era feito pelos cartunistas da “Charlie Hebdo”, eles tinham o direito de fazê-lo. Para mim, o que aconteceu em Paris acende uma luz vermelha que nos leva à seguinte reflexão: o mundo está tão sério, e se levando tão a sério, que as vítimas desta guerra que começa a se desenhar não são soldados ou chefes de Estado: são jornalistas e cartunistas, homens que lidam diariamente com a sátira, a ironia e o humor, por meio de traços e palavras. Não gosta do que desenham? Responda com um desenho também, ou com um texto, com algo no campo das artes e das ideias. Se responder na Justiça já me parece abusivo, os que apelaram ao fuzilamento sumário só me remetem a um homem das cavernas imaginário — e piorado.

Bom, vamos aos chargistas, que conseguem falar muito mais e melhor do que eu, usando bem menos palavras. Abro com a ilustração de Beto Trajano, feita especialmente para este blog, e sigo com minha favorita do Duke:

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Duros de matar – e a charge continua

Charge do ilustrador Nando Carvalho, do jornal "O Tempo"

Charge do ilustrador Nando Carvalho, do jornal “O Tempo”

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Conheci Wolinski, não sei se no final da década de 60 ou início de 1970, lendo “O Pasquim”. Este jornal nasceu em junho de 1969 para substituir “A Carapuça”, que era editado por Sérgio Porto – o Stanislaw Ponte Preta –, falecido no ano anterior. E morreu em novembro de 1991, no Rio, depois de enfrentar por muitos anos a ferocidade de censores oficiais que não tinham censo de humor.

Wolinski foi assassinado neste 7 de janeiro, em Paris, por desconhecidos igualmente mal-humorados que invadiram fortemente armados a redação do jornal satírico “Charlie Hebdo” e mataram ali outras 11 pessoas. Entre elas, quatro chargistas. Uma gente dura de matar.

Chamei os assassinos de mal-humorados. Não é um bom adjetivo, diante da gravidade do crime que cometeram. Vai muito além. A Associação Mundial de Jornais e o Fórum Mundial de Editores expressam isso bem melhor, na nota divulgada pouco depois do atentado em Paris:

“Com 61 jornalistas mortos em 2014 e o ano novo começando sob condições tão terríveis, nós observamos que um ataque desta natureza atinge o coração das liberdades que a imprensa da França defende tão apaixonadamente. Não é apenas um ataque contra a imprensa, mas também contra a sociedade e os valores pelos quais todos lutamos. Isto deve ser um alerta para todos nós nos impormos contra o crescente clima de ódio que ameaça fraturar nossa compreensão de democracia.”

A palavra democracia remete novamente a “O Pasquim”, que foi lançado no dia 26 de junho de 1969, com tiragem de 20 mil exemplares, exatamente 195 dias depois da publicação do Ato Institucional nº 5 que orientou o golpe militar de 1964 rumo a uma longa e sangrenta ditadura. E que instaurou a censura prévia e impôs uma coercitiva Lei de Imprensa ao país

Em novembro de 1970, depois que “O Pasquim” publicou uma sátira do quadro de D. Pedro I às margens do Ipiranga gritando “Eu quero mocotó” em vez de “Independência ou morte”, toda a equipe responsável pelo jornal foi em cana e só saiu da prisão em fevereiro de 1971.

Os militares que esperavam com a prisão matar o jornal se decepcionaram, pois ele continuou saindo com a ajuda de muitos colaboradores. Em alguns momentos, com mais de 200 mil exemplares.

É o que se espera que aconteça agora com o jornal francês, atacado, ao que parece, por causa de suas charges irreverentes do profeta Maomé.

“O Pasquim” só morreu três anos depois da Constituição de 1988. Já havia cumprido sua missão de castigar, pelo riso, os costumes vigentes durante a ditadura. E entrou para a história do jornalismo brasileiro, com os traços irreverentes de Jaguar, Henfil, Ziraldo, Millôr, Prósperi, Claudius, Fortuna, Gudacci, Redi, Laerte, Miguel Paiva, Angeli, Luscar, Coentro, Duayer, Nilson, Nani, Edgar Vasques, Lailson, Santiago, Mariano, Solda, Cláudio Paiva, Hubert, Alcy, Biratan, Mariza, Paulo e Chico Caruso, Bosc, Crumb, Quino, Steinberg.

E Wolinski.

Para rememorar tais nomes, me vali de um artigo de Gregório Macedo, comemorando os 40 anos de “O Pasquim”, em junho de 2009.

Aos ditadores, reacionários e fanáticos de toda ordem que buscam extirpar o humor da face da Terra, um aviso: não vão conseguir. Como mostra este artigo do “Portal O Tempo“, chargistas do Brasil e do mundo inteiro não se renderão.

Publicados no mesmo dia da matança…

Notável também o artigo do veterano jornalista brasileiro João Batista Natali sobre a história do jornal “Charlie Hebdo”. Ele nasceu de uma censura ao jornal satírico “Hara-Kiri”:

“Em novembro de 1970, morria aos quase 80 anos o general Charles de Gaulle, militar, estadista e ex-dirigente da Resistência à ocupação alemã. Ele se retirara, aposentado, numa pequena aldeia da Normandia, Colombey-les-Deux-Églises. O jornal satírico “Hara-Kiri” estampou em manchete: “Baile Trágico em Colombey: um morto.”

A publicação foi proibida de circular pelo então ministro do Interior, o gaullista conservador Raymond Marcellin, com o aval do então presidente Georges Pompidou, também gaullista.

Os jornalistas e cartunistas do jornal decidiram então contornar a proibição e lançaram o “Charlie Hebdo”, versão semanal do mensal “Charlie”, que mantinham em homenagem a Charles Brown, personagem de histórias em quadrinho do norte-americano Charles Schulz (1922-2000).”

Que o terror não venha jamais a matar esse Charlie! Que não aconteça com ele o mesmo que a “O Pasquim”, que só começou a morrer, já nos estertores da ditadura, quando terroristas passaram a incendiar bancas que vendiam esse jornal. Metade delas se submeteu à ameaça. As vendas despencaram. Mesmo assim, ele sobreviveu por mais alguns anos. Duro de matar!

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Os “democráticos” EUA — ditadura, guerra, tortura e prisão

O sempre genial Angeli, em charge de maio de 2011, na "Folha", sobre Guantánamo, local onde o país ainda pratica tortura em nome da defesa de sua democracia. Tortura, aliás, que o soldado Bradley Manning sofreu, enquanto esteve preso, por ter vazado documentos para o WikiLeaks. Nesta semana, ele foi condenado a 35 anos de prisão pelo crime que cometeu -- que, para muitos, foi um ato de heroísmo.

O sempre genial Angeli, em charge de maio de 2011, publicada na “Folha”, sobre Guantánamo, local onde o país ainda pratica tortura em nome da defesa de sua democracia. Tortura, aliás, que o soldado Bradley Manning sofreu, enquanto esteve preso, por ter vazado documentos para o WikiLeaks. Nesta semana, ele foi condenado a 35 anos de prisão pelo crime que cometeu — que, para muitos, foi um ato de heroísmo.

Já faz um tempo que quero retomar aqui no blog o assunto que me levou à blogosfera, há dez anos: a política internacional dos Estados Unidos e seu apoio a ditaduras perversas em nome (hoje) do “combate ao terrorismo”. Os últimos posts que escrevi (ou meu pai escreveu) a respeito do levante no Egito, da “Primavera Árabe”, do soldado Manning (que vazou os documentos usados pelo WikiLeaks) e de Edward Snowden (o atual herói da liberdade de informação) estão listados ao pé deste post.

Hoje trago um texto, escrito pelo meu pai para o editorial do jornal “Hoje em Dia” de hoje, que mescla todos esses assuntos, de forma bem clara e objetiva, como eu não conseguiria fazer. Reproduzo abaixo — e recomendo a leitura!

***

Texto escrito por José de Souza Castro:

A chamada “primavera árabe”, que levou à queda de antigas ditaduras no Norte da África, se transformou numa espécie de “inverno de nossa desesperança” dos que acreditavam na possibilidade de existência de um regime democrático no Egito. O sentimento é reforçado pela decisão da Justiça, anunciada ontem, quarta-feira (21), de livrar da prisão o ex-ditador Hosni Mubarak, que comandou o país entre 1981 e 2011, com forte apoio dos Estados Unidos.
Ainda não se sabe até que ponto esse apoio provocou a derrubada do primeiro presidente eleito da história do Egito, país onde vivem mais de 81 milhões de pessoas, a maioria islamitas. Após a queda do ditador, houve eleições democráticas e venceu o líder islamita Mohammed Mursi – que no dia 3 de julho foi derrubado do poder pelo Exército, que continua recebendo ajuda norte-americana de US$ 1 bilhão por ano. Desde a prisão de Mursi, em seguida ao golpe militar, mais de mil partidários foram mortos em manifestações exigindo a sua volta.
Enquanto isso, o governo Barack Obama prossegue em sua luta para preservar o sigilo de suas ações contra o terrorismo. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, elas estão centradas em ativistas islâmicos.
Ontem, a juíza Denise Lind, do tribunal militar de Fort Meade, no Estado de Maryland, condenou a 35 anos de prisão o soldado Bradley Manning e determinou sua expulsão das Forças Armadas dos Estados Unidos. Em 2010, Manning vazou milhares de documentos confidenciais da diplomacia e do Exército ao WikiLeaks, sobre a ação militar dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão.
O problema desses vazamentos é que eles destroem a ideia que a Casa Branca gostaria de repassar aos cidadãos norte-americanos e ao resto do mundo: a de que os Estados Unidos são os grandes defensores, os campeões da democracia. Não é o que pensam milhões de pessoas que vão tomando conhecimento do apoio dado no passado e ainda hoje a ditadores de inúmeros países, cuja principal credencial é declararem-se amigos dos Estados Unidos.
Os brasileiros sentiram isso na pele ao longo de sua história e ainda lutam por construir uma verdadeira democracia. É por isso que repercute tanto aqui a notícia da detenção, por nove horas, num aeroporto londrino, de David Miranda. Seu crime: ser namorado do jornalista britânico Glenn Greenwald, responsável pela publicação de documentos confidenciais obtidos pelo fugitivo norte-americano Edward Snowden, no jornal “The Guardian”.

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Onde você estava dez anos atrás?

Por ironia do destino, já que a Pizza Hut era um dos símbolos norte-americanos em Beagá, além do óbvio McDonalds, eu estava lá. Cercada de mórmons loiríssimos e engravatados, vindos dos Estados Unidos.

Mas, mais precisamente, cercada dos amigos que já me são amigos há mais de dez anos, para comemorar o aniversário da Natália, que perdeu a exclusividade sobre o dia 11 de setembro nas nossas vidas.

Tínhamos tido aulas mais cedo (não me lembro de quê, essas aulas não marcaram) e íamos ter aulas à tarde também, o famoso “retorno”. No meio-tempo, em vez de comer nos self-services baratos da vida, preferimos encarar o rodízio da pizzaria lá perto, já que era uma data especial.

Foi depois do almoço, quando já estávamos pagando, que vimos as cenas na televisão, tipo estas que ilustram o post. Os mórmons loiríssimos choravam. Minha primeira reação, junto com a amiga Ana Clara, antiamericanas revoltadas que éramos, foi de “Uau! Alguém está ferrando com os EUA! Quem será esse herói?”.

Mais tarde, soubemos das trocentas vítimas inocentes e relativizamos o júbilo. (Bem mais tarde, percebemos que os EUA usaram o ataque para iniciar uma guerra no Afeganistão e no Iraque, empoderar o banana do George W. Bush e dominar de várias formas as vidas dos americanos comuns, e nos demos conta da droga que tinha sido esse atentado.)

Lembro que naquele dia não houve aula. Ou matamos a aula da tarde, não sei. Só sei que era para ter sido a aula da Nina, ótima professora de geopolítica, e ela certamente gostaria de saber o que ficamos fazendo a tarde toda: conversando sobre aquela Terceira Guerra Mundial que se anunciava diante de nós. Ou de alguma outra mudança que, aos 16 anos, apenas deduzíamos de longe.

(E, aos 26, ainda não sei bem se e o que realmente mudou. Só sei que os EUA não são mais aquela potência da era Bush. E as revoltas que pipocam no mundo árabe não são mais as das guerras (embora aquela guerra iniciada por Bush ainda deixe vítimas até hoje), mas as populares, à 1968.)

Naquela tarde, conspirávamos, junto com a aniversariante do dia, sobre tudo o que estava por vir, sentados na escadaria do colégio. Perfeitos estudantes do mundo.

E vocês, o que estavam fazendo antes, durante e depois do atentado de 11 de setembro?