Glenn Greenwald aponta fraude na pesquisa Datafolha

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Texto escrito por José de Souza Castro:

Merda, quanto mais se mexe mais fede. Quem não conhece esse provérbio português? O Datafolha conhece, mas parece que não lhe deu importância, ao divulgar nesta quarta-feira, dia 20 de julho, a segunda versão de sua pesquisa revelada sábado e que deu à “Folha de S.Paulo” a manchete de domingo “mostrando” que 50% dos brasileiros querem a permanência de Michel Temer na Presidência da República e que só 3% preferem novas eleições neste ano para escolher o sucessor de Dilma Rousseff.

Quem se deu ao trabalho de ler essa versão diz que a única coisa que mudou da versão original foi essa frase que vem logo abaixo do título: “58% querem afastamento definitivo de Dilma Rousseff, e 60% são favoráveis a nova eleição”.

Fiz uma busca na segunda versão da pesquisa do Datafolha e a expressão “nova eleição” só aparece uma vez. Exatamente nessa frase. Ou seja, a questão não constava do questionário respondido pelos entrevistados na pesquisa. Continuar lendo

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Não se blinda Aécio Neves como antigamente

Aécio Neves em 10.3.2016. Foto: Lula Marques/ Agência PT

Aécio Neves em 10.3.2016. Foto: Lula Marques

Texto escrito por José de Souza Castro:

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) está às voltas com delações premiadas há algum tempo. O destaque dado pela imprensa à citação de seu nome pelo ex-senador Delcídio do Amaral (PT-MS), em março deste ano, e agora pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, indicado para o cargo pelo PMDB, não é proporcional à importância do ex-governador e senador de Minas, candidato tucano à presidência da República em 2014 e atual presidente do seu partido.

Por causa desse quase descaso, a imprensa tem sido acusada de blindar Aécio Neves. Se verdadeira a suspeita, está ficando cada vez mais difícil manter a blindagem.

Não era assim em 2010, quando chegou à Procuradoria Geral da República um inquérito contra Aécio Neves, acusado de ter conta no paraíso fiscal de Liechtenstein em nome de uma offshore. Passaram-se cinco anos e, em dezembro último, a denúncia dormia numa gaveta da PGR, sem que tão prolongado sono causasse estranheza a ninguém.

Dinheiro de político em offshore só começou a preocupar o atual Procurador Geral da República quando se viu obrigado a apresentar ao Supremo Tribunal Federal denúncia contra Eduardo Cunha. Continuar lendo

Os “democráticos” EUA — ditadura, guerra, tortura e prisão

O sempre genial Angeli, em charge de maio de 2011, na "Folha", sobre Guantánamo, local onde o país ainda pratica tortura em nome da defesa de sua democracia. Tortura, aliás, que o soldado Bradley Manning sofreu, enquanto esteve preso, por ter vazado documentos para o WikiLeaks. Nesta semana, ele foi condenado a 35 anos de prisão pelo crime que cometeu -- que, para muitos, foi um ato de heroísmo.

O sempre genial Angeli, em charge de maio de 2011, publicada na “Folha”, sobre Guantánamo, local onde o país ainda pratica tortura em nome da defesa de sua democracia. Tortura, aliás, que o soldado Bradley Manning sofreu, enquanto esteve preso, por ter vazado documentos para o WikiLeaks. Nesta semana, ele foi condenado a 35 anos de prisão pelo crime que cometeu — que, para muitos, foi um ato de heroísmo.

Já faz um tempo que quero retomar aqui no blog o assunto que me levou à blogosfera, há dez anos: a política internacional dos Estados Unidos e seu apoio a ditaduras perversas em nome (hoje) do “combate ao terrorismo”. Os últimos posts que escrevi (ou meu pai escreveu) a respeito do levante no Egito, da “Primavera Árabe”, do soldado Manning (que vazou os documentos usados pelo WikiLeaks) e de Edward Snowden (o atual herói da liberdade de informação) estão listados ao pé deste post.

Hoje trago um texto, escrito pelo meu pai para o editorial do jornal “Hoje em Dia” de hoje, que mescla todos esses assuntos, de forma bem clara e objetiva, como eu não conseguiria fazer. Reproduzo abaixo — e recomendo a leitura!

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Texto escrito por José de Souza Castro:

A chamada “primavera árabe”, que levou à queda de antigas ditaduras no Norte da África, se transformou numa espécie de “inverno de nossa desesperança” dos que acreditavam na possibilidade de existência de um regime democrático no Egito. O sentimento é reforçado pela decisão da Justiça, anunciada ontem, quarta-feira (21), de livrar da prisão o ex-ditador Hosni Mubarak, que comandou o país entre 1981 e 2011, com forte apoio dos Estados Unidos.
Ainda não se sabe até que ponto esse apoio provocou a derrubada do primeiro presidente eleito da história do Egito, país onde vivem mais de 81 milhões de pessoas, a maioria islamitas. Após a queda do ditador, houve eleições democráticas e venceu o líder islamita Mohammed Mursi – que no dia 3 de julho foi derrubado do poder pelo Exército, que continua recebendo ajuda norte-americana de US$ 1 bilhão por ano. Desde a prisão de Mursi, em seguida ao golpe militar, mais de mil partidários foram mortos em manifestações exigindo a sua volta.
Enquanto isso, o governo Barack Obama prossegue em sua luta para preservar o sigilo de suas ações contra o terrorismo. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, elas estão centradas em ativistas islâmicos.
Ontem, a juíza Denise Lind, do tribunal militar de Fort Meade, no Estado de Maryland, condenou a 35 anos de prisão o soldado Bradley Manning e determinou sua expulsão das Forças Armadas dos Estados Unidos. Em 2010, Manning vazou milhares de documentos confidenciais da diplomacia e do Exército ao WikiLeaks, sobre a ação militar dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão.
O problema desses vazamentos é que eles destroem a ideia que a Casa Branca gostaria de repassar aos cidadãos norte-americanos e ao resto do mundo: a de que os Estados Unidos são os grandes defensores, os campeões da democracia. Não é o que pensam milhões de pessoas que vão tomando conhecimento do apoio dado no passado e ainda hoje a ditadores de inúmeros países, cuja principal credencial é declararem-se amigos dos Estados Unidos.
Os brasileiros sentiram isso na pele ao longo de sua história e ainda lutam por construir uma verdadeira democracia. É por isso que repercute tanto aqui a notícia da detenção, por nove horas, num aeroporto londrino, de David Miranda. Seu crime: ser namorado do jornalista britânico Glenn Greenwald, responsável pela publicação de documentos confidenciais obtidos pelo fugitivo norte-americano Edward Snowden, no jornal “The Guardian”.

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