Não se blinda Aécio Neves como antigamente

Aécio Neves em 10.3.2016. Foto: Lula Marques/ Agência PT

Aécio Neves em 10.3.2016. Foto: Lula Marques

Texto escrito por José de Souza Castro:

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) está às voltas com delações premiadas há algum tempo. O destaque dado pela imprensa à citação de seu nome pelo ex-senador Delcídio do Amaral (PT-MS), em março deste ano, e agora pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, indicado para o cargo pelo PMDB, não é proporcional à importância do ex-governador e senador de Minas, candidato tucano à presidência da República em 2014 e atual presidente do seu partido.

Por causa desse quase descaso, a imprensa tem sido acusada de blindar Aécio Neves. Se verdadeira a suspeita, está ficando cada vez mais difícil manter a blindagem.

Não era assim em 2010, quando chegou à Procuradoria Geral da República um inquérito contra Aécio Neves, acusado de ter conta no paraíso fiscal de Liechtenstein em nome de uma offshore. Passaram-se cinco anos e, em dezembro último, a denúncia dormia numa gaveta da PGR, sem que tão prolongado sono causasse estranheza a ninguém.

Dinheiro de político em offshore só começou a preocupar o atual Procurador Geral da República quando se viu obrigado a apresentar ao Supremo Tribunal Federal denúncia contra Eduardo Cunha. Nesse momento, Rodrigo Janot já admitia que o uso de offshores visa esconder a verdadeira identidade dos titulares da conta, mantida, possivelmente, por dinheiro de procedência duvidosa.

Foto: Lula Marques

Foto: Lula Marques

Não é justo dizer que a imprensa sempre blindou o neto de Tancredo Neves. O caso do aeroporto de Cláudio, construído em terras desapropriadas pelo governo de Minas que pagou generosamente a um tio de Aécio e cuja chave era mantida em mãos de parente, foi divulgado – e não só pelos blogs “sujos”, como são chamados os que não rezam pela mesma cartilha da grande imprensa empresarial brasileira que faz oposição ao PT, a Lula e a Dilma.

Uma imprensa que teve inegável sucesso ao promover o impeachment da presidente Dilma Rousseff, depois de impedir que Luiz Inácio Lula da Silva assumisse o Ministério da Casa Civil, ajudada por um providencial vazamento de telefonema entre os dois, autorizado – o vazamento, não a escuta telefônica da Polícia Federal, no momento em que ela foi realizada – pelo juiz Sérgio Moro, da Lava Jato.

Vazamento recebido com euforia pela imprensa e pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, que se apressou a conceder liminar suspendendo a posse de Lula no ministério. Alegava-se que a nomeação era uma tentativa de blindar Lula, retirando-o da alçada de Sérgio Moro.

Aécio em 14.4.2016. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Aécio em 14.4.2016. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Estávamos em meados de março deste ano. Aécio foi um dos muitos que se aproveitaram desse vazamento, para reforçar sua oposição à adversária vitoriosa no segundo turno das eleições de 2014. Nessa reportagem de um jornal do Grupo Globo, o que mais se destaca na imprensa como oposição a Dilma, o presidente nacional do PSDB declarou, no dia 15 de março, que a presidente Dilma Rousseff “abdicou” de forma definitiva ao seu mandato, ao nomear o ex-presidente Lula como ministro da Casa Civil. Em nota, Aécio classificou de “absolutamente condenável” a nomeação de Lula e disse que isso, na área econômica, pode levar ao “populismo e à irresponsabilidade fiscal”.

O que nunca deve ter passado pela cabeça de Aécio é que outro vazamento lhe traria tanto constrangimento – e aos seus muitos amigos jornalistas. Refiro-me ao vazamento do depoimento de Sérgio Machado à Lava Jato, em troca de redução da própria pena.

Agora, todos correm a dizer o correto: as declarações de investigados na operação Lava Jato (que ultrapassaram em muito o âmbito das roubalheiras praticadas por petistas) não se constituem em verdade por si só. Elas devem ser investigadas e confirmadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público antes que sejam usadas para a condenação dos suspeitos. Pela Justiça e pela opinião pública.

Henrique Alves em foto de dezembro de 2014. Foo: Zeca Ribeiro/ Câmara dos Deputados

Henrique Alves em foto de dezembro de 2014. Foto: Zeca Ribeiro/ Câmara dos Deputados

O uso do cachimbo, porém, faz a boca torta. E a divulgação do depoimento de Sérgio Machado, mesmo sem a tal investigação e confirmação, provocou ontem mais uma baixa no governo Temer: a do ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, acusado pelo ex-presidente da Transpetro, em delação premiada divulgada nesta quarta-feira, dia 15. Sérgio Machado afirmou que repassou ao ministro R$ 1,55 milhão em propina, entre 2008 e 2014.

Encerro transcrevendo trecho de um artigo de Glenn Greenwald, jornalista respeitado internacionalmente, em seu blog (Intercept):

“Mas os efeitos da notícia bombástica de ontem foram muito além de Temer, envolvendo inúmeros outros políticos que estiveram liderando a luta pelo impeachment contra Dilma. Talvez o mais significante seja Aécio Neves, o candidato de centro-direita do PSDB derrotado por Dilma em 2014 e quem, como Senador, é um dos líderes entre os defensores do impeachment. Machado alegou que Aécio – que também já havia estado envolvido em escândalos de corrupção – recebeu e controlou R$ 1 milhão em doações ilegais de campanha. Descrever Aécio como figura central para a visão política dos manifestantes é subestimar sua importância. Por cerca de um ano, eles popularizaram a frase “Não é minha culpa: eu votei no Aécio”; chegaram a fazer camisetas e adesivos que orgulhosamente proclamavam isso:

camisa

Evidências de corrupção generalizada entre a classe política brasileira – não só no PT mas muito além dele – continuam a surgir, agora envolvendo aqueles que antidemocraticamente tomaram o poder em nome do combate a ela. Mas desde o impeachment de Dilma, o movimento de protestos desapareceu. Por alguma razão, o pessoal do “Vem Pra Rua” não está mais nas ruas exigindo o impeachment de Temer, ou a remoção de Aécio, ou a prisão de Jucá. Porque será? Para onde eles foram?”

Pois é, para onde foram? Não sou só eu que me pergunto isso:

Charge do Duke

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3 comentários sobre “Não se blinda Aécio Neves como antigamente

  1. Uma coisa que vai mudando na imprensa é a crise econômica. Sobre isso, é interessante o artigo da professora de Economia da USP, Laura Carvalho, na Folha de S.Paulo de ontem, que pode ser lido aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/laura-carvalho/2016/06/1782161-bela-recatada-e-do-lar.shtml. Trechos:

    ” A crise econômica brasileira também se mostrou uma oportunidade de ouro para bloquear agendas democráticas crescentes –das mulheres, dos movimentos sociais, das minorias e da juventude– e viabilizar uma agenda ideológica de redução do tamanho do Estado.”

    Cumprido seu papel político-ideológico, diz a autora, o noticiário sobre economia já pode “descansar nestas últimas páginas de jornal”. A economia e sua crise “sai das ruas para voltar a ser bela, recatada e do lar”.

    A Fundação Getúlio Vargas divulgou hoje a segunda prévia do Índice Geral de Preços, que mede a variação de preços entre 21 de maio e 10 de junho (governo Temer). Foi de 1,33%, o dobro do registrado 30 dias antes. O índice foi influenciado principalmente pelos preços do atacado: o IPA passou de 0,75% para 1,81%. E logo se verá o efeito disso no varejo. Dessa vez, a imprensa será mais recatada, e por isso talvez ninguém diga que é o pior índice desde tal ano.,

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  2. Como dito, não se blinda Aécio como antigamente. Sábado, 18 de junho, no “O Estado de S. Paulo”:
    http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/pedro-correa-diz-que-aecio-indicou-diretor-da-petrobras-que-pagou-propinas-para-padrinhos-politicos/

    Início da reportagem:

    “O ex-deputado Pedro Corrêa afirmou em depoimentos de sua delação premiada que o então deputado (hoje senador) Aécio Neves (PSDB-MG), foi um dos responsáveis pela indicação do diretor de Serviços da Petrobrás, Irani Varella, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Segundo Corrêa, Varella era responsável por conseguir “propinas com empresários para distribuir com seus padrinhos políticos” por meio de seu genro, identificado apelas como Alexandre.”

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  3. Mais uma vez, vai caindo a blindagem: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/06/1785714-socio-e-ex-presidente-da-oas-relatara-propina-em-obra-de-aecio-neves.shtml

    Trecho:
    “O empreiteiro Léo Pinheiro, sócio e ex-presidente da OAS, vai relatar, com base em documentos, que pagou suborno a auxiliares do então governador de Minas Gerais, o hoje senador Aécio Neves (PSDB), durante a construção da Cidade Administrativa.

    Trata-se da mais cara obra do tucano nos oito anos em que permaneceu à frente do Estado, entre 2003 e 2010.

    O relato de Pinheiro sobre o centro administrativo, um complexo inaugurado em 2010 para abrigar 20 mil funcionários públicos, faz parte do acordo de delação premiada que está sendo negociado com procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato de Curitiba e Brasília. O acordo ainda não foi assinado.

    Segundo Pinheiro, a OAS pagou 3% sobre o valor da obra a um dos principais auxiliares de Aécio, Oswaldo Borges da Costa Filho.

    Conhecido como Oswaldinho, ele é apontado por tucanos e opositores como o tesoureiro informal de seguidas campanhas de Aécio, entre 2002 e 2014.”

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