Glenn Greenwald aponta fraude na pesquisa Datafolha

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Texto escrito por José de Souza Castro:

Merda, quanto mais se mexe mais fede. Quem não conhece esse provérbio português? O Datafolha conhece, mas parece que não lhe deu importância, ao divulgar nesta quarta-feira, dia 20 de julho, a segunda versão de sua pesquisa revelada sábado e que deu à “Folha de S.Paulo” a manchete de domingo “mostrando” que 50% dos brasileiros querem a permanência de Michel Temer na Presidência da República e que só 3% preferem novas eleições neste ano para escolher o sucessor de Dilma Rousseff.

Quem se deu ao trabalho de ler essa versão diz que a única coisa que mudou da versão original foi essa frase que vem logo abaixo do título: “58% querem afastamento definitivo de Dilma Rousseff, e 60% são favoráveis a nova eleição”.

Fiz uma busca na segunda versão da pesquisa do Datafolha e a expressão “nova eleição” só aparece uma vez. Exatamente nessa frase. Ou seja, a questão não constava do questionário respondido pelos entrevistados na pesquisa.

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Conclusão do Tijolaço:

“O que está fraudando a boa-fé da opinião pública: a pesquisa publicada domingo ou o documento que o Datafolha divulga hoje com a afirmação de que “60% são favoráveis a nova eleição”? Ou não é fraude, é “ato falho” ou um grito de socorro de quem está sendo metido num estelionato estatístico?”

A manchete da Folha, no domingo, foi de imediato acompanhada pela grande imprensa e, em maior escala, nos blogs favoráveis ao impeachment de Dilma que será decidido pelo Senado no mês que vem.

Sem dúvida, um momento muito favorável para divulgação dessa pesquisa, a primeira que vem a público desde que Temer assumiu o governo para fazer tudo o que o grande capital mais deseja.

Os contrários ao impeachment perceberam o golpe e saíram a campo para desacreditar o Datafolha, do grupo Folha, que edita o jornal mais lido no país e também o maior portal, o UOL. Por exemplo, aqui e aqui.

Mas nenhum golpe à credibilidade do jornal e de seu instituto de pesquisa foi mais forte que o desfechado pelo “The Intercept” neste artigo que pode ser lido em inglês e em português.

O “Jornal do Brasil”, que já foi o jornal mais influente do país nas décadas de 1960 e 1970, mas que hoje não tem mais versão em papel, foi o único, até onde pude pesquisar, que noticiou o artigo de Glenn Greenwald e Erick Dau no “The Intercept”. O JB publicou no dia 20 reportagem com o título “‘The Intercept’: Jornal comete fraude jornalística com pesquisa manipulada visando alavancar Temer”.

Sites estrangeiros também reproduziram o artigo, caso do Polimedia Press e de Os truques da imprensa portuguesa. Neste se lê: “Glenn Greenwald, um dos mais respeitados jornalistas do mundo, denuncia a fraude jornalística cometida por Datafolha e Folha de São Paulo para impulsionar o Presidente Temer. Coisas que não passam na imprensa portuguesa”.

Poderia ter acrescentado, sem risco de errar: e nem na brasileira.

Curiosamente, a pesquisa “favorável” a Temer, desapareceu das páginas da Folha na quarta-feira, três dias depois de ter sido a “grande manchete” de domingo. Nada ali, em parte alguma. Nem no artigo de Elio Gaspari que afirma que “Antes mesmo de completar cem dias, Michel Temer conseguiu dar estabilidade ao seu governo. Começou da pior maneira possível, com um ministério pífio e contaminado, cercado de suspeitas e de ligações inconvenientes. A mágica tem um nome: calma, sangue frio ou mesmo serenidade.”

O velho jornalista nascido na Itália e que fez carreira no Brasil publica duas colunas semanais (domingo e quarta-feira) em dois jornais diferentes, Folha e O Globo, o que diz muito de seu prestígio com os mandachuvas da imprensa brasileira. Gaspari poderia ter reforçado sua alegoria a Temer com dados da pesquisa do Datafolha, mas não o fez. Será por quê?

Suponho que o faro jornalístico de Elio Gaspari percebeu, como diz o Tijolaço, a fraude. O problema é que muitos brasileiros que leram (ou ouviram) a notícia no domingo não se deram conta dela até hoje, inclusive senadores que vão julgar o impeachment de Dilma. Não era essa a aposta dos (ir)responsáveis pela “Folha de S.Paulo”, que não cuidam do que ainda resta de credibilidade no jornal que herdaram?

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3 comentários sobre “Glenn Greenwald aponta fraude na pesquisa Datafolha

  1. Quem se interessou pelo artigo deve se interessar também pelo novo artigo de Greenwald ( http://www.tijolaco.com.br/blog/the-intercept/ ) que reforça a fraude da Folha de S. Paulo. Trecho:

    “O que foi encontrado na versão original do documento – aparentemente retirada do ar de forma discreta pelo Datafolha – é de tirar o fôlego. Ficou comprovado que a matéria da Folha era uma fraude jornalística completa. A pergunta 14, encontrada na versão original, dizia:

    “Uma situação em que poderia haver novas eleições presidenciais no Brasil seria em caso de renúncia de Dilma Rousseff e Michel Temer a seus cargos. Você é a favor ou contra Michel Temer e Dilma Rousseff renunciarem para a convocação de novas eleições para a Presidência da República ainda neste ano?”

    Os dados não publicados pelo Datafolha mostram que 62% dos brasileiros são favoráveis à renúncia de Dilma e Temer, e à realização de novas eleições, enquanto 30% são contrários a essa solução. Isso significa que, ao contrário da afirmação da Folha de que apenas 3% querem novas eleições e 50% dos brasileiros querem a permanência de Temer como presidente até 2018 – ao menos 62% dos brasileiros, uma ampla maioria, querem a renúncia imediata de Temer.

    A situação é ainda pior para a Folha (e Temer): a porcentagem de eleitores que deseja a renúncia imediata de Temer é certamente muito maior do que esses 62%. A pergunta colocada pelo Datafolha era se os entrevistados eram favoráveis à renúncia de Temer /e Dilma/. Muitos dos que responderam “não” – conforme demonstrado pelos detalhes dos dados – são apoiadores do PT e/ou querem Lula como presidente em 2018, o que significa responderam que “não” porque querem que Dilma retorne, e não porque querem a permanência de Temer. Portanto – conforme concluído pelo Ibope em abril – apenas uma minoria dos eleitores querem Temer como presidente: exatamente o oposto da “informação” publicada pela Folha.”

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  2. Da ombudsman da Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa, neste domingo:

    A meu ver, o jornal cometeu grave erro de avaliação. Não se preocupou em explorar os diversos pontos de vista que o material permitia, de modo a manter postura jornalística equidistante das paixões políticas. Tendo a chance de reparar o erro, encastelou-se na lógica da praxe e da suposta falta de apelo noticioso.

    A reação pouco transparente, lenta e de quase desprezo às falhas e omissões apontadas maculou a imagem da Folha e de seu instituto de pesquisas. A Folha errou e persistiu no erro.

    Íntegra aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/paula-cesarino-costa-ombudsman/2016/07/1794799-a-folha-errou-e-persistiu-no-erro.shtml

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