Filho feio do nepotismo está de volta

Este slideshow necessita de JavaScript.

Texto escrito por José de Souza Castro:

No dia 17 de dezembro de 2011, este blog publicou artigo no qual eu comentava reportagem do jornal “Hoje em Dia” informando sobre abertura de processo disciplinar pela Corte Superior do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) contra o desembargador Alexandre Victor de Carvalho, acusado de ter empregado em seu gabinete, durante três anos e nove meses, uma funcionária fantasma, retendo para si parte do salário dela de R$ 7.500 mensais.

Hoje leio na “Folha de S.Paulo” que o mesmo desembargador é, digamos assim, reincidente em outro aspecto denunciado em meu texto: o nepotismo. Só para lembrar, o título do texto de 2011 era este: “Filho feio do nepotismo no Tribunal de Justiça de Minas”.

Revela a reportagem da “Folha”, assinada por Fábio Fabrini, repórter do jornal em Brasília: “Em interceptações telefônicas da Polícia Federal, o desembargador Alexandre Victor de Carvalho, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, propõe que o filho e a mulher dele atuem como funcionários públicos fantasmas, sem cumprir as cargas horárias exigidas para os cargos, e sugere até um esquema de “rachadinha” para dividir salário a ser pago pelo erário à sogra.”

Tal sogra é a mãe de Andreza, esposa do filho do desembargador, como se vê no texto do jornal paulista, em que o desembargador Carvalho propõe uma alternativa à nomeação do filho, se ele não quiser o cargo na Assembleia Legislativa: “Se o Guilherme não quiser, tem que ver alguém. Estava pensando na sua mãe, sabe? Aí, ela ficava com “trêszinho” [R$ 3.000, segundo a Polícia Federal] e você com “trêszinho”.

A reportagem se baseia em transcrição de áudios que constam de investigação iniciada em 2015, “cujo foco são supostos esquemas de corrupção e troca de favores envolvendo magistrados do segundo maior tribunal de Justiça do país”, esclarece Fabrini. Segundo as gravações feitas entre setembro e dezembro de 2015, o desembargador teria negociado com políticos e outros agentes do Estado empregos para os familiares.

A investigação tramita em sigilo no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Trata da nomeação do filho do desembargador, Guilherme Souza Victor de Carvalho, para um cargo comissionado na Câmara Municipal de Belo Horizonte, em substituição à mulher, Andreza Campos Victor de Carvalho, que ocupava esse mesmo posto e estava de partida para uma vaga na Assembleia Legislativa de MG. Ambos são advogados.

Acrescenta Fabrini: “O objetivo do desembargador, segundo a PF, era aumentar os rendimentos familiares. Em contrapartida, ele teria aberto espaço para que políticos lhe pedissem favores na corte. Além disso, teria apoiado a então advogada Alice Birchal para integrar a lista tríplice que disputaria a nomeação para uma vaga no TJ-MG, o que também seria de interesse de políticos”. [Nota da Cris: alguns políticos têm motivos para gostar do desembargador, como se vê AQUI].

E segue em frente:

“Na Câmara, a negociação foi feita com o então procurador-geral, Augusto Mário Menezes Paulino, que alerta o desembargador sobre a possibilidade de a nomeação na Assembleia configurar nepotismo cruzado. “Você acha que vale a pena arriscar?”, questiona o magistrado. “Acho que não, viu? Fica com uma bundona na janela danada”, responde o então procurador-geral. Apesar do risco alegado, os planos seguem adiante e o desembargador emplaca a mulher na Assembleia depois de, segundo as investigações, tratar do assunto em uma reunião com o então presidente do Legislativo mineiro, Adalclever Lopes (MDB). “Ela vai, o salário seria melhor e eu estaria precisando botar o Gui [filho] aí na Câmara”, diz o magistrado ao então procurador-geral. “Nos diálogos, o desembargador indica que os parentes não cumpririam as cargas horárias”.

O filho do desembargador, informa Fabrini, foi nomeado na Câmara Municipal em dezembro de 2015, com salário de R$ 9.300, e exerceu cargo de coordenador de Intermediação Operacional, substituindo Andreza. A carga horária prevista para essa função era de oito horas por dia, de segunda a sexta. Ele era dispensado de bater ponto. Também em 11 de novembro, o desembargador avisa a Andreza que já estava certa a sua nomeação na Assembleia, com salário líquido de R$ 8.000, e alega ser uma vantagem a falta de fiscalização de promotores sobre o cumprimento da jornada de trabalho. “É bom. Inclusive, na Assembleia não tem problema, na Assembleia o Ministério Público não faz nada. Você vai lá duas, três vezes por semana”, tranquiliza a Andreza o solícito sogro.

De fato, a nora do desembargador foi nomeada no dia 16 de novembro de 2015 como assessora da Presidência da Assembleia, com carga de seis horas diárias de trabalho, e permaneceu no cargo até setembro de 2017. O controle de frequência, segundo a Casa, cabe a cada gabinete.

A PF sustenta, informa ainda Fabrini, haver indícios de que o desembargador praticou corrupção passiva ao, supostamente, aceitar cargos públicos para os parentes. Num parecer de 2017, no entanto, o então vice-procurador geral eleitoral,  Nicolao Dino, discordou dessa imputação, justificando que as práticas caracterizariam crimes de menor potencial ofensivo, como advocacia administrativa.

A “Folha” não conseguiu apurar se houve decisão a esse respeito, pois o caso corre em sigilo. Segundo pessoa com acesso ao caso, o inquérito está em curso, com diligências em andamento.

O jornal paulista consultou o desembargador, a mulher e o filho por meio da assessoria de imprensa do TJMG. Em nota, o tribunal afirmou que o desembargador Alexandre Carvalho nunca negociou a nomeação do filho com o procurador da Câmara de BH, que o teria convidado espontaneamente para cargo na Casa. Ainda, que Andreza “efetivamente trabalhou na Assembleia de Minas e sua nomeação ocorreu dentro dos critérios legais, sem qualquer ilicitude”.

E prossegue a nota do TJMG:

“Em relação ao cumprimento do horário de trabalho, tanto Guilherme, na Câmara, quanto Andreza, na Assembleia, o fizeram perfeitamente. Inexiste o chamado nepotismo cruzado, pois não houve qualquer contratação no Judiciário mineiro de pessoa indicada pela Câmara ou pela Assembleia.”

Diante disso, nem me dei ao trabalho de pesquisar para saber em que deu aquele processo disciplinar aberto pela Corte Superior do Tribunal de Justiça de Minas Gerais em 2011… Resta esperar pela decisão do STJ sobre o caso agora revelado pelo jornal paulista. Como se diz (e o Lula parece acreditar nisso), a esperança é a última que morre.

Leia também:

 

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Anúncios

Nepotismo na Gasmig

Texto escrito por José de Souza Castro:

É preciso dar valor a quem tem. Comecemos com Antônio Eustáquio Andrade Ferreira, nascido em Patos de Minas em 1953. Aos 36 anos, depois de se formar engenheiro civil pela UFMG, elegeu-se prefeito de Vazante, pelo PMDB, partido ao qual se filiara dois anos antes e no qual continua. Agora, como vice-governador de Minas.

Uma trajetória que continuou como deputado estadual por 12 anos e como deputado federal de 2007 a 2015, com um interregno de um ano, até março de 2014, como ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do governo Dilma.

Político bem-sucedido e pai de três filhos: uma mulher, Aline, e dois homens, André e Eduardo. Aline é médica e atende no Hospital das Clínicas da UFMG, conforme se verifica numa pesquisa no Google. A menos que seja uma homônima.

André é engenheiro agrônomo, tendo se formado no curso de agronomia da Universidade Federal de Viçosa, em janeiro de 2009, como se vê AQUI.

Outra pesquisa revela um ato de exoneração de André de Lima Andrade Ferreira do “cargo em Comissão de Assessor Técnico Adjunto D-CNE, do Quadro de Pessoal da Câmara dos Deputados, que exerce no gabinete do Presidente”. Data da exoneração: 2 de outubro de 2006. Na véspera tinham sido realizadas as eleições, inclusive para a Câmara dos Deputados.

O agora vice-governador, Antônio Andrade, na época deputado estadual, elegera-se deputado federal. O presidente da Câmara era Aldo Rebelo, do PcdoB, e certamente não teria nomeado para seu gabinete alguém que deveria estar estudando em Viçosa, a 949 quilômetros de Brasília por rodovias.

O Curso de Agronomia no qual se formou André, o filho de Antônio Andrade, tem carga horária de 3.795 horas, distribuídas ao longo de oito semestres. Ou seja, alguém que se formou no início de 2009, deveria ter-se matriculado na UFV pelo menos em 2004. O que estaria fazendo no gabinete de Rabelo como Assessor Técnico Adjunto?

Um homônimo, por certo. Um comunista como Aldo Rebelo não iria participar de uma tramoia para empregar, em seu gabinete, o filho de um mero deputado estadual mineiro do PMDB. Um filho que deveria estar agarrado nos livros em Viçosa, desejoso, provavelmente, de cuidar depois da fazenda do pai.

Até aí, tudo bem. Tratemos então do terceiro filho do vice-governador. Pelo noticiário (por exemplo, AQUI e AQUI) sobre a nomeação de Eduardo Lima Andrade Ferreira para a presidência da Gasmig, não parece haver dúvida de que se trate de mais um homônimo. (Um matemático poderia nos dizer qual a probabilidade de ocorrerem homônimos em nome como este).

Eduardo tomou posse na importante estatal mineira no dia 23 de janeiro, apenas 23 dias depois da posse do pai como vice-governador. Trata-se de um engenheiro civil de 33 anos de idade. Raros os que, nessa idade, são alçados, por pura competência, ao cargo executivo mais alto de uma empresa que faturou em 2013, último balanço conhecido, algo como R$ 1,5 bilhão. E que deverá dobrar de tamanho, como se informou há um ano o site da revista “Exame“.

Pelo que se sabe, o primeiro emprego do engenheiro Eduardo data de 2004, conforme o site da Cemig, empresa controlada pelo governo de Minas e que controla a Gasmig. Lê-se que ele trabalhou “na Construtora Queiroz Galvão S/A, de 2007 a 2014, como engenheiro, gerente Técnico e gerente de Administração Contratual, em diversas obras no Estado do Rio de Janeiro e em São Paulo”. Ainda: nos dois anos anteriores ele foi engenheiro de planejamento na Sinopec International Petroleum Service Corporation) e, em 2004 e 2005, na empresa Masa-ARG.

O blog Jogo do Poder dá outra informação relevante: na Queiroz Galvão, Eduardo Lima Andrade Ferreira “participou do gerenciamento de contratos com a Petrobras das obras da Refinaria Duque de Caxias (RJ), da Refinaria Abreu e Lima (PE) e no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) entre outros projetos”.

Em tempos de Operação Lava Jato, não é uma informação cuja divulgação interesse ao governo de Minas. Entre os primeiros executivos de empresas contratadas pela Petrobras presos para averiguação estava o presidente da Queiroz Galvão, Ildefonso Colares Filho.

Quarenta dias antes da prisão de Ildefonso, Fernando Pimentel fora eleito governador de Minas, em primeiro turno. Por uma dessas coincidências, no mesmo dia, um dos ex-subordinados de Ildefonso, Eduardo Lima Andrade Ferreira, foi nomeado para a equipe de transição do governo de Minas.

Fernando Pimentel deve ter muita segurança de que o presidente da Gasmig não será envolvido na Lava Jato. Sua intenção, certamente, foi dar valor a quem tem…

O governador parece ter confiança em que a denúncia de nepotismo feita por adversários políticos não terá qualquer consequência, nem no Ministério Público e nem no Judiciário. Um outro poder, a imprensa, parece também não se interessar pelo caso.

Um caso em que também pouco se espera do presidente nacional do PSDB, aguerrido adversário do PT. Muito falante nos últimos tempos, há por parte dele um silêncio ensurdecedor, neste caso. Telhado de vidro? Na antiga diretoria da Gasmig havia um primo de Aécio…

Aliás, ele diz que aprendeu política com o avô Tancredo Neves. E quem leu “Sucursal das Incertezas“, disponível na biblioteca deste blog, se lembra que nepotismo não fazia parte de suas preocupações. Trecho, na página 160:

Eu lia no Minas Gerais, diário oficial, algumas nomeações interessantes. No meio do ano,[1983] colhera dados suficientes para a reportagem, que foi publicada no dia 7 de junho, com este lide:

O PMDB mineiro governa em família. Doente há mais de um mês num hospital de São Paulo, o secretário de Governo, Renato Azeredo, continua assinando os atos publicados diariamente no diário oficial do Estado, embora esteja sendo substituído pelo secretário-adjunto, Tancredo Augusto, filho do governador Tancredo Neves. O secretário particular do governador, Aécio Cunha Filho, é seu neto e filho do expresidente do PDS mineiro, Aécio Cunha. O filho do secretário de Governo, Eduardo Brandão Azeredo, aos 34 anos, é presidente da Prodemge (Companhia de Processamento de Dados do Estado de Minas Gerais). Para quem não sabe, a pessoa nomeada como Aécio Cunha Filho é o atual governador Aécio Neves da Cunha, filho do ex-deputado federal Aécio Ferreira da Cunha. Eduardo Brandão é Eduardo Brandão Azeredo, que na década de 90 elegeu-se governador e, em 2002, senador pelo PSDB mineiro.

Tancredo Neves, no Palácio da Liberdade, cumpria seu papel de patriarca. Nada mais do que aquilo que dele esperavam os membros de seu clã e os conhecedores da cultura brasileira. Ninguém temia qualquer reação do povo, que aceita sem reclamar o nepotismo e sempre demonstrou uma dependência infantilizada em relação ao governo – qualquer governo.

E pior que o nepotismo, na minha opinião, era o que planejava fazer, no ano passado, um governador tampão que, até onde se sabe, seguia a orientação política de Aécio Neves e de seu sucessor, Antonio Anastasia. Mas haverá quem ache que, em razão do nepotismo petista/peemedebista, melhor seria privatizar.

Como se em empresa privada não houvesse, em escala muito maior, o nepotismo – ou algo parecido, com o mesmo resultado: destinar um cargo na empresa tendo como critério os laços familiares do pretendente e não a sua competência.

No caso presente, parece indiscutível a importância do laço familiar de Eduardo Lima Andrade Ferreira com o vice-governador. Quanto à competência, o futuro dirá.

Leia também:

As três razões para meu voto

Como prometido, hoje vou escrever sobre meu voto. Apesar de muitos terem dito que eu não deveria declarar meu voto, por estarmos em um momento de muita agressividade na internet, acho que estas são eleições em que não podemos nos omitir, temos que tomar um partido, sair do muro, porque muita coisa está em jogo. Claro que não escrevo este post para aqueles que já estão convictos de seu voto (e todos têm seus motivos para escolher um ou outro candidato, que devem ser respeitados), mas para os que ainda estão abertos a mudar de opinião (ou tomar uma posição), a partir da reflexão. E, para contribuir com essa reflexão, trago uma planilha com diversos dados que coletei a partir de registros oficiais, além de mais de 70 links para notícias confiáveis, selecionadas a partir de critério jornalístico, que detalham o que escrevo ao longo do post, e que podem ser consultadas como fonte de informação. Espero que os leitores, mesmo os que discordem de mim, mantenham o respeito, como sempre mantiveram neste blog 😉

Decidi que vou votar 13, ou seja, pela reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT). Por três razões principais:

  1. Porque seu governo conseguiu conquistas importantes em algumas áreas;
  2. Porque as principais críticas que são feitas ao governo perdem força se comparadas com o governo de Fernando Henrique Cardoso, último presidente da República filiado ao PSDB;
  3. Porque, embora eu considere a alternância de poder muito importante para uma democracia, não acho o princípio válido quando a alternativa é Aécio Neves, personagem que venho acompanhando de perto desde que assumiu o governo de Minas pela primeira vez, em 2003.

Passo a explicar melhor cada uma dessas razões.

1) Para mim, as melhores conquistas do governo Dilma, que foi um governo de continuidade do Lula, dizem respeito:

Para mim, é uma conquista impressionante que o número de miseráveis e de subnutridos no meu país tenha sido reduzido tão consideravelmente em tão pouco tempo. Me parece que isso só foi possível por ter havido uma política de Estado que priorizou isso, antes de qualquer outra coisa. Vejo que a vida do povo, de modo geral, melhorou muito, com o acesso ao ensino superior e a bens de consumo importantes. No campo da economia, a cartilha desenvolvimentista seguida pelo governo de Dilma tem sido defendida por Bancos Centrais de todo o mundo, e os neoliberais, da linha de Armínio Fraga, estão começando a perder espaço.


2) A inflação está nas alturas? O crescimento está baixíssimo? A cesta básica está impossível de pagar? A Petrobras está sucateada? Não é o que os números me mostram, pelo menos não dessa forma tão trágica como vem sendo alardeada pelos defensores do Estado mínimo.

Vamos aos fatos:

  • a inflação no mês passado foi de 0,57%. No mesmo mês de 1998 (primeiro mandato de FHC), houve deflação de 0,22%. No mesmo mês de 2002 (segundo mandato de FHC), foi de 0,72%.
  • O ano de 1998 fechou com inflação de 1,65%. Já em 2002, fechou a 12,53% (o governo FHC já tinha conseguido reduzir a hiperinflação a quase zero, que foi seu grande mérito no primeiro mandato, então não é mais válido o argumento de que a inflação estava a 1000% antes de chegar a 12,5%; no segundo mandato, o presidente do Banco Central, responsável direto pelo controle da inflação, era Armínio Fraga, que Aécio escolheu agora como seu ministro da Fazenda). Em 2013, fechou a 5,91% (abaixo do teto da meta) e o acumulado nos últimos 12 meses está em 6,75%.
  • Uma das razões para o aumento da pressão sobre os preços nesta época do ano é a prolongada seca (veja AQUI também); portanto, há chances de o ano fechar com inflação dentro da meta estipulada pelo BC, como em todos os outros anos do atual governo (2011, 2012 e 2013).
  • Considerando a média da inflação em todo o mandato, a do governo Dilma é a mais baixa desde o Plano Real, inclusive que as dos governos FHC e Lula.

O crescimento está terrível? Pibinho? Em relação ao crescimento chinês do governo Lula, está mesmo. Em relação ao governo FHC, não é bem assim.

  • O país cresceu 0,04% em 1998 (último ano do primeiro mandato de FHC) e 2,66% em 2002 (último ano do segundo mandato).
  • Em 2013, o crescimento foi de 2,49%. Em 2014, o acumulado em 12 meses está em 0,93%.
  • Gozado é que, pelo menos desde 2013, o PIB de Minas tem crescido ainda menos que a média nacional. E, sim, o Estado também foi prejudicado pela seca.

A cesta básica custa R$ 303,54 em Belo Horizonte (setembro), segundo o Dieese. Subiu muito em relação aos R$ 93,58 que custava em 1998, certo? Errado: graças ao aumento do salário mínimo, que saltou de R$ 130 (ou o equivalente a R$ 362,29, tendo em vista a inflação acumulada no período) para R$ 724, o trabalhador que gastava mais de 158 horas de trabalho para bancar esta cesta hoje gasta 92 horas, ainda segundo o Dieese.

A Petrobras, que tinha lucrado R$ 701,7 milhões em 1998 e R$ 8,089 bilhões em 2002, lucrou R$ 23,6 bilhões em 2013 (foi a empresa que mais lucrou no país em 2013, dentre todas as 313 de capital aberto) e, só no primeiro semestre de 2014, já lucrou R$ 10,4 bilhões. O valor de mercado da Petrobras caiu em relação ao auge que atingiu no governo Lula (de R$ 380 bilhões em 2010 para R$ 240 bilhões nesta semana). Mas era de R$ 15,5 bilhões em 2002. (Leia mais AQUI)

Também é legal comparar o olhar que o Brasil passou a ter no resto do mundo. Em 2002, tivemos que recorrer ao FMI para empréstimo de US$ 41 bilhões. Apenas três anos depois, Lula quitou a dívida, que estava em US$ 15 bi e, em 2009, tornou-se credor do organismo, emprestando US$ 14,5 bi para ajudar países em dificuldades financeiras. Em 2012, já no governo Dilma, o Brasil aumentou o aporte no FMI, enquanto fez exigências para que países em desenvolvimento tenham mais participação no Fundo. Esse histórico pode ser visto AQUI, em infográfico do jornal “O Globo”. É inquestionável como o Brasil cresceu aos olhos do mundo, passando a ser mais respeitado desde o governo Lula e o surgimento dos Brics, em 2006/2011, grupo que criou seu primeiro banco de desenvolvimento neste ano. Para ficar em um exemplo fácil, a Copa do Mundo, que todos diziam que seria caótica, foi vista como “a melhor dos últimos tempos” pelo britânico “Financial Times“.

Por fim, vale comparar a gestão da energia nos dois governos. Apesar de estarmos com os reservatórios com níveis inferiores aos de 2001, numa das secas mais prolongadas da história, não houve necessidade de racionamento de energia, nem houve apagão – como naquele ano, durante a gestão de FHC.

Não consegui reunir todos os dados que eu queria, porque isso é uma coisa que demanda tempo e isso tem-me faltado. Queria ter coletado mais informações e números, sobre educação e investigações da Polícia Federal, por exemplo, como o cineasta Pablo Villaça fez tão bem. Mas é possível ver estes indicadores acima e outros que encontrei, com as respectivas fontes para cada um deles, na planilha que montei. CLIQUE AQUI para acessá-la.


3) Se o PT e o PSDB nos enojam com o aparelhamento de Estado para benefício do partido — como demonstraram os escândalos do mensalão e este agora da Petrobras (que já resvalou em um dos ícones tucanos, Sérgio Guerra, e em todo o PSDB), e os escândalos do mensalão tucano (que tem como um dos réus Clésio Andrade, vice de Aécio no primeiro mandato e marido da atual presidente do TCE, Adriene Barbosa, que tomou posse como conselheira em 2006, indicada por Aécio quando Clésio ainda era seu vice), a máfia dos fiscais do ISS (que atinge as prefeituras de José Serra, Gilberto Kassab e Fernando Haddad), as propinas milionárias pagas pela Alstom e Siemens para ficarem com os trens e metrôs de São Paulo, além de dezenas de outros escândalos descobertos nos governo FHC, Lula, Dilma, Alckmin, Serra, Eduardo Azeredo e outros –, Aécio Neves me preocupa ainda mais porque, além de também ter aparelhado as estatais mineiras, como Cemig e Codemig, usou seu governo em Minas para benefício próprio ou de sua família, como podemos inferir pelas notícias sobre o aeroporto de Cláudio (e muitas outras práticas coronelistas em Cláudio, que incluem até suspeita de compra de votos), a pista de Montezuma, práticas de nepotismo, que podem ter favorecido diretamente empresas da família — tudo com a conivência completa do Ministério Público do Estado e do já citado TCE presidido por sua amiga, a mulher de Clésio Andrade — ou, muito antes, no início de sua carreira política, por Aécio ter sido nomeado diretor da Caixa por seu parente, que era ministro da Fazenda (e há suspeita de que ele tenha sido conivente, ou pelo menos omisso, em relação à Máfia das Lotecas).

Fora essa parte dos escândalos, que pode ser encontrada por qualquer eleitor que “der um Google” por aí, questiono (e não só eu!) a forma como ele governou Minas Gerais (direto do Rio de Janeiro, onde mais morou), com um choque de gestão questionadíssimo (ver AQUI e AQUI), com relatos de ter deixado um “Estado quebrado” para Anastasia, com educação sucateada (e salários abaixo do piso nacional, como se vê nesta carta de professores), investimentos em saúde e educação questionados na Justiça até hoje, falta de transparência, inclusive nos gastos com publicidade, que explodiram em seu governo e foram destinados, em parte, a empresas de telecomunicações de sua família (ou, agora, a contribuir para a campanha eleitoral, conforme entendimento do TSE), e construção de uma obra faraônica, a Cidade Administrativa, por R$ 1,2 bilhão, que já teve que ser reformada um ano depois de pronta; questiono sua nulidade como senador e, antes, como deputado; e não gosto de seus traços autoritários, ao sair processando tudo e todos, até o Google, o Twitter e blogueiros, só por publicarem informações ou opiniões que lhe desagradam. “Traços”, aliás, foi bondade minha, porque considero que muitas das ações do pessoal de Aécio foram tentativas claras de intimidação e de censura prévia, que não condizem com a democracia que estamos tentando construir para o Brasil. (Dois documentários já foram produzidos a respeito: veja AQUI e AQUI).

Ainda vale ressaltar que, embora os governos de Lula e de Dilma tenham apanhado de todos os lados, seja nas redes sociais, na blogosfera ou na imprensa, não tenho conhecimento de ações judiciais movidas por eles para tentar calar as pessoas ou os veículos de comunicação. Como esse assunto, da liberdade de expressão e de imprensa, me é muito caro, acho importante registrar essa diferença abissal entre os dois candidatos nesse assunto. Não se trata de corporativismo de jornalista, mas de um princípio básico da democracia. É importantíssimo, fundamental mesmo, que a imprensa — e as pessoas de um modo geral — sejam livres para se expressarem em uma democracia, porque só com a crítica pode haver evolução.

É tudo mentira? Conspiração da “blogosfera comunista” e da “esquerda caviar”? Bom, deixei os links de diversos jornais, com todos os matizes ideológicos, para que você tire suas próprias conclusões. Mas, lendo a análise de apenas um dos debates presidenciais, feita pela “Folha de S.Paulo” (que está longe de poder ser tachada como petista), é fácil verificar qual candidato distorceu mais o que disse, em detrimento da verdade. (Atenção, que tem o “não é bem assim” e o “é bem assim”.)

Para concluir, olhando para o futuro, como diz Aécio, não gosto da perspectiva de um Brasil presidido por um candidato que tem o apoio de Bolsonaro, RonaldoMarco Feliciano, Silas Malafaia e Levy Fidelix. Claro que Dilma também reúne a seu redor um monte de políticos das trevas, mas percebo que a nata do conservadorismo brasileiro, que apoiou o regime militar e elegeu Collor em 1989, está “fechada com Aécio“. E o PMDB, que já foi um bom partido e hoje está longe disso, estará com qualquer um dos dois (alguém se surpreende?).


Enfim. Quero, sim, que haja alternância de poder, queria que fosse possível uma presidência sem blocão com o PMDB, quero que esses escândalos parem de ocorrer com todos os partidos, quero que o Brasil continue crescendo mais e mais, mas não vejo como Aécio Neves possa ser aquela alternativa que muitas pessoas pensam que é.

Concorda comigo? Compartilhe o post 😀 Discorda? Espero que com argumentos e com educação 😉


Fecho o post com o necessário bom humor, que acho que deve prevalecer mesmo durante discussões ou em momentos de tensão 😀

paul

Leia também:

Filho feio do nepotismo no Tribunal de Justiça de Minas

Texto de José de Souza Castro:

O jornal “Hoje em Dia” publica nesta sexta-feira, dia 16, reportagem assinada por Ezequiel Fagundes informando que na noite de quarta-feira a Corte Superior do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) aprovou a abertura de processo disciplinar contra o desembargador Alexandre Victor de Carvalho, acusado de ter empregado em seu gabinete, durante três anos e nove meses uma funcionária fantasma, retendo para si parte do salário dela de 7.500 reais mensais.

Dos 25 desembargadores membros da Corte Superior, 17 votaram favoráveis à abertura do processo e oito pelo arquivamento. Por unanimidade, a Corte indeferiu o pedido de afastamento do desembargador, que vai continuar julgando os processos que lhe caírem na mão e embolsando seus vencimentos enquanto prosseguir o processo disciplinar.

A investigação será conduzida pela Corte Superior do TJMG. Procurado pelo repórter Fagundes, o desembargador Alexandre se limitou a dizer: “Esse é um assunto extremamente sigiloso, que eu prefiro não comentar. Quando houver a finalização disso, a gente comenta porque tenho certeza que vai chegar a bom termo. Por gentileza, não quero comentar esse assunto.”

Mas eu quero. Para começar, dizendo que Alexandre é filho do desembargador aposentado Orlando Adão Carvalho, que presidiu o TJMG de 31 de outubro de 2006 até 4 de setembro de 2008. Orlando fez uma longa carreira no judiciário, começando como juiz de Direito de Galileia, em 1966, e chegando, em 1986, a juiz do Tribunal de Alçada e, em 1991, a desembargador do TJMG.

O filho, ao contrário, teve uma ascensão meteórica. Formou-se em 1988 no curso de Direito da UFMG e chegou direto ao Tribunal de Alçada, em data não revelada em seu currículo. Como o dono do currículo preferiu não divulgar a data, é possível que tenha sido quando o pai era primeiro vice-presidente do TJMG (Orlando tomou posse nesse cargo em 2004). O fato é que em março de 2005, quando o pai era ainda vice-presidente, Alexandre foi eleito desembargador do TJMG, numa sessão presidida pelo próprio pai, como veremos no final deste artigo.

Bem, até aí nenhuma novidade. No livro “Injustiçados – o caso Portilho”, mostrei como o nepotismo era um hábito nos tribunais brasileiros. Em Minas, os juízes resistiram firmemente a acatar a Resolução 7 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que proibiu o nepotismo, como se pode ler nesta notícia divulgada por um site especializado:

Essa não é a primeira vez que o Tribunal de Justiça de Minas se levanta contra decisões tomadas pela mais alta Corte brasileira. Enquanto associações e advogados se uniam pelo fim do nepotismo no Poder Judiciário, os 120 desembargadores mineiros fizeram uma paralisação por discordar da Resolução 7 do Conselho Nacional de Justiça, que proibiu o nepotismo no Poder Judiciário, considerada constitucional pelo STF.”

Na época, o TJMG era presidido pelo desembargador Hugo Bengtsson Júnior, que tinha três filhos trabalhando no tribunal. Outros 97 funcionários eram parentes de desembargadores, como se lê na notícia.

A presidência de Orlando lhe rendeu, depois de aposentado, uma investigação em curso no CNJ, como se lê aqui. Transcrevo o início do texto de Frederico Vasconcelos, publicado pela “Folha de S. Paulo” no dia 29 de maio de 2009:

“O Conselho Nacional de Justiça vai apurar a suspeita de corrupção no Tribunal de Justiça de Minas Gerais na gestão do desembargador aposentado Orlando Adão Carvalho, além de acusações de favorecimento a filhos de desembargadores e dirigentes de associações de classe nas promoções de juízes. O procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, enviou ao ministro Gilmar Mendes, presidente do CNJ, cópia de e-mail que o desembargador Doorgal Gustavo Borges de Andrada enviou a um colega com uma lista de supostos ilícitos e irregularidades. Andrada sugere que houve “negociata” em aluguel, pelo tribunal, de moderno prédio na avenida Raja Gabaglia, em Belo Horizonte, e que o ex-presidente Carvalho teria recebido R$ 5 milhões na operação. Ele propõe auditoria e perícia para saber se o aluguel está de acordo com preços do mercado. Cita ainda a suspeita de “compra de votos” para eleger Carvalho e diz que o ex-presidente presidiu a sessão que elegeu o filho para a corte.”

Vamos aguardar, com a paciência exigida pelo nosso judiciário, para ver como ficam, no fim das investigações, pai e filho.