O show de horrores da Câmara em 7 charges e poucas palavras

Foto: J. Batistta/ Câmara dos Deputados Foto: J. Batistta/ Câmara dos Deputados

Foto: J. Batistta/ Câmara dos Deputados

Estou sem palavras para definir o show de horrores a que assisti, por várias horas, na TV Câmara ontem à noite. Ou com tantas palavras, tão entristecidas e prolixas, que não ficariam bem em um post de blog. Mas acho que tanta gente boa já escreveu a respeito que não faria muita diferença eu escrever também.

Sobre Bolsonaro dedicando seu voto a um torturador — o torturador de Dilma Rousseff. Sobre Bolsonaro filho dedicando seu voto aos “militares de 64”. Sobre o voto emblemático da deputada Raquel Muniz (PSD-MG), que dedicou seu “sim” ao marido, Ruy Muniz, prefeito de Montes Claros que, segundo ela, faz o Brasil ter jeito, mas foi preso poucas horas depois suspeito de corrupção (fraude na Saúde para favorecimento pessoal). Sobre outros nonsense que justificaram seus votos com coisas como “por todos os corretores de seguro”, “pela paz em Jerusalém”, “pela família quadrangular”, “pelo aniversário da minha neta” ou contra “proposta de que criança troque de sexo na escola” (veja mais pérolas AQUI e análises sobre elas AQUI). Sobre o xou da Xuxa que foi deputado mandando beijo pra mãe, pro netinho, pro sobrinho.

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Bom, tá aberto um precedente. Você pode votar em qualquer pessoa para presidente da República, inclusive uma mulher que nunca se envolveu diretamente em escândalos de corrupção, e seu voto pode ser derrubado por deputados patéticos sem que eles sejam capazes de apontar qual foi o crime de responsabilidade que a presidente eleita cometeu. Continuar lendo

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Perguntas e respostas sobre o que está em jogo DE VERDADE no impeachment de Dilma

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil (31/03/2016)

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil (31/03/2016)

É no meio de mais uma mamada que escuto um barulho a princípio indecifrável. Tec-tec-tec. Logo um vizinho responde, aos gritos: “E O AÉCIOPORTO DE CLÁUDIO?”, e percebo que o primeiro barulho era uma panela agredida por uma colher. Outro brada: “Fora Dilma! Fora PT!”, e um quarto sujeito ressuscita o jingle da campanha de Lula em 1989: “Lula-lá, brilha uma estrela…”.

Que confusão, penso, absorta nas tarefas de mãe. Com algum esforço descubro que tudo isso se deu por causa da abertura de um “Jornal Nacional” espetacularizado ao máximo, uma das edições que certamente serão estudadas pelas futuras turmas de jornalismo, se esta profissão ainda existir no futuro. Se não me engano, foi no dia em que o ex-presidente Lula foi levado para depôr na Polícia Federal. (Depoimento que vale a pena ser lido na íntegra, diga-se de passagem).

Quando entrei em licença-maternidade, o mundo, literalmente, entrou em colapso. O maior desastre ambiental da história do país aconteceu aqui pertinho, em Mariana. A zika ganhou os noticiários internacionais. E Eduardo Cunha deu início a seu projeto de acelerar ao máximo o impeachment da presidente Dilma Rousseff no Legislativo para ganhar, como recompensa, o perdão de seus companheiros no Conselho de Ética e a manutenção de seu mandato, mesmo após participação comprovada em escândalos de corrupção.

Só estando em outro planeta para não saber o que está acontecendo no Brasil, não é verdade? Pra estar alheio aos panelaços e buzinaços da vida. Pois bem, é como se eu estivesse em outro planeta mesmo: vamos chamá-lo de Bebelândia. E é um esforço diário o que faço para, já à noite, cansada dos trabalhos que amanhecem junto com o dia, aterrissar de volta ao planeta azul e me informar, minimamente, sobre os rumos do meu país. E voltar a me preocupar mais com o golpe anunciado que com a noite de sono do meu bebê.

Em minhas pesquisas para entender o que está em jogo, acabei montando este breve FAQ. Eu fiz as perguntas, corri atrás das respostas e, claro, pincelei o resultado com a minha análise e opinião pessoal. Algumas das fontes usadas para cada afirmação estão linkadas ao longo do texto. Fica como sugestão de leitura para outros terráqueos que, por um motivo ou outro, tenham ficado perdidos nesta novela do impeachment.

Vamos às perguntas e respostas:

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Como fraudar uma eleição

Bloomberg conversou com hacker responsável pela frente digital das campanhas da direita na América Latina. Foto: divulgação

“Bloomberg” conversou com hacker responsável pela frente digital (oculta) das campanhas da direita na América Latina. Foto: divulgação

Texto escrito por José de Souza Castro:

A Bloomberg Businessweek publica reportagem com data de 4 de abril de 2016 mostrando como as campanhas eleitorais na América Latina sofreram nos últimos anos ataques cibernéticos custeados pela direita, para influir nos resultados das urnas. O caso mais expressivo foi o do México, com a eleição do milionário Enrique Peña Nieto, que está privatizando o petróleo de seu país.  Continuar lendo

Mais um ano que acaba (e haja notícia!)

Salvador Dali

Salvador Dali

Rio das Ostras, fogos de artifício, mar azul. Marchinhas politizadas de Carnaval. Vejo todos os filmes do Oscar. Morre jornalista Santiago Andrade. Facebook compra aplicativo WhatsApp por US$ 16 bilhões. Morrem Philip Seymour Hoffman e Eduardo Coutinho. Carnaval. Avião da Malásia desaparece com 239 a bordo. Fui para o portal. Operação Lava-Jato revela esquema de corrupção na Petrobras e ex-diretor é preso. 29 anos de idade. Eu não mereço ser estuprada. Doença em família. Semana Santa no Ceará. Morre Gabriel García Márquez, José Wilker, Luciano do Valle. Férias on the road: São Paulo, Santa Catarina, Minas. Copa do Mundo. No Mineirão. Família ganha novo bebê. Tragédia em BH, viaduto cai, 2 morrem e 22 ficam feridos. Avião é abatido com 298 passageiros na Ucrânia. Revelado aeroporto que governo de Minas construiu para família de Aécio. Morrem Ariano Suassuna, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro, Plínio de Arruda Sampaio. Vexame na Seleção, 7 a 1 pra Alemanha. Galo campeão da Recopa. Morre Robin Williams, captain, my captain. Morre Eduardo Campos, ressurge Marina Silva. Roger Abdelmassih é preso. Eu me casei. Ilha Grande, paraíso. Blog no Brasil Post. Fernando Pimentel é eleito no primeiro turno e põe fim a 12 anos de dinastia tucana em Minas. Eleições do ódio. Dilma é reeleita, com vitórias em Minas (onde Aécio governou), Rio (onde Aécio mora) e Pernambuco (de Eduardo Campos). Show de Luiz Melodia. Ineditamente, executivos de grandes empreiteiras são presos por oferecerem propina. Galo campeão da Copa do Brasil vencendo por 3 a 0 seu maior rival. Chaves morre, morre Manoel de Barros. Família ganha outro bebê. Perdi 7 kg sem perder a cabeçaEstados Unidos e Cuba se reaproximam após 53 anos. Morre Joe Cocker. Natal (e aniversário do blog). Serra do Cipó. Avião desaparece na Indonésia com 162 a bordo. Ano do ebola. Ano de crise hídrica sem precedentes.

Uma coisa que não faltou neste ano foi notícia, né? A matéria prima dos jornalistas esteve mais ativa que nunca.

Fora este parágrafo de retrospectiva, pessoal, nacional e mundial, eu também quero destacar um desafio que o “Brasil Post” propôs a seus blogueiros e que publiquei por lá nesta semana: eles perguntaram para quem tiro o chapéu e para quem enterro o chapéu bem fundo em minha cabeça neste 2014. CLIQUE AQUI para ver o que respondi 😉

E você, o que achou deste 2014? Quais fatos mais marcaram sua vida, pessoalmente ou não? Para quem você tira o chapéu neste ano?

Feliz ano novo! Que sua passagem de ano seja bem alegre e divertida e que 2015 seja um ano ainda melhor e mais agitado do que foi este 😀

Leia também:

A soltura do dono do ‘Novo Jornal’

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Texto escrito por José de Souza Castro:

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais foi o primeiro a noticiar, em seu site, no dia 4 de novembro, que o proprietário do “Novo Jornal” fora solto naquele dia, por volta das 12 horas.

Como escrevemos aqui no dia 24 de janeiro deste ano (e AQUI), a prisão de Carone fora decretada sete dias antes pela juíza substituta da 2ª Vara Criminal de Belo Horizonte, Maria Isabel Fleck, atendendo a pedido do Ministério Público. Observei que, em momento algum, nas 11 páginas da sentença, a juíza examinou a importante questão da liberdade de expressão.

Carone foi preso no dia 20 de janeiro, ao chegar à sede do seu jornal virtual, cujo endereço na web deixou de ser acessível pouco depois, por determinação da Justiça. A prisão foi noticiada com destaque pelos jornais, rádios e televisões, que deixaram passar ao largo a importante questão contemplada pela Constituição Brasileira, a da liberdade de opinião.

Afirma o Sindicato dos Jornalistas:

“Carone estava preso desde o dia 20 de janeiro e o Novo Jornal foi retirado do ar, decisões que configuraram atentado à liberdade de imprensa e de expressão, repudiadas com veemência pelo Sindicato. Em maio, seu pedido de libertação foi julgado e negado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. A advogada do dono do Novo Jornal, Sandra Moraes Ribeiro, alegou que a prisão tinha caráter político. O caso ganhou repercussão nacional e foi citado, na campanha eleitoral deste ano, como exemplo das difíceis relações do governo estadual com a imprensa mineira nos últimos doze anos. Coincidentemente, nove dias depois do segundo turno, Carone foi solto.”

Ao contrário do que ocorreu por ocasião da prisão de Carone, sua soltura foi praticamente ignorada pela imprensa. A exceção foi o jornal O Tempo e alguns sites da Internet localizados fora de Minas, com destaque para o Jornal GGN.

O jornalista e blogueiro pernambucano Talis Andrade foi um dos que noticiaram a soltura de Carone. “Escrevi várias vezes”, diz ele, “que o jornalista Marco Aurélio Carone só seria solto depois das eleições”.  E conclui dizendo que Carone fez todas as denúncias apresentando provas, as quais “o Brasil espera não estejam destruídas pela polícia, pela justiça, inclusive via incêndios, com queima de processos”.

De fato, é o que se espera.

A soltura de Carone, que continua respondendo a diversos processos na Justiça interpostos por advogados de autoridades ou outras pessoas denunciadas por seu jornal eletrônico, coincide com a publicação pela organização Repórteres sem Fronteiras de artigo intitulado “JOURNALISTS’ SAFETY AND MEDIA OWNERSHIP – TWO CHALLENGES FOR ROUSSEFF”. O artigo pode ser lido AQUI, em português.]

Ele afirma que, no decorrer da última década, o Brasil realizou progressos significativos em matéria de liberdade de informação. Exemplifica com a revogação da Lei de Imprensa de 1967, herdada da ditadura militar, com a suspensão da cláusula da lei eleitoral de 1997 que proibia o direito à caricatura durante as campanhas eleitorais, com a Lei de Acesso à Informação, em vigor desde 2012, e com o Marco Civil da Internet, aprovado neste ano, que “colocou o país na vanguarda no que toca à promoção dos direitos civis na Internet.”

Apesar disso, acrescenta, o Brasil ainda é um dos países do continente “mais mortíferos para os jornalistas”. Numerosos ataques à liberdade de informação no país foram registrados nos últimos anos. Afirma o artigo da RSF:

“Desde 2000, 38 jornalistas foram assassinados em circunstâncias provável ou comprovadamente relacionadas com suas atividades profissionais. Na grande maioria dos casos, as vítimas realizavam investigações sobre temas sensíveis, como o narcotráfico, a corrupção ou os conflitos políticos locais. Em 2012, onze jornalistas foram assassinados, dos quais pelo menos cinco por motivos diretamente ligados à sua profissão. Esses números elevados persistiram em 2013 e 2014.”

E prossegue:

“Em março de 2014, a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) publicou um relatório sobre a violência contra os jornalistas no país, um mês após o falecimento de Santiago Ilídio Andrade, um cinegrafista da TV Bandeirantes, morto durante a cobertura de uma manifestação no dia 6 de fevereiro, no Centro do Rio de Janeiro. Repórteres sem Fronteiras foi consultada para a elaboração desse relatório, que contabilizou 321 jornalistas alvos de violência entre 2009 e 2014. O estudo afirma que o envolvimento de autoridades locais e policiais na violência contra comunicadores é evidente e destaca a impunidade como fator que impulsiona novas ameaças.”

Entre essas autoridades locais, é possível que se incluam alguns juízes, como parece indicar o caso Carone.

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