Aulinha de história pra uma criança de 6 anos

— Mamãe, por que esse povo todo tá gritando?

— Eles querem que a presidente que foi eleita na semana passada saia e o candidato que perdeu entre no lugar dela.

— Uai, mas se ele perdeu, não pode ganhar, né?

— Não pode mesmo, filhinha. Quando a gente joga um jogo e você perde, tem que aceitar. Tentar ganhar no próximo jogo. Se você força a barra pra ganhar de qualquer jeito, tá roubando.

— Então esse povo aí quer roubar no jogo?

— Mais ou menos isso… Eles pedem até que o Exército ajude a tirar a presidente eleita, pro candidato que perdeu entrar no lugar dela.

— Os soldados?!

— É. Isso a gente chama de “golpe”. Aconteceu isso uma vez, há 50 anos atrás, exatamente. Tinha um presidente eleito chamado Jango. Bom, na verdade, ele era vice-presidente, mas na época os vices também eram eleitos, separadamente, sabe? Aí, quando o presidente renunciou (quis deixar o cargo, por livre e espontânea vontade), o Jango virou presidente. Depois de um tempo, acusado de ser comunista (não vou te explicar o que é isso agora, filhinha), ele foi tirado do poder pelos “soldados”. Antes disso, tinha um povo, igual esses aí, que ficava fazendo marchas pela cidade, que eles chamavam de Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Ficavam falando que o presidente era comunista, que o Brasil ia virar Cuba, que o governo não respeitava os “valores da família” etc. E pediam ajuda ao Exército para tirar o presidente na marra.

— E ele foi tirado?

— Foi. Os caras do Exército começaram a governar o país no lugar dele, e proibiram as eleições, o povo não pôde mais escolher quem governaria o país. E aí começou o que a gente chama de ditadura militar. Foi um período ruim no nosso país e demorou 21 longos anos. As pessoas eram presas, e eles machucavam elas de verdade (muitas vezes até matavam) só porque pediam o fim da ditadura. As pessoas não podiam escrever o que quisessem, até os discos tinham que passar pelos censores antes de serem lançados. Os censores trabalhavam para o governo e decidiam se as ideias das pessoas podiam ser publicadas do jeito que elas queriam ou não. As pessoas também não podiam se manifestar livremente, ir para a rua para fazer marchas e pedidos.

— Uai, mas então esse povo não ia conseguir marchar! Então por que esse povo quer a volta da ditadura hoje, mamãe?

— Por que são loucos! Ou não estudaram história. Se hoje vivêssemos numa ditadura militar, eles jamais poderiam estar aí, fazendo essas passeatas ridículas. Como vivemos em plena democracia, até esses maus perdedores têm liberdade pra sair por aí, pedindo coisas idiotas. Mal sabem eles que, na época da ditadura, além de poderem ser presos e torturados por saírem às ruas desse jeito, eles ainda iam viver numa economia com muito mais problemas que a de hoje, que depois deixou o Brasil quase falido. A educação e a saúde eram ruins e o país já era corrupto. Milhares de inocentes foram mortos.

— Mas por que eles não aceitam que a presidente foi eleita?

— Porque são maus perdedores. Ela foi eleita por poucos votos de diferença, mas foi a maioria do povo que escolheu, ponto. Eles dizem que o governo dela é corrupto e que é uma ditadura, que estamos virando Cuba e que os “valores da família” não estão sendo respeitados, porque ela apoia que quem machuque gays só por serem gays seja preso…

— Uai, mamãe, era a mesma coisa que falavam nas marchas que você citou antes?!

— Isso, a mesma coisa que falavam há 50 anos, contra o presidente Jango. E, depois, deu no que deu…

— Então xeu ver se entendi: esse povo aí reclama que a presidente, que deixa até eles pedirem a saída dela, é uma ditadora. Pra combater a ditadora, eles pedem ajuda do Exército, pra tirar ela à força e colocar um cara que nem foi eleito no lugar dela. E defendem a ditadura, que, se existir de verdade, nem vai deixar que eles saiam por aí fazendo marchas e vai sair machucando e matando as pessoas só por pensarem diferente?!

(É, filhinha, você só tem 6 anos, mas é mais esperta que todos eles juntos!)


P.S. Neste momento em que escrevo, 4 de novembro, já se passaram três dias desde o protesto que reuniu 2.500 pessoas em São Paulo, das quais uma parte pedia intervenção militar para retirada da presidente da República reeleita democraticamente. Desde então, o governador reeleito democraticamente em São Paulo, Geraldo Alckmin, que agora já voltou a ser a principal liderança do PSDB no país, veio a público repudiar o pedido de uma intervenção militar. O músico Lobão, que virou uma espécie de ícone dos reaças nestas eleições, também veio a público dizer que “qualquer ditadura é injustificável”. Até o governo dos Estados Unidos já se posicionou contra esses pedidos anti-Dilma. Já o candidato Aécio Neves, derrotado nas urnas e pretexto para que essa multidão saia por aí pedindo impeachment de Dilma, não soltou um pio. Nem mesmo defendeu o coordenador digital de sua campanha, que foi xingado por ter criticado o teor das marchas de sábado. Nem mesmo se manifestou contra o absurdo e surreal pedido de intervenção militar no país. Aécio está lá… silencioso — ou omisso.

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18 comentários sobre “Aulinha de história pra uma criança de 6 anos

  1. Isso, desenhadinho assim talvez faça alguns caírem na real.
    Pior é que, uns 20 dias atrás, na pracinha da igreja onde umas 10 crianças brincavam, um pai veio puxar papo comigo, onde “secretamente” me informava que eles (o dito cujo é sargento) tem de pronto apenas uma “intervenção”, caso seja necessário.
    Eu olhei bem dentro dos olhos dele e perguntei se uma daquelas crianças era filho dele e se ele queria isso pra ele. E pras outras crianças que ali estavam.
    Dei as costas.

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  2. Ando ficando com medo disso.
    Já tinha visto uns vídeos na internet de gente dizendo que o Brasil está virando Cuba, Venezuela ou União Soviética (sério, União Soviética…), mas achava que era coisa de desmiolados ou montagem.
    Até que no fim de semana uma senhora amiga da família (e que, posso assegurar, não é nada desmiolada) me perguntou: “Você votou na Dilma? Mas não tem medo?” “Medo de quê?” “De o Brasil ficar igual à Venezuela?”
    Quem começou com essa boataria já pode se sentir gênio do marketing… tem gente que acredita que o Brasil está virando uma ditadura MESMO!
    E de lembrar que o golpe de 64 foi em grande parte causado pela boataria da “bolchevização” do Brasil.

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  3. Se voçês tem dúvidas sobre o período de 64/85, comprem o livro Nr 2 (a ditadura escancarada) do jornalista Hélio Gaspari, Pág 197 e LEIAM pelo menos essa Página, lá voçês veram a real intenção da ESQUERDA BRASILEIRA daquele período, caso seja difícil ainda de entender, vão no you tube, vejam a entrevista de Fernando Gabeira falando sobre a Ditadura, Eduardo Jorge e Ex comunistas, se mesmo assim voçês ainda não se convencerem, peçam a Deus um pouco mais de visão.

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  4. Já que o momento é de leitura e reflexão, sugiro vocês lerem alguma matéria sobre o Foro de São Paulo, principalmente sobre os “nobres” participantes e de como ele veio a público. Ditadura? O que é que a Venezuela e Cuba vive hoje? Vejam a opinião do Sr. Luiz Inácio sobre Hugo Chavez e Fidel Castro. Após 21 anos de Governo Militar, os próprios militares devolveram o governo do País aos civis, olha no que deu? Hoje me diga qual brasileiro vai as ruas sem medo de sofrer alguma violência? Acho que só os que moram fora do país. No governo militar, pessoas de bem podiam andar nas ruas sem quase nenhum medo, as autoridades policiais eram respeitadas. Hoje bandidos de dentro das penitenciárias mandam matar policiais (chefes de família) e ainda são acobertados por esse regime jurídico nosso. Acordem pessoal, nem tudo que está escrito nos livros retratam a verdade.

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  5. Devemos pregar a liberdade e a arte de pensar de forma livre, não induzir nas crianças a forma que você quer, isto é uma agressão. Você que diz que é uma alinha, você sabe o significado de DEMOCRACIA?

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  6. Será que essa kikacastro não é cubana? Se não é, tenho certeza que ela não viveu nos “anos de chumbo” aonde ninguém levava chumbo(bala perdida), só por estar andando nas ruas. Nessa ” social democracia do Lula”, o que vemos na TV e nos Jornais, é: pessoas morrendo aos montes na ruas por obra de traficantes, ladrões e afins. São 50.000 (cincoenta mil) mortes por ano no Brasil. Mais do que em alguns países que estão em guerra! Antes, falei na “social democracia do Lula” porque, alguém pensa que quem governa o País é Dilma Rousseff? Lula sempre esteve no “comando” desde que terminou seus mandatos. Disse que poderia eleger, para o Planalto, até um poste e elegeu, com a ajuda de milhões de famílias de vagabundos sustentados pelos impostos de quem trabalha. Essa semana Dilma foi a São Paulo para “se aconselhar” com Lula sobre o que fazer diante da atual situação do País. Você sabe o que se tramou no famoso “Foro de São Paulo”? Por favor, Kikacastro, não me venha com “churumelas”!

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    • Caro Ornilo, concordo com você quando dizes que quem comanda é o Lula e não a Dilma. Infelizmente, durante muitos anos a imagem que se passou foi de que os militares, enquanto estavam no poder, exerciam o governo na base do “chumbo” como mencionado por você. Acredito que nossa colega Kika Castro aprendeu assim e infelizmente, pelo seu texto, assim ensina as crianças de 6 anos de idade.
      Agora, Kika me responda aos seguintes questionamentos:
      Já leu a respeito do Foro de São Paulo? (Depois de ler me diga se ainda concorda que é utopia acreditar que estão querendo implantar o comunismo em nosso país).
      Qual presidente militar que se enriqueceu durante ou pós o seu mandato?
      Economicamente, de qual posição o Brasil saltou durante o período do Regime Militar?
      Não sou defensor, gostaria de deixar bem claro, de tortura, mas nunca vi ninguém de bem reclamar que foi torturado durante o regime. Quem foram as “vítimas” desses atos? Proponho você verificar o que essas pessoas faziam naquela época.
      Sabe o que eu acho engraçado, para não dizer deprimente, as pessoas falam que foram presas e torturadas pelos soldados e tem como resposta um “coitado”, mas ninguém questiona do por que da prisão e tortura. É a mania de se vitimizar para pessoas ingênuas como você (prefiro acreditar na sua ingenuidade).
      Abraços,

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  7. Eu não sou louco, eu estudei história e, mais importante, eu vivi ativamente no período da ditadura militar. Portanto, posso garantir que em vários aspectos a grande maioria da população estava melhor que hoje. Haja um pouquinho como você prega para os outros e seja mais tolerante com os que pensam diferente. Aqueles que pegaram em armas não eram democratas, queriam substituir uma ditadura por outra, a do proletariado. Infelizmente eles venceram e a história é deturpada pois é escrita pelos vencedores. Se a cubanização do Brasil tivesse dado certo, as histórias para crianças de seis anos naquela época seriam de pregação ideológica e de lavagem cerebral, como essa historinha totalmente descolada da realidade que eu e todos do meu relacionamento vivemos. Aliás a historinha que os vencedores aboliram foi a que era voz corrente naquela época de que os comunistas comiam criancinhas, o que para o tipo de humor daqueles tempos fazia algum sentido.

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  8. Sério? Se tem um blog pra escrever isso? De verdade? Não pode ser! Deixa eu deixar claro aqui que não votei no Aécio. Agora querer com esse texto explicar algo pra alguém é no mínimo provocação. Ai eu pergunto: Provocar pra que? Pra incitar raiva, pra gerar respostas e seu blog não morrer pela falta de conteúdo?

    Não podemos colocar a insatisfação geral com a administração do PT, vinculada a poder aquisitivo, classe econômica, ou falta de visão. Olha bem as medidas tomadas recentemente, olha pro nosso ministério, o pior da ERA. Precisa exercitar teu olhar crítico e ver que é mais que importante cobrar dos eleitos aquilo que nós esperávamos quando votamos. Ou com medo de uma nova eleição fica defendendo até a morte? isso não é ideologia, isso é analfabetismo político, partidarismo. Eu não quero nem militares (coitados), nem PMDB, PSDB, quero bom senso. Quero alguém que olhe pelo povo e promova as reformas que tanto precisamos, temos que parar de ser colônia.

    Fica esse negócio de esquerda, direita (uma extrema minoria, mas que tem internet) e nada anda. Temos que investir no ser humano, esse sim pode gerar coisas que andem sem petróleo (recurso finito por sinal). Nossa esse texto seu é tão fraco, que me irrita profundamente, porque eu vejo uma geração de pretensos formadores de opinião sem o menor traquejo em se comunicar.

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