“New York Times” defende a produção e o uso da maconha

Foto: Stockxpert

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Texto escrito por José de Souza Castro:

Uma posição que eu gostaria de ter defendido nos dois anos em que redigi os editoriais de um jornal mineiro, entre junho de 2012 e junho de 2014, passa a ser defendida nesta semana, numa série de editoriais, pelo “New York Times”: a legalização da maconha. A notícia pode ser lida AQUI.

Nunca fui usuário, mas meu interesse pela droga vem de muito tempo. Logo no início de meu curso de jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais, em 1968, descobri que havia entre meus colegas alguns maconheiros – como eram chamados pejorativamente os usuários. Eles eram incentivados principalmente pelo desejo de contestação à ditadura, que travava dura batalha contra a maconha, e pelo movimento da juventude, em vários países, contra a guerra do Vietnam.

No curso, os maconheiros eram minoria. Chamavam de “caretas” os outros, e faziam proselitismo, tentando sair da posição incômoda de minoria pelo menos ali, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, a mais ligada às questões políticas e sociais entre todas as unidades da UFMG.

Desde adolescente, resolvi não experimentar cigarros, para não me viciar como meu pai. E estendi a decisão à maconha, mesmo acreditando, na faculdade, que seus males eram menores que os do tabaco. O professor José Elias Murad, um especialista em drogas, a quem entrevistei para o “Jornal da Universidade”, tinha uma posição parecida. A entrevista causou polêmica, e anos mais tarde parece que esse médico e farmacêutico mudou de opinião.

Como também mudou, mas inversamente, o “New York Times”, que é agora o maior jornal dos Estados Unidos a assumir a defesa da legalização da maconha, embora ache legítimas as preocupações da população quanto aos malefícios do vício. “Nós acreditamos que, em todos os aspectos — efeitos para a saúde, impacto na sociedade e temas de ordem pública — a balança pende para o lado da legalização nacional”. No outro prato da balança, o álcool e o tabaco.

A posição foi tomada depois de uma grande discussão entre os membros do conselho editorial do jornal, “inspirado num movimento que vem se expandindo rapidamente entre os Estados por reformas das leis sobre maconha”. Dos 50 Estados norte-americanos, 34 já adotaram alguma mudança sobre o uso e a produção e existem dois projetos de lei no Congresso dos Estados Unidos para alterar a lei que há mais de 40 anos aprovou a proibição da maconha, “prejudicando a sociedade ao proibir uma substância tão menos perigosa que o álcool”, diz o editorial.

Segundo o “New York Times”, são altos os custos sociais de tais leis contra a maconha. Cita dados do FBI: em 2012, foram feitas nos EUA 658 mil prisões por posse de maconha e 256 mil por uso de cocaína, heroína e derivados. “Para piorar, o resultado é racista, atingindo de forma desproporcional jovens negros, arruinando suas vidas e criando novas gerações de criminosos de carreira”, diz o editorial.

Ele compara com a proibição do álcool nos EUA. Durante 13 anos, a partir de 1920, enquanto vigorou a Lei Seca, as pessoas continuaram bebendo e a criminalidade cresceu, afirma.

A mim, o que preocupava mais, quando desejava escrever a respeito – e não o fiz, porque não havia no jornal um conselho editorial e não me animei a tomar sozinho tal posição – era a corrupção policial gerada pelo suposto combate à maconha. Se dependesse de mim, não apenas a maconha deveria ser liberada. Em vez de gastar recursos com o combate às drogas, o dinheiro seria mais bem empregado com a conscientização das pessoas, por meio da educação e de campanhas bem feitas, sobre os malefícios de seu uso. Eu incluiria o álcool e o tabaco, que são mais prejudiciais que a maconha, mas que, por serem legalizados, não contribuem para a corrupção policial.

Será interessante a leitura desses editoriais do “New York Times”. O jornal anunciou em seu site que serão publicados seis deles, até o dia 5 de agosto, abordando os aspectos criminais, históricos, de saúde e regulamentação da maconha. Como esse jornal dos Estados Unidos pode ter mais influência sobre as autoridades brasileiras que os locais, algumas mudanças talvez venham a ocorrer por aqui.

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2 comentários sobre ““New York Times” defende a produção e o uso da maconha

  1. A legalização da maconha , a princípio, é uma decisão a contrapelo ao combate que se faz ao fumo e ao álcool. Por que liberar uma droga se outras são proibidas? Não obstante o impasse social, a legalização pode ser uma forma de combater o uso por meio da tributação. Criam-se impostos, serão estabelecidos locais de venda e, ao longo do curso, aumentam-se as alíquotas dificultando o consumo, é o que se tem feito (aqui) com o cigarro. Vamos ver no que vai dar.

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