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Você já perdeu alguém que ama para as teorias conspiratórias?

Foto: Gabriel / Unsplash

Alguém que você conhece bem, sempre respeitou ou até amou está há meses falando coisas completamente desconexas e anticientíficas, coisas absurdas, que vão completamente de encontro ao que passamos anos estudando nas escolas? Como, por exemplo, que a terra é plana como uma pizza e bem maior que o sol? Que o sol é que gira ao redor dos planetas? Que a vacina que nos protege há décadas de vírus graves, como o da poliomelite, o tétano, a coqueluche, o sarampo, a rubéola, a caxumba e a difteria, na verdade faz mal pra saúde? Que esta mesma vacina, que reduziu drasticamente as internações e mortes por Covid em todo o planeta e está nos possibilitando retomar uma vida normal, na verdade é um microchip bizarro implantado na nossa pele?

Eu conheço algumas pessoas assim também.

Mas elas não são tão poucas, infelizmente. Fazem parte de um movimento mundial, facilitado pela internet (esta maravilha, que propicia tantas coisas boas em nossa vida, também ajuda os loucos a se reunirem e fortalecerem, né?), chamado Qanon.

Nesta semana mesmo, centenas de pessoas adeptas deste movimento conspiracionista foram às ruas de Dallas, no Texas, para esperar o reaparecimento de John Kennedy Jr. Detalhe: ele morreu em 1999. Detalhe 2: talvez justamente por estar morto há 22 anos, ele não compareceu ao encontro, rs.

Mas pergunta se esses caras deixaram de acreditar na teoria conspiratória? Se foram para casa pensando: “Meu Deus, como sou trouxa! Deixa eu voltar à realidade!”. Não, porque o Qanon é como uma seita religiosa muito perversa, que faz com que as pessoas continuem presas eternamente num ciclo de mentiras. Certamente já inventaram que a CIA ou o FBI manteve o morto preso em algum calabouço – assim como é o FBI, claro, que nos impede de ver a “borda” da pizza… ops, da Terra.

Qanon é como uma seite religiosa de fanáticos. Foto: Wesley Tingey / Unsplash

Tente conversar com um cara desta seita e verá que ele tem “respostas” para tudo. E mais: se você tentar apresentar a ele um livro de algum divulgador científico fera, digamos, o Carl Sagan, por exemplo, descobrirá que os disseminadores das teorias conspiratórias já fizeram antes o trabalho de dizer a essas pessoas que esses livros são mentirosos, são “do demônio” etc. É a mesma coisa que fizeram com veículos de imprensa aqui no Brasil, como a “Folha”, que é de centro-direita e foi tachada de “comunista” pelos bolsonaristas para descredibilizar qualquer reportagem mais crítica ao presidente veiculada lá.

Isso tem nome também: lavagem cerebral.

Internet na palma da mão facilitou lavagem cerebral. Foto: Akshar Dave / Unsplash

E ferramentas como o WhatsApp e o YouTube facilitaram essa lavagem cerebral. As fake news políticas (lembram da mamadeira de piroca? Da Ursal? Da fraude na urna eletrônica?) também ganharam corpo graças ao mesmo mecanismo de disseminação.

Imagine uma pessoa que lê mal o noticiário e não tem costume de checar a veracidade das informações (99% da população?) sendo bombardeada mil vezes por dia com um vídeo ou um infográfico extremamente persuasivos falando asneira? E recebendo esse vídeo de alguém querido, de confiança, um amigo, um pastor da igreja, um parente? Sim, a pessoa vai se emaranhando na lavagem cerebral. A máxima de que “basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade” já foi testada cientificamente e é usada no meio político desde antes do nazista Joseph Goebbels.

É por isso que, se você conversar com um bolsonarista terraplanista antivacina brasileiro e com um trumpista terraplanista antivacina norte-americano, vai perceber que o discurso dos dois é idêntico, mesmo que eles nunca tenham se visto, vivam a milhares de quilômetros de distância um do outro e tenham contextos sociais e formação acadêmica e familiar absolutamente diferentes. É que os dois frequentam o mesmo canal de YouTube.

Isso já é uma questão que, como jornalista e comunicóloga, vem me intrigando há muito tempo, pelo menos desde as eleições de 2018. Mas, depois de ler mais sobre o movimento do Qanon, passei a perceber que o buraco é bem mais embaixo.

Recomendo veementemente a leitura da reportagem de Ashitha Nagesh publicada pela BBC em setembro deste ano, intitulada ‘O momento em que perdi a pessoa que mais amava para o QAnon‘. Um trecho:

“Às vezes, as pessoas também caem nessas teorias por razões sociais, tentando encontrar uma sensação de comunidade que se perdeu.

Em meio à pandemia de covid-19, que empurrou bilhões de pessoas ao redor do mundo para o isolamento, nasceu uma nova linha de teorias da conspiração — aquelas que afirmavam que o vírus era uma farsa e que as vacinas foram desenvolvidas para permitir que os poderosos controlassem as mentes das massas.”

Já ouviu alguém falar a mesma coisa para você aqui no Brasil? Pois é, a reportagem é sobre pessoas dos Estados Unidos, e elas também falam isso por lá. É a internet, unindo os radicais mundo afora, num culto invisível que está se tornando cada vez mais perigoso, porque está extrapolando a rodinha de conversa da família e indo parar numa invasão no Capitólio, por exemplo. Ou no “gabinete do ódio” bolsonarista, por aqui.

Existe solução?

Não sei. Como diz a reportagem da BBC que indiquei acima, esse tipo de seita ganha força em tempos de crise. E estamos todos numa baita crise, não só econômica, mas de saúde pública. Talvez, quando a vida começar a entrar nos eixos, as pessoas percebam que não precisam mais dessas tolices para viver. Talvez restem apenas uma penca miúda de fanáticos, que sempre foram fanáticos mesmo – e sempre serão –, mas que serão irrelevantes perto da maioria que só quer viver em paz.

Enquanto esse dia não chega, é importante que a grande maioria de nós, pessoas sensatas que acreditamos na ciência, na lógica e nos estudos, estejamos pelo menos cientes de que essas pessoas existem, o Qanon existe, e que isso funciona como uma seita, insuflada por meio de lavagem cerebral. E que o jornalismo, a informação confiável e a verificação das fontes de informação são, por isso, cada dia mais essenciais.

Só assim poderemos tentar evitar que mais e mais pessoas caiam nessa balela também. E que as percamos – talvez para sempre – para um culto perigoso e perverso.

 


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

3 comentários em “Você já perdeu alguém que ama para as teorias conspiratórias? Deixe um comentário

  1. Estou naquela de " prefiro ser feliz a ter razão…."Não entendo como alguém que diz amar ao outro,  pode se prestar a criar inimizades na tentativa de defender pessoas que n

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