Francisco, um papa subversivo

Foto: Korean Culture and Information Service

Foto: Korean Culture and Information Service

Texto escrito por José de Souza Castro:

A impressão é que a imprensa mundial controlada pelo grande capital não sabe o que fazer com o Papa Francisco. Não dá para ignorá-lo. Mas que saudades dos tempos do Papa João Paulo II… Aquilo é que era Papa, apesar de polonês! Melhor do que Pio XII, outro grande batalhador contra o comunismo. Sim, um papa italiano piedoso. Admirável, não obstante, ou até por isso, o apreço dele ao fascismo, pelo menos quando este estava em voga durante boa parte de seu longo reinado.

Já não foi fácil lidar com o Papa João XXIII e Paulo VI a acenarem com uma insuspeitada – e suspeita – preferência da Igreja pelos pobres. Por sorte, ambos tiveram um curto reinado. Se o mesmo ocorrer com esse Papa argentino, o humilde Francisco ganhará soberbos necrológios na imprensa que, caridosamente, vai omitir aquelas maluquices que ele pronunciou em castelhano, aqui bem perto de nós, na Santa Cruz de la Sierra, no dia 9 de julho.

Os que ignoraram o que disse o Papa na sua visita à Bolívia, porque não o ouviram ou leram, na ocasião, em nossa imprensa – que tinha coisas mais importantes a tratar, como o impeachment da presidente Dilma ou, mais importante, a desconstrução da imagem de Lula, um presidente populista que ameaça voltar em 2018 –, certamente vão continuar assim, para maior tranquilidade de nossos banqueiros.

Nossos leitores, porém, merecem conhecer um pouco do que disse o Papa “anticapitalista”, como já está sendo rotulado.

“Reconhecemos”, disse Francisco, “que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas em sua dignidade”.

Culpa de quem? De uma “economia que exclui e mata”. E não só o homem: “Reconhecemos que as coisas não andam bem quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante”, afirmou o Papa vermelho. Sim, tão vermelho quanto o Lula! Pois Francisco condena um sistema que impõe a lógica do lucro a todo custo e no qual o dinheiro “reina ao invés de servir”.

Não se ouviria da boca de tantos sábios padres que o precederam palavras como estas pronunciadas por Francisco naquele dia feito para ser esquecido pela imprensa: “Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo”.

Talvez se ouvisse algo assim, prestando muita atenção, das bocas ímpias de um Marx ou um Keynes, não de alguém que se julgue representante de Deus na Terra. Deixemos Marx pra lá, para não eriçar alguns pelos delicados, mas Keynes teve a ousadia de dizer que “love of money” é uma patologia, uma aberração, que deveria ser extirpada através da tributação progressiva e da “eutanásia do rentista”.

Voltemos a Francisco: “Os seres humanos e a natureza, disse ele, não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos não a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.”

O Papa Francisco sonha com outra economia: “Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, ‘prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos’. Isto envolve não apenas os ‘3 T’ (Terra, Trabalho e Teto), mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação . Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma aposentadoria digna na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social.”

Para o Papa, que parece viver em Marte, essa economia é possível. Sendo utopia o que ele diz, não é a de alguém que não conheça nossa realidade. “O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos”, diagnostica Francisco, que vai além: “Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo.”

Estará o Papa se referindo ao colonialismo imposto pelo capital financeiro? Tenho por mim que sim. É ele que vem obrigando governos progressistas, entre eles, o do Brasil, a praticarem políticas econômicas ortodoxas, com o apoio interesseiro dos grandes meios de comunicação.

Há 40 anos, as palavras do Papa em Santa Cruz de la Sierra seriam classificadas pelo governo brasileiro como subversivas. Operação Condor nele! Mas os tempos são outros e Francisco não se cala: “Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas”, diz. E completa: “A nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro.”

Parece pouco, mas não é.

Leia também:

faceblogttblogPague com PagSeguro - é rápido, grátis e seguro!

Anúncios

O que os leitores vão fazer se ganharem na loteria

dinheirao

Recebi algumas respostas para meu post de ontem (não leu? VEJA AQUI) e resolvi compartilhá-las aqui no blog.

Veja como tenho leitores cheios de sonhos e planos! 😀

Celso: “Cristina, com certeza, neste próximo sorteio, vou ajuda-la, adquirindo esta casa para você.” [Oba!]

Lu Menezes: “Ah que sonho!!!! rsrsrs, primeiramente viajaria… reformaria a casa da minha mãe, estudaria administração e abriria um negócio pra mim e meu esposo!” [Boas ideias!]

Adir Tavares: “Olha, ainda não ganhei, mas vou fazer o que estou fazendo depois que me aposentei, NADA, vou pescar quase todos os dias, só isso!!!” [Será? 🙂 ]

Gabriel: “Muita coisa da pra fazer…muita coisa…acho que ia cair na estrada por um ano inteiro…num motorhome….ia ser divertido” [Ia mesmo!]

Cleberson: “Se um dia eu ganhar muito dinheiro na loteria , só vou comprar uma coisa, uma passagem que me leve aonde quer que eu queira ir. Se der, levar comigo amigos especiais, se não der, ir sozinho, mas levá-los no meu Coração. E tirar um monte de fotos de jeito que eles também caibam, e a gente fique junto para sempre naquele momento, naquele lugar…” [Que poético!]

Pacífico Guerra: “Compraria uma casa. Não compraria um carro, já que não gosto. Aplicaria meu dinheiro para ganhar juros. Nem pensar em trabalhar(rs). Olha, eu tentaria viver da maneira mais simples possível, bem discreto. Até mesmo a casa que eu compraria, seria simples. Escolheria a dedo, um local bem sossegado e seguro, sem barulho. Acho que eu moraria na roça(rs). Vivo só. Tenho poucos parentes e apenas um irmão. Não contaria pra ninguém. No entanto, por mais que a gente pense, como no meu caso, de viver com simplicidade, procurando não modificar a rotina, nossos hábitos, acabam mudando e as pessoas percebem. Eu compraria produtos mais caros nos super mercados; compraria roupas mais sofisticadas; beberia campari; compraria discos caros importados e, certamente, notariam que mesmo morando numa casa simples, ela não é um casebre, daí, apareceria uma mulher a me “amar” (rs). Mesmo com minha experiência de homem maduro e sendo uma pessoa muito desconfiada, eu não resistiria aos seus encantos e me casaria com ela. Pra piorar, mesmo não tendo vontade alguma de ser pai, cederia a seus apelos e teria filho(s). Aí, meu sossego se acabaria. Melhor não ganhar na loteria (rs).” [Talvez seja melhor mesmo, né!]

Thaís: a primeira coisa que eu faria era comprar uma casa pra mim e uma pra minha mãe. E uma pro meu pai no interior, pq ele sempre quis ter uma casinha em alguma cidade mais tranquila. E ia dar um dinheirinho pra ele complementar o da venda do apartamento pra poder comprar um no Barreiro, porque ele é doido pra voltar a morar aqui. Também montaria uma loja pra minha mãe, pois ela trabalha em casa e sozinha, fica difícil aumentar a renda pra montar um negócio e contratar mais gente. E, pessoalmente, faria minha cirurgia de redução de mama, que não é barata e já tá meio urgente. Depois, começaria os preparativos pro meu casamento. Porque depois de ganhar essa grana toda não é possível que meu namorado ainda vai continuar me enrolando! kkkkk [Eu também duvido que ele te enrole, hehehehe!]

Jaime Guimarães: se eu ganhasse na loteria todo esse dinheiro… nem sei o que faria. Provavelmente não escaparia dos sonhos que envolvem casa (pertinho da praia, claro) e viagens – nem ligo para automóvel, talvez continuasse com o meu “velhinho 2007” ou compraria um novo modelo popular; no entanto três coisas eu faria com toda a certeza: 1) ajudaria algumas pessoas – inclusive com tratamento de saúde; 2) trabalharia apenas um turno (e dedicaria o restante do tempo ao ócio criativo, cursos livres, atividade física…) e 3) entraria nas livrarias com AQUELE SORRISO no rosto! 😀 [Essa ideia de trabalhar só um turno é mesmo a melhor!!]

Leonardo Shikida: se eu ganhasse na sena, meus planos sao antigos e notórios: vou mandar um red label pelo correio pros amigos; comprar um pálio; vou pagar as dívidas da nossa diarista, coitada; vou garantir uma renda mínima pros parentes mais próximos e mais apertados; aplicar o que sobrar; produzir meu cd kenji & friends 🙂 e colocar na web [Pode trocar meu red label por uma cesta de cervejas artesanais? 🙂 ]

Elisa: Cris, quero dar uma sugestão para quando VOCÊ ganhar: como vai sobrar muito dinheiro depois da compra e reforma da casa da Av. Amazonas, você distribui o resto entre seus leitores. Como são muitos e não dá para saber quem são, você distribui entre os que, até a data em que você foi contemplada no sorteio, deixaram comentários no blog, que tal? ¨-) [Espertinha!! hehehe]

Ontem mesmo um felizardo de Uberlândia ganhou mais de R$ 16 milhões na Mega Sena. Será que é um desses leitores aí de cima? Se for, espero que seja o Celso 😀 😉

E você, já pensou no que faria se ganhasse na loteria? Deixe aí nos comentários ou envie por email, e eu acrescento aqui no post 😉

Leia também:

“O que você vai fazer quando ganhar na loteria?”

Quando te perguntam aquela pergunta mais clássica — “E se você ganhasse na Mega Sena?” — o que você responde?

Eu nunca soube muito bem o que responder. Claro, ia querer comprar um carro e uma casa ou apartamento, ia querer viajar bastante e guardar uma boa quantia, para as adversidades do futuro. Mas jamais ia deixar de trabalhar. Tampouco tenho sonhos luxuosos, como barco, uma casa em uma ilha do Caribe, jatinho e afins.

Também já respondi que eu ia abrir um jornal, mas isso foi há alguns anos. Hoje em dia, não acho que eu iria querer encarar esse tipo de negócio de risco. A concorrência é grande, mas o interesse dos leitores é difuso, eles são pouco fiéis, e ainda vivemos num país onde não se leva a sério a liberdade de imprensa e de expressão, então qualquer coisinha vira alvo de coerção judicial. Pra que abrir um jornal nessas condições?

Engraçado é que eu não tinha sonhos muito específicos: quero a casa tal, no bairro da cidade tal. Nada no Lourdes ou no Leblon. Nada em Vila Madalena. E já pensei: vou dividir a fortuna entre os pais e os irmãos, porque costuma ser dinheiro demais, e tudo que é demais sobra. Doar para a caridade? Depende da caridade. Sou desconfiada de ONGs. Passei alguns anos doando para uma ONG que depois descobri que era uma fraude.

Por isso sempre preferi ganhar na quina. Eu aposto de vez em quando na Mega Sena e fico torcendo pela quina. É um dinheiro bão, mas o suficiente pro carro e só. Sem excessos, sem crises. Quem não gostaria de ganhar um carro? Já ganhar R$ 300 milhões me parece um absurdo. São tantos zeros que devem alterar até a nossa personalidade.

Dia desses meu sonho se expandiu um pouco mais. Passei por um velho sobrado (adoro a palavra sobrado), em plena avenida Amazonas, na região do Barro Preto ou Santo Agostinho, e o sinal vermelho, thank god, fechou. Adoro observar o mundo quando o sinal está fechado. Reparei na casa, no meu lado esquerdo, e fiquei viajando por cada quina visível dela. A varanda, a outra varanda, o muro, a árvore em frente. Será que teria um quintal atrás?

A casa, no entanto, está caindo aos pedaços, completamente abandonada. E não vi qualquer placa de vende-se. Será que está em processo de desapropriação?

O sinal verde interrompeu minhas divagações e tirei uma foto rápida com o celular, antes de seguir em frente. Continuei pensando: se me perguntarem agora o que vou fazer com a grana preta da loteria, que um dia eu vou ganhar, responderei: vou comprar esta casa e reformar ela todinha, preservando cada pedaço de sua arquitetura original, e vou colocar uma rede naquela varanda de baixo, uns banquinhos naquela varanda de cima, uma churrasqueira no quintal e uma trepadeira florida no muro, e ela vai ser a casa dos meus sonhos.

Foto: CMC

Foto: CMC

O problema é que, agora, não poderei mais ganhar só a quina da Mega Sena. E, como nunca consegui acertar mais do que um número, vou ter que me esforçar para acertar os outros cinco! Mas, enquanto isso, toda vez que eu passar pela avenida Amazonas, vou frear um pouquinho para admirar “minha” casa 😀

E você? O que vai fazer quando ganhar na loteria?

Leia também:

A felicidade na esquina

happiness

Pra que tanto trabalho, tanto dinheiro, tanto consumo, se a felicidade está logo ali na esquina? E está mesmo, é só não nos distrairmos no caminho, nos perdendo em labirintos de enganações.

Viver é simples, afinal de contas.

Do trabalho que dá pra mudar

Tralhas acumuladas nesta vida. (Foto: CMC)

Já se passaram quatro semanas desde que me mudei para Beagá e foi só anteontem que consegui riscar o último item da minha lista de providências de mudança para resolver.

Vejam só quanta coisa:

  1. Carta para síndica
  2. Trazer resto de roupas e livros da casa dos meus pais
  3. Trocar lâmpadas da sala e quarto
  4. Novo ventilador (quebrou no carreto)
  5. Consertar luz da cozinha
  6. Consertar luz da área
  7. Cortinas para a casa
  8. Cortina do banheiro
  9. Comprar itens de faxina
  10. Faxinar
  11. Alterar nome na Cemig
  12. Instalar internet e TV
  13. Comprar chip de celular local
  14. Consertar microondas (também quebrou)
  15. Consertar porta do banheiro
  16. Comprar lâmpada pra cozinha
  17. Comprar filtro
  18. Buscar máquina de lavar
  19. Comprar papel de impressora
  20. Trocar tampa da privada
  21. Pregar quadros
  22. Comprar botijão
  23. Resolver tudo com concessionárias de São Paulo

E estas foram só as coisas que me lembrei de anotar antes. Durante o processo, outras foram surgindo e sendo resolvidas, sempre com a ajuda do meu pai e da minha irmã.

Reparem o tanto de “comprar” nessa listinha. Mudar, além de dar trabalho, é caro pra chuchu!

São todas coisinhas simples, mas algumas, apesar de simples, valem por uma novela inteira, como vocês já viram aqui. Ou seja, muita dor-de-cabeça. Todo dia, depois do trabalho, eu tinha uma dessas coisas para resolver. Por isso, foram dias especialmente cansativos.

Mas o que realmente importa é que acabou! E finalmente posso dizer que estou instalada na minha casinha, ambientada no meu bairro e entrando na minha nova rotina, após mudança. Porque mudar é bom, mas só a rotina faz a gente seguir em frente de forma mais tranquila, com um ou outro improviso só pra dar um charme na vida, mas sem ofuscar o controle do relógio.

E até o blog já voltou a ter posts diários, que é o que interessa 😉