A noite em que me vi num tiroteio (aleatório e banal, desses que ocorrem todas as noites em São Paulo)

Estou voltando de uma pauta, quase 23h desta quarta-feira, no carro do jornal.

Passamos por ruas bonitas do Butantã e dos Jardins, com suas mansões para todos os gostos.

Ruas escuras e desertas, em sua maioria.

Eis que, na rua Estados Unidos, passam dois sujeitos correndo.

— Pum!

Sou meio lerda para perceber essas coisas, mas o motorista abaixa, com medo, e acelera o carro, traduzindo: “Isso é um tiro!”

Olho pra trás e Pum!, mais um tiro?!

Duas viaturas perseguem os caras, enquanto o motorista vai levando o carro pra longe dali, rindo nervoso. Uma terceira viatura entra pela contramão da alameda Gabriel Monteiro, vinda da avenida Rebouças, e vai no encalço das outras duas.

Começamos a discutir as possibilidades: quem deu o tiro? A polícia? Os fujões? Era um assalto? Um arrastão a alguma daquelas casas de luxo? E se o tiro nos acerta…! Arrepios.

A gente cobre esses casos (eu, pessoalmente, muito de vez em quando), mas nunca nos vemos no meio deles. No meu apezinho pequeno, de um bairro comum de São Paulo, me vejo mais segura que a maioria daquelas pessoas que vivem em fortalezas, nos bairros mais policiados. E por isso acabo me esquecendo, às vezes, como esta cidade é violenta.

Troco um tiro por uma lembrança.

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