Comerciais de pasta de dente

Juro pra vocês: faz tempo que quero escrever sobre as propagandas de sabão em pó e, principalmente, de produtos bucais e desinfetantes de privada.

Daí vi a ilustração acima e tive que escrever HOJE, tornou-se uma questão inadiável na minha vida.

E, na verdade, eu pouco tenho a acrescentar além da piada de fundo da charge.

Ou seja: senhor Jisuis, será que todas as empresas de pasta de dente só contratam estagiários para fazer a publicidade?!

Ou toda a inspiração desse meio foi sugada pelos feiticeiros que lançaram Carlos Moreno como o sensacional “Garoto Bombril“?

Porque, numa boa, até eu, com minha falta de visão comercial, sou capaz de fazer um roteiro como esses que TODAS as marcas fazem, e que passam mais ou menos pelo seguinte:

1) Sabão em pó

Criança está brincando com lama/chocolate/tinta/etc e suja blusa branquinha. Mãe faz cara de oh!. Em seguida, narrador fala como está tudo bem, porque ela pode contar com o sabão X, que é simplesmente mágico e milagroso (porque NUNCA vi NENHUM sabão que deixasse uma roupa como nova, ainda mais branca), e mostra cena de duas roupas sendo lavadas, uma com o sabão Z e outra com o poderoso X (às vezes mostra um megalaboratório, às vezes um cara com jaleco vai falar e tal). Z fica encardido, pior que antes, e X fica zero-bala. A mãe olha orgulhosa para o filho pimpão, que come sorvete lambuzando toda a blusa, como se achasse que se come pelo umbigo.

2) Desinfetante

Pessoa vai lavar banheiro e chegam repórteres (?) perguntando se ela quer fazer um teste de limpeza. Às vezes acontece de 15 crianças, supostos filhos da dona da casa, irem seguidamente para o banheiro — o que já levanta a suspeita de que a cena se passa em um país com surto de cólera –, tudo para provar que o troço deve estar sujo MESMO. A suposta repórter mostra um desinfetante mágico que, com um paninho de nada, deixa o vaso livre de todos os germes do mal, que fizeram aquelas criancinhas sofrerem com tanta diarreia. A propósito: que nojo! Na minha casa se lava privada com um escovão próprio para isso, não com paninho.

3) Limpadores de chão, ceras, limpadores de móveis e afins

Pessoa gastou séculos limpando casa, mas criança deixa cair uma sujeirinha qualquer, ou então ela vê que tem uma poeirinha no tapete da sala etc. Desespera (ou, na versão de uma das marcas, aparece uma tal de “Neura” falando que ela vai morrer de tanto trabalhar por causa daquela poeirinha ridícula) e o narrador diz que existe um produto mágico que, com um paninho (sempre os paninhos…) remove tudo e deixa o fogão TININDO (hahahah! Até parece que um fogão cheio de gordura de óleo e resto de feijão fica daquele jeito novo e brilhante com um paninho lambuzado de Veja!). A fulana, que certamente é neurótica com limpeza e precisa se tratar, só sossega depois que passa o tal paninho.

4) Pasta de dente, bochechador etc

Tem aquelas em que o sujeito escova os dentes e as paredes começam a desabar a cada baforada de hortelã que ele dá, e mil mulheres começam a se aproximar, querendo beijá-lo desesperadamente, como se homens sem bafo de bode estivessem em falta no mercado. Ou então a do dentista que pára a pessoa na rua, pede pra ver o dente dela com um microscópio (!) e enxerga mil placas nojentas e amarelas e fala: Querida, tem que escovar os dentes melhor, hein? Por que não usa esta marca? (Eu, obviamente, esbofetearia um cara abusado desses). Mas pra mim, a pior, é a que inspirou a charge acima. Uma menina, que é A CARA da Eliza Samúdio, ex do goleiro Bruno (e sei disso porque a propaganda passa DESDE aquela época, sintam o drama!), está enrolada numa toalha (numa propaganda de PASTA DE DENTE, veja bem), sorrindo para o espelho, quando, de repente, mil câmeras e uma mulher com microfone, irrompem no cômodo falando que ela tem que escovar com a pasta X etc. Sério, dá vergonha alheia essa propaganda, de tão surreal.

Paro por aqui porque o objetivo do post não é falar dos clichês das gostosonas nas propagandas de cerveja, nem dos aventureiros imprudentes que andam a 150 km/h dos comerciais de carros etc. Até carro com três portas estão querendo nos enfiar sem nenhum argumento cabível nas propagandas (eu também ia falar disso num post, mas o Ruy Castro já disse tudo). Tudo isso, é verdade, é podre. Mas os únicos comerciais que realmente me dão vontade de não só desligar a TV como nunca mais ligá-la de novo na minha vida, só para não ter que ver de novo, são os que seguem os roteiros acima. É quando a campanha do desarmamento precisa, realmente, botar pra quebrar.

P.S. Bons exemplos da boa publicidade brasileira, valorizada e premiada no mundo todo, estão listados no ótimo “Na Toca dos Leões“, de Fernando Morais.
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