Infância maluquinha

Existiu um mês no meu passado — mais precisamente julho de 1994, quando eu tinha 9 anos de idade — sobre o qual pouco falo a respeito. (Acho que porque, quando eu era criança, meus pais falaram para eu não ficar me gabando disso na escola, pra meus coleguinhas não me acharem metida. Continuei em silêncio pelos anos seguintes, mesmo quando o conselho já não fazia mais sentido). Hoje resolvi quebrar o tabu.

É que, naquele ano, eu fiz uma incursão cinematográfica como a Julieta do filme O Menino Maluquinho, de Helvécio Ratton — o melhor do cinema infantil brasileiro, na minha suspeita opinião.

Sou esta aí da foto, com blusinha vermelha de raio branco, cabelo cacheado e sempre com dificuldade de conter as saias brancas rebeldes.

Junim (Samuel Brandão), Tonico (Levindo Júnior), pai do Maluquinho (Roberto Bomtempo), Irene (Edyr de Castro), Julieta e mãe do Maluquinho (Patrícia Pilar). Atrás, Shirley Valéria (Camila Paes). Foto: arquivo pessoal.

Já escrevi sobre como a memória infantil é traiçoeira, mas lembro em detalhes de tudo o que envolveu essas minhas “férias especiais” em uma filmagem.

Primeiro, como fui parar no filme.

Lembro que olheiros da produção estiveram na minha escola (e em várias outras da cidade), em busca de crianças interessadas em fazer o teste. Também foi noticiado no MGTV, com direito a mostrar os candidatos em meio à “prova”. Como eu achava que não teria a menor chance, nem pensei em tentar. Até que um dia a chefe da minha mãe disse que havia levado a filha dela — que não tinha sido escolhida — e que eles estavam desesperados para encontrar a Julieta, a única que faltava, e eu tinha o perfil. Será que minha mãe não queria arriscar?

Ela arriscou.

Fui lá na casa da produção e lembro que o teste consistia, basicamente, em representar uma cena do filme. Havia outras cinco ou seis candidatas e cada hora uma fingia que era um personagem. Depois houve uma breve “entrevista” e lembro que eu contei que gostava de fazer teatros na minha escola e apresentações natalinas para minha família, na sala de casa. Eu já era falante naquela época.

Fomos pra casa e, não muito depois, no começo da noite, ligaram para dizer que o diretor havia visto o vídeo (ou seria o próprio Ziraldo?) e eu era a escolhida. Lembro que naquela mesma noite fomos assinar o contrato e tomar as medidas para o figurino.

Logo depois, começaram os ensaios. Eles aconteciam numa sala do antigo prédio da Fafich e não me lembro muito bem o que tínhamos que fazer, mas era tudo uma grande brincadeira e levava várias horas por dia (eu já estava em férias escolares). Os outros integrantes da turma eram todos de Beagá, com exceção do próprio Menino Maluquinho, de São Paulo, e do Bocão, do Rio. Entre um ensaio e outro, logo na primeira semana, inventei de apostar corrida com um pé só com a Carol e talvez outros amiguinhos. Acontece que, no fundo da sala, havia vários degraus bem altos, e eu fui tentar pular sobre eles com um pé só. Resultado óbvio: caí de cara na quina do degrau e quebrei o nariz. Lembro que o Alexandre (seria esse o nome? Chamávamos ele por um apelido, acho que Xanxão) comentou, bravo, com alguém: “Era só o que faltava… A menina é uma capetinha.” Mas no fim deu tudo certo. O nariz não ficou roxo, nem torto, e, quando as filmagens efetivamente começaram, já não tinha qualquer problema visível. E passei a ser a mais comportadinha da turma.

Lembro também que, na época, meu cabelo era bem liso (na minha família, ele tende a cachear depois da adolescência). E a Julieta tinha que ter um cabelo sarará. Primeiro, fizeram um repicado no meu cabelo. O Ziraldo viu e disse que não estava suficiente. Aí fizeram um permanente, sempre mantido na base de muito gel, que deixou aquela armação semi-black power que se vê na foto. O Ziraldo viu de novo e disse que estava “perfeito”.

Boa parte das gravações aconteciam na rua Congonhas, no bairro Santo Antônio, em Beagá. Também houve filmagens na escola Sagrado Coração de Maria e em Tiradentes. Foi assim que, pela primeira vez, conheci essa cidadezinha que hoje é uma das minhas favoritas.

Lá havia aventuras à parte. Quando não estávamos filmando, estávamos brincando de esconde-esconde e pega-pega e outras mil coisas por aquelas ruas e dentro da pousada. Lembro que o Lúcio era muito espevitado e um dia jogou alguma coisa nas costas do Bocão, que ficou chorando. Se não me engano, eram bombinhas, ou outra coisa do gênero. Os produtores ficaram muito bravos e ameaçaram expulsar o Lúcio do filme, que já estava bem adiantado àquela altura. Mas era só coisa de criança…

Também teve uma vez que passei muito mal, com dor de estômago e vômitos. Minha mãe não pôde ficar comigo a semana inteira em Tiradentes, porque tinha que trabalhar, então as mães de outras crianças cuidavam de mim. Uma delas me deu Coca Cola, dizendo que era bom para enjôo, e nunca mais desassociei a Coca do enjôo, que acho que foi uma das razões pra eu ter demorado muito tempo pra “gostar” de Coca Cola.

Lembro que fazia muito frio à noite nas gravações da fazenda e que, se não me engano, o Vovô Passarinho gostava de tomar uma pinguinha. Lembro que comíamos sempre num mesmo restaurante, chamado Senzala, e um dia “protestamos” contra a ida ao lugar, que não era dos melhores. Lembro que eu gostava de brincar com o Herman de “quem ri primeiro”. E que a Carol e o Maluquinho se gostavam (no que é possível se gostar, àquela alturinha da vida). Que eu era a única que gostava de brincar de Barbie com a Nina, três anos mais nova que todos, e, por isso, ela ficou muito minha amiga. Que fiquei doida pra andar de balão, mas chegamos depois que essa cena já tinha sido gravada. E também lamentei ter perdido a cena com milhões de doces e bolos da avó.

Na cidade, lembro que acreditei quando disseram que os picolés eram de mentira. Que foi difícil decorar o poema recitado no filme. Que aprendi brincadeiras das quais nunca tinha ouvido falar (como o bente-altas). Que existe homem que trai mulher, como o Maluquinho traiu a Julieta. E eu achava lindo mesmo era o menino que fazia o papel do playboy do bairro e já devia ter uns 15 anos.

Eu aprendi que jornalistas são pouco criativos e malpreparados (toda hora tinha um jornal presente, para cobrir as gravações na cidade, e os jornalistas sempre me perguntavam se eu também era bagunceira e da pá virada como minha personagem. Por fim, comecei a dar as respostas que eu sabia que eles queriam ouvir). Que às vezes é preciso repetir um milhão de vezes uma mesma cena. Que dá pra fazer um filme bom gravando em pouco tempo, mesmo com um elenco provavelmente difícil de dirigir (o grosso das filmagens foi em julho, depois teve uma ou outra coisa em agosto e setembro. A edição se seguiu e o filme foi lançado um ano depois, em 1995). Aprendi (e amei!) a descer de carrinho de rolimã, em pleno tobogã da avenida do Contorno. E aprendi o que é “cara disgusting”, que estava no roteiro se referindo à cara que eu e a Carol deveríamos fazer quando víssemos a Shirley Valéria.

Tudo isso, passados 17 anos, parece um sonho que aos poucos já está se apagando da minha memória. Uma hora ou outra lembro de alguma coisa, bem doce, geralmente lá em Tiradentes, e ela paira na minha memória como um balão. Eu queria rever aquela molecada e saber se eles lembram das mesmas coisas que eu, se podem corrigir algum desvio involuntário da minha memória, e queria ouvir o que andaram fazendo em todos esses anos.

Hoje de manhã foi a pré-estreia do filme “Uma Professora Muito Maluquinha”. O Samuel Costa me mandou um email convidando para ir e fiquei toda animada, na expectativa de encontrar com alguns deles. Mas depois ele disse que não iria, nem sabia de mais alguém que fosse, então acabei trocando o filme por algumas horas a mais de sono. Mas esse contato já serviu para ressuscitar algumas coisas que estavam fechadinhas numa gaveta do meu cérebro e que ajudaram a tornar minha infância um mundo todo especial, que até hoje me povoa e me faz uma pessoa mais alegre.

Ah sim: ganhei R$ 500 pelo papel (500 URV, pra ser mais precisa). Mas também ganhei todas essas lembranças impagáveis de uma infância paralela. E acho que fiquei bem mais maluquinha depois dessa experiência 😉

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