A espionagem entre a ficção e a realidade

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Texto escrito por José de Souza Castro:

As revelações de Edward Snowden, ex-analista de inteligência da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, que levaram a presidente Dilma Rousseff a fazer um discurso na Assembleia Geral da ONU condenando o uso da Internet para espionagem no Brasil e noutros países, de modo algum são uma novidade na ficção.

Já em 1995, o romancista americano Tom Clancy, autor de conhecidos livros de suspense de fundo político, lançou o livro “Op-Center”, que deu origem a vários outros, em que relata como a moderna tecnologia estava sendo usada pelos Estados Unidos para espionar pessoas e governos em qualquer parte do mundo. Em 2007, o escritor britânico Robert Harris, que havia sido repórter da BBC, editor político do “Observer” e colunista do “Sunday Times” e do “Daily Telegraph”, escreveu o livro “O Fantasma”, que deu origem ao filme “O escritor fantasma” de Roman Polanski, vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlim em 2010.

Harris participou do projeto político do Novo Trabalhismo de Tony Blair e rompeu com o primeiro-ministro após o alinhamento da Inglaterra à guerra contra o Iraque. Críticos apontam as semelhanças entre Adam Lang, o ex-primeiro-ministro protagonista do romance de Robert Harris, e Tony Blair. Na página 255 da edição da Record, de 2008, lê-se o seguinte, dito por um ex-ministro das Relações Exteriores da Inglaterra que havia sido demitido por Lang, ao narrar a um interlocutor uma conversa com um funcionário da ONU:

“– Então eu tive de fazê-lo calar a boca depressa. Porque é claro que você sabe que todas as linhas telefônicas da ONU são grampeadas, certo?
— São? – Eu ainda estava tentando digerir tudo.
— Oh, completamente. A Agência Nacional de Segurança monitora cada palavra que é transmitida no hemisfério ocidental. Cada sílaba que você diz em um telefone, cada e-mail que você envia, cada transação com cartão de crédito que você faz, é tudo gravado e armazenado. O único problema é fazer a triagem disso tudo. Na ONU, somos informados que o jeito mais fácil de contornar o monitoramento é usar telefones celulares descartáveis, tentar evitar mencionar detalhes e mudar de número com a maior frequência possível; assim, conseguimos ficar pelo menos um pouco à frente deles.”

Na verdade, a ficção costuma ficar bem à frente da realidade. E a realidade, mesmo quando se escancara diante de nossos olhos, demora a ser compreendida em toda a sua gravidade. É por isso que o discurso de Dilma Rousseff foi recebido com leveza por muitos comentaristas brasileiros, como observa o jornalista Paulo Moreira Leite em sua coluna na revista “Isto É”. Ele recorda a frase do político baiano Juracy Magalhães, primeiro embaixador do Brasil em Washington depois do golpe militar de 1964: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.” E prossegue:

“Lembro da frase lendária do embaixador para tentar entender a reação de muitas pessoas ao discurso de Dilma Rousseff na ONU. Até a imprensa internacional deu um tratamento respeitoso ao pronunciamento, uma forma de reconhecer sua importância. Entre observadores brasileiros, cheguei a ouvir comentários em tom de ironia. Com aquele jeito de quem sabe de realidades ocultas que escapam a mim e a você, ouvi dizer que, nos Estados Unidos, ninguém mais dá importância a denúncias dessa natureza. A sugestão é que isso é coisa de gente atrasada – ou de político demagogo, populista…”

Não é. É coisa muito séria, e os americanos sabem disso. É por isso que se tornaram mestres em espionar outras nações – e pessoas. Podem trocar os métodos, diante de reações como a de Dilma Rousseff, mas o cerne da questão continuará o mesmo. Como deixou claro o presidente Barack Obama, ao discursar na ONU depois da presidente brasileira: “Começamos a revisar o modo como reunimos inteligência, para que possamos apropriadamente equilibrar as legítimas preocupações de segurança de nossos cidadãos e aliados com as preocupações de privacidade comuns a todas as pessoas.”

Nisso, o que é bom para os Estados Unidos deveria ser bom para o Brasil. Devíamos aprender com os gringos a como usar a espionagem para defender nossos interesses. O que exigiria revisar tudo o que o Brasil não tem feito desde muito antes que alguém pudesse imaginar, na ficção, a existência de algo como a Internet.

***

Nota da Cris: Vejam como a “The Economist” resolveu retratar, pela primeira vez, a presidente Dilma Rousseff em sua seção de charges políticas. Enérgica ou submissa?

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O discurso mais importante da História completa 50 anos (e o sonho ainda não foi realizado)

Marcha Sobre Washington, em 28.8.1963

Marcha Sobre Washington, em 28.8.1963

Há exatos 50 anos, 250 mil pessoas se reuniram na “Washington para a Marcha por Emprego e Liberdade” e ouviram o discurso mais importante da História, saído da boca de um emocionadíssimo Martin Luther King Jr., que tinha apenas 34 anos de idade. Aquele momento foi o cúmulo de protestos que tinham começado em 1955, quando a costureira Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar num ônibus para um branco e foi presa pelo gesto de revolta. King ganhou o Nobel aos 35 anos de idade e morreu, assassinado, aos 39 apenas. Mas suas palavras ecoam até hoje e até hoje me arrepio quando ouço ele dizer, por exemplo:

“Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter.”

Ele repete sua frase “Eu tenho Um Sonho” como um refrão de uma música gospel ou de um lindo blues e, a cada hora que essa frase é disparada, vemos as lágrimas escorrendo no rosto dele e dos milhares que são filmados no momento.

King ainda não conseguiu ver seu sonho realizado. Nem em sua “América”, onde o número de negros presos é seis vezes maior que o de brancos. Nem no restante do mundo, onde ainda vemos mais negros assassinados no Brasil, por exemplo. Mas enquanto esse discurso continuar sendo ensinado às crianças, jovens e adultos, e mais e mais pessoas se conscientizarem de que as diferenças devem ser respeitadas e que o maior respeito é a igualdade perante a lei, ainda teremos esperança de que esse sonho de King um dia seja, enfim, realizado.

E “todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestante e católicos, poderão se dar as mãos e cantar, nas palavras da velha canção negra, ‘livres, enfim! Livres, enfim!'”

Quem quiser ler o discurso na íntegra AQUI ESTÁ.

Eu, pessoalmente, acho muito mais emocionante escutá-lo, direto do orador. Tem pouco mais de 15 minutos e são 15 minutos de mudar um mundo inteiro:

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Com este pronunciamento, pauso meu protesto particular

Finalmente, após tantos dias de protestos que paralisaram o país, culminaram em conquistas para uma das pautas ecoadas nas ruas e também em duas mortes e vários feridos, a presidente Dilma Rousseff fez seu primeiro pronunciamento em rede nacional.

Vamos recapitular: o primeiro protesto ocorreu em 6 de junho, em São Paulo – 16 dias antes, portanto. Tomou maiores proporções em São Paulo nos dias 11 e 12, quando policiais começaram a agredir manifestantes e esses começaram a revidar. No dia 13, a repressão policial foi tão desproporcional que o movimento ganhou muito mais apoio e adeptos do que tinha antes, em todo o país. E, de lá pra cá, houve protestos diários, cada dia em mais cidades, inclusive em cidadezinhas, e a pauta do transporte um pouco mais barato se tornou muitas outras mais. Em Beagá, o primeiro protesto só foi ocorrer no dia 15. Na última segunda, dia 17, houve uma mobilização de centenas de milhares em todo o país. Na terça, vandalismo em Beagá. Na quarta, as primeiras vitórias; na quinta, muito mais pessoas nas ruas, na casa dos milhões, e muito mais violência e quebra-quebra que antes, além de duas mortes. Na sexta, este pronunciamento da chefe de Estado.

Tantos dias depois, confesso que eu esperava muito mais desse pronunciamento. Eu, e várias outras pessoas, pelo que diz o Datafolha e algumas janelas. Nas minhas redes sociais, senti um misto de frustração e satisfação. E eis os únicos termômetros de que disponho no momento deste post.

Eu esperava que ela trouxesse ao menos uma, umazinha proposta mais contundente, em resposta a tudo o que ouviu nos protestos. Esperava que não se dirigisse às reclamações contra a corrupção e aos clamores por mudança como se fosse algo dirigido a terceiros e não — também — a sua gestão. Esperava que não viesse passar um recado apaziguador velado à Fifa sobre a Copa, dado o contexto do surgimento dos protestos. Também esperava que explicitasse os excessos cometidos pelos policiais, que, afinal, são agentes dos Estados — assim como fez várias referências aos vândalos e “arruaceiros truculentos”. Esperava que não apenas repetisse o que já tinha declarado antes ou propostas que já estavam mais do que anunciadas e discutidas, como a de levar o dinheiro do petróleo para a educação ou de trazer médicos estrangeiros para complementar o quadro do SUS. Que especificasse um pouquinho mais o que é a genérica “reforma política”, que nunca sai do papel e sempre é citada nos momentos de desespero pelos políticos. O que é? Fim da reeleição? Mudanças no fundo partidário? Sei que isso depende muito mais do Legislativo, mas ela pode, sim, se posicionar.

Por outro lado, sei que não dá para falar tudo o que tanta gente espera, dentro de um país tão conservador como o nosso, nesses dez minutos de discurso. Então, o negócio é ver o que vem depois disso. O que será proposto, discutido, providenciado e efetivamente mudado depois de todas essas críticas vindas das ruas, voltadas para todos os partidos e esferas do poder.

O fato é que o Brasil amanhecerá um tiquim mais democrático de agora em diante, mesmo (e inclusive) por ter conhecido a existência de suas minorias mais reacionárias. Agora o povo sabe como faz pra conversar com seus representantes. Sabe que não basta votar na urna eletrônica e fica por isso mesmo durante dois anos, até eleições para outra esfera. Saberão acompanhar, se informar com clareza, fiscalizar, exigir transparência? Não sei, mas o processo de conscientização tá iniciado e, graças a deus, desta vez não se limitou apenas ao fla-flu tucano-petista que já vem nos saturando nos comentários anônimos da internet (e que não faria o menor sentido desta vez, com Haddad e Alckmin de mãos dadas – aliás, PT e PSDB deveriam dar as mãos mais vezes, porque têm mais em comum que o contrário). Esse é o saldo positivo final. Torço para que termine assim, porque tudo que começa tem que ter hora para terminar também. E sigo otimista, como sempre 😉

Atualização de domingo: Quando falo que já é hora de os protestos acabarem de vez, por terem perdido o rumo e o controle, é por relatos como ESTE. Leiam até o finzinho, por favor.

***

Como tudo isso é História acontecendo diante de nossos narizes, eu queria que minha meia dúzia de leitores deixasse nos comentários suas próprias opiniões, discordâncias, concordâncias, reflexões. Estou ansiosa para lê-los e pensar a respeito. E, agora que o outono de céu azul terminou, e já estamos no inverno, vou também mudar a estação do meu blog, que, ao longo de dez dias, produziu 12 posts sobre esses acontecimentos históricos. Encerro por aqui minhas interpretações (ufa, hein!) 😀

Encerro com o melhor cartaz de todos, diante do maior poeta do universo :)

Encerro com o melhor cartaz de todos, diante do maior poeta do universo 🙂

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Críticas de Aécio poderiam ter sido feitas a FHC

Charge do Benett na Folha de ontem.

Charge do Benett na Folha de ontem.

Meu pai já abordou aqui um dos pontos do tal discurso dos “13 fracassos do PT“, feito por Aécio Neves nesta semana. Ele criticava a perda de lucro da Petrobras e meu pai demonstrou todo o contexto, dizendo que a perda só chamou a atenção porque, nos anos anteriores, houve um avanço sem precedentes no lucro da estatal.

Mas o que mais me chamou a atenção quando li esse discurso foi o tanto que ele aborda problemas — existentes e reais, neste governo Dilma — que também existiram, às vezes com mais gravidade, durante os dois mandatos em que o partido de Aécio esteve à frente do governo federal.

Em resumo: as críticas que ele agora dispara contra os petistas poderiam ser disparadas, talvez até com mais vigor, contra a era FHC.

Uma análise muito boa, na “Folha” de ontem, escrita pelo ótimo Gustavo Patu, explora essa questão. Um trecho:

“No que deveria ser um marco da mensagem oposicionista, o presidenciável tucano Aécio Neves não ofereceu propostas ao falar na tribunal do Senado e praticamente se limitou a um revide histórico –que leva a comparações desfavoráveis ao PSDB. (…)

Se é verdade que a primeira metade do mandato de Dilma foi uma espécie de “biênio perdido” para o crescimento, FHC viveu dois biênios do gênero, que somam metade de seus dois mandatos.

No primeiro (1998-1999) houve a implosão do controle das cotações do dólar, que era a base do Real, devido ao excesso de endividamento e à escassez de reservas cambiais. No segundo (2001-2002) houve a combinação de racionamento de energia elétrica, colapso da Argentina, turbulência financeira internacional e incerteza doméstica com a eleição de Lula. (…)

Aécio argumenta que os governos do PSDB e do PT enfrentaram “conjunturas e realidades absolutamente diferentes”, mas nem ele nem seu partido explicaram até o momento como deveria ser enfrentada a conjuntura atual. (…)

Em um exemplo, o controle da escalada dos preços, cobrado por Aécio, certamente significaria juros mais altos e dólar mais baixo, o que agravaria ainda mais a situação da indústria nacional, deplorada pelo tucano.”

Patu também critica o fato de os tucanos estarem batendo nos problemas de Dilma, Aécio entre eles, sem apresentar soluções alternativas. Coisa, aliás, que o PT já tinha feito durante a era FHC.

Vale ler na íntegra, AQUI.

O discurso de Aécio Neves ganhou Primeira Página de todos os jornais brasileiros (nem vou falar das manchetes em alguns jornais mineiros…). Vem sendo usado pela oposição como arma contra Dilma. E, pela situação, como arma contra FHC. O importante é que, partidos à parte, os brasileiros tenham noção do contexto histórico, das realidade econômicas em cada período, dos legados que cada governo pôde trazer e do que fizeram de errado, tendo oportunidade de fazer diferente.

Só assim, com memória, é que é possível darmos conta, como Patu fez, de que esse discurso de Aécio é um dos mais cascateiros dos últimos tempos. Esse é o principal candidato que a oposição apresenta ao país? O pernambucano Eduardo Campos (PSB) tem o que comemorar, então.

Kennedy e Obama – e discursos que enganam

(Foto: Reuters)

(Foto: Reuters)

Texto escrito por José de Souza Castro:

No discurso de posse, neste 21 de janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que vai dar prosseguimento a uma jornada sem fim para aproximar o significado das palavras dos patriotas de 1776 à realidade de nosso tempo. Estas palavras: “Nós consideramos estas verdades autoexplicativas: que todos os homens são iguais, que eles são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis e que, entre estes direitos, estão a vida, a liberdade e a busca pela felicidade.”

Há 52 anos, ao discursar em outra solenidade de posse, no dia 20 de janeiro, John Kennedy preferiu dar ênfase a uma palavra: liberdade. E proclamou:

“Que saiba toda nação, quer nos queira o bem ou nos deseje o mal, que pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer encargo, enfrentaremos qualquer dificuldade, apoiaremos qualquer amigo e nos oporemos a qualquer inimigo, a fim de assegurar a sobrevivência e o sucesso da liberdade.”

Kennedy não o disse, mas se referia à liberdade de todos os povos viverem sob o regime capitalista e de lutarem contra o comunismo, mesmo vivendo na miséria. Para tanto, acenou o presidente com mais e mais armas: “Não ousaremos tentá-las [as nações comunistas] com a debilidade, pois somente quando as nossas armas forem indubitavelmente suficientes poderemos estar seguros, fora de dúvida, de que nunca serão empregadas [as armas atômicas da Rússia]”.

Menos de três meses depois da posse, seu governo fez, em abril de 1961, a frustrada tentativa de invadir Cuba, usando, para isso, os exilados cubanos treinados e dirigidos pela CIA para derrubar o comunista Fidel Castro. Kennedy teria ficado feliz com o golpe militar de abril de 1964, no Brasil, se não tivesse sido assassinado no ano anterior em Dallas, no Texas. A morte poupou-o de assistir ao fracasso de seu país na guerra contra os comunistas no Vietnã. Uma guerra incrementada em 1965 por ordem do sucessor de Kennedy, o vice Lyndon Johnson, que seguiu fielmente sua política anticomunista, enviando tropas para lá. Pouco importa que, ao longo dessa guerra, 58 mil soldados americanos tenham morrido, bem como um número incalculável de vietnamitas – talvez dois milhões de civis e militares.

O que importa é que com essa e outras guerras em que os Estados Unidos se meteram desde então, o propósito fundamental de Kennedy – o da defesa dos privilégios dos mais ricos – se manteve. Agora, em seu discurso, Obama inova um pouco, deixando de lado o comunismo, mas sem esquecer jamais a liberdade. Afirmou:

“Por meio do sangue derramado pelo chicote e do sangue derramado pela espada, nós aprendemos que nenhuma união fundada sobre os princípios da liberdade e da igualdade poderia sobreviver na semiescravidão e na semiliberdade. Nós nos renovamos mais uma vez e prometemos avançar juntos.”

E acrescentou:

“Esta geração de norte-americanos foi testada por crises que endureceram nossa determinação e colocaram à prova nossa capacidade de resistência. Uma década de guerra está terminando agora. A recuperação econômica já começou. As possibilidades que se apresentam para os Estados Unidos são ilimitadas, pois nós temos todas as qualidades que este mundo sem fronteiras exige: juventude e dinamismo, diversidade e abertura, uma capacidade infinita para assumir riscos e o dom da reinvenção. Meus compatriotas norte-americanos: nós fomos feitos para este momento, e vamos aproveitá-lo – desde que nós o aproveitemos juntos. Pois nós, o povo, compreendemos que nosso país não pode ser bem-sucedido quando um número cada vez menor de pessoas vai muito bem e um contingente crescente de cidadãos mal consegue sobreviver.”

Pois é. Gostaríamos de confiar nos bons propósitos de Obama, o primeiro negro a conquistar a presidência dos Estados Unidos, mesmo que o “nós” a que ele se refere não seja o nosso “nós”. Kennedy, o primeiro católico no mesmo cargo e filho de um milionário, não foi muito feliz em seus propósitos, nunca desmentidos pelos que o sucederam. Estão aí, a comprovarem, as guerras e os conflitos, mundo afora, a miséria, a dor e a fome. Não tanto nos Estados Unidos, mas também lá, quanto nos países do Terceiro Mundo. Enquanto Obama discursava, os estrategistas de seu país se debruçavam sobre os planos de intervir mais fortemente na Síria e no Mali, combatendo os que, lá, têm um conceito próprio e peculiar de liberdade.

O que escreveu Herbert de Souza, o Betinho, na década de 1990, continua muito atual:

“Faz-se um discurso do combate à miséria e pratica-se a prioridade da estabilização econômica, da globalização neoliberal, dos mitos da bolsa e do mercado, da busca fria e determinada do lucro a qualquer custo e com qualquer resultado.” Betinho, como nós, queria “a subordinação da economia à política e da política à ética para que o mundo adquira sentido pra toda a humanidade”. Para que o Estado, sob controle da cidadania, “possa por sua vez domesticar o mercado e, dentro dele, domesticar também os grandes conglomerados que fazem da teoria da liberdade apenas um biombo para seus negócios combinados”.

Taí um bom discurso para Dilma Rousseff, desde que não seja também para enganar.