Governo Temer não conhece os limites do poder

Charge de Latuff

Charge de Latuff

Texto escrito por José de Souza Castro:

Desde 1991, os Estados Unidos embarcaram numa década de intervencionismo sem precedente. Sua responsabilidade principal era presidir sobre um grande projeto de convergência político-econômica e integração comumente referida como globalização. De fato, porém, globalização serviu como eufemismo para império – suave ou informal – e para a tentativa de instituir uma Pax Americana mundial.

A abordagem preferida foi depender, sempre que possível, da persuasão. Porém, se pressionado, Washington não hesitou no uso da força, como suas numerosas aventuras militares demonstraram durante a década de 1990.

Dito isso, antes que me chamem de petista, comunista ou algo parecido, esclareço: essas palavras não saíram da minha cachola. Elas foram escritas, em inglês, por Andrew J. Bacevich, professor emérito de História e Relações Estrangeiras da Boston University, e publicadas no livro “The Limits of Power – The End of American Exceptionalism”, lançado em 2008 e que não demorou a entrar na lista de best sellers do jornal “The New York Times”. Continuar lendo

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A espionagem entre a ficção e a realidade

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Texto escrito por José de Souza Castro:

As revelações de Edward Snowden, ex-analista de inteligência da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, que levaram a presidente Dilma Rousseff a fazer um discurso na Assembleia Geral da ONU condenando o uso da Internet para espionagem no Brasil e noutros países, de modo algum são uma novidade na ficção.

Já em 1995, o romancista americano Tom Clancy, autor de conhecidos livros de suspense de fundo político, lançou o livro “Op-Center”, que deu origem a vários outros, em que relata como a moderna tecnologia estava sendo usada pelos Estados Unidos para espionar pessoas e governos em qualquer parte do mundo. Em 2007, o escritor britânico Robert Harris, que havia sido repórter da BBC, editor político do “Observer” e colunista do “Sunday Times” e do “Daily Telegraph”, escreveu o livro “O Fantasma”, que deu origem ao filme “O escritor fantasma” de Roman Polanski, vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlim em 2010.

Harris participou do projeto político do Novo Trabalhismo de Tony Blair e rompeu com o primeiro-ministro após o alinhamento da Inglaterra à guerra contra o Iraque. Críticos apontam as semelhanças entre Adam Lang, o ex-primeiro-ministro protagonista do romance de Robert Harris, e Tony Blair. Na página 255 da edição da Record, de 2008, lê-se o seguinte, dito por um ex-ministro das Relações Exteriores da Inglaterra que havia sido demitido por Lang, ao narrar a um interlocutor uma conversa com um funcionário da ONU:

“– Então eu tive de fazê-lo calar a boca depressa. Porque é claro que você sabe que todas as linhas telefônicas da ONU são grampeadas, certo?
— São? – Eu ainda estava tentando digerir tudo.
— Oh, completamente. A Agência Nacional de Segurança monitora cada palavra que é transmitida no hemisfério ocidental. Cada sílaba que você diz em um telefone, cada e-mail que você envia, cada transação com cartão de crédito que você faz, é tudo gravado e armazenado. O único problema é fazer a triagem disso tudo. Na ONU, somos informados que o jeito mais fácil de contornar o monitoramento é usar telefones celulares descartáveis, tentar evitar mencionar detalhes e mudar de número com a maior frequência possível; assim, conseguimos ficar pelo menos um pouco à frente deles.”

Na verdade, a ficção costuma ficar bem à frente da realidade. E a realidade, mesmo quando se escancara diante de nossos olhos, demora a ser compreendida em toda a sua gravidade. É por isso que o discurso de Dilma Rousseff foi recebido com leveza por muitos comentaristas brasileiros, como observa o jornalista Paulo Moreira Leite em sua coluna na revista “Isto É”. Ele recorda a frase do político baiano Juracy Magalhães, primeiro embaixador do Brasil em Washington depois do golpe militar de 1964: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.” E prossegue:

“Lembro da frase lendária do embaixador para tentar entender a reação de muitas pessoas ao discurso de Dilma Rousseff na ONU. Até a imprensa internacional deu um tratamento respeitoso ao pronunciamento, uma forma de reconhecer sua importância. Entre observadores brasileiros, cheguei a ouvir comentários em tom de ironia. Com aquele jeito de quem sabe de realidades ocultas que escapam a mim e a você, ouvi dizer que, nos Estados Unidos, ninguém mais dá importância a denúncias dessa natureza. A sugestão é que isso é coisa de gente atrasada – ou de político demagogo, populista…”

Não é. É coisa muito séria, e os americanos sabem disso. É por isso que se tornaram mestres em espionar outras nações – e pessoas. Podem trocar os métodos, diante de reações como a de Dilma Rousseff, mas o cerne da questão continuará o mesmo. Como deixou claro o presidente Barack Obama, ao discursar na ONU depois da presidente brasileira: “Começamos a revisar o modo como reunimos inteligência, para que possamos apropriadamente equilibrar as legítimas preocupações de segurança de nossos cidadãos e aliados com as preocupações de privacidade comuns a todas as pessoas.”

Nisso, o que é bom para os Estados Unidos deveria ser bom para o Brasil. Devíamos aprender com os gringos a como usar a espionagem para defender nossos interesses. O que exigiria revisar tudo o que o Brasil não tem feito desde muito antes que alguém pudesse imaginar, na ficção, a existência de algo como a Internet.

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Nota da Cris: Vejam como a “The Economist” resolveu retratar, pela primeira vez, a presidente Dilma Rousseff em sua seção de charges políticas. Enérgica ou submissa?