Carta de uma sobrevivente do fim do mundo

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Queridos leitores sobreviventes,

Sobrevivi ao propalado fim do mundo, que deveria ter acontecido em 21.12.2012, segundo profecias maias, astecas, hindus ou tupiniquins — já não me lembro ao certo. Lá se foram mais de um ano, mais precisamente 367 dias, e posso garantir que, por enquanto, o mundo continua girando em suas obstinadas órbitas sobre si mesmo e ao redor do Sol.

O que não significa, é claro, que continue o mesmo. Afinal, usamos o termo “o mundo gira” (e “a fila anda”) justamente para tratar das revoluções surpreendentes da vida. Em comentário ainda hoje, meu pai deu dois exemplos disso: nomes como José, que tinham caído em desuso, voltaram com força à preferência de pais e mães adeptos da simplicidade — os mesmos que alçaram João ao nobre 34º lugar entre os batizados de 2013. O outro exemplo foi o Zé Dirceu, aquele que era visto naturalmente como sucessor de Lula na presidência, que era seu braço direito e um dos homens mais poderosos e influentes do país, estar passando o Natal na Papuda, em Brasília.

Neste ano que passou, vi pessoas condenadas pelo chamado escândalo do mensalão serem efetivamente presas. Ainda não vi suas multas serem cobradas. Tampouco vi o julgamento de um mensalão anterior ser iniciado — mas talvez eu sobreviva a esse novo importante momento político.

Vi também um primeiro deputado ser preso no país. Um tal de Natan Donadon, lembram?

Por falar em política, neste ano vi outros escândalos surgirem, como a chamada máfia do ISS, em São Paulo, responsável pelo desvio de R$ 500 milhões — cinco vezes mais que o mensalão –, e o propinoduto mundial da Siemens/Alstom, que também atingiu o Brasil por meio de políticos paulistas (segundo consta, Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin) e de Brasília (Joaquim Roriz e José Roberto Arruda).

E foi neste ano que uma suposta consciência política assolou os brasileiros, que saíram às ruas para cobrar o direito de andarem de ônibus de graça, depois para protestar contra os gastos da Copa, depois para cobrar o direito de manifestação livresem violência por parte da polícia –, depois para aproveitar e cobrar um pouco de tudo e, por fim, virando uma forma de posicionamento no mundo por si só, com direito a nome próprio — black blocs. Entrei no fim do mundo sem saber que esse povo existia e, poucos meses depois, descobri que havia centenas deles, talvez até alguns vizinhos ou colegas de trabalho.

Fico em dúvida se valeu a pena o mundo ter continuado, porque 2013 foi o ano de tufão nas Filipinas com mais de 6.000 mortos e mais de 1.000 desaparecidos, de uso de armas químicas contra civis sírios (deixando mais de 1.000 mortos), de meteorito deixando 1.000 feridos na Rússia, de tragédia em Santa Maria (resultando em mais de 200 mortos e vários gravemente feridos), do assassinato de Amarildo (e sabe-se lá quantos Amarildos mais), de Renan Calheiros de volta à presidência do Senado, de Marcos Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos, de desabamento do Itaquerão com morte de dois operários, de inflação em alta, de artistas consagrados decepcionando ao pedir censura às biografias e das enchentes (de sempre), com mortos, feridos e desabrigados (de sempre), com prefeito indo a Nova York na hora crítica (de sempre).

Por outro lado, em 2013 ganhamos um herói. Ele se chama Edward Snowden e revelou ao mundo, de forma muito corajosa, como se dão as espionagens digitais, feitas com apoio de gigantes como Google e Facebook.

Além disso, se tivesse havido o fim do mundo, eu não teria visto meu time ser campeão mineiro, depois campeão de todas as Américas e, por fim, o terceiro lugar dentre os grandes do mundo. Não teria tido grande felicidade e grande decepção com uma equipe quase inalterada de 11 atletas.

Foi em 2013 que os empregados domésticos começaram a vislumbrar uma correção de injustiça trabalhista histórica, com a aprovação de emenda constitucional para garantir a eles o que qualquer outro trabalhador já tinha há décadas.

Foi em 2013 que os médicos começaram a ser contestados pelos brasileiros e também viraram mote de protestos, desde que o Mais Médicos foi criado e apareceram por essas bandas profissionais cubanos e de outros países, para nosso divino direito da comparação.

Se o mundo tivesse acabado, não teríamos visto Eike Batista sair da condição de sétimo mais rico do mundo para um “mero” milionário, cuja empresa mais importante, a petroleira OGX, teve que pedir recuperação judicial (antiga concordata) para tentar se reerguer após anunciar que produziria muito menos petróleo do que tinha divulgado inicialmente ao mercado.

Foi neste ano ganhado de lambuja que conhecemos todos os Papa Francisco, um sujeito tão simpático, tão latino, que despejou algumas frases tão sábias sobre nós. E acabamos vendo outros ídolos morrerem — como Nelson Mandela, um dos grandes da História da humanidade. (Também morreu Hugo Chávez.)

Isso para não falar que, se o mundo tivesse mesmo acabado, minha vida teria sido interrompida tão precocemente. Vivi tanta coisa boa no período, que sobra a convicção de que viverei outras excepcionais nos anos de sobrevivente que me restarem. Pra ficar num exemplo: ganhei uma sobrinha que é provavelmente o bebê mais sorridente — e mais cabeludo — que pisou na Terra desde 21.12.2012. É impossível não olhar para ela e sorrir, mesmo no dia mais mal-humorado ou triste.

Fico feliz por ter sobrevivido — o mundo, eu mesma, e as pessoas mais queridas da minha vida — por mais um ano. Desejo a vocês um 2014 de muitas emoções e motivos para comemorar. Um ano mais politizado que político, uma eleição sem fla-flu mala na internet, uma Copa sem sangria nas ruas, uma sociedade mais gentil e delicada (inclusive no trânsito!), um Galo bicampeão da Libertadores, com novos heróis surgindo e menos deles morrendo, com mais bebês sorridentes tornando nossa vida amena, cercados de gente que amamos. Uma sobrevida que valha a pena a todos 😉

Gentilmente,

Uma sobrevivente qualquer do fim do mundo

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A espionagem entre a ficção e a realidade

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Texto escrito por José de Souza Castro:

As revelações de Edward Snowden, ex-analista de inteligência da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, que levaram a presidente Dilma Rousseff a fazer um discurso na Assembleia Geral da ONU condenando o uso da Internet para espionagem no Brasil e noutros países, de modo algum são uma novidade na ficção.

Já em 1995, o romancista americano Tom Clancy, autor de conhecidos livros de suspense de fundo político, lançou o livro “Op-Center”, que deu origem a vários outros, em que relata como a moderna tecnologia estava sendo usada pelos Estados Unidos para espionar pessoas e governos em qualquer parte do mundo. Em 2007, o escritor britânico Robert Harris, que havia sido repórter da BBC, editor político do “Observer” e colunista do “Sunday Times” e do “Daily Telegraph”, escreveu o livro “O Fantasma”, que deu origem ao filme “O escritor fantasma” de Roman Polanski, vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlim em 2010.

Harris participou do projeto político do Novo Trabalhismo de Tony Blair e rompeu com o primeiro-ministro após o alinhamento da Inglaterra à guerra contra o Iraque. Críticos apontam as semelhanças entre Adam Lang, o ex-primeiro-ministro protagonista do romance de Robert Harris, e Tony Blair. Na página 255 da edição da Record, de 2008, lê-se o seguinte, dito por um ex-ministro das Relações Exteriores da Inglaterra que havia sido demitido por Lang, ao narrar a um interlocutor uma conversa com um funcionário da ONU:

“– Então eu tive de fazê-lo calar a boca depressa. Porque é claro que você sabe que todas as linhas telefônicas da ONU são grampeadas, certo?
— São? – Eu ainda estava tentando digerir tudo.
— Oh, completamente. A Agência Nacional de Segurança monitora cada palavra que é transmitida no hemisfério ocidental. Cada sílaba que você diz em um telefone, cada e-mail que você envia, cada transação com cartão de crédito que você faz, é tudo gravado e armazenado. O único problema é fazer a triagem disso tudo. Na ONU, somos informados que o jeito mais fácil de contornar o monitoramento é usar telefones celulares descartáveis, tentar evitar mencionar detalhes e mudar de número com a maior frequência possível; assim, conseguimos ficar pelo menos um pouco à frente deles.”

Na verdade, a ficção costuma ficar bem à frente da realidade. E a realidade, mesmo quando se escancara diante de nossos olhos, demora a ser compreendida em toda a sua gravidade. É por isso que o discurso de Dilma Rousseff foi recebido com leveza por muitos comentaristas brasileiros, como observa o jornalista Paulo Moreira Leite em sua coluna na revista “Isto É”. Ele recorda a frase do político baiano Juracy Magalhães, primeiro embaixador do Brasil em Washington depois do golpe militar de 1964: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.” E prossegue:

“Lembro da frase lendária do embaixador para tentar entender a reação de muitas pessoas ao discurso de Dilma Rousseff na ONU. Até a imprensa internacional deu um tratamento respeitoso ao pronunciamento, uma forma de reconhecer sua importância. Entre observadores brasileiros, cheguei a ouvir comentários em tom de ironia. Com aquele jeito de quem sabe de realidades ocultas que escapam a mim e a você, ouvi dizer que, nos Estados Unidos, ninguém mais dá importância a denúncias dessa natureza. A sugestão é que isso é coisa de gente atrasada – ou de político demagogo, populista…”

Não é. É coisa muito séria, e os americanos sabem disso. É por isso que se tornaram mestres em espionar outras nações – e pessoas. Podem trocar os métodos, diante de reações como a de Dilma Rousseff, mas o cerne da questão continuará o mesmo. Como deixou claro o presidente Barack Obama, ao discursar na ONU depois da presidente brasileira: “Começamos a revisar o modo como reunimos inteligência, para que possamos apropriadamente equilibrar as legítimas preocupações de segurança de nossos cidadãos e aliados com as preocupações de privacidade comuns a todas as pessoas.”

Nisso, o que é bom para os Estados Unidos deveria ser bom para o Brasil. Devíamos aprender com os gringos a como usar a espionagem para defender nossos interesses. O que exigiria revisar tudo o que o Brasil não tem feito desde muito antes que alguém pudesse imaginar, na ficção, a existência de algo como a Internet.

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Nota da Cris: Vejam como a “The Economist” resolveu retratar, pela primeira vez, a presidente Dilma Rousseff em sua seção de charges políticas. Enérgica ou submissa?