Com este pronunciamento, pauso meu protesto particular

Finalmente, após tantos dias de protestos que paralisaram o país, culminaram em conquistas para uma das pautas ecoadas nas ruas e também em duas mortes e vários feridos, a presidente Dilma Rousseff fez seu primeiro pronunciamento em rede nacional.

Vamos recapitular: o primeiro protesto ocorreu em 6 de junho, em São Paulo – 16 dias antes, portanto. Tomou maiores proporções em São Paulo nos dias 11 e 12, quando policiais começaram a agredir manifestantes e esses começaram a revidar. No dia 13, a repressão policial foi tão desproporcional que o movimento ganhou muito mais apoio e adeptos do que tinha antes, em todo o país. E, de lá pra cá, houve protestos diários, cada dia em mais cidades, inclusive em cidadezinhas, e a pauta do transporte um pouco mais barato se tornou muitas outras mais. Em Beagá, o primeiro protesto só foi ocorrer no dia 15. Na última segunda, dia 17, houve uma mobilização de centenas de milhares em todo o país. Na terça, vandalismo em Beagá. Na quarta, as primeiras vitórias; na quinta, muito mais pessoas nas ruas, na casa dos milhões, e muito mais violência e quebra-quebra que antes, além de duas mortes. Na sexta, este pronunciamento da chefe de Estado.

Tantos dias depois, confesso que eu esperava muito mais desse pronunciamento. Eu, e várias outras pessoas, pelo que diz o Datafolha e algumas janelas. Nas minhas redes sociais, senti um misto de frustração e satisfação. E eis os únicos termômetros de que disponho no momento deste post.

Eu esperava que ela trouxesse ao menos uma, umazinha proposta mais contundente, em resposta a tudo o que ouviu nos protestos. Esperava que não se dirigisse às reclamações contra a corrupção e aos clamores por mudança como se fosse algo dirigido a terceiros e não — também — a sua gestão. Esperava que não viesse passar um recado apaziguador velado à Fifa sobre a Copa, dado o contexto do surgimento dos protestos. Também esperava que explicitasse os excessos cometidos pelos policiais, que, afinal, são agentes dos Estados — assim como fez várias referências aos vândalos e “arruaceiros truculentos”. Esperava que não apenas repetisse o que já tinha declarado antes ou propostas que já estavam mais do que anunciadas e discutidas, como a de levar o dinheiro do petróleo para a educação ou de trazer médicos estrangeiros para complementar o quadro do SUS. Que especificasse um pouquinho mais o que é a genérica “reforma política”, que nunca sai do papel e sempre é citada nos momentos de desespero pelos políticos. O que é? Fim da reeleição? Mudanças no fundo partidário? Sei que isso depende muito mais do Legislativo, mas ela pode, sim, se posicionar.

Por outro lado, sei que não dá para falar tudo o que tanta gente espera, dentro de um país tão conservador como o nosso, nesses dez minutos de discurso. Então, o negócio é ver o que vem depois disso. O que será proposto, discutido, providenciado e efetivamente mudado depois de todas essas críticas vindas das ruas, voltadas para todos os partidos e esferas do poder.

O fato é que o Brasil amanhecerá um tiquim mais democrático de agora em diante, mesmo (e inclusive) por ter conhecido a existência de suas minorias mais reacionárias. Agora o povo sabe como faz pra conversar com seus representantes. Sabe que não basta votar na urna eletrônica e fica por isso mesmo durante dois anos, até eleições para outra esfera. Saberão acompanhar, se informar com clareza, fiscalizar, exigir transparência? Não sei, mas o processo de conscientização tá iniciado e, graças a deus, desta vez não se limitou apenas ao fla-flu tucano-petista que já vem nos saturando nos comentários anônimos da internet (e que não faria o menor sentido desta vez, com Haddad e Alckmin de mãos dadas – aliás, PT e PSDB deveriam dar as mãos mais vezes, porque têm mais em comum que o contrário). Esse é o saldo positivo final. Torço para que termine assim, porque tudo que começa tem que ter hora para terminar também. E sigo otimista, como sempre 😉

Atualização de domingo: Quando falo que já é hora de os protestos acabarem de vez, por terem perdido o rumo e o controle, é por relatos como ESTE. Leiam até o finzinho, por favor.

***

Como tudo isso é História acontecendo diante de nossos narizes, eu queria que minha meia dúzia de leitores deixasse nos comentários suas próprias opiniões, discordâncias, concordâncias, reflexões. Estou ansiosa para lê-los e pensar a respeito. E, agora que o outono de céu azul terminou, e já estamos no inverno, vou também mudar a estação do meu blog, que, ao longo de dez dias, produziu 12 posts sobre esses acontecimentos históricos. Encerro por aqui minhas interpretações (ufa, hein!) 😀

Encerro com o melhor cartaz de todos, diante do maior poeta do universo :)

Encerro com o melhor cartaz de todos, diante do maior poeta do universo 🙂

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10 comentários sobre “Com este pronunciamento, pauso meu protesto particular

  1. Oi, Cris, seu protestos era apenas em relação ao governo federal? Ou a trinca AAL também deram uma resposta satisfatória?

    Bem, eu achei a resposta da Rousseff insatisfatória. Mas também não sei o que de melhor ela poderia falar – como a maioria das reivindicações nos protestos eram genéricas: apenas temas, não propostas estruturadas, não daria para dizer: ok, aceito este projeto da demanda; por outro lado, mesmo que houvesse tal projeto, não teria tempo hábil para que a assessoria pudesse estudar devidamente; o que quer dizer também que não havia tempo hábil para elaborar propostas novas. Então a apresentação de propostas já em andamento que mais se aproximassem aos temas demandados foi uma opção.

    Ela também não poderia ser explícita na ameaça de Estado de Defesa caso o nível de vandalismo e bandidagem se mantivessem alto. Quer dizer, até poderia. Só não sei qual seria o efeito. Suspeito que os vândalos e bandidos não captariam as implicações disso.

    Talvez ela pudesse ser mais explícita no quesito de ouvir mais e mais diretamente as demandas da população. Espero que parte disso se reflita na maior abertura aos representantes da sociedade organizada – quero dizer, além de associações de ruralistas, industriais e grandes empresários da mídia: sem-terra, sem-teto, indígenas, mulheres, LGBTT… Outra poderiam ser canais mais interativos e efetivos das instituições governamentais em mídias sociais.

    []s,

    Roberto Takata

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    • Oi, Takata, não achei a resposta da Dilma satisfatória, né. Tampouco a de governadores e prefeitos, mas para eles foi mais fácil, já que tinham uma proposta concreta e imediata com que lidar, que era a redução do preço das tarifas de ônibus. De qualquer forma, como eu disse, acho que o país acordou “um tiquim mais democrático”, ou seja, governantes, Dilma incluída, terão de pensar em formas de falar com o povo e escutá-lo mais frequente e eficazmente e, como viram o poder que o Facebook tem no Brasil, deveriam usá-lo para esse fim também.
      abraços

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  2. Aqui vai minha singela opinião:

    O primeiro grande ato contra o aumento aconteceu dia 6 de junho. O segundo, dia 9. Graças ao vandalismo tão criticado, este foi noticiado e levou alguns jornalistas ao terceiro, dia 11. No dia anterior, a tarifa era baixada em Goiânia por causa dos protestos e ninguém falava disso. O terceiro ato, com violência contra jornalistas que o cobriam, aumentou a exposição. Com a mídia, atraiu para o quarto ato muito mais imprensa e algumas pessoas que queriam ver por si mesmas qual era a do movimento. Mídia esta que pediu repressão policial como comprovam os editoriais de estadão e folha do dia. O quarto ato, dia 13, foi violentamente reprimido pela policia militar paulista e foi transmitido ao vivo pela televisão. Continha cenas horríveis e gerou raiva. A “mídia” mudou de lado e passou a criticar a violência policial. Muitas pessoas ficaram com raiva. Muitas mesmo. E essas muitas pessoas resolveram ir no quinto ato, dia 16. Dia 16, milhares (bem mais do que as 65 mil que o datafolha publicou) saíram as ruas. O ponto que eu não consegui entender foi porque ao invés de protestar contra o aumento ou contra a PM, cada um que saiu à rua protestou contra o que queria. Eu estive lá e estava uma “bagunça”. Cada um com um cartaz diferente, protestando por um motivo. Mas enfim, todos, aparentemente, protestando, ainda que por causa diferente, aparentemente em solidariedade a protestantes sendo duramente reprimidos. O sexto ato, dia 17, da praça da Sé. O ato com a estranha quebradeira na prefeitura (um dos identificados, filho de empresário, faculdade privada, apostaria que jamais pegou transporte público, não combina nada com o MPL). A polícia estranhamente não age. Não bate, mas também não prende, o que deixa tudo estranho. Quem estava na rua? Ai eu já não sei. Algumas pessoas que saíram as ruas no dia anterior e gostaram? Outras que acharam legal protestar e foram? Após este, a tarifa baixa, mas o MPL mantém o ato marcado para o dia 20. Ato no qual militantes com bandeiras partidárias são hostilizados (lembrando que vimos bandeira do PSTU em TODOS os atos anteriores). Pessoas identificadas com a esquerda também são hostilizadas. Bom, todos acham que acabou. Sexta, 21, muitos atos ainda em são paulo. Rodovias fechadas, mais protesto na Radial Leste. Muita gente não sabe o porquê. Contra a corrupção, contra a copa, por melhores serviços. Pauta extensa e ninguém sabe direito. Somente na sexta, teve a Presidenta a certeza de que os 20 centavos não apaziguaram nada. Resolve pronunciar-se à nação. Mas o que fazer se os cartazes são genéricos? Falas genéricas sobre tudo o que estavam pedindo, destacando que ela já abraçou estas pautas, e habilmente coloca o congresso na reta . Antes, afaga os manifestantes colocando-se do lado deles, dizendo da luta de sua geração pela democracia. Diz que enviou o projeto dos 100% dos royalties do petróleo para a educação. Disse que quer importar médicos estrangeiros para o SUS porque aqui tem pouco médico. Diz que quer criar o Plano nacional da mobilidade urbana com governadores e prefeitos. Diz que se reunirá com os representantes dos outros poderes para a reforma política.Ótimo. Resolve não dizer nada da PM porque é ex-guerrilheira e dar bronca pública em militares pode acirrar o ânimo desta classe que ainda não se distanciou o bastante do papel que teve até 1985. Espero que a bronca tenha vindo em Privado. A fala da Copa, que eu não gostei, mas parece ter sido um afago à FIFA, que pode cobrar indenização bilionária do país se a copa não acontecer aqui por motivos de segurança. Chamou os líderes do movimento para conversa. Ato sábio. Passa a bola para o outro lado. E escancara o vazio do outro lado. Porque ser contra-tudo-o-que-está-aí é fácil. Quero ver propor as soluções. Ela chama para o diálogo, e agora os manifestantes tem que pensar (alguns pela primeira vez) quem nós enviaremos? o que proporemos? Ela deixa a situação favorável. Se os protestos continuam, eles são autoritários, porque não aceitaram o diálogo, porque é “baderna” e não ato cívico (o que ela bem diferenciou na fala). Se param, ótimo, ela atingiu o objetivo e agora é escutar as demandas, que sabe-se lá como serão escolhidas, porque na rua havia desde gente pedindo mais amor até gente pedindo o fim do Congresso. As demandas divulgadas na grande mídia são tão graves e complexas que não têm encaminhamento imediato possível e envolvem todas as outras esferas de poder. Ela não poderá resolver nenhuma sozinha, mas realizou o gesto humilde do diálogo. E agora, José?

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  3. Concordo contigo em praticamente tudo. Te acho muito lúcida como jornalista e espero que o seja também como pessoa. Continue assim. Gostei muito do que você diz sobre o embate pt-tucanos, eu também acho que eles deveriam sair por aí saltitando de mãos dadas. Como eu disse acima, continue assim. Até

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  4. Oi Cristina,

    Bom, seu blog proporciona uma navegabilidade bem legal, não só pelo elevado conteúdo das reflexões, como também, pelos preciosos links que melhoram a informação e lançam uma luz nova sobre fatos às vezes desapercebidos.

    Quanto ao discurso da Presidente Dilma, senti que ela estava triste e até pareceu se emocionar em alguns momentos. Ela é um ser humano e representa uma máquina gigantesca. Mas, claro, mais coerente será tratarmos do descaso em relação à saúde, à educação e tantos outros temas pertinentes a cada um de nós. Descaso esse, que com certeza, faz muita gente chorar de verdade. A realidade nua e crua para ganhar o pão de cada dia, dar uma vida mais digna aos filhos. Sim, nosso país talvez acorde melhor a cada novo dia depois dessas manifestações!

    Li há um tempo atrás: “blogs são como garrafas jogadas ao mar!” Posso dizer que tenho tido a sorte de encontrá-las!

    Vida longa aos seus escritos!

    Um abraço. Eduardo

    http://www.maneirasimples.wordpress.com

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  5. Cara Cris,
    acho que muita coisa ainda vai rolar…talvez todos, sinceramente todos, tenham sido pegos de surpresa com a avalanche que varreu Pindorama por esses dias. Passamos sem saber da discussão de boteco pra ação na rua. Então nem o botequeiro mais radical achava que isso poderia acontecer. Penso eu. Por isso muita água ainda vai rolar. Tenho que a presidenta não sabe o que dizer, nao falou o que queriamos ouvir e nao falará o que deve ser dito. Penso eu. Governo de aliancas provoca isso. Mas o que entendo é que o caldo engrossou e isso ja eh um bom sinal. Historia se faz passo a passo. Mudar algo demanda tempo e muita paciencia. Mudar o estabilshment demanda mais tempo ainda. Mais paciencia ainda.
    Cara li tambem o post que voce recomendou no final e nao sei bem o que dizer…eu aqui pelas bandas de Brasilia fui a rua..e nao sei se concordo com o que o cara escreveu…entendo..respeito, mas cara…acho que na real…nao quero acreditar naquilo que esta escrito ali…o negocio saiu do controle isso eh fato…mas saiu do controle porque tinha que sair e nao porque essa falta de controle foi orquestrada… e hmmm acho que é isso…
    Na real mesmo..os tempos mudaram…e de fato nao ha como dizer que foi por isso ou foi por aquilo, mas sim ha que se aceitar que os tempos mudaram…de fato pensar em partidos politicos como os que ai estao…nao nos levou e nem levará a nada…Meu…o que sei eh que estamos presenciando talvez uma mudanca real em Pindorama…entendo que o comodismo e a resignacao…perderam a graça…e a galera viu que ainda estamos anos luz do que achamos estar. Penso…
    Saudacoes cara Cris e um beijo desde aqui do Planalto Central.

    ps. Acho ainda que voce voltará a falar sobre nossa primavera dos 0,20 centavos…penso que ainda haverá muito a se escrever sobre isso…

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    • Por enquanto dei uma pausa, Gabriel. Só se for muito dispensável volto ao assunto. Mas é que estou num momento de reflexão sobre tudo o que etsá acontecendo, em suspensão quanto a qualquer tese ou certeza. “Suspendam-se as certezas!”

      Só um palpite sobre o que escreveu o médico que hoje descobri ser meu primo de segundo grau (o mundo é mesmo um ovo): não acho que ele tenha querido dizer que o descontrole foi orquestrado. Acho apenas que houve um descontrole, desde meados da semana passada, e que grupos organizados estão se aproveitando dele para tentar impor suas pautas. Espero que não consigam.

      abraço fraterno,

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