Ou o rumo ou a pausa

Homem atropela quatro durante protestos em Ribeirão Preto; um deles, de 18 anos, morre. É a primeira morte desde que os protestos começaram. Foto: Edson Silva/Folhapress

Homem atropela quatro durante protestos em Ribeirão Preto; um deles, de 18 anos, morre. É a primeira morte desde que os protestos começaram. Foto: Edson Silva/Folhapress

De repente o clima das pessoas no meu Facebook, comentaristas de primeira hora da “Revolta do Vinagre”, pesou. Os protestos de ontem levaram às ruas ainda mais pessoas do que na última segunda-feira, com a diferença que, em várias dessas cidades, já não era mais tão importante a bandeira da tarifa de ônibus, uma vez que os prefeitos se mexeram e deram uma resposta aos manifestantes, nas primeiras vitórias do movimento.

(Parêntesis para dizer que esse não é o caso de BH, onde o prefeito anunciou uma redução de apenas cinco centavos e que ainda depende de aprovação na Câmara, sem data para acontecer. Ou seja, não houve qualquer vitória por aqui.)

Como o estopim foi parcialmente resolvido, sobraram todos os outros pedidos difusos, que vão desde o engavetamento da PEC 37, que tira poder de investigação do Ministério Público e é uma causa bastante nobre contra a qual se protestar, até o fim dos partidos políticos, o impeachment da presidente Dilma, a pena de morte, a redução da maioridade penal – causas antidemocráticas, reacionárias e problemáticas.

O vazio da pauta definida, que elogiei em outros momentos, está se mostrando um problema agora, porque abre brecha a oportunismos preocupantes. Junte-se a isso o fato de que o povão que está nas ruas, que agrega todos os matizes ideológicos e camadas sociais do país, também agrega uma parcela razoável de pessoas querendo causar confusão. Carros da imprensa foram incendiados, prédios públicos, depredados, e pessoas ligadas a partidos políticos, hostilizadas. Também houve repressão policial, como de hábito. E tivemos até nossa primeira morte.

[Atualização na sexta-feira: uma gari que estava trabalhando também morreu em Belém do Pará após inalar gás lacrimogêneo durante o protesto.]

Dito tudo isso, falta vermos a presidente Dilma Rousseff em rede nacional, de rádio e TV, emitindo um pronunciamento oficial, com direito a propostas robustas também do governo federal, uma vez que, até o momento, só os prefeitos e governadores ofereceram algo, ainda que pequeno, em resposta aos anseios do povo.

E agora falta o movimento escolher seu rumo concreto, se quiser obter novas vitórias. Reforma política? Vereadores não-remunerados? Fim do mecanismo de reeleição? Fim da possibilidade de um político exercer o mesmo cargo mais de uma vez? Uso mais eficaz de plebiscitos para questões de interesse de todos? Taxação de usuários de carros para financiar o transporte público coletivo? Engavetamento definitivo de projetos cabeludos como a “cura gay” e a PEC 37?

Propostas não faltam, mas precisam de ser traçadas e definidas. Ou então, meus amigos, é hora de recolher as bandeiras e ir para casa, com o aprendizado de que o povão nas ruas consegue, sim, exercer pressão política quando é por questões de interesse geral. Com uma maior conscientização política de gente que sempre foi apático para as gravidades do noticiário. E a perspectiva de novos atos como este, sempre que surgirem novos problemas. Os parlamentares vão pensar duas vezes antes de querer dobrar seus salários, por exemplo.

Mas e aí, você, manifestante, o que quer para nosso país? Mais lutas cercadas de boas propostas ou vai se dar por satisfeito com a lição deixada por ora ao mundo? Ambas as decisões são válidas, desde que esse vácuo perigoso seja logo preenchido.

***

Atualização na sexta-feira: Diante do aumento das pautas perigosas, como destaquei aqui no post, e da violência contra os que portavam bandeiras de partidos (o movimento tem que ser apartidário, não antipartidário. Afinal, todo mundo tem direito de se filiar, estamos em uma democracia), sem falar na ida dos skinheads e afins às ruas, o MPL anunciou que não vai mais convocar manifestações. Resolveram decidir pela segunda opção que coloquei acima. Resta ver se as manifestações vão acabar por causa disso, já que se tornaram muito maiores do que o MPL agora. Mais um motivo para Dilma se pronunciar logo, e apresentar propostas, para complementar as dos prefeitos.

Atualização de domingo: Quando falo que já é hora de os protestos acabarem de vez, por terem perdido o rumo e o controle, é por relatos como ESTE. Leiam até o finzinho, por favor.

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10 comentários sobre “Ou o rumo ou a pausa

  1. Tem uma pauta bonita, para nós mineiros, rolando nas mídias sociais. Reproduzo:

    Ao prefeito:
    – Início imediato do planejamento e obra de ampliação do Metrô-BH
    – Início imediato do planejamento e obras contra enchentes em período de chuva
    – Explicações sobre o BRT; quais são as melhorias pra cidade? Porque demora tanto? Qual a explicação para o péssimo planejamento que levou a desmanchar trechos prontos?
    – Investimento na infraestrutura e no equipamento dos hospitais e postos de saúde relacionados ao SUS.
    – Simplificação da burocracia na Saúde Pública
    – Aumento do salário dos professores
    – Investimento na infraestrutura das escolas municipais
    – Investimento em programas de educação extracurriculares
    – Desprivatização do Transporte Público
    – Diminuição da passagem do ônibus
    – Oposição oficial de BH contra a PEC37
    – Oposição oficial de BH contra o Estatuto do Nascituro
    – Oposição oficial de BH contra qualquer projeto de patologização do homossexualidade e afins
    – Transparência máxima sobre os gastos públicos

    Ao governador:
    – Ajuda monetária às cidades para investimento em Saúde e Educação
    – Pressão sobre que o prefeito de Belo Horizonte cumpra nossas exigências
    – Investimento na infraestrutura e no equipamento dos hospitais e postos de saúde relacionados ao SUS em toda Minas Gerais
    – Simplificação da burocracia na Saúde Pública em toda Minas Gerais
    – Investimento na infraestrutura das escolas estaduais em MG
    – Investimento em programas de educação extracurriculares em MG
    – Oposição oficial de MG contra a PEC37
    – Oposição oficial de MG contra o Estatuto do Nascituro
    – Oposição oficial de MG contra qualquer projeto de patologização do homossexualidade e afins
    – Oposição oficial de MG contra a violência em manifestações
    – Transparência máxima sobre os gastos públicos

    À presidente:
    – Pressão sobre que nosso prefeito e governador cumpram nossas exigências
    – Liberação de verba pra que os estados e municípios cumpram nossas exigências com maior efeito
    – Investimento na infraestrutura e no equipamento dos hospitais e postos de saúde relacionados ao SUS.
    – Simplificação da burocracia na Saúde Pública
    – Investimento na infraestrutura das escolas federais
    – Anulação completa da PEC37
    – Anulação completa do Estatuto do Nasciturno
    – Anulação completa de qualquer projeto de patologização do homossexualidade e afins
    – Posicionamento claro sobre as manifestações e as respostas policiais
    – Explicação sobre os gastos exorbitantes com a copa do mundo, em detrimento de problemas sociais gritantes e antigos
    – Formulação de leis anticorrupção e penas muito mais severas aos corruptos
    – Transparência máxima sobre os gastos públicos

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  2. Estou pra apostar que, depois de hoje, teremos um certo grau de ressaca dos manifestantes que não fazem parte dos mais exaltados e dos baderneiros e bandidos infiltrados.

    []s,

    Roberto Takata

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  3. Oi Cris!
    Seu post de hoje foi bem parecido com o que formulei no meu blog ontem. Eu acredito, sim, que é hora de parar para refletir, formular uma pauta não com ideias amplas e vagas, mas com propostas concretas e chamar o prefeito, o governador e a presidenta para que tomem as providências que a população anseia. Já que eles têm medo e não chamam as lideranças do movimento, que essas lideranças convoquem as autoridades, pois elas são nossas representantes, pois não? E que se encontrem os mecanismos de vigilância e fiscalização para que a corrupção se reduza ( duvido muito que ela acabe, de tão enraizada está entre nós), para que a educação e a saúde sejam de qualidade para todos, para que as máfias que dominam o setor de transportes no Brasil sejam controladas e fiscalizadas, para que se evite o monopólio exercido por alguns grupos de comunicação e tantas outras questões. Ah, claro, que a PEC 37 seja arquivada e não ressuscite depois.
    Por que não incluir na pauta política o fim da reeleição para qualquer cargo eletivo? Se você se elegeu vereador, ótimo, cumpra seu mandato, cumpra seu dever cívico e deixe o lugar para outros que também estão interessados. Política não é carreira nem profissão. É inadmissível ver um político como tantos que temos, que estão há trinta, quarenta anos no congresso sem fazer nada a não ser defender seus interesses mesquinhos.
    A propósito do transporte, o blog Outras Palavras que recebi hoje tem uma matéria muito boa sobre os barões que controlam o transporte nas grandes cidades,
    Beijos!

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  4. Eu acho que os protestos continuarão enquanto a Copa das Confederações prosseguir* – embora eu também acredite que estes protestos sejam bem menores, principalmente após o MPL anunciar que não fará mais convocações.

    * e a mais recente teoria conspiratória que rolava nas redes sociais sobre a Copa das Confederações no Brasil ser suspensa já foi desmentida pela FIFA.

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