
De repente o clima das pessoas no meu Facebook, comentaristas de primeira hora da “Revolta do Vinagre”, pesou. Os protestos de ontem levaram às ruas ainda mais pessoas do que na última segunda-feira, com a diferença que, em várias dessas cidades, já não era mais tão importante a bandeira da tarifa de ônibus, uma vez que os prefeitos se mexeram e deram uma resposta aos manifestantes, nas primeiras vitórias do movimento.
(Parêntesis para dizer que esse não é o caso de BH, onde o prefeito anunciou uma redução de apenas cinco centavos e que ainda depende de aprovação na Câmara, sem data para acontecer. Ou seja, não houve qualquer vitória por aqui.)
Como o estopim foi parcialmente resolvido, sobraram todos os outros pedidos difusos, que vão desde o engavetamento da PEC 37, que tira poder de investigação do Ministério Público e é uma causa bastante nobre contra a qual se protestar, até o fim dos partidos políticos, o impeachment da presidente Dilma, a pena de morte, a redução da maioridade penal – causas antidemocráticas, reacionárias e problemáticas.
O vazio da pauta definida, que elogiei em outros momentos, está se mostrando um problema agora, porque abre brecha a oportunismos preocupantes. Junte-se a isso o fato de que o povão que está nas ruas, que agrega todos os matizes ideológicos e camadas sociais do país, também agrega uma parcela razoável de pessoas querendo causar confusão. Carros da imprensa foram incendiados, prédios públicos, depredados, e pessoas ligadas a partidos políticos, hostilizadas. Também houve repressão policial, como de hábito. E tivemos até nossa primeira morte.
[Atualização na sexta-feira: uma gari que estava trabalhando também morreu em Belém do Pará após inalar gás lacrimogêneo durante o protesto.]
Dito tudo isso, falta vermos a presidente Dilma Rousseff em rede nacional, de rádio e TV, emitindo um pronunciamento oficial, com direito a propostas robustas também do governo federal, uma vez que, até o momento, só os prefeitos e governadores ofereceram algo, ainda que pequeno, em resposta aos anseios do povo.
E agora falta o movimento escolher seu rumo concreto, se quiser obter novas vitórias. Reforma política? Vereadores não-remunerados? Fim do mecanismo de reeleição? Fim da possibilidade de um político exercer o mesmo cargo mais de uma vez? Uso mais eficaz de plebiscitos para questões de interesse de todos? Taxação de usuários de carros para financiar o transporte público coletivo? Engavetamento definitivo de projetos cabeludos como a “cura gay” e a PEC 37?
Propostas não faltam, mas precisam de ser traçadas e definidas. Ou então, meus amigos, é hora de recolher as bandeiras e ir para casa, com o aprendizado de que o povão nas ruas consegue, sim, exercer pressão política quando é por questões de interesse geral. Com uma maior conscientização política de gente que sempre foi apático para as gravidades do noticiário. E a perspectiva de novos atos como este, sempre que surgirem novos problemas. Os parlamentares vão pensar duas vezes antes de querer dobrar seus salários, por exemplo.
Mas e aí, você, manifestante, o que quer para nosso país? Mais lutas cercadas de boas propostas ou vai se dar por satisfeito com a lição deixada por ora ao mundo? Ambas as decisões são válidas, desde que esse vácuo perigoso seja logo preenchido.
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Atualização na sexta-feira: Diante do aumento das pautas perigosas, como destaquei aqui no post, e da violência contra os que portavam bandeiras de partidos (o movimento tem que ser apartidário, não antipartidário. Afinal, todo mundo tem direito de se filiar, estamos em uma democracia), sem falar na ida dos skinheads e afins às ruas, o MPL anunciou que não vai mais convocar manifestações. Resolveram decidir pela segunda opção que coloquei acima. Resta ver se as manifestações vão acabar por causa disso, já que se tornaram muito maiores do que o MPL agora. Mais um motivo para Dilma se pronunciar logo, e apresentar propostas, para complementar as dos prefeitos.
Atualização de domingo: Quando falo que já é hora de os protestos acabarem de vez, por terem perdido o rumo e o controle, é por relatos como ESTE. Leiam até o finzinho, por favor.
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