A confiança de Dilma e as mortes de Kennedy e Luther King

Lula Marques / Agência PT

Dilma em evento no dia 6 de julho. Lula Marques / Agência PT

Texto escrito por José de Souza Castro:

‘Eu não vou cair, diz Dilma’. Manchete da primeira página da “Folha de S.Paulo” nesta terça-feira, dia 7 de julho. Na reportagem, que pode ser lida AQUI, a presidente da República responde a esta pergunta sem ponto de interrogação: “Parece que está todo mundo querendo derrubar a sra”.

Responde Dilma:

“O que você quer que eu faça? Eu não vou cair. Eu não vou, eu não vou. Isso é moleza, isso é luta política. As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não estou. Não tem base para eu cair. E venha tentar, venha tentar. Se tem uma coisa que eu não tenho medo é disso. Não conte que eu vou ficar nervosa, com medo. Não me aterrorizam.”

A repórter insiste: “E se mexerem na sua biografia?”. E Dilma: “Ô, querida, e vão mexer como? Vão reescrever? Vão provar que algum dia peguei um tostão? Vão? Quero ver algum deles provar. Todo mundo neste país sabe que não. Quando eles corrompem, eles sabem quem é corrompido.”

A entrevista exclusiva ao jornal paulista teve imediata repercussão na Internet. Vou-me ater ao Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim, que foi chefe de Redação do “Jornal do Brasil” num período em que trabalhamos juntos. Ele saiu para trabalhar na TV Globo; hoje, na TV Record, é grande defensor do governo petista. Diz Amorim, começando por outra afirmação da presidente de que a oposição é golpista (Fel-lha é como ele apelidou o jornal):

“Uma acusação forte, direta ao coração da convenção do PSDB, aquela que pregou o Golpe (só de) branco. A Fel-lha, como seria previsível, preferiu outra frase presidencial, menos relevante, como manchete da primeira página: “eu não vou cair”. Mas, a escolha tem uma lógica: mantém acesa a chama do Golpe… A entrevista à Fel-lha foi um desses desastres ferroviários, como diz o Mino Carta. Deve ser coisa de petista de São Paulo.(…) Ao dar uma entrevista exclusiva à Fel-lha, a Presidenta diz: a Fel-lha existe, é importante, relevante, logo, a Globo é mais ainda e a Veja também. “Eu levo a sério esses detritos de maré baixa”, é o que essa entrevista significa. O que deveria ter feito o petista de São Paulo que teve a ideia de jerico ? Mandar a Presidenta para uma rede nacional de televisão, dentro do horário nobre. Dentro da Babilônia, para alavancar a também decadente audiência do jornal nacional. Entrar em rede nacional. Falar com TODOS ! Com o POVO brasileiro ! E dizer: o PSDB, a Globo, a Fel-lha, o TCU do Nardes, o TSE do Gilmar e o Moro querem dar um Golpe para me derrubar ! Mas, eu não vou cair.”

Como se vê, Dilma é criticada pelo que faz e pelo que não faz. Por amigos e opositores. Nos últimos dias, foi amplamente criticada por não exonerar o ministro da Justiça que não demitiu o diretor-geral da Polícia Federal por causa de uma entrevista deste ao jornal “O Estado de S. Paulo”.

Mas, para quem está com um índice de aprovação de 9%, segundo a pesquisa Ibope divulgada no dia primeiro de julho, não é fácil tomar a decisão de demitir um importante auxiliar desleal. Nem para Dilma nem para seu ministro da Justiça.

Não foi para o presidente Kennedy, como se lê em “Eternidade por um fio” do romancista britânico Ken Follett (mais de 150 milhões de livros do autor vendidos no mundo) que mistura personagens reais, como John F. Kennedy, Martin Luther King Jr., J. Edgar Hoover, Nikita Kruschev, e fictícios, sem dizer que tudo ali que parecer real é “mera coincidência”. O livro tem 1.069 páginas, na edição brasileira da editora Arqueiro.

Na página 452, George, assessor do ministro da Justiça, Roberto (Bobby) Kennedy, tenta convencer Verena, assessora do reverendo Martin Luther King, a afastar-se de dois de seus amigos, para evitar que a amizade com comunistas prejudicasse a luta contra a segregação racial. Vamos ao livro:

“ – Eu sei que já conversamos sobre isso antes, mas o fato de o Dr. King se relacionar com comunistas não ajuda a Casa Branca.
– E quem disse que ele se relaciona?
– o FBI.
Verena deu um muxoxo de desprezo.
– Sei, aquela famosa e confiável fonte de informação sobre o movimento dos direitos civis… Pare com isso, George. Você sabe muito bem que, para J. Edgar Hoover, qualquer um que discorde dele é comunista, inclusive Bobby Kennedy. Cadê as provas?
– Parece que o FBI tem provas.
–Parece? Ou seja, você não viu. Bobby viu?
George ficou envergonhado.
– Hoover disse que a fonte é segura.
– Hoover se recusou a mostrar as provas para o secretário de Justiça? Para quem ele acha que trabalha? – Pensativa, ela tomou um gole de Martini. – O presidente viu as provas?
George não respondeu.
Verena ficou ainda mais incrédula.
– Hoover não pode dizer não ao presidente.
–Acho que o presidente decidiu evitar um confronto nessa questão.
– Vocês são ingênuos, por acaso? George, escute o que vou dizer: não existem provas.
Ele decidiu dar o braço a torcer.
– Você provavelmente tem razão. Eu não acredito que Jack O’Dell e Stanley Levison sejam comunistas, embora sem dúvida já tenham sido um dia; mas será que você não vê que a verdade não importa? Há base para suspeita, e isso basta para prejudicar a credibilidade do movimento pelos direitos civis. E agora que o presidente propôs uma nova lei, ele também sai prejudicado.”

É um caso em que a realidade imita a ficção ou vice-versa. Em que, em se trocando nomes e tempos, ficamos a pensar se a confiança demonstrada por Dilma Rousseff na força da ausência de prova de que é corrupta (já que não tem mais importância ser ou não comunista) servirá para preservar seu mandato. Tomara que sirva.

Para Luther King, a falta de provas não preservou algo mais valioso: a vida. A vida real foi cruel também para John Kennedy. Que lutava pelo que considerava boas causas, até ser também assassinado a tiros. Que os fados protejam Dilma. Que o Espírito de Minas a visite e, sobre a confusão em que vivemos, lance teu claro raio ordenador (com as bênçãos do poeta).

Leia também:

faceblogttblogPague com PagSeguro - é rápido, grátis e seguro!

Anúncios

Kennedy e Obama – e discursos que enganam

(Foto: Reuters)

(Foto: Reuters)

Texto escrito por José de Souza Castro:

No discurso de posse, neste 21 de janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que vai dar prosseguimento a uma jornada sem fim para aproximar o significado das palavras dos patriotas de 1776 à realidade de nosso tempo. Estas palavras: “Nós consideramos estas verdades autoexplicativas: que todos os homens são iguais, que eles são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis e que, entre estes direitos, estão a vida, a liberdade e a busca pela felicidade.”

Há 52 anos, ao discursar em outra solenidade de posse, no dia 20 de janeiro, John Kennedy preferiu dar ênfase a uma palavra: liberdade. E proclamou:

“Que saiba toda nação, quer nos queira o bem ou nos deseje o mal, que pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer encargo, enfrentaremos qualquer dificuldade, apoiaremos qualquer amigo e nos oporemos a qualquer inimigo, a fim de assegurar a sobrevivência e o sucesso da liberdade.”

Kennedy não o disse, mas se referia à liberdade de todos os povos viverem sob o regime capitalista e de lutarem contra o comunismo, mesmo vivendo na miséria. Para tanto, acenou o presidente com mais e mais armas: “Não ousaremos tentá-las [as nações comunistas] com a debilidade, pois somente quando as nossas armas forem indubitavelmente suficientes poderemos estar seguros, fora de dúvida, de que nunca serão empregadas [as armas atômicas da Rússia]”.

Menos de três meses depois da posse, seu governo fez, em abril de 1961, a frustrada tentativa de invadir Cuba, usando, para isso, os exilados cubanos treinados e dirigidos pela CIA para derrubar o comunista Fidel Castro. Kennedy teria ficado feliz com o golpe militar de abril de 1964, no Brasil, se não tivesse sido assassinado no ano anterior em Dallas, no Texas. A morte poupou-o de assistir ao fracasso de seu país na guerra contra os comunistas no Vietnã. Uma guerra incrementada em 1965 por ordem do sucessor de Kennedy, o vice Lyndon Johnson, que seguiu fielmente sua política anticomunista, enviando tropas para lá. Pouco importa que, ao longo dessa guerra, 58 mil soldados americanos tenham morrido, bem como um número incalculável de vietnamitas – talvez dois milhões de civis e militares.

O que importa é que com essa e outras guerras em que os Estados Unidos se meteram desde então, o propósito fundamental de Kennedy – o da defesa dos privilégios dos mais ricos – se manteve. Agora, em seu discurso, Obama inova um pouco, deixando de lado o comunismo, mas sem esquecer jamais a liberdade. Afirmou:

“Por meio do sangue derramado pelo chicote e do sangue derramado pela espada, nós aprendemos que nenhuma união fundada sobre os princípios da liberdade e da igualdade poderia sobreviver na semiescravidão e na semiliberdade. Nós nos renovamos mais uma vez e prometemos avançar juntos.”

E acrescentou:

“Esta geração de norte-americanos foi testada por crises que endureceram nossa determinação e colocaram à prova nossa capacidade de resistência. Uma década de guerra está terminando agora. A recuperação econômica já começou. As possibilidades que se apresentam para os Estados Unidos são ilimitadas, pois nós temos todas as qualidades que este mundo sem fronteiras exige: juventude e dinamismo, diversidade e abertura, uma capacidade infinita para assumir riscos e o dom da reinvenção. Meus compatriotas norte-americanos: nós fomos feitos para este momento, e vamos aproveitá-lo – desde que nós o aproveitemos juntos. Pois nós, o povo, compreendemos que nosso país não pode ser bem-sucedido quando um número cada vez menor de pessoas vai muito bem e um contingente crescente de cidadãos mal consegue sobreviver.”

Pois é. Gostaríamos de confiar nos bons propósitos de Obama, o primeiro negro a conquistar a presidência dos Estados Unidos, mesmo que o “nós” a que ele se refere não seja o nosso “nós”. Kennedy, o primeiro católico no mesmo cargo e filho de um milionário, não foi muito feliz em seus propósitos, nunca desmentidos pelos que o sucederam. Estão aí, a comprovarem, as guerras e os conflitos, mundo afora, a miséria, a dor e a fome. Não tanto nos Estados Unidos, mas também lá, quanto nos países do Terceiro Mundo. Enquanto Obama discursava, os estrategistas de seu país se debruçavam sobre os planos de intervir mais fortemente na Síria e no Mali, combatendo os que, lá, têm um conceito próprio e peculiar de liberdade.

O que escreveu Herbert de Souza, o Betinho, na década de 1990, continua muito atual:

“Faz-se um discurso do combate à miséria e pratica-se a prioridade da estabilização econômica, da globalização neoliberal, dos mitos da bolsa e do mercado, da busca fria e determinada do lucro a qualquer custo e com qualquer resultado.” Betinho, como nós, queria “a subordinação da economia à política e da política à ética para que o mundo adquira sentido pra toda a humanidade”. Para que o Estado, sob controle da cidadania, “possa por sua vez domesticar o mercado e, dentro dele, domesticar também os grandes conglomerados que fazem da teoria da liberdade apenas um biombo para seus negócios combinados”.

Taí um bom discurso para Dilma Rousseff, desde que não seja também para enganar.