O prefeito Medioli e o ‘jeitinho safado’ dos deputados e senadores

Texto escrito por José de Souza Castro:

O atual prefeito de Betim, Vittorio Medioli, do PHS, foi destaque numa notícia de “O Globo” por ter sido o candidato que mais gastou dinheiro na campanha para prefeito em 2016, em todo o Brasil. Ele gastou R$ 3,9 milhões e foi o único doador de sua campanha. Se concorresse nas eleições deste ano, só poderia gastar R$ 9.690 de seu próprio bolso – ou dez salários mínimos. Tudo por causa de um “jeitinho safado” dos atuais deputados e senadores na luta para se reelegerem.

“O jeitinho safado” é o título de artigo de Medioli em seu jornal “O Tempo”, publicado no dia 4 deste mês e que não teve a repercussão merecida. Nem entre os próprios leitores do jornal. Quatro dias depois, apenas 16 comentaram o artigo, entre eles, Job Alves dos Santos, que disse: “Excelente abordagem. Agora, como fazer que isto chegue ao público? Esta é uma notícia que precisaria viralizar na internet. Mas a imprensa é modesta na divulgação.”

Segundo Medioli, que escreve semanalmente um artigo em seus jornais e que foi deputado federal pelo PSDB mineiro por 16 anos, as novas regras foram aprovadas pelo Congresso Nacional “exclusivamente para facilitar a reeleição de quem tem cargo”. Não espere o eleitor “novidades e renovação”. Os que já se locupletam em seus mandatos, concederam-se “alguns bilhões de dinheiro público destinados para causa própria de quem aprovou a lei. Facilita-se, assim, a camuflagem do caixa 2 de antigos financiadores, que, tendo sido secados pela Lava Jato, pretendem, como nunca, manobrar debaixo do pano do fundo eleitoral”, interpreta o prefeito de Betim.

Tudo se fez em Brasília, continua Medioli, “para inviabilizar as candidaturas avulsas, expressão mais democrática de um país realmente civilizado, e limitar a irrisórios dez salários o aporte do próprio candidato para sua campanha. Ficou proibido gastar por amor à pátria os recursos que o cidadão ganhou com seu trabalho honesto, taxado pela maior carga tributária das Américas. Não poderá enfrentar o mal que castiga a nação com meios iguais”. E repisa: “A reserva de mercado inclui canalhas e afasta voluntários.” Continuar lendo

Anúncios

Kennedy e Obama – e discursos que enganam

(Foto: Reuters)

(Foto: Reuters)

Texto escrito por José de Souza Castro:

No discurso de posse, neste 21 de janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que vai dar prosseguimento a uma jornada sem fim para aproximar o significado das palavras dos patriotas de 1776 à realidade de nosso tempo. Estas palavras: “Nós consideramos estas verdades autoexplicativas: que todos os homens são iguais, que eles são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis e que, entre estes direitos, estão a vida, a liberdade e a busca pela felicidade.”

Há 52 anos, ao discursar em outra solenidade de posse, no dia 20 de janeiro, John Kennedy preferiu dar ênfase a uma palavra: liberdade. E proclamou:

“Que saiba toda nação, quer nos queira o bem ou nos deseje o mal, que pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer encargo, enfrentaremos qualquer dificuldade, apoiaremos qualquer amigo e nos oporemos a qualquer inimigo, a fim de assegurar a sobrevivência e o sucesso da liberdade.”

Kennedy não o disse, mas se referia à liberdade de todos os povos viverem sob o regime capitalista e de lutarem contra o comunismo, mesmo vivendo na miséria. Para tanto, acenou o presidente com mais e mais armas: “Não ousaremos tentá-las [as nações comunistas] com a debilidade, pois somente quando as nossas armas forem indubitavelmente suficientes poderemos estar seguros, fora de dúvida, de que nunca serão empregadas [as armas atômicas da Rússia]”.

Menos de três meses depois da posse, seu governo fez, em abril de 1961, a frustrada tentativa de invadir Cuba, usando, para isso, os exilados cubanos treinados e dirigidos pela CIA para derrubar o comunista Fidel Castro. Kennedy teria ficado feliz com o golpe militar de abril de 1964, no Brasil, se não tivesse sido assassinado no ano anterior em Dallas, no Texas. A morte poupou-o de assistir ao fracasso de seu país na guerra contra os comunistas no Vietnã. Uma guerra incrementada em 1965 por ordem do sucessor de Kennedy, o vice Lyndon Johnson, que seguiu fielmente sua política anticomunista, enviando tropas para lá. Pouco importa que, ao longo dessa guerra, 58 mil soldados americanos tenham morrido, bem como um número incalculável de vietnamitas – talvez dois milhões de civis e militares.

O que importa é que com essa e outras guerras em que os Estados Unidos se meteram desde então, o propósito fundamental de Kennedy – o da defesa dos privilégios dos mais ricos – se manteve. Agora, em seu discurso, Obama inova um pouco, deixando de lado o comunismo, mas sem esquecer jamais a liberdade. Afirmou:

“Por meio do sangue derramado pelo chicote e do sangue derramado pela espada, nós aprendemos que nenhuma união fundada sobre os princípios da liberdade e da igualdade poderia sobreviver na semiescravidão e na semiliberdade. Nós nos renovamos mais uma vez e prometemos avançar juntos.”

E acrescentou:

“Esta geração de norte-americanos foi testada por crises que endureceram nossa determinação e colocaram à prova nossa capacidade de resistência. Uma década de guerra está terminando agora. A recuperação econômica já começou. As possibilidades que se apresentam para os Estados Unidos são ilimitadas, pois nós temos todas as qualidades que este mundo sem fronteiras exige: juventude e dinamismo, diversidade e abertura, uma capacidade infinita para assumir riscos e o dom da reinvenção. Meus compatriotas norte-americanos: nós fomos feitos para este momento, e vamos aproveitá-lo – desde que nós o aproveitemos juntos. Pois nós, o povo, compreendemos que nosso país não pode ser bem-sucedido quando um número cada vez menor de pessoas vai muito bem e um contingente crescente de cidadãos mal consegue sobreviver.”

Pois é. Gostaríamos de confiar nos bons propósitos de Obama, o primeiro negro a conquistar a presidência dos Estados Unidos, mesmo que o “nós” a que ele se refere não seja o nosso “nós”. Kennedy, o primeiro católico no mesmo cargo e filho de um milionário, não foi muito feliz em seus propósitos, nunca desmentidos pelos que o sucederam. Estão aí, a comprovarem, as guerras e os conflitos, mundo afora, a miséria, a dor e a fome. Não tanto nos Estados Unidos, mas também lá, quanto nos países do Terceiro Mundo. Enquanto Obama discursava, os estrategistas de seu país se debruçavam sobre os planos de intervir mais fortemente na Síria e no Mali, combatendo os que, lá, têm um conceito próprio e peculiar de liberdade.

O que escreveu Herbert de Souza, o Betinho, na década de 1990, continua muito atual:

“Faz-se um discurso do combate à miséria e pratica-se a prioridade da estabilização econômica, da globalização neoliberal, dos mitos da bolsa e do mercado, da busca fria e determinada do lucro a qualquer custo e com qualquer resultado.” Betinho, como nós, queria “a subordinação da economia à política e da política à ética para que o mundo adquira sentido pra toda a humanidade”. Para que o Estado, sob controle da cidadania, “possa por sua vez domesticar o mercado e, dentro dele, domesticar também os grandes conglomerados que fazem da teoria da liberdade apenas um biombo para seus negócios combinados”.

Taí um bom discurso para Dilma Rousseff, desde que não seja também para enganar.

O efeito Patrus

Artigo publicado pelo jornal mineiro “Hoje em Dia” de hoje.

Charge feita, aparentemente, no ano passado. Hoje, já são três azuis contra dois vermelhos, mas permanece o jogo de xadrez.

Texto escrito por José de Souza Castro:

É animadora a notícia de que Patrus Ananias será novamente candidato a prefeito de Belo Horizonte pelo PT. O eleitor não se verá diante do rolo compressor construído pelos caciques dos partidos mineiros para garantir a reeleição de Marcio Lacerda, pois se cria uma alternativa viável ao atual prefeito. Além disso, a candidatura de Patrus é um alento aos que se revelam desiludidos com o processo eleitoral e com a qualidade ética de nossos políticos.

Advogado, servidor da Assembleia Legislativa e professor da PUC Minas, Patrus se filiou ao PT em 1981, um ano após a fundação do Partido dos Trabalhadores, que ainda não havia ganhado eleições e se apresentava como uma esperança de renovação, no momento em que a ditadura começava sua lenta agonia. Mas Patrus só ingressou de fato na política em 1989, como vereador de Belo Horizonte, elegendo-se prefeito em 1992, quando venceu Aécio Neves, e deputado federal dez anos depois. Em 2004, licenciou-se para exercer o cargo de Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

O PT de Patrus se coligou em 1992 com PSB, PCdoB e PV, enquanto o PSDB de Aécio teve como aliados PDT, PSC, PPS e PTdoB. O candidato petista ficou em primeiro lugar no primeiro turno, com quase o triplo de votos de Aécio, que não conseguiu ir para o segundo turno. Aliados agora com o PSB de Lacerda, os tucanos querem ir à forra contra Patrus e nivelar o terreno para a candidatura presidencial de Aécio Neves em 2014. Mas esse movimento não passa despercebido a Lula e a Dilma Rousseff, que devem arregaçar as mangas pela vitória petista em Belo Horizonte.

Tudo isso torna muito interessante o próximo pleito municipal. Se o PT vencer o antigo aliado PSB, estará golpeando o instituto da reeleição, em má hora obtido por Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, em 1997. Desde então, um prefeito eleito escolhe como prioridade máxima do mandato a sua reeleição e não os verdadeiros interesses do município. É assim que cometem absurdos, como o exposto em manchete do Hoje em Dia, há seis meses: “Prefeitura tem R$ 1 bilhão em caixa e obras paradas”. Paradas à espera do ano eleitoral, para dar mais visibilidade ao prefeito candidato.

Se vencer o rolo compressor que estava sendo montado por caciques de partidos mineiros, o candidato petista demonstrará que ainda vale a pena ser um político honesto neste país. Em todos os cargos que exerceu, Patrus nunca foi denunciado como um político corrupto.