Ainda o ‘jeitinho safado’ nas eleições de 2018

Texto escrito por José de Souza Castro:

Antes do Carnaval, escrevi a respeito de um texto do prefeito de Betim, Vittorio Medioli, intitulado “O jeitinho safado”, publicado no dia 4 deste mês em seu jornal “O Tempo”. Afirmei que o artigo do milionário teve pouca repercussão. No dia 12, três dias depois de meu artigo neste blog, Ranier Bragon publicou na “Folha de S.Paulo” reportagem sob o título “TSE publica resolução que libera autofinanciamento de campanhas”.

Exatamente a reclamação de Medioli, que achou uma safadeza do atual Congresso Nacional, formado em boa parte por milionários, ter limitado em apenas 10 salários mínimos o valor do autofinanciamento. Para se eleger prefeito, depois de 16 anos como deputado federal, Medioli gastou do próprio bolso R$ 3,6 milhões. Foi o único financiador de sua campanha eleitoral.

Ao escrever o artigo, Medioli, assim como eu, não sabia que o “TSE (Tribunal Superior Eleitoral) publicou no início deste mês a íntegra da resolução que permite aos candidatos financiarem 100% de suas próprias campanhas”, conforme informação de Bragon.

Curiosamente, o texto completo da resolução do TSE, aprovado em dezembro de 2017, só agora foi publicado. Se não for mudado até o dia 5 de março, data limite para que o TSE “publique todas as regras definitivas das eleições de 2018, candidatos com renda e patrimônio elevados levarão grande vantagem sobre os demais”, informa Bragon. E argumenta: Continuar lendo

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O prefeito Medioli e o ‘jeitinho safado’ dos deputados e senadores

Texto escrito por José de Souza Castro:

O atual prefeito de Betim, Vittorio Medioli, do PHS, foi destaque numa notícia de “O Globo” por ter sido o candidato que mais gastou dinheiro na campanha para prefeito em 2016, em todo o Brasil. Ele gastou R$ 3,9 milhões e foi o único doador de sua campanha. Se concorresse nas eleições deste ano, só poderia gastar R$ 9.690 de seu próprio bolso – ou dez salários mínimos. Tudo por causa de um “jeitinho safado” dos atuais deputados e senadores na luta para se reelegerem.

“O jeitinho safado” é o título de artigo de Medioli em seu jornal “O Tempo”, publicado no dia 4 deste mês e que não teve a repercussão merecida. Nem entre os próprios leitores do jornal. Quatro dias depois, apenas 16 comentaram o artigo, entre eles, Job Alves dos Santos, que disse: “Excelente abordagem. Agora, como fazer que isto chegue ao público? Esta é uma notícia que precisaria viralizar na internet. Mas a imprensa é modesta na divulgação.”

Segundo Medioli, que escreve semanalmente um artigo em seus jornais e que foi deputado federal pelo PSDB mineiro por 16 anos, as novas regras foram aprovadas pelo Congresso Nacional “exclusivamente para facilitar a reeleição de quem tem cargo”. Não espere o eleitor “novidades e renovação”. Os que já se locupletam em seus mandatos, concederam-se “alguns bilhões de dinheiro público destinados para causa própria de quem aprovou a lei. Facilita-se, assim, a camuflagem do caixa 2 de antigos financiadores, que, tendo sido secados pela Lava Jato, pretendem, como nunca, manobrar debaixo do pano do fundo eleitoral”, interpreta o prefeito de Betim.

Tudo se fez em Brasília, continua Medioli, “para inviabilizar as candidaturas avulsas, expressão mais democrática de um país realmente civilizado, e limitar a irrisórios dez salários o aporte do próprio candidato para sua campanha. Ficou proibido gastar por amor à pátria os recursos que o cidadão ganhou com seu trabalho honesto, taxado pela maior carga tributária das Américas. Não poderá enfrentar o mal que castiga a nação com meios iguais”. E repisa: “A reserva de mercado inclui canalhas e afasta voluntários.” Continuar lendo

Um médico do SUS faz campanha em lugar errado

Um médico oftalmologista da Santa Casa de Belo Horizonte, num arroubo de militância política, resolveu alterar o equipamento que imprime exames de vista de seus pacientes. Pelo menos desde maio, como revelou o blog “Olho Neles“, do jornal mineiro “O Tempo”, todos os pacientes atendidos por este “doutor” — jovens, velhos, pobres ou não, todos eles pacientes do Sistema Único de Saúde, o SUS — receberam um exame de vista com a mensagem impressa, bem no alto: “Fora Dilma”. Quantos deles, agradecidos pelos atendimentos prestados pelo médico em questão (supondo que tenham sido bons), podem ter decidido mudar o voto por causa dessa mensagem?

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Afora a questão legal, que passa por essa última pergunta, e provavelmente será analisada pelo Tribunal Regional Eleitoral caso o PT entre mesmo com representação, acho que o mais grave do episódio acima é a questão ética. Um funcionário a serviço do SUS lança em exames médicos mensagens com sua convicção política pessoal. Um problema de ética tão grave quanto se o grito em questão fosse de “Fora Marina” ou “Fora Aécio”. Simplesmente, não é o lugar. É como se eu publicasse um “Fora Partido X” no alto da primeira página do jornal onde trabalho, aproveitando que tenho acesso ao software que o publica. Ou como se um diretor de escola publicasse um “Fora Político Tal” no alto do cabeçalho de todas as provas dos alunos.

Se o médico quisesse ir trabalhar com uma blusa de “Fora Qualquer Coisa”, embaixo de seu jaleco, não seria um problema tão grave. Mas alterar os exames médicos de centenas de pacientes, ao longo de mais de três meses, em um hospital filantrópico sustentado por recursos públicos, aí é demais.

Me lembrou a charge do Duke publicada ontem:

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Se você não acompanhou o caso, recomendo a leitura das reportagens abaixo, fruto de apuração dedicada dos jornalistas Ricardo Corrêa e Lucas Ragazzi, que editam o blog “Olho Neles” — o único que está fazendo cobertura eleitoral de verdade (além das insuportáveis agendas de candidato) em BH:

Vale ressaltar que, desde o primeiro momento, a Santa Casa se posicionou veementemente contra o mal feito pelo funcionário em questão, culminando nesse pedido de desculpas formal à presidente da República. Resta ver se a instituição vai mesmo punir o funcionário e divulgar com transparência essa punição. Os pacientes do SUS (e os futuros pacientes que ele venha a ter) têm o direito de saber o nome e CRM de um médico tão antiético e antiprofissional como este.

Leia também:

Críticas de Aécio poderiam ter sido feitas a FHC

Charge do Benett na Folha de ontem.

Charge do Benett na Folha de ontem.

Meu pai já abordou aqui um dos pontos do tal discurso dos “13 fracassos do PT“, feito por Aécio Neves nesta semana. Ele criticava a perda de lucro da Petrobras e meu pai demonstrou todo o contexto, dizendo que a perda só chamou a atenção porque, nos anos anteriores, houve um avanço sem precedentes no lucro da estatal.

Mas o que mais me chamou a atenção quando li esse discurso foi o tanto que ele aborda problemas — existentes e reais, neste governo Dilma — que também existiram, às vezes com mais gravidade, durante os dois mandatos em que o partido de Aécio esteve à frente do governo federal.

Em resumo: as críticas que ele agora dispara contra os petistas poderiam ser disparadas, talvez até com mais vigor, contra a era FHC.

Uma análise muito boa, na “Folha” de ontem, escrita pelo ótimo Gustavo Patu, explora essa questão. Um trecho:

“No que deveria ser um marco da mensagem oposicionista, o presidenciável tucano Aécio Neves não ofereceu propostas ao falar na tribunal do Senado e praticamente se limitou a um revide histórico –que leva a comparações desfavoráveis ao PSDB. (…)

Se é verdade que a primeira metade do mandato de Dilma foi uma espécie de “biênio perdido” para o crescimento, FHC viveu dois biênios do gênero, que somam metade de seus dois mandatos.

No primeiro (1998-1999) houve a implosão do controle das cotações do dólar, que era a base do Real, devido ao excesso de endividamento e à escassez de reservas cambiais. No segundo (2001-2002) houve a combinação de racionamento de energia elétrica, colapso da Argentina, turbulência financeira internacional e incerteza doméstica com a eleição de Lula. (…)

Aécio argumenta que os governos do PSDB e do PT enfrentaram “conjunturas e realidades absolutamente diferentes”, mas nem ele nem seu partido explicaram até o momento como deveria ser enfrentada a conjuntura atual. (…)

Em um exemplo, o controle da escalada dos preços, cobrado por Aécio, certamente significaria juros mais altos e dólar mais baixo, o que agravaria ainda mais a situação da indústria nacional, deplorada pelo tucano.”

Patu também critica o fato de os tucanos estarem batendo nos problemas de Dilma, Aécio entre eles, sem apresentar soluções alternativas. Coisa, aliás, que o PT já tinha feito durante a era FHC.

Vale ler na íntegra, AQUI.

O discurso de Aécio Neves ganhou Primeira Página de todos os jornais brasileiros (nem vou falar das manchetes em alguns jornais mineiros…). Vem sendo usado pela oposição como arma contra Dilma. E, pela situação, como arma contra FHC. O importante é que, partidos à parte, os brasileiros tenham noção do contexto histórico, das realidade econômicas em cada período, dos legados que cada governo pôde trazer e do que fizeram de errado, tendo oportunidade de fazer diferente.

Só assim, com memória, é que é possível darmos conta, como Patu fez, de que esse discurso de Aécio é um dos mais cascateiros dos últimos tempos. Esse é o principal candidato que a oposição apresenta ao país? O pernambucano Eduardo Campos (PSB) tem o que comemorar, então.

Lula + Maluf

Não gosto muito das charges do Caco Galhardo, mas ele mandou muito bem na de hoje, na “Folha”:

Fico me perguntando qual a diferença entre Maluf e os anteriores ACM e Sarney, que já deram e ganharam apoio de Lula em outras ocasiões, desde 2003.

O jeito como se faz política no Brasil (e em boa parte do mundo) não comporta mais diferenças ideológicas muito grandes. A equação que interessa hoje, na cabeça dos petistas, é só uma:

Maluf = 1min30 de TV + Haddad

Muitos ontem já estavam cravando que, com a saída de Erundina, as chances de Haddad foram para as cucuias. Na verdade, não é bem assim. Ela deixou a prefeitura de São Paulo com apenas 20% de aprovação, melhor apenas do que Celso Pitta, que dispensa comentários. Atrairia votos apenas de petistas históricos, que muito provavelmente já votariam/rão em Haddad de qualquer jeito, vendo os demais concorrentes em jogo.

Eu acho que o tempo de TV vai fazer mais diferença do que Erundina no palanque. E a foto de Haddad sendo afagado por Maluf não deve ser muito explorada pelos candidatos concorrentes, porque eles próprios sempre se aliaram ao malufismo.

Haddad hoje tem apenas 8% dos votos, segundo o último Datafolha. Mas ele subiu 5 pontos, enquanto Serra se manteve estagnado em 30%. Temos aí uma tendência, que será amplificada nos próximos meses, quando a campanha eleitoral começar com força, com aparições de Lula — e Dilma — ao lado do candidato petista (coisa que não aconteceu ainda na Rede Globo, por conta de atrasos da campanha petista para registrar o programa).

Essa tendência é reforçada por outro dado: Serra tem o segundo maior índice de rejeição na cidade (32%), enquanto Haddad tem um índice de 12% — que vem caindo.

E permitam-me trazer um terceiro dado: nas eleições para prefeito em 2008, em Belo Horizonte, uma candidata despontava como a vitoriosa em todas as pesquisas antes do início da campanha eleitoral: a comunista Jô Moraes. Em julho, o Datafolha fez sua primeira pesquisa na cidade e disse que Leonardo Quintão (PMDB) tinha apenas 9% e Marcio Lacerda (PSB — o candidato da coligação petista) tinha 6%. Já perto da votação, o cenário se inverteu radicalmente, os dois últimos disputaram o segundo turno e Lacerda acabou vitorioso (e vem fazendo um governo criticadíssimo e, pelo que acompanho, ruim). Nesse meio-tempo, é claro, ele apareceu diversas vezes ao lado de Fernando Pimentel, Patrus Ananias e Lula, e subiu igual foguete, mesmo sendo um “candidato-poste”.

Ou seja, muita água ainda vai rolar. A saída de Erundina e o aperto de mão em Maluf pouco dizem sobre as chances reais de vitória de Haddad. Outros fatores — e espero que programa de governo esteja entre eles — contam mais na cabeça do eleitor.

Mas o problema da imagem, este está abalado desde os apertos de mão entre Lula e ACM e agora mais com o carinho a Maluf. Petistas históricos, como Ricardo Kotscho, se entristecem. E eu reforço minha opinião de que o melhor, hoje e desde sempre, é ser apartidária. Porque essa sopa de letrinhas brasileira não quer dizer nada.