“A cigarra e a formiga”, um novo fim

Era uma vez uma Cigarra e uma Formiga, que se odiavam por terem visões de mundo totalmente diferentes. Ou, na verdade, começariam a se odiar lá pela metade da história.

A Cigarra era liberal, meio hippie, gostava de curtir a vida (“porque a vida é curta”, dizia), nunca punha os pés no chão (no máximo, num tronco de árvore), preferia voar para lá e para cá, sonhadora. Não deu certo em nada na vida e tampouco tinha talento algum, então resolveu aprender três acordes de violão (começou com Legião Urbana e Nirvana) e imitou Alanis Morissette “tocando” gaita, até que algum Pato caiu na conversa de que aquilo era música e contratou os serviços da Cigarra num barzinho mequetrefe, com couvert a R$ 3, todas as sextas e sábados.

Num desses dias, a Formiga lá estava, acompanhada de sua família. Uma formiga-macho, frise-se bem. A Formiga era o contrário da Cigarra (que também era macho, porque como todos sabem, são as cigarras-macho que cantam): mais conservadora, valorizava os valores morais cristãos e achava que sua missão na terra era o trabalho suado, que seria recompensado com um caixão farto de dinheiro nas gavetas e um monte de folhas no paraíso da vida eterna. Pão-dura, a Formiga achava que restaurante era um luxo desnecessário, mas foi lá fazer a vontade da esposa, que estava reclamando que não faziam nada no aniversário de casamento desde que o primeiro dos 237 filhotes nasceram. E ficou irritadíssima ao constatar a incompetência musical da cigarra, que levava, com tantas cabeças para pagar couvert, um mínimo de R$ 717 às custas da Formiga.

“Ora, ora, que vida mansa! Finge que toca violão, finge que toca gaita e ainda me vem com essa voz esganiçada repetindo o mesmo refrão (“cississississississississississi… cissississississississississississi…”) por todo o jantar, como se meu ouvido fosse um penico! Faz isso por míseras duas horinhas por semana e vai embora com todo o meu dinheiro de dois meses de trabalho!”

A Formiga ficou tão indignada que mal conseguiu engolir a deliciosa couve amanteigada, especialidade da casa. (O bar era mequetrefe, mas servia boas verduras, coletadas, aliás, por funcionários de uma fábrica do sogro da formiga, aquele miserável milionário mão-de-vaca.)

Começou a arquitetar um plano de vingança contra aquela Cigarra maldita. Aquilo não podia ficar barato.

“Oi, seu Cigarra, tudo bem? Estive te ouvindo por todo o jantar e não pude deixar de reparar em como é afinadinha e talentosa! Poderia tocar na festa de aniversário de minha esposa, no próximo inverno?”

A Cigarra ficou toda-toda, principalmente por perceber como havia tantos trouxas que realmente acreditavam que ela tocava bem. Como era gastadeira, nunca recusava ofertas de bicos fáceis como aquele, que dariam grana na certa, sem trabalho demais. Mas primeiro se fez de difícil:

“Poxa, adoraria, mas minha agenda é bem apertada. Quanto o sr. estaria disposto a desembolsar pelo meu show?”

“Ah, dinheiro não é problema! A sra. pode me pedir o quanto quiser, que te pago na hora.”

“Bom, se é assim, eu cancelo os outros compromissos”, disse a Cigarra, mal contendo a alegria.

Chegado o inverno, a Cigarra apareceu (com três horas de atraso, diga-se de passagem) no endereço da família da Formiga. Lá chegando, foi recebida pela Formiga, junto com dez de seus filhos mais obedientes, todos ex-militares, que cercaram a Cigarra e lhe deram uma ferroada brava antes que ela pudesse sequer pensar em voar.

Levaram a convalescente para um calabouço previamente arrumado pela Formiga e lá a trancaram, sem que os outros irmãos e a dona da casa suspeitassem de nada.

E lá ficou a Cigarra, por exatos dez dias, sem comida e com pouca água, que a Formiga meticulosamente oferecia, só o suficiente para manter a Cigarra viva. E ela até aguentou bem o tranco, porque, como todo boa-vida, era comilona e gorda à fartura, e tinha muita banha para transformar em energia naquele jejum forçado.

O que mais a incomodava era a dúvida sobre por que a Formiga tinha sido tão cruel. Teria acreditado na história de que era uma cantora famosa e pensado em sequestrá-la? Seria uma louca assassina?

A Formiga só se dispôs a contar seus motivos no terceiro dia de cativeiro, ao som torturante de Jota Quest e Sandy no talo:

“Estou farta dessa injustiça! De ver vagabundos como o senhor lucrando o dinheiro dos trabalhadores, e usando esse dinheiro para a esbórnia, para a farra, para a putaria e a gula. Esse período é para que repense nos seus valores baixos e reaprenda a valorizar a comida e reaprenda a orar a deus e, pelo santo Cristo, pelo menos use o tempo livre para aprender a tocar mais do que três acordes e seguir essa profissão com um mínimo de dignidade!”

“Mas o senhor vai me matar?”, perguntou a Cigarra tremendo, sem prestar atenção a todo aquele blablabá moralista.

“Talvez. Se, ao fim de dez dias, o senhor tiver aprendido a lição, poderá ser libertado. Se não… veremos!”

E, tendo dito isso, a Formiga deixou o calabouço, sem mais explicações.

A Cigarra ficou atordoada. Onde foi se meter? Que fulano insuportável, arrotando toda aquela bazófia sobre deus e justiça e agora cometendo toda essa atrocidade só por não concordar com seu estilo de vida? Uma verdadeira tortura! Será que os direitos humanos estão cientes disso? Ela divulgaria à mídia toda aquela afronta, assim que saísse. Tem uns contatos de uma rádio e, na verdade, pensando bem, ter sido uma sobrevivente certamente vai render uma boa publicidade… Hummm… Até que não foi má ideia. Se ela soubesse administrar aqueles dez dias e pudesse dizer o que a Formiga quer ouvir, certamente se livraria daquilo e ainda poderia usar a experiência para alavancar a venda de discos!

Assim pensou a Cigarra, que era um poço de otimismo.

Pois bem, ela foi durando os dez dias, até um pouco satisfeita por estar perdendo uns graminhas, arquitetando as letras de música que comporia sobre o período de privação. A Formiga nada mais falou, de todo modo. Apenas soltava um pouquinho de água no chão, a cada dia, o suficiente para a Cigarra não desmaiar de vez naquele calor e abafamento.

No último dia, a Formiga chegou, acompanhada de dois dos seus filhos milicos. Perguntou, toda cheia de si:

“Você aprendeu a lição, Cigarra arrogante?”

“Sim, aprendi, Formiga! Deixe-me sair daqui! Nunca mais vou viver aquela vida mansa, nem pretendo tocar. Vou me alistar no Exército hoje mesmo, servir a pátria! Ou buscar um seminário para aprender a espalhar as bondades de deus sobre os animais de bem, que frequentam e respeitam a Igreja!”

A Formiga nada mais disse. Assobiou para seus filhos-capatazes e, diante de uma Cigarra tão magrinha e fraca, ainda por cima com as asas presas, não foi preciso mais do que dez segundos de ferroadas para que ela finalmente virasse um cadáver.

Morreu sem entender o que tinha feito de errado. E, em tese, nada tinha feito de errado. Mas é que o inverno tinha destruído todas as plantações da redondeza e a família da Formiga, bocas a não mais acabar, estava faminta. Além disso, tudo o que tinha sido guardado durante o outono estava chegando ao fim, porque mais da metade foi comida por cobradores de impostos e pelo dono da espelunca onde viviam. E, afinal, aquela Cigarra era uma imprestável mesmo. Muito provavelmente teria mentido qualquer coisa para poder escapar e ainda lucraria com a historinha de ser uma sobrevivente. No fundo, bem sabia a Formiga que a intenção nunca foi libertar aquela vadia. Deus escreve certo por linhas tortas. E aquele jantar que depenou o bolso da Formiga seria o caminho para um banquete de asinhas e casulo de quitina no momento de maior privação.

Naquela noite, a Formiga chegou em casa, toda orgulhosa, carregando, com a ajuda dos filhos mais fortes, aquele Cigarrão. Teria sido melhor comê-lo gordo, é claro, mas a Formiga queria, pelo menos, enviar uma alma mais penitenciada ao céu. O Louva-a-Deus da paróquia certamente aprovaria a ação. De todo modo, a Formiga-fêmea ficou tão alegre e orgulhosa do marido que preparou sua receita com o maior capricho e até corou de vergonha pensando em como havia se sentido atraída por uma Cigarra parecida com aquela no dia do aniversário de casamento. Ora, ora, eu amo mesmo é a Formiga, que bobagem!, pensou ela, afastando as memórias no ar, com as mãos espalmadas.

E todos dormiram de pança cheia naquela casa naquela noite, enquanto, do lado de fora, ninguém estranhava o silêncio da cigarra desaparecida, logo substituída por outra, muito mais popular, que sabia tocar bandolim e acordeão.

FIM

SAM_0309SAM_0308SAM_0310

Nham!

Nham!

Burp! [Fotos: CMC]

Burp!
[Fotos: CMC]

Anúncios

As formigas preguiçosas

Em uma mesma semana, vi uma tirinha e li um texto maravilhosos sobre as formigas.

Deve ser um sinal: coloque aí no seu blog, para as pessoas refletirem sobre essa vida de formiguinhas-que-só-trabalham que levamos (disse-me a cigarra, na falta de um grilo falante).

Então fiquem com esta. Uma dessas pequenas petulâncias contra as fábulas que engolimos desde crianças, ao melhor estilo das defesas de Domenico de Masi e seu ócio criativo.

Primeiro, a tirinha:

Agora, a ótima crônica do ótimo Antonio Prata:

“Primeiro aparece bem pequeno no canto dos jornais, como piada, mas rapidamente vêm as supostas comprovações e em poucos dias a notícia toma as manchetes: “Formigas são forma de vida inteligente, afirmam cientistas húngaros”.

De início você não acredita, mas também não acreditou quando alguém te ligou certa manhã, 11 anos atrás, avisando que os árabes estavam atacando os Estados Unidos, “Os árabes não existem!”, você disse, irritado e com sono, até que ligou a televisão e lá estavam as Torres Gêmeas desabando.

Superado o reflexo de ceticismo, portanto, você aceita, como acaba aceitando tudo na vida, um pé na bunda, a morte, a guerra: as formigas são uma forma de vida inteligente. Possuem linguagem, escrita, filosofia, ciência, arte. Nunca haviam dado bandeira porque não estavam afim de papo, mas um grupo dissidente de saúvas africanas marchou até a Hungria, invadiu o laboratório de um proeminente entomólogo e, sobre a bancada, alinhando seus próprios corpos, a primeira mensagem interespécies foi escrita: “Egyszeru!”, que significa “calma”, em húngaro. É dessa maneira que, daí pra frente, elas passam a se comunicar conosco.

O segundo grande choque, depois da descoberta da inteligência, é que as formigas não são os seres esforçados e trabalhadores do nosso senso comum, mas animais extremamente preguiçosos. Poderiam construir colmeias e produzir mel, se quisessem, poderiam fazer telescópios, hidroelétricas, colisores de hádrons, mas preferem esperar algum bicho cair duro ou alguma migalha ser derrubada da mesa e levar o botim para suas modestas moradas, onde se fartam de comer e beber e depois, empanturradas, cantam e dançam antigos sucessos de seu cancioneiro. (…)”

(Acabe de ler tudo AQUI… Vale a pena ;))