Por que não devemos nos preocupar com a opinião dos outros

Idênticas…

O Bol pediu que seus leitores enviassem fotos caso se considerassem sósias de alguma celebridade.

Apareceram alguns realmente parecidos, como a Mulher Melancia, a Vanessa Giácomo, a Preta Gil e o Christian Bale.

Mas outros absolutamente nada a ver, como essa Juliana Paes, essa Mariana Ximenes e a Débora Falabella que ilustra o post.

Mas eu pergunto: e daí? Se essas pessoas se acham parecidas com seus ídolos, ou mesmo ouvem que são parecidas e acreditam nisso, que mal essa ilusão pode causar para o mundo? Pelo contrário, pode causar um bem danado pra autoestima dessas pessoas e consequentemente seu convívio com os outros.

Nesta semana li uma coluna do Antonio Prata sobre a importância que a imagem dos óculos tem para nossa imagem perante a sociedade. Há aqueles óculos que nos fazem parecer super cultos e inteligentes, outros que são modernosos e fashion, e aqueles neutros, que pouco interferem em nossa personalidade.

Por que sempre nos preocupamos com o que vão pensar de nós, antes de decidirmos pelo que vestir, pensar, e como nos apresentar ao mundo?

No último fim de semana, fui olhar apartamento do Edifício JK, projetado por Niemeyer, lá no centro de Beagá. Ninguém da minha família estava muito contente com a hipótese de eu morar lá: o local carrega a má-fama de ter servido, ou servir ainda, sei lá eu, de moradia para prostitutas. Mas e daí? Se eu achasse um bom apartamento lá, a preço módico, não deixaria de morar ali com medo do que “a sociedade” julgaria. A bem da verdade, eu cago pro que a sociedade pensa de mim. E, ao que me consta, as prostitutas não trabalham no elevador do prédio onde moram, ou no hall de entrada. Talvez sejam ótimas vizinhas, possivelmente bem melhores que um dos meus atuais vizinhos.

Até hoje há os que pensam mal de uma mulher de 27 anos que prefere morar sozinha. Isso porque estamos no século 21, muitos anos após os primeiros sutiãs queimados em praça pública, muitos anos após Emília, uma mera boneca de pano, desafiar Pedrinho e os demais,  e tendo Dilma Rousseff autointitulada “presidenta” do Brasil e considerada a terceira mulher mais influente do planeta.

Eu acho que já está passando da hora de pararmos de nos preocupar com o que os outros pensam de nós, a todo momento. Sei que isso é difícil numa convivência em sociedade, mas esses tabus só são quebrados quando batemos a primeira machadada sobre eles. Se só os reiterarmos, fica muito difícil de um dia serem superados.

E acho que liberdade só é possível quando — desde que sem ultrajar os direitos dos outros — paramos de ligar tanto para o que pensam de nós, ou ao menos usamos isso a favor das nossas próprias ideias (vide Débora Falabella, de novo).

E é com essa liberdade que poderemos nos encontrar e descobrir quem realmente somos. E, quem sabe, chegarmos o mais perto possível da chamada “felicidade”. Dos óculos que mais parecem conosco. Da casa onde mais gostaríamos de passar o resto dos nossos dias.

Já ouvi que pareço a Ivete Sangalo (sei que não tenho nada a ver com ela) e a Letícia Sabatella (quem me dera), mas a consciência de que sou apenas eu, com meu nariz meio largo, meu dente torto e a barriga genética, não me diminui diante dessas duas. Também já pensei em usar um óculos modernoso, de aros largos, mas foi só colocar na cara pra perceber que aquela não era eu. Fico com os meus neutros, mesmo correndo o risco de acharem sem sal demais. Por fim, moro sozinha, mesmo tendo a opção de morar com a família, montar uma república etc. E torço pra que toda mulher de mais de 18 anos possa se sentir livre pra tomar essa decisão, se assim desejar — simplesmente porque já passou da idade pra isso, pelamordideus.

Por isso, filha minha do futuro, “don’t worry about popular opinion“. F. Scott Fitzgerald escreveu isso em 1933. Estamos a quase 100 anos de distância, muito “à frente” (diz-se que), mas acho necessário escrever este post. Meus pais, que também são pessoas bem à frente de seu tempo, também seriam capazes de ter escrito algo parecido para mim. E um dia escreverei também, com um destinatário certo. Enquanto isso, fique aqui, mensagem engarrafada e lançada ao mar da internet.

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As formigas preguiçosas

Em uma mesma semana, vi uma tirinha e li um texto maravilhosos sobre as formigas.

Deve ser um sinal: coloque aí no seu blog, para as pessoas refletirem sobre essa vida de formiguinhas-que-só-trabalham que levamos (disse-me a cigarra, na falta de um grilo falante).

Então fiquem com esta. Uma dessas pequenas petulâncias contra as fábulas que engolimos desde crianças, ao melhor estilo das defesas de Domenico de Masi e seu ócio criativo.

Primeiro, a tirinha:

Agora, a ótima crônica do ótimo Antonio Prata:

“Primeiro aparece bem pequeno no canto dos jornais, como piada, mas rapidamente vêm as supostas comprovações e em poucos dias a notícia toma as manchetes: “Formigas são forma de vida inteligente, afirmam cientistas húngaros”.

De início você não acredita, mas também não acreditou quando alguém te ligou certa manhã, 11 anos atrás, avisando que os árabes estavam atacando os Estados Unidos, “Os árabes não existem!”, você disse, irritado e com sono, até que ligou a televisão e lá estavam as Torres Gêmeas desabando.

Superado o reflexo de ceticismo, portanto, você aceita, como acaba aceitando tudo na vida, um pé na bunda, a morte, a guerra: as formigas são uma forma de vida inteligente. Possuem linguagem, escrita, filosofia, ciência, arte. Nunca haviam dado bandeira porque não estavam afim de papo, mas um grupo dissidente de saúvas africanas marchou até a Hungria, invadiu o laboratório de um proeminente entomólogo e, sobre a bancada, alinhando seus próprios corpos, a primeira mensagem interespécies foi escrita: “Egyszeru!”, que significa “calma”, em húngaro. É dessa maneira que, daí pra frente, elas passam a se comunicar conosco.

O segundo grande choque, depois da descoberta da inteligência, é que as formigas não são os seres esforçados e trabalhadores do nosso senso comum, mas animais extremamente preguiçosos. Poderiam construir colmeias e produzir mel, se quisessem, poderiam fazer telescópios, hidroelétricas, colisores de hádrons, mas preferem esperar algum bicho cair duro ou alguma migalha ser derrubada da mesa e levar o botim para suas modestas moradas, onde se fartam de comer e beber e depois, empanturradas, cantam e dançam antigos sucessos de seu cancioneiro. (…)”

(Acabe de ler tudo AQUI… Vale a pena ;))

O que se comenta sobre o sorvete de baunilha na blogosfera

Ainda em ritmo de paralisação:

genial a “crônica” do Antonio Prata nesta semana.

Até poderia ser verdade, porque não duvido de nada nesta blogosfera.

Agradeço todos os dias por ter leitores e comentaristas tão inteligentes no meu bloguinho 🙂

Mas vejam AQUI o que é que um sorvete de baunilha faz 😉

Frase do dia

“Podemos tentar fugir de nossa pequenez construindo foguetes, fazendo abdominais ou escrevendo crônicas sobre a morte, com arroubos de lirismo e profundas aspirações, mas no fim das contas (…), não somos mais do que uns risíveis primatas que nascem, crescem, morrem e, neste ínterim, soltam uns puns por aí.”

Da excelente crônica “Do ‘pum'”, do sempre ótimo Antonio Prata, na Folha de hoje.

Assinantes leem AQUI, não assinantes já leem AQUI e eu recomendo que todos leiam todas as outras crônicas dele, que é capaz de escrever sobre uma simples jarra de suco — ou um peido — com a mesma graça!

 

A sina de quem ousa desafiar a tela branca (ou: falta de inspiração aguda)

Sempre achei o fim da picada quando meus cronistas favoritos — Rubem Braga e companhia — escreviam sobre a falta de assunto para escrever.

Ora, sempre há assunto para se escrever! Você é um cronista, porra! Não precisa de pauta. Sua matéria-prima é a vida. Basta abrir a janela e ver o vizinho batucando no parapeito ao lado da irmã mais nova e imaginar o diálogo dos dois para se inspirar.

Ou pegar a conta de luz, somar ao aluguel, abrir o extrato bancário, ler o noticiário econômico e, como quem brinca de ligar os pontos, fazer uma analisezinha sobre o joelho da calça jeans que já está ficando puído. E vai continuar assim.

Ah, o aumento do salário…! Esse é o tema universal, é o assunto que interessa a todas as categorias profissionais e a todos os níveis hierárquicos e a todas as competências, aos que trabalham de mais e aos que trabalham de menos, aos que ganham mais zeros que a decência permite e aos que já se habituaram a entrar no cheque especial (quando têm cheque especial, quando têm conta em banco). Veja se não é um belo assunto para crônica em dias de pouca inspiração!

Também tem o amor. O amor é uma coisa que tá em toda esquina, só de birra, só pra nos lembrar que existe, do alto de nosso ceticismo ou amargura ou nostalgia ou pessimismo. É o casal que trabalha junto com você, é o casal de amigos em crise, é o casal de amigos apaixonadíssimos, é seu pseudonamorado que não sabe o que quer da vida, são os beijos sem idade, é o filme, é o livro, é o assento do metrô. Páginas e páginas.

Quanta cara de pau do querido Rubem vir me dizer que estava sem assunto! E gastar uma folha inteira, não-sei-quantas laudas, com o lero-lero de quem diz que está sem inspiração. Ora, é só abrir a persiana, é só observar a cidade, escutá-la, auscultá-la. Não tem desculpa, cai fora.

Mas aí eu crio um blog e me desafio a postar todo dia. E digo a mim mesma: tudo bem, quando estiver sem assunto, ou sem tempo, ou cansada, eu posto um poema ou crítica ou foto antigos, já prontos, que vão me tomar meros minutinhos operacionais.

Se mesmo assim o cansaço for tanto que a simples ideia de procurar por esses arquivos te der preguiça, você apela praquele selinho do Garfield, aquele sem-vergonha. Mas só em último caso, coisa de cinco vezes em oito meses.

Mas aí tem aquela semana em que você já pôs o poema, já pôs a foto, já pôs até o selinho e abre o computador e vê a tela em branco do WordPress e pensa: sobre o que eu escrevo? E não te ocorre NADA, sua mente é um balão de hélio.

E chega a cogitar de fuçar nos arquivos, mas uma força te impede, a força que diz: esquece, não há NADA de interessante aí. E você pega o jornal e pensa se não pode tocar em algum dos assuntos noticiados, ou mesmo copiar a crônica do Jairo Marques sobre o excesso de zelo que as pessoas estão dedicando aos animais (e se esquecendo dos humanos, estes bichos maltratados no dinheiro e no amor) ou a ótima crônica do Antônio Prata sobre os odiosos sustinhos, mas conclui que NÃO. A falta de inspiração é aguda, contaminante, dominadora — e é só sua.

E a tela persiste, teimosa, branca, desafiadora, petulante, obstinada: Cai dentro!

E a você só resta o esforço de escrever sobre o esforço que é escrever. E, antes, o esforço de pensar no que vale a pena ser dito e, quem sabe, mais tarde, lido. E o desassossego de pensar no desconforto das almas que perderam seu tempo chegando até aqui.

E bate o arrependimento. Mas é tarde. Boa noite, Rubem Braga, hoje te amo mais!