Duas personagens e o pioneirismo

Para ver no cinema: A GAROTA DINAMARQUESA (The Danish Girl)
Nota 7

dinamarquesa

Se hoje já deve ser difícil ser transexual — vide a grande quantidade de violência a que os trans são submetidos no dia a dia –, imagine na década de 1920. Estamos falando de quase um século atrás e, pode não parecer, mas o mundo evoluiu um bocado de lá para cá.

É assim que, diagnosticado como esquizofrênico, pervertido, quimicamente desequilibrado, ou, de forma mais que simplista, como homossexual, o pintor dinamarquês Einar Wegener se descobre — bem por acaso, aliás — uma mulher presa no corpo de um homem. E, de forma pioneira, vai aprendendo a lidar com essa nova realidade, à custa de muito sofrimento, autoconhecimento e de coragem para se submeter a um procedimento cirúrgico até então inédito, da mudança do sexo.

O filme dirigido por Tom Hooper (dos premiados “Os Miseráveis” e “O Discurso do Rei”) é sobre essa transformação de Einar em Lili, interpretada magistralmente pelo ator do momento, que levou a estatueta do Oscar no ano passado e concorre mais uma vez neste ano, Eddie Redmayne. Ele encarna com tanta perfeição a personagem que faz com que a gente realmente sinta o transtorno que se passa na alma de Lili e a incapacidade que ela tem, a partir de determinado ponto, de seguir encenando o papel social de Einar. Cada tremida que o ator dá, cada piscada de olhos, cada lágrima contida, tudo é muito calculado.

Mas acho que o maior trunfo do filme foi ter trazido o ponto de vista da também artista dinamarquesa Gerda Wegener, esposa de Einar, que de repente percebe que perdeu o marido — homem, heterossexual, com desejo por ela — para sempre. Se para Einar estamos falando de uma perturbação colossal em sua mente e corpo, com milhões de dificuldades para ser compreendida e aceita, para Gerda também é um desafio muito intenso. A personagem principal do filme não é só Lili, é também Gerda, sem a qual Lili talvez nunca tivesse surgido e muito menos sobrevivido. Quem interpreta esta pintora é a atriz sueca Alicia Vikander, que também concorre ao Oscar — e acho que tem grande chance de ganhar.

Além dessas categorias, “A Garota Dinamarquesa” também está no páreo do Oscar 2016 pelo figurino e design de produção. Nada de roteiro, e acho que faz sentido ter ficado de fora. Achei o longa às vezes longo demais, repetitivo em algumas premissas, como se estivesse insistindo para que o público chorasse. E eu, chorona de cinema que sou, até chorei, mas apenas em uma cena. Me pareceu um bom filme de personagem, mas não tão bom do ponto de vista histórico, nem tão capaz de criar emoção, como outros filmes do gênero.

De qualquer forma, é sempre interessante conhecer a história dos pioneiros do mundo. Para algo se transformar, é preciso que haja uma pessoa com coragem suficiente para fazer o que nunca foi feito até então. No caso do filme, que é inspirado em fatos reais, Lili, Gerda e o médico que acabam por encontrar deixam uma marca na história do ativismo transgênero, da psicanálise, da medicina — da sociedade, enfim. É por personagens como estes que, cem anos depois, notamos um mundo mais evoluído, ainda que com muito por evoluir.

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

faceblogttblogPague com PagSeguro - é rápido, grátis e seguro!

tarja_licenca

Anúncios

13 textos para refletirmos sobre o que é ser MULHER ainda hoje

Laerte, gênio.

Laerte, gênio.

Ontem foi comemorado o Dia Internacional da Mulher e acabei não abordando o assunto no blog. Mas, embora eu não seja uma feminista típica, o respeito às mulheres e a busca pela igualdade de gêneros e pelo fim do machismo são temas corriqueiros neste espaço. São assuntos que abordo com grande frequência, justamente porque acho que ainda temos um longo caminho pela frente e sempre há o que se dizer.

Quando uma atriz que leva o Oscar faz um discurso pregando que os salários de homens e mulheres sejam iguais, podemos perceber que nem na rica Hollywood o problema está solucionado. No Brasil, as mulheres ainda recebem, em média, 26,3% menos que os homens, segundo dados da Pnad divulgados no ano passado. Ou seja, se o homem recebe, em média, R$ 1.890, a mulher recebe apenas R$ 1.392 – R$ 498 a menos. E essa diferença ocorre mesmo em cargos ou funções equivalentes dentro de uma empresa.

Fora a questão do dinheiro, as mulheres ainda sofrem muito mais com a violência doméstica, com os estupros, com assédios no ambiente de trabalho e, claro, com a patrulha moralista do dia a dia. Não adianta a mulher trabalhar desde cedo (ganhando menos que os colegas homens), pagar as contas, ter um alto grau de escolaridade: ela não pode morar sozinha, não pode ter uma vida sexual ativa, não pode usar as roupas que quiser, porque tudo isso será vigiado e condenado pelo restante da sociedade. E principalmente pelas outras mulheres, porque o que mais existe neste mundo é mulher machista.

Enfim, acho que alguns posts que escrevi nos últimos anos merecem ser relidos neste “mês das mulheres” (calma, homens, vocês ainda têm 11 meses só para vocês), porque os assuntos debatidos neles ainda estão longe de terem sido contornados. Ou seja, eles continuam pertinentes e atuais. Separei meus 13 favoritos para nos ajudar nesta reflexão:

  1. Sim, existe machismo — detecte-o e combata-o neste “Dia das Mulheres” e nos demais, em que listo um apanhado de “pérolas” que as mulheres temos que ouvir todos os dias e registro situações machistas vivenciadas por amigas e amigos.
  2. Duas cenas de machismo em um dia qualquer – e a vingança de uma mulher, em que compartilho minha reação a dois episódios em que fui vítima de machismo, numa mesma manhã.
  3. A era da homofobia e do machismo incontestados, em que uma mulher apanha em pleno bar, à vista de todos, por ter se recusado a beijar um homem à força, e ainda fica se culpando.
  4. O machismo à espreita na primeira esquina, em que conto o diálogo que quase toda grávida de menina escuta.
  5. Sentaço em homenagem a Letícia Sabatella, em que participo de uma campanha pelo direito de as mulheres poderem fazer o que quiserem sem virarem motivo de chacota ou deboche de colunistas sociais e internautas mal-intencionados.
  6. Os estupros coletivos de jovens meninas ocorrem debaixo do nosso nariz, em que falo dos estupros nas repúblicas universitárias de Ouro Preto (que também acontecem em festas de universidades de todo o país).
  7. Foi estuprada? A culpa é sua!, em que compartilho um vídeo genial feito por indianas, que traz uma mensagem universal ironizando a ideia idiota de que a vítima do estupro “incitou” o estuprador.
  8. “É pelas mulheres que estão me agredindo que eu estou lutando”, em que entrevisto a ativista Nana Queiroz, que criou o movimento “Eu Não Mereço ser Estuprada” e passou a ser vítima do ódio de outras mulheres.
  9. Homenagem às mulheres guerreiras, em que compartilho o texto escrito por mulheres da periferia paulistana.
  10. Você sabe conversar com meninas de 5 anos?, em que compartilho um texto que critica a forma como incutimos valores machistas em crianças, desde pequenas.
  11. “Mamãe não trabalha”, em que compartilho um texto que nos faz valorizar o trabalho das donas de casa.
  12. Por que não devemos nos preocupar com a opinião dos outros, em que falo sobre a liberdade que temos quando paramos de nos preocupar com o julgamento alheio.
  13. O que todos os pais deveriam aconselhar a seus filhos, em que compartilho uma carta que F. Scott Fitzgerald escreveu a sua filha quando ela tinha 11 anos.

Dou meus parabéns às mulheres que enfrentam, todos os dias, esse “carma” de ter nascido mulher, e o fazem com altivez, com determinação e sem sucumbir às agressões e críticas externas. Não dou parabéns e não acho que este 8 de março seja para aquelas outras mulheres que apenas reforçam e repisam o machismo do mundo. Tenho um pouco de pena de vocês, mas acho que todas podem agir diferente, se quiserem.

faceblogttblog

O dia de TODAS as famílias

Dê o play para ligar a “trilha sonora” do post 😉

Ontem foi o Dia Nacional da Família.

Eu jamais saberia, não fosse por esta ótima campanha que o Ministério da Justiça divulgou em seu Facebook:

familia

Até a hora em que escrevo este post, a imagem já tem mais de 10 mil compartilhamentos e 13 mil curtidas.

Ah sim, e mais de 800 comentários. Pode-se dizer que metade deles rasgando definições homofóbicas ou críticas aos pais e mães solteiros. A outra metade, agregando tolerância ao mundo. Como esta outra imagem, divulgada por uma pessoa que se identifica como Fábio Lima:

familia2

Disse o Fábio: “Se tem amor, é família”. Assino embaixo!

Eu já tinha colocado imagem parecida aqui no blog, lembram? 🙂

Esta aí, ó:

familias

Que este Dia Nacional da Família (que deveria ser todos os dias) sirva de reflexão para que valorizemos a família que temos e também criemos consciência sobre as várias formações familiares que existem no mundo. Tendo amor, como disse o Fábio, pode-se ter um lar. E, havendo um lar, teremos uma família. Seja com tios criando as crianças, seja com avós-pais, seja com pais adotivos, seja com pais homossexuais, seja com mães solteiras, com padrastos e madrastas complementando o núcleo anterior, com irmãos de casamentos diferentes etc. Todas essas famílias podem ser igualmente especiais.

Fico orgulhosa de viver em um país onde isso já é tratado com naturalidade pelo Ministério da Justiça. Demora, mas vamos progredindo aos poucos, né? 😉

Leia também:

3 anos de blog em 10 estatísticas

garfield-3yearsDizem que blog é coisa do passado, que a blogosfera foi sufocada pelas redes sociais (que agora estão sendo sufocadas pelos aplicativos, até a próxima invenção…). Disseram o mesmo sobre o email, o PC, a TV, as revistas, os jornais, o rádio, o cinema — e, no entanto, todos continuam firmes e fortes, apesar dos pesares! Prova disso é que este blog está completando hoje, no Natal, seu aniversário de 3 anos! Já desfraldou e não engatinha mais, porque é capaz de andar, correr e até saltar.

Vocês sabem como gosto de uma estatisticazinha, né? E sempre aproveito o aniversário do blog para revisitar o que está sendo construído por aqui, por mim e pelos leitores que tive o privilégio de conhecer. Então vamos lá:

1. Posts (quase) diários

Já são, até agora, 986 posts (média de 0,9 por dia), espalhados por 18 categorias (a mais movimentada ainda é “noticiário“). Destes, apenas 9 tiveram que recorrer ao Garfield dorminhoco neste ano, quando não resta ânimo ou inspiração nem para escrever sobre a falta de inspiração 😉

2. Novas páginas fixas

Neste ano o blog também ganhou três novas páginas (essas abinhas acima): ContatoPortfólio e Miniaulas de jornalismo.

3. Top 10

O dia que tivemos mais leitura foi em 19 de agosto, com 41.922 visitantes, que vieram ler a Carta a Sasha Meneghel, o post mais lido da história do blog.

Os outros nove posts mais lidos são, na ordem:

(Metade dos Top 10 foi publicada neste último ano, então tá bom 😀 )

4. De onde vêm os leitores

Quem mais trouxe visitas ao blog foi o Facebook, seguido do Twitter, do portal DM.com.br, da Revista Fórum e do Google.

5. O que procuram

Para chegar aqui por meio de buscadores, a maioria procurou os termos “levedo de cerveja”, “piratas do Caribe”, “o que tem em bolsa de mulher” e “kika castro” (com variações).

6. Para onde vão

A partir deste blog, a maioria clicou para navegar pelo blog do Nix, o portal da “Folha de S.Paulo” e o YouTube.

7. Visitantes e assinantes

Enquanto escrevo, este blog já recebeu mais de 402 mil visitantes e possui 267 assinantes, que o recebem por e-mail. Começamos com média de 137 leitores por dia e, em 2013, passamos para 758/dia, em média.

8. Comentários

Ao todo, o blog recebeu mais de 6.000 comentários. O post mais comentado foi o “Carta a Sasha Meneghel” (391 contribuições), seguido de “Manual de guerra aos mineiros que acabaram de chegar a São Paulo” (81) e “Mais Médicos para o Brasil — críticas e considerações” (79).

9. Pelo mundo

Vieram visitantes de 137 países. Depois do Brasil, a maioria chegou dos Estados Unidos (8.363), de Portugal (4.928) e do Reino Unido (1.064).

10. Manhã de “folga”

A hora mais ativa do dia, com mais atualizações e visitas, é pela manhã, às 9h.

***

Tenho dois motivos extras para comemorar o aniversário do blog neste ano: ele ganhou seu primeiro upgrade (agora é só kikacastro.com.br) e também abriu sucursal no portal do jornal “O Tempo“.

Espero conseguir manter o pique para que este espaço, que me dá tanta alegria e satisfação, faça vários outros aniversários. Porque blogosfera pode até ser coisa do passado, mas eu não ligo, não. Leio diariamente (e trabalho em) jornal impresso, ainda ouço fita k7 e vinil e sou blogueira com muito orgulho 😉

Tá baratim, tá baratim!! ;)

Tá baratim, tá baratim!! 😉

Obrigadíssima pela visita e feliz Natal a todos! 😀

A nadadora dentro de mim – parte 3 (e fim?)

Um dos poucos registros que tenho como nadadora, aos 14 anos

Um dos poucos registros que tenho como nadadora, aos 14 anos

Como eu dizia, evoluí muito em meu segundo dia de volta às piscinas.

Mantive a meta de nadar os 500 metros. Mas, desta vez, consegui fluir muito bem nos primeiros 200 e nadei sem parar até os primeiros 400.

Achei um bom método para manter meu ritmo sem cansar muito e, ao mesmo tempo, facilitar a contagem, sem precisar ficar gastando meu pensamento com ela: fui de peito, voltei de costas, fui de peito, voltei de crawl. Assim, como a piscina está com as raias em 25 metros de comprimento (meia olímpica), eu sabia que a chegada no crawl indicava 100 metros completos (uso método parecido para caminhar e correr).

Assim, sem precisar preencher meu cérebro com a contagem de percurso e pensando bem menos na técnica do que na véspera, pude ressuscitar outras memórias do universo da natação.

Lembrei, por exemplo, do técnico Luís Alberto explicando como o exercício intenso provoca a produção de ácido lático, que causa dor muscular e câimbras. E que, para evitá-las, era preciso gastar esse acúmulo de ácido, fazendo os nados “soltos” (mais lentos) ao final do dia de treino.

Lembrei de como era preciso colocar talco na touca de silicone para ela se conservar e não rasgar rapidamente (até comprei um talquinho!). E relembrei, na prática, como os óculos que prometem nunca embaçar embaçam nos primeiros 25 metros de nado.

Percebi que meu nado de costas está, atualmente, o melhor. Consigo relaxar e render muito nadando costas. Foi o que mantive mais a técnica, depois de tantos anos sem nadar rotineiramente. E não consegui lembrar se também era um dos meus melhores nados na adolescência. Sei que o peito nunca foi meu forte em termos de velocidade, embora seja ótimo para relaxar — por isso escolhi o peito como meu principal nado neste recomeço.

Nos últimos 25 metros, para “soltar”, voltei com meu exercício de relaxamento favorito: o nado de costas com pernada parecida com a de peito invertida, e as mãos parecidas com, humm, o nado “cachorrinho” — praticamente imóveis junto ao corpo.

Entrei na água às 11h23 e terminei minha meta às 11h38 — 15 minutos cravados, melhor que na véspera também.

***

Neste segundo dia, não senti muita dor nem dificuldade de respirar. Poderia até ter continuado por mais alguns metros, não fosse o horário. E fiquei satisfeita com meu desempenho, que é uma sensação que só quem nadou por tanto tempo treinando para competições consegue entender.

Se essa determinação de dois dias vai vingar, é outra história, para ser contada neste blog no futuro. (A propósito, até hoje não aprendi o francês.)

Por enquanto, fim.