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‘O Cidadão de Bem não existe’, por Beto Trajano

Nota da Cris: Meu blog está completamente abandonado, sem posts há duas semanas. E isso em meio a tantas coisas para noticiar e comentar, como os protestos antirracismo (tema tão caro ao blog) e antifascismo que eclodiram no mundo todo. Só ficou largado assim nas poucas vezes em que tive férias. Mas não, não estou de férias agora. Estou trabalhando como nunca nesta pandemia. E, nos poucos momentos de folga, me dedico ao Luiz (ou a dormir). Então o pobre blog acaba ficando de lado mesmo, sobrou pra ele. Espero entrar num ritmo levemente menos insano daqui a uns oito dias. Enquanto isso, deixo vocês com este texto do Beto Trajano, colaborador agora frequente do blog (e meu marido):


O cidadão de bem não existe

Texto escrito por Beto Trajano:

Protestos de pessoas com a camisa da Seleção, contra Dilma Rousseff, em março de 2015. Fotos: Agência Brasil

Alguns brasileiros adoram se vestir de verde e amarelo, inflar o peito e se autointitular “cidadãos de bem“. Mas o que percebo é que eles não são capazes de fazer autocrítica e de pensar em ações propositivas. Tem ainda uma turma que age de má fé mesmo. Não fazem propostas construtivas, são sempre antipropostas, com críticas destrutivas a tudo.

Sim, existem pessoas boas, de bom caráter e boa índole em todo campo da sociedade. Assim como também existem pessoas do mal, pessoas ruins, mau-caráter mesmo, em todas as esferas. Isso é do ser humano.

Só que existem questões com as quais o mundo atual não pode compactuar, que não têm como ser aceitas, que representam o que há de pior. A evolução intelectual ocorre de forma muito veloz e as pessoas podem até ter dificuldade de absorver algumas coisas por causa da cultura já propagada, da criação e dos princípios. Mas propagar comportamentos cruéis, mentirosos e ignorantes é terrível para toda a sociedade. E leva toda a comunidade ao abismo. É isso que tenho visto nos dias de hoje no Brasil.

O país está em uma ladeira bizarra e em direção a um perigoso buraco.

Em 2013, o Brasil entrou em colapso. As manifestações de junho tiraram o país de um eixo de crescimento e, desde então, ocorreu um desequilíbrio que ainda não foi superado. E não vejo um ponto de mudança. As questões humana/social, econômica e política estão completamente fora de ordem.

E é sobre a situação humana que quero falar um pouco. O gatilho para este texto veio da timeline do meu Facebook.

Estava rolando a página e deparei com o post de um amigo da época de escola e que foi meu vizinho. Com um vídeo de um suposto caminhoneiro que vive nos EUA, o amigo defendia Bolsonaro, pedia o fim da polarização no país, criticava a atual luta em relação ao racismo e pedia para que deixassem o homem, neste caso, o presidente, trabalhar.

A falta de senso crítico não permite que a pessoa analise a situação e ela sai postando qualquer coisa sem o mínimo embasamento. Pode ser também a falta de vontade de aprender, ou ainda o aprendizado de uma forma errada, no caminho da desinformação.

Eu vi o vídeo do caminhoneiro, que, em resumo, dizia que Bolsonaro quer que o Brasil seja parecido com os EUA. Este é o discurso do presidente, mas não é o que ele faz na prática.

Bolsonaro está militarizando o país, oferecendo cargos importantes para militares que não são especialistas nas áreas onde estão alocados. O caso recente mais grave é na Saúde, onde o ministro interino é general do exército com experiência ZERO em saúde. Isso em plena pandemia do coronavírus!

larissa peixoto iphan - divulgação mtur
Larissa Peixoto teve nomeação para o Iphan barrada na Justiça

O presidente foi eleito com a promessa de colocar só técnicos nos ministérios e cargos importantes do governo, mas isso definitivamente não aconteceu. São diversos exemplos: o ministro da Educação, o presidente da Fundação Palmares, a presidente do Iphan. Hoje o Brasil, politicamente falando, está mais perto de países considerados ditaduras, como a Venezuela e a Coreia do Norte, do que dos Estados Unidos.

 

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Ainda sobre o post. O amigo pede o fim da polarização, mas, já na sequência, ele, que é branco, critica a luta antirracismo dos pretos. A minha conclusão: ele prega o fim da polarização, mas quer continuar polarizando, e, pior, critica uma luta que não diz respeito a ele. Pois não sente o racismo na pele.

Durante esta pandemia, fiz alguns testes com posts no Facebook e o que gerou mais engajamento foi um em que escrevi: “Qual o problema com o socialismo? Qual o problema em viver em uma sociedade mais digna?”. Virou um debate com posições pró e contra o socialismo. Os argumentos contrários eram todos no sentido de “não quero o Brasil igual a Cuba e Venezuela”. As pessoas ignoram que existem vários níveis de socialismo, inclusive a social-democracia, que engloba características do capitalismo e do socialismo e propicia vida mais digna ao cidadão. Um exemplo disso é o Canadá.

Por falar em Canadá, temos uma escola canadense em Belo Horizonte, particular e muito cara, da elite. Mas a elite que coloca os filhos lá não conhece a filosofia de ensino da escola e tem um pensamento muito divergente do que é oferecido aos filhos na instituição. A escola educa com valores de liberdade, de humanidade, busca mostrar para os alunos a importância de não ter preconceito com o próximo. Aí você vai conversar com um pai de aluno e a pessoa é carregada de ódio. Espuma a boca para falar mal de petistas, de gays, trata negros com desprezo. E, se bobear, está pedindo intervenção militar no Brasil na porta do exército aos domingos.

“Ele é bonzinho!”. Foi a resposta que recebi uma vez sobre uma pessoa. Essa pessoa invadia perfis de Facebook e descarregava ódio em comentários. Isso, para mim, não é ser bonzinho. Mas quem fez esta qualificação não era atacada, por pensar igual ao bonzinho.

Para não ficar só em um campo deste país polarizado, também digo que já vi gente que milita contra o racismo não se intimidar e sair fazendo falsas acusações de racismo. Manchando imagens e agredindo pessoas inocentes.

Então. O que é mesmo o “cidadão de bem”, que Bolsonaro tanto exalta?

  • Eduardo Bolsonaro usa arma para descobrir sexo de futuro filho. Foto: Reprodução

    O filho dele que, no chá de revelação, atira de espingarda contra o balão que mostra o sexo do neném? Simbolicamente o cara está atirando contra o próprio filho que nem nasceu.

  • O pastor, que tenta arrancar dinheiro de fiéis vendendo um feijão para curar o coronavírus?
  • O casal de ricos, que estoura champanhe na manifestação e depois sonega todos os impostos possíveis? Que se inscreve no pedido de auxílio emergencial oferecido às pessoas que ficaram sem renda na pandemia?

O cidadão de bem não existe. Como mostravam os desenhos animados da década de 80, todo mundo tem o anjinho e o capetinha martelando na cabeça.

Neste mundo hostil, o que importa é ser positivo, tentar construir um ambiente melhor, sem ódio, com mais condição social, com menos miséria, mais harmonia.

Um ambiente onde seja possível, simplesmente, evoluir.

 

Foto: Aarón Blanco Tejedor / Unsplash

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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