10 reportagens imperdíveis para nos ajudar a refletir nesta Semana da Consciência Negra

 

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No ano passado, compartilhei aqui 15 filmes para assistirmos e refletirmos no Dia da Consciência Negra.

Neste ano, com um pouco de atraso, trago 10 reportagens muito legais que saíram nesta semana tão importante. Quem sabe ajudem as pessoas que ainda não perceberam que existe racismo no Brasil, que os brancos têm uma dívida histórica com os negros e que não existe nenhum branco que jamais tenha sofrido preconceito por sua cor de pele a aprenderem a importância de datas como esta do 20 de novembro:

  1. Com quase 200 anos de atraso, chegam ao mercado sapatilhas para bailarinas negras. Reportagem de Letícia Fontes.
  2. Grupo que idealizou o Dia da Consciência Negra teve de dar explicações à ditadura.
  3. Médico negro ignora até conselhos da mãe e vira raridade na periferia de SP. Do veterano Ricardo Kotscho.
  4. Alunos cotistas se destacam em 95% dos cursos da UFMG, da Tatiana Lagôa.
  5. Ensino superior ainda é 70% branco no país, da super Queila Ariadne.
  6. Negros que superam as barreiras sociais e econômicas ainda são exceção à regra. Também da Queilinha.
  7. “Sobrenome África”, série de três reportagens do Vinicius Luiz sobre a ausência de informações sobre as origens do negros no Brasil.
  8. ‘Novos brasileiros’: os migrantes africanos que estão mudando a cara de São Paulo (um ensaio fotográfico do Diego Padgurschi)
  9. “Há mais denúncias de racismo no futebol. O pacto de silêncio foi quebrado”
  10. Para cada branco assassinado em Minas, quatro negros são mortos

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Algumas histórias sobre Alberto Dines (1932-2018) no livro ‘Sucursal das Incertezas’

Alberto Dines fará falta ao jornalismo brasileiro | Foto: Divulgação / EBC

 

Enquanto escrevo este post, na noite de terça-feira (22), meu pai está trabalhando na roça, sem acesso a tevê ou internet. Provavelmente ainda não ficou nem sabendo que o grande jornalista Alberto Dines, com quem trabalhou no “Jornal do Brasil”, morreu algumas horas atrás.

Na falta de um texto do meu pai, o jornalista José de Souza Castro, sobre seu quase contemporâneo (meu pai tem 74 anos, Dines tinha 86), dei uma busca no livro “Sucursal das Incertezas” (disponível para download gratuito na Biblioteca do Blog), em que meu pai conta várias histórias sobre o jornalismo brasileiro desde os tempos do telex ponta a ponta. Alberto Dines é citado nominalmente lá 33 vezes.

Pincei quatro trechos marcantes, mostrando como Dines era inteligente e driblava a censura da ditadura militar brasileira, além de um que fala sobre como foi demitido do “Jornal do Brasil”. Boa leitura:

 

“Alberto Dines, convidado no começo de 1962 para ser o editor-chefe, substituindo Jânio de Freitas (Odylo havia saído em 1958), consolidou as mudanças no jornal. No começo da década de 70, o JB era o maior jornal do Rio, com tiragem de 150 mil exemplares em dias úteis e 230 mil aos domingos. Considerando-se que a população brasileira era metade da atual, os números são impressionantes, se comparados com os de agosto de 2007, quando o Globo vendeu 276.733 exemplares por dia, em média, ficando em terceiro lugar no ranking do Instituto Verificador de Circulação (IVC), atrás da Folha de S. Paulo e, surpreendentemente, do tablóide mineiro Super Notícia, o mais vendido no país.

Como editor-chefe, Dines criou, entre outros, o Caderno Especial, a Revista de Domingo – um caderno de oito páginas, precursor da revista de nome igual lançada em abril de 1976 –, o suplemento Livro (um guia quinzenal de idéias e publicações), o Caderno i (infantil), o JBzinho e o Festival JB de Curta-Metragem. Conviveu com a censura prévia e com a intimidação e a prisão de diretores e editores, em pelo menos duas ocasiões. O JB teve a sede invadida por militares em 1964, sofreu boicote econômico na década de 70 e publicou algumas páginas “subversivas” que ficaram na história do jornalismo brasileiro.

Com base no AI-5, editado dia 13 de dezembro de 1968, no ano seguinte um redator do JB, Antônio Callado, teve os direitos políticos cassados por dez anos. Nascido em Niterói em 1914, Callado foi contratado pelo JB em 1963. Esteve preso por alguns dias logo depois do golpe militar. O jornal enviou-o à Ásia, em 1968, para cobrir a Guerra do Vietnã. Na volta, foi preso e ficou na cadeia por 15 dias. Os militares no poder, aliados e admiradores dos Estados Unidos, não gostaram das reportagens. Além de cassar seus direitos políticos, o presidente Arthur da Costa e Silva, por decreto, proibiu Callado de trabalhar em qualquer veículo de imprensa no Brasil.

Ele não podia também lecionar ou exercer outras atividades intelectuais no país. Ser trabalhador braçal, se exilar ou morrer de fome – eis as opções que lhe oferecia, sem explicitá-las, o amável general. Pressionada, a condessa Pereira Carneiro demitiu Antônio Callado, mas manteve-o, secretamente, na folha de pagamentos, até que o decreto fosse revogado pelo próprio Costa e Silva.”

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“Elio Gaspari, que foi editor de Política, por algum tempo, afirma no livro A Ditadura Escancarada que, na década de 70, o JB não ostentava a mesma ousadia do final dos anos 60. No dia da decretação do AI-5, que institucionalizou a ditadura, o editor-chefe Alberto Dines encontrou uma forma de ludibriar os censores. Usou o espaço em que o jornal normalmente divulgava a previsão meteorológica, no canto superior esquerdo da primeira página, para informar aos leitores: “Tempo negro. Temperatura sufocante, o ar está irrespirável, o país está sendo varrido por fortes ventos”.

Passou batido pelo censor, mas não pelo governo, que prendeu o diretor José Sette Câmara, ex-governador do Estado da Guanabara. A condessa Pereira Carneiro reagiu: avisou que a circulação do JB ficaria suspensa enquanto seu diretor continuasse preso. O governo tentava passar a idéia de que o país era democrático, e recuou temendo a repercussão que tal fato teria internacionalmente. No mesmo dia da prisão, Sette Câmara foi solto.”

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“Alberto Dines havia transformado o JB numa espécie de escola de jornalismo. Ele lançou em 1965, depois de terminar o curso na Columbia University, os Cadernos de Jornalismo (mais tarde chamados de Cadernos de Jornalismo e Comunicação). Seu editor, até o caso do seqüestro do embaixador americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, era o mineiro Fernando Gabeira, responsável também pelo Departamento de Pesquisa, com o qual o jornal podia aprofundar temas tratados em reportagens, artigos e editoriais.”

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“Alberto Dines lembra que havia planejado publicar com grande destaque o golpe no Chile e a morte do presidente Allende, em 11 de setembro de 1973. Depois de fechada a edição, Dines tomou conhecimento, já em casa, da comunicação da Polícia Federal de que o assunto não poderia ser manchete. Ele voltou ao jornal e resolveu publicar a primeira página sem qualquer título – sem manchete, como exigia o governo –, mas com o texto, em corpo maior que o normal, ocupando toda a página (com exceção, é claro, do sagrado “L” dos Classificados). O truque agradou a todos, menos ao governo.

– Coincidência ou não, três meses depois fui demitido do JB – afirmou Dines, num depoimento para o projeto Memória da Imprensa Carioca.

A saída de Dines foi traumática. No dia 7 de dezembro, no cantinho esquerdo, no alto da página 3, o JB publicou, sob um singelo título (Aos leitores): “Deixou ontem o lugar de Vice-Diretor Editor-Chefe do Jornal do Brasil o jornalista Alberto Dines. Na mesma ocasião, a Diretoria decidiu extinguir o cargo de Vice-Diretor Editor-Chefe”.

Só. Nos dias e meses seguintes, Dines não voltou a ser mencionado no jornal, nem mesmo nas muitas colunas assinadas. O nome virou tabu.

No entanto, o jornal não tinha do que reclamar, a julgar pelo balanço de 1973, publicado no dia 22 de abril do ano seguinte. O JB faturou bem no último ano de Dines no jornal e lucrou o equivalente a 7,7 milhões de reais, para um capital social de 50,8 milhões de reais. Com a conclusão da nova sede, na Av. Brasil, 500, afirmava o relatório da diretoria, “as operações, economicamente melhor desenvolvidas nas novas instalações, geraram uma Receita 40,2% superior à do exercício anterior, incrementando a tiragem vendida em 32% e a produção de páginas de publicidade em 28%”. Contudo, o balanço expunha números que levariam, mais tarde, ao estrangulamento financeiro do jornal. Inclusive, o exigível em longo prazo equivalente a quase três vezes o montante do capital social.”

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Não preciso nem dizer que recomendo a todos que se interessem pela história recente do Brasil (que alguns querem trazer de volta, lamentavelmente) ou que se interessem por jornalismo a leitura do livro “Sucursal das Incertezas”, que meu pai escreveu e deixou disponível para quem quiser baixar, de graça, bastando clicar AQUI. Em outro trecho que não coloquei aí em cima, ele lembra uma frase que diz muito sobre a personalidade de seu ex-chefe Alberto Dines: “Comandar não é dar ordem, comandar é aprender, fazer junto, co-mandar: o outro também manda, você manda junto”. Como deve ter sido bom ser comandado por alguém que pensa assim, não é mesmo?

Outro jornalista que respeito muito e que prestou homenagens a Alberto Dines foi o Ricardo Kotscho. AQUI é possível ler o texto dele. Esta matéria da Agência Brasil traz um resumo biográfico de Dines, para quem não conviveu tão bem com ele quanto os jornalistas Kotscho e José de Souza Castro.

 

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Em 2 anos de governo Temer, estimados 730 retrocessos

 

Quando o (des)governo de Michel Temer completou um mês de existência, eu tinha conseguido colecionar uma lista com 30 retrocessos. Um por dia.

Agora ele completa dois anos de existência e, é claro, fui obrigada a desistir, há tempos, de acrescentar retrocessos à minha lista – ou eu não faria mais nada da vida. Se tivesse continuado, era provável que o ritmo fosse o mesmo, e hoje tivéssemos bem uns 730 descalabros pra contabilizar.

Aí vem o sujeito na maior cara de pau, mal orientado por uma equipe de marqueteiros bem ruim de serviço (e de gramática), e tenta se comparar a Juscelino Kubitschek, com seu famoso slogan “50 anos em 5”. Foi tão tosca a ideia que logo virou piada: todo mundo tirou a vírgula do “Brasil voltou, 20 anos em 2” e o slogan apenas serviu pra desenhar o que todo mundo já sabe: houve retrocesso, e dos bravos.

Todo mundo já escreveu um bocado sobre isso nos últimos dois dias e eu não faria o mesmo, mas gostei tanto do texto zangadíssimo de Ricardo Kotscho que resolvi compartilhá-lo por aqui. Dois trechinhos:

“Só pode ser delírio querer vender a ideia de que o Brasil voltou aos bons tempos nas mãos desta gente corrupta e medíocre, que destruiu os direitos sociais, concentrou a renda, aumentou a mortalidade infantil, fez o brasileiro voltar a cozinhar no fogão a lenha, aumentou o número de desempregados para 14 milhões de trabalhadores e não passa uma semana sem ser ameaçado por novas denúncias.”

“Nesta volta ao passado que o período Temer representou, vai levar bem mais de 20 anos para o Brasil recuperar a confiança e a auto-estima, recuperar os alicerces de um país democrático e o respeito do resto do mundo.”

CLIQUE AQUI para ler na íntegra.

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Dilma pode sentir na pele o golpe paraguaio

Texto escrito por José de Souza Castro:

Do blog do jornalista Ricardo Kotscho, que foi assessor de Lula, neste 4 de fevereiro: “Foi dada a largada. Em caudaloso artigo publicado domingo no Estadão, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu a senha: como não há clima para um golpe militar, a derrubada do governo de Dilma Rousseff deve ficar por conta do Judiciário e da mídia, criando as condições para votar o impeachment da presidente no Congresso Nacional o mais rápido possível.” Íntegra AQUI.

Do jornalista Acílio Lara Resende, arguto observador político tucano, em artigo que “O Tempo” publica hoje:

“Veja bem, leitor: além dos problemas por que passa o país – na economia, na educação, na saúde, na mobilidade urbana, na volta da inflação, nos transportes, no aumento do desemprego, na infraestrutura, na falta de água, na falta de energia etc, que envolvem responsabilidade direta do atual governo, a presidente terá que explicar o que de fato aconteceu, durante anos, na Petrobras; e, de lambuja, ainda correrá o risco de um impeachment, analisado, recentemente, em longo e minucioso parecer, pelo ilustre jurista Ives Gandra da Silva Martins.”

Concordo com Ricardo Kotscho, mas não acho que a largada foi dada agora, e sim quando o presidente dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama, nomeou, no dia 14 de junho de 2013, a nova embaixadora no Brasil, Liliana Ayalde, em substituição a Thomas A. Shannon, que ocupava o cargo desde 2009, final do governo Lula.

Shannon foi incapaz de impedir a eleição de Dilma Rousseff e, Ayalde, a sua reeleição. Mas não terá faltado esforço de ambos. Cabe agora à primeira mulher no comando da embaixada dos EUA no Brasil ajudar a impedir que a primeira presidenta do país governe por mais quatro anos. Pior, que possa ser sucedida, em 2019, por Lula.

Mas esse trabalho da embaixadora tem que ser feito de forma muito discreta, pois Obama, assim como Kennedy no começo da década de 1960, não gostaria de escancarar a ajuda dos Estados Unidos a um golpe para derrubar mais um governo democraticamente eleito. Kennedy sim, pois começou a governar em 1961 e só não viu a queda de João Goulart, em 1º de abril de 1964, porque ele morreu assassinado, em Dallas, quatro meses antes.

Toda a preparação para o golpe militar foi feita durante seu governo. Eu era adolescente em Lagoa da Prata, com menos de 5.000 moradores em 1962, e a cidade já era inundada com panfletos publicados pelo IBAD – muitos deles encartados em jornais do Rio de Janeiro e São Paulo – para preparar os brasileiros para o golpe militar. A USAID, agência na qual a atual embaixadora dos Estados Unidos trabalhou durante 24 anos, tendo sido diretora de missão na Nicarágua, Bolívia e Colômbia, antes de ser nomeada embaixadora no Paraguai, entre 2008 e 2001.

No Paraguai, ela preparou, com grande competência, o golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo. Os interessados podem ler AQUI um bom artigo escrito pela repórter investigativa brasileira Natália Viana. Foi publicado pela Agência Pública no dia 4 de fevereiro de 2013, oito meses depois que um conluio entre o Congresso Nacional e a Corte Suprema resultou no afastamento de um presidente eleito pela esquerda paraguaia. Natália expõe a forma como o governo dos Estados Unidos mantinha influência em todas as esferas de poder que foram fundamentais para a remoção de Fernando Lugo. Selecionei alguns trechos:

  • Na véspera do julgamento do impeachment que o destituiu da presidência do Paraguai em 22 de junho do ano passado, Fernando Lugo reuniu-se com o embaixador norte-americano James Thessin na capital Assunção. A reunião estava marcada havia muito tempo, bem antes da matança de Curuguaty – uma operação policial de reintegração de posse na região de Curuguaty que deixou 17 mortos no dia 15 de junho de 2012, e foi usada como argumento pelo Congresso para depor Lugo uma semana depois. Seguindo o protocolo, Thessin convidou Lugo para a recepção de celebração ao 4 de julho, data da independência americana, a ser realizada na embaixada, que toma um quarteirão inteiro no centro da capital paraguaia. “Mas você está me convidando para eu ir como presidente ou como cidadão?”, indagou Lugo.  “Como presidente, é claro”, tranquilizou-o Thessin. Lugo já não era mais o presidente do Paraguai no dia 4 de julho e não compareceu à cerimônia, que teve direito à execução dos dois hinos nacionais, refrescos e tira-gostos. A data marcava o fim de uma semana de trabalho duro em relação à deposição do ex-bispo da presidência e à ascensão do seu vice, o liberal Federico Franco, ao poder. Um trabalho que envolveu mais do que diplomatas americanos e foi realizado silenciosamente – os EUA só se pronunciaram sobre o Paraguai 20 dias depois do impeachment.

  • Lugo não estava errado ao indagar o embaixador americano sobre seu futuro quando convidado para o 4 de julho. Afinal, o apoio dos EUA é fundamental para o futuro de qualquer governo naquele país. As reticências dos americanos em relação à sua presidência foram bem descritas pela antecessora de Thessin na embaixada, Liliana Ayalde, que escreveu em telegrama enviado em 7 de dezembro de 2009, e vazado pelo Wikileaks: “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”.

  • A influência americana sobre o Paraguai não é apenas uma questão diplomática. Através de doações administradas pela USAID de mais de US$ 100 milhões (em cinco anos) a empresas, ONGs e órgãos governamentais dificílimos de monitorar, os americanos garantiram a proximidade com diversas esferas de poder no país. “Atores políticos de todos os espectros nos procuram para ouvir conselhos”, resumiu a ex-embaixadora Ayalde no mesmo relatório confidencial. “E a nossa influência aqui é muito maior do que as nossas pegadas”, pontuou.

  • O treinamento das forças de segurança paraguaias estava entre os principais programas financiados pela USAID. Entre 2005 e 2010, cerca de mil militares e policiais foram treinados – a maioria em 2009, ano seguinte à posse de Lugo – e dali saíram alguns comandantes das Forças Armadas nomeados por Franco quando assumiu o poder. A Polícia Nacional foi a responsável pela operação que resultou na matança de Curuguaty. O Ministério Público, que baseou-se exclusivamente em depoimentos de policiais para atribuir aos camponeses a culpa pelo massacre, e a Corte Suprema, que negou dois recursos movidos pela defesa de Lugo, também foram contemplados com programas financiados pela USAID.

  • Documentos obtidos pela Pública através da Lei de Acesso à Informação dos EUA revelam que, antes mesmo da votação do impeachment, o encarregado da USAID por zelar pela democracia paraguaia já planejava seus passos com o novo governo: “Comecei a fazer reuniões internas para avaliar e traçar uma estratégia sobre a melhor maneira de manter o andamento dos programas no novo governo”, explicou Eschleman em um email às 17h20 do fatídico 22 de junho para a direção da Millenium Challenge Corporation (MCC), agência financiadora ligada ao Congresso americano. Observando que “às seis horas, Franco já deve ser presidente”, Eschleman escreveu: “Provavelmente vai levar alguns dias para saber quem serão os novos ministros e como podemos abordar a nova liderança para garantir não só estabilidade nos programas, mas a habilidade para caminhar adiante”. Mas, ressaltou, a mudança governamental significava “boas novas” para a USAID: “Franco e a sua equipe conhecem muito bem o programa Umbral porque trabalharam próximos a nós nos últimos anos”. Duas horas depois o diretor da USAID enviou outro email contando que, logo após o discurso de posse, o novo presidente nomeou novos ministros. Mais “boas novas”: “Tanto o ministro do Interior (Carmelo Caballero) quanto o novo Chefe da Polícia (Aldo Pastore) trabalharam conosco no programa Umbral, e são pessoas que chamaríamos de aliados!” Depois, sobre o ministro de Finanças, Manuel Ferreira Brusquetti, e o chefe de Gabinete de Franco, Martín Burt, celebrou: “Conhecem e respeitam a USAID, e trabalharam conosco no passado”.

  • Não era bem isso que dizia a embaixadora Liliana Ayalde nos despachos enviados em 2009 ao Departamento de Estado. Na mesma época em que destinava 2,5 milhões de dólares à Corte no programa Umbral, em um despacho diplomático Ayalde afirmava que a Corte, “ampla e corretamente”, era vista como corrupta, mais focada “em interesses políticos e pessoais do que em questões legais”. E escreveu: “A interferência política é a norma; a administração da Justiça se tornou tão distorcida, que os cidadãos perderam a confiança na instituição”.

  • “O controle político da Suprema Corte é crucial para garantir impunidade dos crimes cometidos por políticos hábeis. Ter amigos na Suprema Corte é ouro puro”, escreveu no despacho, em 25 de agosto de 2009.  “A presidência e vice-presidência da Corte são fundamentais para garantir o controle político, e os Colorados (oposição a Lugo) controlam esses cargos desde 2004. Nos últimos cinco anos, também passaram a controlar a Câmara Constitucional da Corte”.

  • Presente há cinquenta anos no Paraguai, a USAID sempre foi um forte braço da política norte-americana para o país. Um estudo detalhado sobre a sua atuação feito pelo Instituto Base Investigações Sociales (Base-IS), revela que a presença da USAID cresceu progressivamente no país a partir de 2008, quando Lugo foi eleito. “Em termos de fundos, houve um aumento importante na assistência norte-americana para o Paraguai: de US$ 17,25 milhões em 2007 para US$ 36,2 milhões em 2010”, diz o estudo. Porém, os fundos de assistência distribuídos a uma infinidade de ONGs e órgãos governamentais são difíceis de monitorar, como descobriram os pesquisadores do Base-IS. “É complicado conseguir fechar os números reais, porque os fundos provêm de diferentes fontes, inclusive dentro das USAID, a atores diversos, alguns deles diretamente ao governo ou canalizados por ONGs internacionais”, explica Marielle Palau, que coordenou o estudo. O quadro se complica com a tendência à privatização da assistência internacional. Desde o ano de 2000, os recursos da USAID repassados diretamente para empresas privadas americanas a título de consultoria vêm crescendo, e são elas que, na prática, comandam a distribuição do dinheiro em cada país. Somente no ano de 2010, 40 empresas faturaram mais de US$ 6,7 bilhões em contratos com a USAID – uma enorme fatia dos recursos da agência para aquele ano.

Raramente os Estados Unidos tiveram no Brasil um representante tão discreto como a embaixadora Liliana Ayalde, que fala fluentemente o português. E a USAID, tão serelepe nos anos 60 e 70, quase nunca aparece na imprensa brasileira. Gostam de trabalhar em silêncio, nos bastidores. Sem deixar pegadas.

Não precisam aparecer, pois têm quem o faça, com grande acesso à mídia – quando não a própria mídia e alguns programas, como o Millenium da Globo News. Entre os porta-vozes informais dos Estados Unidos, ousaria citar Fernando Henrique Cardoso e, por que não, Ives Gandra da Silva Martins – mas a lista é imensa. Após afirmar isso, recorro ao artigo de Kotscho, citado no início:

“O primeiro a responder prontamente ao chamado foi o sempre solícito advogado Ives Gandra Martins, 79 anos, que já na terça-feira apresentou a receita do golpe no artigo “A hipótese de culpa para o impeachment”, publicado pela Folha, em que o parecerista aponta os capítulos, parágrafos, artigos e incisos para tirar Dilma da presidência da República pelas “vias legais”.

Candidamente, Martins explicou na abertura do seu texto: “Pediu-me o eminente colega José de Oliveira Costa um parecer sobre a possibilidade de abertura de processo de impeachment presidencial por improbidade administrativa, não decorrente de dolo, mas apenas de culpa. Por culpa, em direito, são consideradas as figuras de omissão, imperícia, negligência e imprudência”.

E quem é o amigo José de Oliveira Costa, de quem nunca tinha ouvido falar? Graças ao repórter Mario Cesar Carvalho, da Folha, ficamos sabendo nesta quarta-feira a serviço de quem ele está nesta parceria com o notório Gandra Martins, membro atuante da Opus Dei e um dos expoentes da ala mais reacionária da velha direita paulistana .
“Sou advogado dele”, explicou Costa ao repórter, referindo-se, também candidamente, ao seu cliente Fernando Henrique Cardoso, um detalhe que Martins se esqueceu de apresentar na justificativa do seu parecer a favor do impeachment de Dilma.

Conselheiro do Instituto FHC, o até então desconhecido advogado negou, porém, que a iniciativa da dupla tenha qualquer caráter político. FHC, claro, disse que só ficou sabendo da operação pelo jornal. São todos cândidos, esses pândegos finórios, que estão brincando com fogo, em meio à mais grave crise política e econômica vivida pelo país desde a redemocratização.”

E concluo com uma frase que encerra o artigo de Acílio Lara Resende, meu chefe na sucursal do “Jornal do Brasil” em Minas, nas décadas de 1970 e 80:

“Valha-nos Deus e… São Pedro!”

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Russomanno, a zebra

O jornalista Ricardo Kotscho fez uma análise sobre o isolamento de Celso Russomanno (PRB) na liderança das intenções de voto, segundo nova pesquisa Datafolha divulgada hoje.

Ele atribui o crescimento ao desgaste do fla-flu entre tucanos e petistas, que já encheu o saco de todo o mundo desde que passou a dominar todos os discursos, principalmente na internet, lá pelos idos de 2002.

Vale a pena ler AQUI.

No entanto, ainda acho cedíssimo para achar que Russomanno vai ganhar de lavada de seu concorrente no segundo turno, seja Serra (PSDB) ou Haddad (PT), conforme a mesma pesquisa (58% a 30% e 56% a 30%, respectivamente). Embora seja quase certo que ele vá, mesmo, para o segundo turno.

Afinal, ainda há muita pedra (e debate, e aparições da Dilma e da Marta, e tempos de TV e rádio) pra rolar até outubro.

E um dado, que Kotscho só cita rapidamente, para mim é essencial: “Na pesquisa espontânea, 40% dos eleitores ainda não souberam definir seus candidatos”.

É gente demais, capaz de definir coisa demais.

Se você vota em São Paulo (eu não) e está entre esses 40%, vale assistir ao primeiro debate dos candidatos, lendo os comentários do colega Evandro Spinelli, que fez o dever de casa de jornalista e contextualizou todas as respostas, de todos os candidatos, geralmente jogadas ao léo para o pobre espectador-eleitor.

Assistam e leiam AQUI.