Em 2 anos de governo Temer, estimados 730 retrocessos

 

Quando o (des)governo de Michel Temer completou um mês de existência, eu tinha conseguido colecionar uma lista com 30 retrocessos. Um por dia.

Agora ele completa dois anos de existência e, é claro, fui obrigada a desistir, há tempos, de acrescentar retrocessos à minha lista – ou eu não faria mais nada da vida. Se tivesse continuado, era provável que o ritmo fosse o mesmo, e hoje tivéssemos bem uns 730 descalabros pra contabilizar.

Aí vem o sujeito na maior cara de pau, mal orientado por uma equipe de marqueteiros bem ruim de serviço (e de gramática), e tenta se comparar a Juscelino Kubitschek, com seu famoso slogan “50 anos em 5”. Foi tão tosca a ideia que logo virou piada: todo mundo tirou a vírgula do “Brasil voltou, 20 anos em 2” e o slogan apenas serviu pra desenhar o que todo mundo já sabe: houve retrocesso, e dos bravos.

Todo mundo já escreveu um bocado sobre isso nos últimos dois dias e eu não faria o mesmo, mas gostei tanto do texto zangadíssimo de Ricardo Kotscho que resolvi compartilhá-lo por aqui. Dois trechinhos:

“Só pode ser delírio querer vender a ideia de que o Brasil voltou aos bons tempos nas mãos desta gente corrupta e medíocre, que destruiu os direitos sociais, concentrou a renda, aumentou a mortalidade infantil, fez o brasileiro voltar a cozinhar no fogão a lenha, aumentou o número de desempregados para 14 milhões de trabalhadores e não passa uma semana sem ser ameaçado por novas denúncias.”

“Nesta volta ao passado que o período Temer representou, vai levar bem mais de 20 anos para o Brasil recuperar a confiança e a auto-estima, recuperar os alicerces de um país democrático e o respeito do resto do mundo.”

CLIQUE AQUI para ler na íntegra.

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‘Eu vejo o futuro repetir o passado’

A letra do Cazuza, “O Tempo Não Para”, veio à minha cabeça quando li o texto que o historiador Paulo César de Araújo publicou na “Folha de S.Paulo” de 23 de janeiro, véspera do julgamento em segunda instância do ex-presidente e pré-candidato à presidência Lula. Mas não é o futuro que repete o passado, ainda. Por enquanto, é só o presente a repetir o que foi vivido por Juscelino Kubitschek quando foi banido pela ditadura militar, em 1965. Favorito às eleições, ele foi proibido de se candidatar, por causa de um tríplex em Ipanema, em um julgamento controverso e sem provas contundentes.

Se o futuro também repetirá o passado, com todas as atrocidades que se seguiram ao governo de Castelo Branco, é algo que ainda viverei para ver.

Você ainda não teve a oportunidade de ler o texto de Paulo César de Araújo? CLIQUE AQUI e vá até o fim. Te garanto que haverá momentos em que você não saberá se está lendo sobre um fato da década de 60 ou da semana passada…

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JK foi assassinado pela ditadura militar

Juscelino no dia de sua posse, em 1956. Foto: Arquivo Nacional do Brasil

JK em sua posse, em 1956. Foto: Arquivo Nacional do Brasil

Texto escrito por José de Souza Castro:

Durante os 15 anos que dirigiu o Memorial JK em Brasília, desde sua construção até 1995, o coronel Affonso Heliodoro ouviu de muitos dos mais de 400 visitantes por dia uma pergunta que não soube responder em seu livro “JK Exemplo e Desafio”, publicado há 11 anos. Amigo e auxiliar do ex-presidente, o autor afirma que não há resposta à grande questão: JK morreu num acidente de trânsito ou foi assassinado?

O ex-presidente foi assassinado. É o que garantem os autores do livro “O assassinato de JK pela ditadura” (804 páginas, em dois volumes, R$ 200,00), lançado em agosto passado na Faculdade de Direito da USP, na data em que se completavam os 40 anos do assassinato. Em entrevista a Paulo Henrique Amorim, divulgada nesta segunda-feira, 7 de novembro, com o título “(Quase) todos os assassinos de JK”, um dos coordenadores das pesquisas que resultaram no livro, Alessandro Octaviani, cita Affonso Heliodoro como uma de suas fontes.

Reprodução

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Aos 100 anos de idade, desinteressado de quase tudo, segundo o filho Affonsinho – o compositor e cantor casado com uma de minhas filhas, Viviane –, o velho coronel da PM mineira que auxiliou o conterrâneo JK desde que ele era prefeito de Belo Horizonte talvez se interesse em saber, finalmente, a resposta à pergunta que todos queríamos ouvir. Continuar lendo

Cármen Lúcia não quer ser presidenta

Fernando Frazão/Agência Brasil

Ministra Cármen Lúcia assume a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) para mandato de 2 anos. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Texto escrito por José de Souza Castro:

Advogados, cuidado. Não chamem a presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, de presidenta. Eu, que não sou advogado, acho que vou chamá-la de presidenta, por coerência: como sempre chamei Dilma Rousseff de presidente, sabendo que ela preferia presidenta, não é justo que, agora, acate a preferência dessa mineira de Montes Claros que disse, ao ser confirmada no cargo, o seguinte: “Eu fui estudante e sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não?”.

Para quem não gosta de acessar links, abaixo, o que se lê no link indicado: Continuar lendo

Foi em 1956 que JK inventou a “presidenta”

presidenta

Lendo o artigo de Sandra Starling no jornal “O Trem”, de Itabira, encontrei uma história muito interessante sobre a origem do termo “presidenta”, que hoje é adotado por Dilma Rousseff e por algumas outras pessoas, geralmente feministas ou alinhadas — ideológica, política ou partidariamente — com a chefe de Estado.

O que descobri, pelo texto de Sandra, é que quem oficializou o termo não foi o atual governo, mas o do também mineiro Juscelino Kubitschek. Ele não só instaurou a moda como sancionou uma lei para que ela se tornasse oficial. Vejam nas palavras da colunista:

“O Pé-de-Valsa, como o presidente era conhecido nas rodas boêmias, valeu-se de tudo para obter as boas graças femininas e tornar as funcionárias públicas mais inclinadas a aceitarem a mudança da capital [para Brasília].
Só agora vejo que ele fez mais.
Espertíssimo, também viu grande atrativo num outro truque, este, por sorte, colocado em suas mãos por um antigo seguidor de Adhemar de Barros, o senador pelo Rio de Janeiro Mozart Lago. Desde 1954, o senador, grande batalhador das causas femininas com o deputado Nelson Carneiro, pelejava para ver aprovado projeto de sua iniciativa, determinando “o uso oficial da forma feminina para designar cargos públicos ocupados por mulheres”. O projeto, depois da lengalenga usual, acabou sendo sancionado por JK em 2 de abril de 1956, tornando-se a lei federal nº 2.749. Portanto, quem inventou legalmente o designativo “presidenta” não foi Dilma Rousseff, nem os que a apoiaram com seu saber linguístico, semântico ou ideológico – como até eu pensei em 2011 –, mas nosso, meu e dela, conterrâneo JK de Oliveira. Para seduzir ainda mais as mulheres, a lei é expressa: devem ser chamadas de “presidentas” todas as funcionárias públicas, que ocupem cargos na administração direta ou indireta e que tenham por designação a palavrinha mágica.
Por aí se vê que estamos cheios de presidentas: Graça Foster, as presidentas de tribunais, como foi Carmen Lúcia no TSE, para citar apenas essas, são também legalmente presidentas tanto quanto Dilma Rousseff, por obra e graça de JK.
De quebra, como reconhecem os especialistas, todas ficam com ares de “mulheres fortes”, “duronas”, “mandonas‘‘ ou “implacáveis”, bem ao gosto do machismo dos brasileiros, como certa vez afirmou o publicitário, então bambambã, Duda Mendonça. E ganham os marqueteiros, verdadeiros mágicos, a substituir a necessária discussão política por truques televisivos, fazendo passar gato por lebre, como certamente veremos neste ano da graça de 2014.”

Uma questão engraçada que decorre dessa revelação é a seguinte: nem nossos governantes conhecem nossas leis, tantas são elas. Porque, obviamente, se Dilma e seus assessores soubessem da lei de JK, certamente teriam falado dela logo de cara, mostrando aos veículos de comunicação e a todos os outros que se mostram resistentes a chamá-la de “presidenta” (eu incluída), que, vejam só, isso é lei federal — e desde 1956!

Mas outra “moral da história” é que não se muda uma sociedade na base da canetada. Não basta fazer uma lei para que anos e anos de linguística, de hábito, de usos e costumes — de machismo, que seja — desapareçam da fala do povo. E olha que a palavra “presidenta” é dicionarizada há décadas, mas ainda não foi incorporada à fala da maioria das pessoas.

Isso vale pra qualquer coisa. A sociedade só muda por meio de longos processos, que geralmente envolvem educação. Não basta uma lei dizendo que é proibido beber e dirigir, se não houver educação desde cedo, via campanhas, fiscalização e dentro de casa, para que as pessoas enfiem isso na cabeça de verdade. Não basta dizer que racismo e homofobia são crimes graves, se não houver punição contra eles, além de bastante educação. E assim por diante.

Lembrando, claro, que não é só porque algo é lei que é necessariamente bom. Algumas leis são tão ruins que é até bom que permaneçam na obscuridade. Como aquela, dos tempos da ditadura, que trata superficialmente da ideia do terrorismo e era usada para prender manifestantes políticos. Esperemos que aconteça isso também à nova lei antiterrorismo, caso ela um dia seja aprovada.

***

Aproveito para falar que foi só graças a esse texto do JK (que traz ainda outras pérolas) que eu descobri a existência do jornal “O Trem”, que existe desde 2005 e é editado por Marcos Caldeira Mendonça, de Itabira, terra do Drummond.

O jornal está em sua 102ª edição e só é veiculado em formato impresso ou via PDF, para os assinantes que morem longe. Não tem site. Quem tiver interesse em assinar deve escrever para otremitabirano@yahoo.com.br.

A edição número 100, de dezembro, trouxe cem depoimentos de figuras incríveis que elogiaram o jornal desde seu surgimento. Tem nomes de peso como Millôr Fernandes (já falecido), Tom Zé, Ignácio de Loyola Brandão, Luiz Ruffato, Moacir Japiassu, Humberto Werneck, Thiago de Melo, Aldir Blanc, Zé Simão, Adélia Prado, Fritz Utzeri (já falecido) e Cristóvão Tezza. Só gente boa! Fica a dica de leitura 😉

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