Pelo fim da autocensura nos blogs e redes sociais

Saiu a segunda edição da revista “Pauta“, feita pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais. Na primeira edição, eu tinha sugerido a leitura do texto escrito pelo meu pai sobre ser chefe. Desta vez, reproduzo o texto que escrevi lá, porque falo sobre um tema caro a este blog: a censura. Mais especificamente sobre a autocensura de jornalistas em blogs e redes sociais, uma discussão que gosto de abordar desde os tempos do Novo em Folha. Quem quiser ler diretamente na revista, é só clicar AQUI e ir até a página 38.

Mas aí está:

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Sem autocensura, blogueiros

Muito jornalista que trabalha em Redação fica se perguntando se pode emitir suas opiniões livremente em seu blog. Acho que deveríamos poder escrever sobre tudo e, como profissionais da comunicação, ser os primeiros a levantar a bandeira da liberdade de expressão e contra a autocensura.

Mas, se eu criticar o político X em meu blog, depois ele pode usar isso contra mim, em uma reportagem a seu respeito? Pode, se você não tiver sido profissional.

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O fim do Blogger (e o backup salvador)

Print da última capa do blog Tamos com Raiva

Print da última capa do blog Tamos com Raiva

Quando fui criar meu primeiro blog, junto com a amiga Maria Tereza, acho que só existiam duas ferramentas de publicação mais importantes no Brasil: o Blogspot e o Blogger, que era da Globo.com. Era ainda março de 2003 e havia poucos blogueiros no Brasil. Optamos pela segunda plataforma, que era bem fácil de usar.

O blog Tamos com Raiva (http://www.tamoscomraiva.blogger.com.br) foi minha primeira experiência jornalística. Eu estava no primeiro ano de faculdade e foi naquele espaço que comecei a fazer análises e apurações, mesmo que bastante amadoras, sobre um assunto que sempre me interessou: política. A experiência se enriqueceu ainda mais a partir de 2005, se não me engano, quando meu pai, que é jornalista desde 1972 e tem um currículo respeitável, começou a fazer o blog comigo. Foi quando a página passou a ficar mais profissional, com divulgação de informações jornalísticas sobre o mensalão tucano, a operação Satiagraha ou as denúncias envolvendo o Zeca do PT, pra ficar em três casos de que me lembro bem. Também promovíamos debates, como faço hoje aqui, sobre temas como o referendo do porte de armas.

Um dos últimos posts do blog foi sobre a invasão do escritório do “Novo Jornal”, do jornalista Marco Aurélio Carone, reproduzido no site do “Observatório da Imprensa” e na revista digital Novae. Anos depois, mais precisamente durante as eleições presidenciais de 2014, quando Aécio Neves era o candidato do PSDB, Carone — que sempre divulgou denúncias sobre a lista de Furnas e outros casos envolvendo o grupo do ex-governador mineiro — foi preso. O processo kafkaniano que justificou sua prisão até o fim das eleições (ele foi solto pouco depois da apuração das urnas) é relatado em reportagem do “Diário do Centro do Mundo” publicada no último sábado.

Naquele 2008, eu estava começando a trabalhar na “Folha de S.Paulo”, e achei difícil conciliar o trabalho no blog com o do jornal, que já era por demais puxado. Por isso, encerrei as atividades do TCR, que foi uma escola para mim, sendo meu pai meu principal professor. Na época, ele tinha atingido 100 mil leitores, o que, para nós, era uma marca histórica. E todo o conteúdo do blog ainda podia ser acessado durante todos esses anos, por quem fizesse uma busca simples num Google da vida.

Na última segunda-feira, fui procurar no TCR a reportagem que eu tinha feito, com várias fotos, sobre a invasão do “Novo Jornal”, depois de ler o material do DCM. Foi com surpresa que descobri que o blog já não existia. Ao acessá-lo, apareceu a seguinte mensagem da Globo.com:

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Ou seja, o serviço do Blogger foi interrompido no final de junho deste ano, levando consigo todos os blogs hospedados lá, provavelmente milhares. Ou o histórico de blogs inativos tão antigos quanto o meu, criado há 12 anos.

Senti um imenso pesar. Tenho o backup completo do meu blog no computador, então não cheguei a perder todo o trabalho de cinco anos — aproximadamente 3 milhões de caracteres e 1.245 páginas de Word. Mas o conteúdo — que traz informações relevantes principalmente sobre políticos mineiros — não está mais disponível a quem quiser procurá-lo na web. E minha primeira experiência como blogueira e jornalista se perdeu para sempre.

O episódio me lembrou o site Fulano.com.br, que tinha um espaço só para os usuários publicarem resenhas de filmes. As melhores resenhas eram inclusive premiadas, e recebi prêmios por algumas das minhas. Em 2004, eles encerraram a seção sem aviso prévio, e dezenas de críticos do Fulano ficaram desconsolados, porque tinham perdido todo o seu trabalho. Felizmente, algum anjo da guarda tinha me inspirado a fazer um backup dos meus mais de 100 textos UMA SEMANA ANTES de o Fulano deletar os textos de todos! Estão todos guardadinhos no meu computador, me lembrando que, desde os 16 anos, eu já gostava de escrever sobre cinema.

Este Blog da Kikacastro foi criado no Natal de 2010 e já tem mais de 1.500 posts. Penso que está na hora de eu fazer um backup — nunca se sabe quando o WordPress vai resolver fechar as portas, sem mais nem menos, deletando tantos anos de trabalho. Até já descobri um site que transforma os blogs em arquivos de PDF — a ver se ainda funciona e se conseguirá armazenar um blog tão pesado quanto o meu…

E você, já salvou seus trabalhos que estão perdidos na internet? Não deixe para a próxima semana!


 

ADENDO EM 22.10.2015 – O Roberto Takata acaba de me apresentar ao site Internet Archive! Sensacional! Lá está meu bom e velho TCR, arquivadinho 🙂

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Reflexões sobre a morte da internet

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Como faço uma selfie com isto?!

Imagina ficar seis anos sem qualquer acesso à internet.

Imagina que esses seis anos se deram entre 2008 e 2014: quando o Facebook passou de 100 milhões de usuários para 1,5 bilhão, quando o Twitter começou a se popularizar, quando surgiu o WhatsApp, o Instagram, o Google+, o SnapChat e vários aplicativos.

No mesmo período, as selfies viraram moda, os smartphones bateram recordes de vendas, ampliando o uso da internet móvel, enquanto os blogs, os emails e os comentaristas de posts perderam espaço.

Mesmo acompanhando tudo isso de perto, conseguimos fazer essa análise. Mas o sujeito que ficou seis anos longe da internet e voltou a ter contato com ela se viu em um mundo completamente diferente, numa nova era. Tomou um choque. E, por causa do distanciamento, pôde desenvolver uma visão mais clara dessas mudanças radicais — que não vou chamar de “evolução”.

Foi o que aconteceu com o blogueiro iraniano Hossein Derakhshan, que ficou longe da internet porque esteve preso. Sua análise desse período é um pouco assustadora, mas não deixo de concordar com ele: “Não são os blogs que estão morrendo, mas sim toda a internet que foi construída na ideia dos hiperlinks. As informações abertas estão mais raras.”

Como blogueira há mais de 12 anos, percebo esse movimento que ele identificou tão bem: “Escrever é mais fácil, mas ser lido é muito mais difícil. E mesmo a produção de texto perdeu espaço para imagens e vídeos.”

Só no último ano, foram criados 14 milhões de novos blogs só no WordPress, uma das plataformas mais populares. Todo mundo conhece alguém que tem um blog, né? Mas quantos conseguem ser lidos? Os poucos blogueiros que conseguem viver disso, ganhar dinheiro mesmo com o blog, são blogueiros de moda e afins, muitos dos quais se pautando exclusivamente por jabás. Me dê um sapato de graça e farei uma avaliação positiva (não jornalística) sobre ele. Seus blogs geralmente têm mais vídeos que textos. Bombam nas redes sociais.

A parte mais polêmica do que diz Hossein: “A web nos encorajava a raciocinar, a ler e nos surpreender. As mídias sociais e os algoritmos nos deixam preguiçosos.”

Tendo a concordar também com isso: sinto que as pessoas têm um acesso muito maior a informação, mas de forma muito mais rasa e sem profundidade. Com isso, a informação que chega a elas é misturada: reportagem de qualidade, bem apurada, chega junto da boataria infundada, e é difícil separar o joio do trigo, já que tudo é lido muito rapidamente, na linha do tempo de um Facebook da vida. Mas, enfim, isso é assunto para os acadêmicos da Comunicação Social se debruçarem.

Ou os E.T.s, como Hossein, que retornaram à Terra ultraconectada depois que uma revolução já tinha acontecido. Quer ler tudo o que ele disse sobre o assunto? CLIQUE AQUI para ver o resumo publicado na “Folha de S.Paulo” a este respeito e AQUI para ler o texto completo escrito pelo próprio Hossein, “A internet que temos de salvar”.

Separei alguns trechos deste último, para fechar o post:

“Os blogs eram ouro e os blogueiros eram estrelas de rock em 2008, quando fui preso. (…) As pessoas costumavam ler meus posts atentamente e deixar muitos comentários pertinentes, e até mesmo muitos daqueles que discordavam de mim profundamente entravam para ler. Outros blogs linkavam o meu para debater o que eu estava dizendo. (…) Não havia nada de Instagram, Snapchat, Viber, WhatsApp. Em vez disso, havia a internet, e na internet havia blogs: o melhor lugar para encontrar pensamentos, notícias e análises alternativos. (…)

O hiperlink representava o espírito aberto e interconectado da rede mundial de computadores –uma visão que começou com seu inventor, Tim Berners-Lee. O hiperlink foi uma maneira de abandonar a centralização – todos os vínculos, linhas e hierarquias– e substituir isso por algo mais distribuído, um sistema de nós e redes. (…) Desde que saí da prisão, porém, percebi o quanto o hiperlink se desvalorizou, quase se tornou obsoleto. (…)

O Stream agora domina o modo como as pessoas recebem informações na web. Menos usuários visitam diretamente páginas especializadas e, em vez disso, são alimentados por um fluxo interminável de informações escolhidas para eles por complexos –e sigilosos– algoritmos. O Stream significa que você já não precisa mais abrir tantos sites. Você não precisa de inúmeras janelas. Você não precisa nem sequer de um navegador. Você abre o Twitter ou o Facebook em seu smartphone e mergulha fundo. A montanha veio até você. Os algoritmos escolheram tudo para você. De acordo com o que você ou seus amigos leram ou viram antes, eles preveem o que você gostaria de ver. É ótimo não perder tempo para encontrar coisas interessantes em tantos sites. Mas não será que estamos perdendo alguma coisa? O que estamos dando em troca da eficiência?

Talvez seja o texto em si o que está desaparecendo. Afinal de contas, os primeiros visitantes da web gastaram seu tempo on-line lendo revistas na web. Depois vieram os blogs, depois o Facebook, depois o Twitter. Agora são nos vídeos do Facebook e no Instagram e no SnapChat onde a maioria das pessoas gasta seu tempo. Há cada vez menos texto para ler nas redes sociais, e cada vez mais vídeo para assistir, e mais imagens para ver. Estamos testemunhando um avanço do ver e ouvir, em detrimento da leitura na web? (…) Mas o Stream, os aplicativos para celulares e as imagens em movimento, todos eles mostram uma saída da internet-livros rumo a uma internet-televisão. (…) A web não foi concebida como uma forma de televisão quando foi inventada. Mas, goste-se ou não, ela está rapidamente se parecendo com a TV: linear, passiva, programada e introspectiva. Quando eu entro no Facebook, minha televisão pessoal começa. (…) Eu clico às vezes nos botões de “curtir” e “compartilhar”, leio os comentários das pessoas ou deixo um, ou abro um artigo. Mas fico no Facebook, e ele continua a transmitir o que pode ser que eu goste. Essa não é a web que eu conhecia quando fui para a cadeia. Esse não é o futuro da web. Esse futuro é televisão. (…)

No passado, a web era poderosa e séria o suficiente para me mandar para a prisão. Hoje parece ser um pouco mais do que entretenimento. (…) Sinto saudades de quando as pessoas levavam tempo para conhecer diferentes opiniões e se preocupavam em ler mais de um parágrafo ou 140 caracteres. Tenho saudades dos dias em que podia escrever algo em meu próprio blog, publicar no meu próprio domínio, sem ter de dedicar o mesmo tempo para promovê-lo em um monte de redes sociais; quando ninguém se importava com curtir ou recompartilhar. Essa é a internet da qual me lembro antes prisão. Essa é a internet que temos de salvar.”

Ou seja, no ponto de vista de Hossein a internet está morrendo ao se transformar em outra coisa que foge de sua concepção original (e que se parece muito com a televisão). Gostei muito da análise dele e concordo com vários pontos. E você, o que achou? Concorda? Discorda? Já pensou sobre isso? Deixe seu comentário 😉

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Blogueira há 10 anos

Cantinho onde bloguei por muito tempo, em São Paulo.

Cantinho onde bloguei por muito tempo, em São Paulo.

Foi exatamente no dia 19 de março de 2003, há dez anos, portanto, que eu e uma amiga começamos a confabular sobre a criação de um blog — grande novidade, na época — , em protesto contra a invasão norte-americana no Iraque. Os primeiros mísseis pipocaram naquele país na noite do dia 19 e nossos primeiros posts pipocaram na internet no raiar do dia 20:

Uma música do Pink Floyd que até hoje acho a mais bonita (“On The Turning Away“), o poema “A Bomba“, do Drummond (Dru-dru), o teste “Qual revolucionário você seria?” (deu Lênin), uma lista com todos os países bombardeados pelos Estados Unidos desde a Segunda Guerra, 53 perguntas e respostas sobre o Iraque, uma foto, um mapa, uma carta do arcebispo de Boston criticando George W. Bush — e assim foi indo.

Posso dizer que criei meu primeiro blog quando a blogosfera ainda usava fraldas e os poucos blogueiros preferiam falar de suas vidas, como em um diário, enquanto eu e minha amiga seguimos um rumo ainda incipiente, ao tratarmos de política — de forma bem-intencionada, mas amadora e nada jornalística, ao menos no começo.

Começamos, aos 17 anos de idade, como um blog pacifista, contra a guerra contemporânea que se iniciava diante dos nossos narizes (e até hoje não terminou completamente, virando uma pedra no sapato do Barack Obama). Depois o blog continuou sendo tocado por mim e meu pai, com posts mais voltados à política mineira e brasileira, embora também a temas mais amplos, como os ambientais.

Encerrei as portas daquela primeira experiência blogueira quando ela completou 100 mil visitantes, cinco anos e meio depois de entrar no ar.

Naquela época, eu já estava na “Folha de S.Paulo”, e colaborava para o blog da editoria de Treinamento, o Novo em Folha, que comecei a realmente tocar a partir do começo de 2009. Ali aprendi muito com estudantes de jornalismo e fiz minha parte para compartilhar informações com o pessoal mais entusiasmado pela profissão. Nele fiquei até minha saída do jornal, em setembro do ano passado.

Antes disso, no Natal de 2010, criei este espaço, um verdadeiro hobby, com crônicas, poemas, fotografias, receitas, resenhas de filmes e comentários sobre o noticiário, além de também contar com os ótimos artigos do meu pai (98, até hoje). Continua no ar até hoje, enquanto ainda há energia.

Em julho de 2008, nasceu minha primeira sobrinha, a Laurinha, que rendeu um outro blog, só para agrupar as pérolas sapientíssimas, engraçadas e superlógicas da menina, hoje com quase 5 anos de idade.

Em resumo, ao longo desta década, criei ou contribuí de alguma forma para quatro blogs totalmente diferentes entre si. Mas nunca deixei de ter um blog onde pudesse escrever, às vezes mais de um ao mesmo tempo.

Hoje tenho orgulho de poder me definir, além de jornalista, como “blogueira”. Acho que já domino bem essa linguagem dos blogs, que hoje já estão ficando velhinhos, diante do dinamismo curto das redes sociais que surgiram depois, notadamente o microblog Twitter. Aprendi a interagir com os leitores, fiquei amiga de alguns deles e torço para que esta ferramenta não seja engolida pelas mudanças tecnológicas do mundo, como já está acontecendo com os emails. Afinal, faço parte dela — e ela faz parte da minha vida.