Reflexões sobre a morte da internet

chickenoldtech

Como faço uma selfie com isto?!

Imagina ficar seis anos sem qualquer acesso à internet.

Imagina que esses seis anos se deram entre 2008 e 2014: quando o Facebook passou de 100 milhões de usuários para 1,5 bilhão, quando o Twitter começou a se popularizar, quando surgiu o WhatsApp, o Instagram, o Google+, o SnapChat e vários aplicativos.

No mesmo período, as selfies viraram moda, os smartphones bateram recordes de vendas, ampliando o uso da internet móvel, enquanto os blogs, os emails e os comentaristas de posts perderam espaço.

Mesmo acompanhando tudo isso de perto, conseguimos fazer essa análise. Mas o sujeito que ficou seis anos longe da internet e voltou a ter contato com ela se viu em um mundo completamente diferente, numa nova era. Tomou um choque. E, por causa do distanciamento, pôde desenvolver uma visão mais clara dessas mudanças radicais — que não vou chamar de “evolução”.

Foi o que aconteceu com o blogueiro iraniano Hossein Derakhshan, que ficou longe da internet porque esteve preso. Sua análise desse período é um pouco assustadora, mas não deixo de concordar com ele: “Não são os blogs que estão morrendo, mas sim toda a internet que foi construída na ideia dos hiperlinks. As informações abertas estão mais raras.”

Como blogueira há mais de 12 anos, percebo esse movimento que ele identificou tão bem: “Escrever é mais fácil, mas ser lido é muito mais difícil. E mesmo a produção de texto perdeu espaço para imagens e vídeos.”

Só no último ano, foram criados 14 milhões de novos blogs só no WordPress, uma das plataformas mais populares. Todo mundo conhece alguém que tem um blog, né? Mas quantos conseguem ser lidos? Os poucos blogueiros que conseguem viver disso, ganhar dinheiro mesmo com o blog, são blogueiros de moda e afins, muitos dos quais se pautando exclusivamente por jabás. Me dê um sapato de graça e farei uma avaliação positiva (não jornalística) sobre ele. Seus blogs geralmente têm mais vídeos que textos. Bombam nas redes sociais.

A parte mais polêmica do que diz Hossein: “A web nos encorajava a raciocinar, a ler e nos surpreender. As mídias sociais e os algoritmos nos deixam preguiçosos.”

Tendo a concordar também com isso: sinto que as pessoas têm um acesso muito maior a informação, mas de forma muito mais rasa e sem profundidade. Com isso, a informação que chega a elas é misturada: reportagem de qualidade, bem apurada, chega junto da boataria infundada, e é difícil separar o joio do trigo, já que tudo é lido muito rapidamente, na linha do tempo de um Facebook da vida. Mas, enfim, isso é assunto para os acadêmicos da Comunicação Social se debruçarem.

Ou os E.T.s, como Hossein, que retornaram à Terra ultraconectada depois que uma revolução já tinha acontecido. Quer ler tudo o que ele disse sobre o assunto? CLIQUE AQUI para ver o resumo publicado na “Folha de S.Paulo” a este respeito e AQUI para ler o texto completo escrito pelo próprio Hossein, “A internet que temos de salvar”.

Separei alguns trechos deste último, para fechar o post:

“Os blogs eram ouro e os blogueiros eram estrelas de rock em 2008, quando fui preso. (…) As pessoas costumavam ler meus posts atentamente e deixar muitos comentários pertinentes, e até mesmo muitos daqueles que discordavam de mim profundamente entravam para ler. Outros blogs linkavam o meu para debater o que eu estava dizendo. (…) Não havia nada de Instagram, Snapchat, Viber, WhatsApp. Em vez disso, havia a internet, e na internet havia blogs: o melhor lugar para encontrar pensamentos, notícias e análises alternativos. (…)

O hiperlink representava o espírito aberto e interconectado da rede mundial de computadores –uma visão que começou com seu inventor, Tim Berners-Lee. O hiperlink foi uma maneira de abandonar a centralização – todos os vínculos, linhas e hierarquias– e substituir isso por algo mais distribuído, um sistema de nós e redes. (…) Desde que saí da prisão, porém, percebi o quanto o hiperlink se desvalorizou, quase se tornou obsoleto. (…)

O Stream agora domina o modo como as pessoas recebem informações na web. Menos usuários visitam diretamente páginas especializadas e, em vez disso, são alimentados por um fluxo interminável de informações escolhidas para eles por complexos –e sigilosos– algoritmos. O Stream significa que você já não precisa mais abrir tantos sites. Você não precisa de inúmeras janelas. Você não precisa nem sequer de um navegador. Você abre o Twitter ou o Facebook em seu smartphone e mergulha fundo. A montanha veio até você. Os algoritmos escolheram tudo para você. De acordo com o que você ou seus amigos leram ou viram antes, eles preveem o que você gostaria de ver. É ótimo não perder tempo para encontrar coisas interessantes em tantos sites. Mas não será que estamos perdendo alguma coisa? O que estamos dando em troca da eficiência?

Talvez seja o texto em si o que está desaparecendo. Afinal de contas, os primeiros visitantes da web gastaram seu tempo on-line lendo revistas na web. Depois vieram os blogs, depois o Facebook, depois o Twitter. Agora são nos vídeos do Facebook e no Instagram e no SnapChat onde a maioria das pessoas gasta seu tempo. Há cada vez menos texto para ler nas redes sociais, e cada vez mais vídeo para assistir, e mais imagens para ver. Estamos testemunhando um avanço do ver e ouvir, em detrimento da leitura na web? (…) Mas o Stream, os aplicativos para celulares e as imagens em movimento, todos eles mostram uma saída da internet-livros rumo a uma internet-televisão. (…) A web não foi concebida como uma forma de televisão quando foi inventada. Mas, goste-se ou não, ela está rapidamente se parecendo com a TV: linear, passiva, programada e introspectiva. Quando eu entro no Facebook, minha televisão pessoal começa. (…) Eu clico às vezes nos botões de “curtir” e “compartilhar”, leio os comentários das pessoas ou deixo um, ou abro um artigo. Mas fico no Facebook, e ele continua a transmitir o que pode ser que eu goste. Essa não é a web que eu conhecia quando fui para a cadeia. Esse não é o futuro da web. Esse futuro é televisão. (…)

No passado, a web era poderosa e séria o suficiente para me mandar para a prisão. Hoje parece ser um pouco mais do que entretenimento. (…) Sinto saudades de quando as pessoas levavam tempo para conhecer diferentes opiniões e se preocupavam em ler mais de um parágrafo ou 140 caracteres. Tenho saudades dos dias em que podia escrever algo em meu próprio blog, publicar no meu próprio domínio, sem ter de dedicar o mesmo tempo para promovê-lo em um monte de redes sociais; quando ninguém se importava com curtir ou recompartilhar. Essa é a internet da qual me lembro antes prisão. Essa é a internet que temos de salvar.”

Ou seja, no ponto de vista de Hossein a internet está morrendo ao se transformar em outra coisa que foge de sua concepção original (e que se parece muito com a televisão). Gostei muito da análise dele e concordo com vários pontos. E você, o que achou? Concorda? Discorda? Já pensou sobre isso? Deixe seu comentário 😉

Leia também:

faceblogttblogPague com PagSeguro - é rápido, grátis e seguro!

Anúncios

2 comentários sobre “Reflexões sobre a morte da internet

  1. Eu concordo com a visão dele. Lá no Youtube mesmo, por exemplo, todos os vídeos relacionados e sugeridos são vídeos em comum o que já tínhamos visto, quer dizer, isso mata a curiosidade de buscar assuntos que vão além da nossa bolha. E mal percebemos isso.
    O feed do Facebook é a arma mais poderosa para se tirar a concentração de alguém, quando há centenas de assunto, tudo junto e misturado. Você não consegue focar direito em uma única coisa.
    E pra piorar, virou um narcisismo exagerado. A internet é quase totalmente refém do Facebook.
    Eu peguei a internet no comecinho e sei como era diferente, como era outra experiência bem diferente.
    Muita coisa mudou para melhor, como a velocidade de navegação e carregamento das páginas, hoje é mais dinâmico e interessante, mas deixar blogs, grupos de discussão e textos para lá, se concentrando mais em imagem, vídeo e som, é uma perda grande para a internet.

    Curtir

Deixe aqui seu comentário! ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s