Quanto mais usamos o Facebook, mais infelizes e solitários nos sentimos.
Quem diz isso não sou eu, mas um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Michigan e muito bem relatado em reportagem de Eduardo Graça, publicada pela “Carta Capital”.
Os argumentos desfiados na matéria são, em resumo:
- a rede social estimula o isolamento e os seres humanos se sentem mais felizes quando se encontram, fisicamente, com outros seres humanos (os “amigos” de verdade);
- a rede social estimula os ciúmes e são reais os casos de separação a partir de uma traição “virtual”;
- a rede social estimula a comparação com uma vida editada pelas pessoas de modo a parecer sempre sensacional e, consequentemente, leva à inveja (inclusive daqueles que genuinamente amamos e admiramos);
- a rede social estimula outros problemas como preconceito, bullying, polarização de ideias etc.
Ao ler a reportagem, fiquei cheia de pulgas atrás da orelha e com uma única certeza: todos os estudiosos de comunicação do mundo devem estar debruçados sobre o Facebook e outras redes sociais, pensando a respeito de suas causas, consequências e impactos, e ainda com teorias inconclusivas a respeito das utilidades, vantagens, desvantagens, perigos, problemas etc. A questão da privacidade e da mercantilização dos nossos dados pessoais está lá, e acho que é o problema mais evidente da rede. Mas também é fato que o email está desaparecendo e que, hoje, a maioria das pessoas opta pelo Facebook para se comunicar — por enquanto, até que surjam substitutos, como o WhatsApp, Instagram e outros, que serão sempre substitutos, com uma mesma essência. Seja qual for a conclusão de pesquisas como esta da Universidade de Michigan, para mim é certo que muito do que vivenciamos nas redes sociais, de bom e de ruim, depende da forma como nos expomos nelas e de como as usamos.
A experiência que eu tenho lá provavelmente é totalmente diferente da que você tem. Para ilustrar: eu não deixo nenhum dos meus posts abertos a quem não for autorizado a vê-los (os que adicionei como “amigos”), não adiciono quem não conheço, cerca de 70% dos adicionados são contatos profissionais e cerca de 50% dos meus posts são divulgação do que escrevo neste blog. Por outro lado, há os que saem adicionando qualquer um, deixando a vida toda exposta, mesmo a quem não tem Facebook, usam a rede para xingar o ex-namorado e postam fotos do cachorro que apanhou da dona a 567 km de distância.
Eu sou mais ou menos infeliz do que essa pessoa, em meu uso da rede social? Não faço ideia, mas procuro usá-la mais para comunicar do que para sociabilizar, e acho que isso — e o que advém disso, que é, dentre outras coisas, a comparação com a vida (editada) alheia — acaba fazendo alguma diferença no grau de importância que damos ao que é colocado ali.
Enfim, como eu já disse, isso é e será tema de dezenas de dissertações e teses pelo mundo afora, porque é uma realidade que já está posta, e só nos resta refletir a respeito. No fim da reportagem, cuja leitura recomendo, um pesquisador da Universidade de Nova York tira uma conclusão que fez muito sentido para mim:
“As sociedades tendem a se apropriar das tecnologias e usá-las de modo utilitário, reflexo de suas próprias necessidades. O livro foi tanto uma resposta quanto um alavancador do nascente individualismo. Os filmes são uma consequência e retrato direto da sociedade de massas. Seria mesmo um acidente o Facebook e afins, com sua ênfase em uma rede de ‘amigos’, termo largamente reduzido ao histórico da carreira profissional e às preferências de consumo, se tornarem a escolha preferencial de comunicação da sociedade neoliberal globalizada? Simples assim: temos o tipo de comunicação que merecemos.”
E aí: vocês acham que merecemos o Facebook? Deixem sua opinião sobre esta polêmica-sem-respostas-certas ;)
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