Sobre cartas que viraram emails que viraram tweets (que viraram nada)

Chocolate5

Arquivo pessoal

Quando li “Correspondências“, de Clarice Lispector, fiquei encantada. O livro reúne várias cartas trocadas entre a escritora e outros gigantes, como Fernando Sabino, João Cabral de Melo Neto, Samuel Wainer, Erico Verissimo,  Rubem Braga, Lygia Fagundes Telles, Lúcio Cardoso etc. Naquelas confabulações pude aprender muito sobre Clarice e também sobre todos esses heróis da literatura brasileira — como pessoas e como escritores mesmo.

O livro é um prato cheio para biógrafos e historiadores. Assim como todos os livros de correspondências. E são muitos. Pessoas como Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato e Mario de Andrade viviam –para nossa sorte — trocando cartas por aí. Depois essas cartas foram guardadas, descobertas, divulgadas e ajudaram a contar a história, não só dessas figuras, mas de uma época importante da nossa História.

Outro dia fiquei pensando sobre isso: se não escrevemos mais cartas, o que ajudará a contar nossa história para os homens e mulheres do futuro? Mesmo os emails já parecem ter morrido. Quando eu morava em São Paulo, gastava uns bons minutos da minha semana escrevendo emails para a família e os amigos mais chegados, com as novidades daqueles dias. Depois, alguns deles me respondiam, e assim eu ficava sabendo de tudo o que acontecia em suas vidas, de verdade. Quando voltei a Beagá, tentei fazer o mesmo com os amigos de outras cidades, mas até hoje só consegui mandar uns quatro emails. E eles também quase nunca escrevem.

Será que as microatualizações das redes sociais serão guardadas e formarão um todo coerente, que ajude a contar a história, décadas adiante? As atualizações de status que mostram a foto do hambúrguer do almoço, que divulgam o selfie diante do espelho e outras banalidades ultrarrápidas em 140 caracteres terão o poder de retratar bem nossa época e a história de figuras importantes que circulam entre nós?

Podemos pensar e argumentar que a quantidade de informação disponível sobre tudo e todos é muito maior do que no início do século 20 e que, portanto, os historiadores poderão se esbaldar caso queiram se debruçar sobre todo esse amontoado de posts, tweets e torpedos.

É bem possível. Mas quantos dos nossos Carlos e Clarices dos anos 10 estão contando a fundo o que se passa em suas vidas, com toda aquela riqueza de detalhes e aqueles laivos filosóficos que mereciam até ser publicados em formato de livro? Será que não estamos perdendo informação e ganhando apenas um punhado de ruído?

***

Mesmo que as consequências não sejam tão drásticas assim para nossa História, acho que as pessoas de hoje, do presente, perdem muito ao deixarem de trocar ideias por meio de correspondência — seja ela em cartas, em emails ou em longas mensagens de Facebook. Cada dia que passa acho que menos sei a respeito da vida dos meus amigos, mesmo “seguindo” cada um deles nas redes sociais. Pouco sei sobre o que fazem da vida, onde trabalham, como andam suas famílias — embora saiba bem onde andaram bebendo no último fim de semana, e com quem. Poucos se debruçam sobre o que realmente importa, direcionando os textos ao interlocutor que realmente se interessa: enquanto isso, pululam as mensagens irrelevantes, rasas, públicas, que são mesmo escritas pra atingir 500, mil, 1.500 (ufa!) “amigos” virtuais.

Ontem resolvi escrever mais um daqueles longos emails, contando um pouquinho do que aconteceu na minha vida nos últimos seis meses. Escrevi pensando em quem deveria ler aquelas notas, em quem andava sumido, e escolhi uns 15 amigos como destinatários. Enviei. E agora estou à espera das respostas, que, quando estimuladas, costumam vir com aquela deliciosa intimidade típica das cartas. (Já recebi cinco.)

Pensando bem, o que eu quero é resgatar só isso: intimidade. Algo precioso, raro, que poucos merecem ter e oferecer, e que é o elemento mais essencial da amizade. Mas que se banalizou em tempos de redes sociais.

***

Que tal tirar uns minutinhos do seu dia e escrever um email longo, detalhado e íntimo aos seus amigos e parentes mais importantes? Você agradecerá no futuro, por encontrar este registro de sua história 😉

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2 comentários sobre “Sobre cartas que viraram emails que viraram tweets (que viraram nada)

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