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Memórias virtuais

Lembro que meu pai comprou um computador lá pra casa (porque precisava para trabalhar) quando eu tinha 9 anos de idade. Nenhum dos meus amigos mais próximos tinha, era uma grande novidade.

Lembro da dificuldade de conseguir manejar o mouse no começo. De fazer desenhos num Paint com alguma firmeza. E que os únicos joguinhos que tivemos por muito tempo foram Paciência e Campo Minado, que já vinham no pc (depois os vícios foram Tetris, um de fórmula 1, Doom e Carmen Sandiego. Mas nenhum substituirá o mágico Pre-2, que passávamos hooooras jogando 🙂 ).

Lembro que demoramos a ter impressora com tinta colorida e, quando tivemos, fiquei encantada e saí imprimindo meus poemas com frases cada uma de uma cor.

Por fim, veio a internet, quando eu tinha 14 anos. A esta altura, alguns dos meus amigos já tinham colocado, mas meus pais eram meio resistentes no início.

E, sem banda larga, era caro… Tínhamos que entrar aos finais de semana e depois de certos horários, pra não pesar na conta de telefone. Mas eram os horários de maior procura, então as linhas congestionavam e, não raro, caíam. E tinha aquele barulho irritante da conexão.

Os chats eram um vício aos 15 anos, depois o ICQ. Eu era capaz de passar tardes inteiras conversando com meus amigos no ICQ — e isso depois de ter passado a manhã inteira já conversando um bocado na escola. O que será que tínhamos tanto pra falar?!

E não só isso: também passei várias noites em claro no ICQ, entrando pela madrugada, até umas 3h.

Meus pais, quando viam, ficavam bravíssimos. Não sei se achavam que eu estava fazendo algo de errado ou proibido ou se só achavam ruim de eu ficar tanto tempo em frente à tela. Mas o fato é que eu ficava brava por eles acharem pior eu estar segura em casa, falando com meus amigos, do que na rua, como minhas irmãs ficavam. E, por isso, desenvolvi uma técnica de andar nas pontas dos pés que jamais acorda ninguém.

Também foi a época em que comecei a escrever críticas de filmes no Fulano. Pouco depois, o primeiro blog. E emails freneticamente trocados. Orkut. MSN. Twitter. Facebook. Boom!

É engraçado falar de tudo isso no passado, como se eu estivesse relembrando uma antiguidade remotíssima. Mas, ao mesmo tempo, acho que muitos moleques de hoje nem sonham com o que seja internet discada, foto demorando horas pra carregar, congestionamento de linha etc.

E estou falando de algo que, para a minha geração, é acessível há, em média, 15 anos! Ou melhor: 15 anos! Mas tudo voou tão rápido de uns tempos pra cá que é plausível lembrar o que era um mundo cheio de disquetes e com impressora a jato de tinta com certa nostalgia.

Minha geração e as que vieram depois tem muitos amigos virtuais. Já se apaixonou por alguém que conheceu na rede. Se encantou com os primeiros passinhos de coisas como o Napster.

Temos uma memória afetiva ligada a essas máquinas e à rede web. Algo que nem Isaac Asimov seria capaz de conceber.

Dito tudo isso, vejam que beleza esses quadrinhos abaixo, indicados pelo meu amigo Bill:

 

E vocês, do que lembram? Do que sentem saudades?

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

24 comentários em “Memórias virtuais Deixe um comentário

  1. Uma vantagem de relacionamentos à distância mediados por computador – relacionamento virtual é aquele que você tem com um tamagochi – é que se pode ignorar os malas.

    []s,

    Roberto Takata

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  2. Muito legal esse post. E a informática muda tão rápido que é muito interessante ver as memórias de pessoas de diferentes idades, com percepções diferentes, em cuja infância a tecnologia estava numa fase diferente da minha. Quando eu tinha 13 anos, chegou o primeiro computador lá em casa. Um DGT-100, da Digitus. Ano: 1982. O vídeo era uma TV em preto-e-branco comum, a resolução da tela era de 128 por 48 pontos. A memória era de 16K, mas nós tínhamos uma expansão que triplicava para 48K (sim, “K”!). E eu pensava “minha nossa, nunca vamos conseguir usar tudo isso!” Mesmo assim, jogávamos Galaxy Invaders – uma espécie de guerra interplanetária em que você sai atirando em um batalhão de naves.

    Não havia disquete, os programas eram gravados em fita cassete comum e lidas e gravadas por um gravador comum. O barulho que fazia quando gravava era igualzinho àquele da Internet antiga: tééé… tchhh… krrrriiiii… Levava minutos para gravar um programinha. Quando o computador era desligado, a memória RAM zerava; se se quisesse guardar um programa, tinha que pôr na fita.

    A gente tinha acesso aos códigos, inclusive à linguagem de máquina, e podia mudar os programas residentes para ver o que acontecia (em geral travava tudo, mas era só dar reboot que tudo voltava ao normal). Não era uma caixa-preta como hoje. Não havia Windows, só havia uma tela inteira, com um cursor, e a gente escrevia os comandos ali, como no DOS hoje. Internet, obviamente, nem pensar.

    Quando a gente descobria um comando novo, uma função nova do BASIC (uma linguagem de computador), a gente ia contar para os amigos ligados nisso, que nem quando a gente descobria um acorde novo no violão. Eu era o único da turma da escola que tinha, então meus colegas iam lá em casa jogar. De vez em quando alguém que não manjava nada de informática me perguntava no colégio se eu estudava para a prova pelo computador e se ele respondia quando eu fazia uma pergunta…!

    E o que aconteceu de lá para cá me deixa zonzo… Meninos, eu vi o mundo sem Internet… rs

    Ah, e adorei os quadrinhos!

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  3. Eu me lembro que conseguir linha no domingo era muito difícil. Eu ainda adoro aquele barulhinho que fazia quando, finalmente, havia conexão. Com 11/12 anos eu entrava todos os finais de semana no bate papo da Turma da Mônica e criava meu bichinho virtual neste portal também. Anos depois, conseguir convite para o orkut era uma vitória e até se vendia no Mercado Livre. E o orkut era tão diferente… Havia os nossos “ídolos” na rede e o acesso a eles, eu mandava e-mails e aguardava ansiosamente, até que percebi que a magia do ídolo era estar longe e não tive mais nenhum! rs! Engraçado é que até sinto saudade dessa época e este sentimento é paradoxal, pois sou meio radical neste sentido e acredito que, com exceção do acesso à pesquisa e à informação, muitas coisas pioraram o nosso relacionamento com o mundo e as pessoas. Eu não gosto de redes sociais (embora tenha orkut e facebook) acho que pelo o que elas se tornaram: um lugar para manifestar cultos a si mesmo, claro que, com exceções. Amizade face a face ficou tão rara… e é tão mais bonita! Falei demais! rs!

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  4. Faltou dizer, Cris: o micro foi instalado na sala, como os rádios dos anos 30 e as TVs dos 50. Não porque achávamos chique aquela novidade eletrônica ali, mas porque não havia outro lugar no apartamento em que se pudesse trabalhar – e no seu caso brincar – sossegado. Bons tempos, em que a casa andava cheia de meninas e adolescentes… Outra coisa: a resistência por instalar a Internet tinha como causa a necessidade de comprar um outro telefone exclusivo, pois não podíamos ter o nosso comprometido com uma coisa que mal conhecíamos. E uma linha telefônica ainda custava os olhos da cara, com as telefônicas estatais.

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  5. Nossa, Cris, super tenho memórias afetivas da internet, e muitas semelhantes às suas! Nos jogos, tinha ainda o Prince of Persia, o Roxo (em que o mouse virava um martelinho pra você bater no pinto do Collor, hahaha) e o Pipe (em que você ia fazendo a encanação pra água não vazar). E o chat do horizontes.net, em que eu conversava com o povo de Beagá só pelo fascínio da tecnologia e não com as segundas, terceiras e quartas intenções dos chats de hoje? E as tentativas brasileiras de dominar a net? O buscador Cadê, o “msn” e-Você, o BOL, em que todo mundo tinha email… E os códigos no MS DOS pra abrir os programas? Se bobear, lembro até hoje do código pra abrir Carmen Sandiego: C:/Programas/Jogos/Carmen ou coisa assim ou mais complicada, tudo digitado repedidamente e cheio de “enters” e por aí vai. Lembro do auge da modernidade que era o Windows 95 e seu papel de parede de nuvens e aquela forma toda nova de abrir os programas, sem precisar do DOS. Enfim, é lembrança que não acaba mais e é realmente muito louco termos essa memória afetiva de tecnologia, mas acho que presenciamos o nascimento dessa nova era doida em que vivemos. Sabe que muitos jovens não entendem aquele ícone de disquete pra salvar arquivos?! Imagino que tipo de coisas nossos filhos vão achar vintage!

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  6. Furacão, tsunami, os diabos… Se eu tenho algum arrependimento na vida foi ter decidido, aos onze anos que não seria cientista, porque todas as grandes descobertas da Ciência já haviam sido feitas, nada mais importante restava a ser descoberto ou inventado. Pena: ainda não conhecia o “só sei que nada sei” de Sócrates.

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  7. Pois é, Roberto. Tomei a decisão em 1955 depois de ler um livro chamado, se não me falha a memória, “As Grandes Descobertas da Humanidade”, e de ter conferido com uma professora que confirmou, coitada, aquela minha percepção equivocada do futuro da Ciência.

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    • Olha só. Eu não tinha ideia que essa percepção pudesse estar disseminada na sociedade brasileira dessa época. Acho interessante ler isso, porque a gente que faz divulgação fica sempre com essa pulga atrás da orelha: será que estamos fazendo alguma diferença nos destinos do mundo? O resultado é meio invisível. Pois veja só: A estrutura do DNA tinha sido descoberta dois anos antes, em 1953! E o CNPq criado em 1951. E o César Lattes descobriu a particula subatômica que o tornou famoso em 1947, e aí veio para o Brasil e criou no Rio por volta de 49 um centro de excelência em pesquisa em física, o CBPF. Virou quase herói nacional no Japão, porque por causa dele houve o primeiro Nobel japonês, em 1948 (o cara que tinha previsto teoricamente a existência da tal partícula). E no entanto nada disso chegava aos meros mortais… Hoje é bem diferente. Olha só então a diferença que a divulgação científica pode fazer…

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  8. Roberto, acho que os professores primários lá nos cafundós de Minas nunca tinham ouvido falar dessas coisas que você descreveu aí, naquela época. Eu, certamente, não. Só vim a saber disso muito mais tarde. Hoje essas informações são quase instantâneas, mas quantas delas são realmente importantes a ponto de romper o bloqueio que nós, de certo modo, levantamos contra o excesso de informações que nos assediam a cada momento? Por causa da idade, provavelmente, tenho cada vez mais dificuldade em absorver novidades, não apenas na área científica, em todas elas. Contento-me hoje em fingir que cheguei ao cume da montanha do conhecimento para de lá poder contemplar o panorama geral, sem qualquer atenção aos detalhes. Ou seja, estou cada vez mais jornalista – aquele profissional que sonha que tudo sabe e que, sinceramente, não sabe nada.

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  9. Lembro que não me interessei muito pelo computador instalado na sala porque, além de não oferecer muita coisa interessante, ainda tinha que entrar na fila para usá-lo. Lembro que quando entrei na faculdade em 1997 tinha que entregar os trabalhos impressos, mas só conseguia pensar escrevendo à mão, então fazia tudo no papel e depois digitava no computador. Lembro que nossa impressora era péssima e que gastei um domingo inteiro para imprimir um trabalho grande, chorando de ódio por não estar curtindo o sol no clube como planejado – e que depois disso nosso pai comprou outra impressora melhor. Lembro que no primeiro período da faculdade tinha aula no laboratório de informática do prédio de computação para aprendermos a usar a internet, e que alguns dos meus colegas eram muuuuuito lentos pra entender aquilo e a aula não saía do lugar. Lembro que a internet lá de casa foi extremamente lenta até que nossa mãe se mudou para o Estados Unidos e se apaixonou por essas coisas, criou vários e-mails, passou a andar com o celular ligado etc. Lembro de ser viciada em tetris e acho que posso atribuir a isso, em parte, o fato de meu braço ser dançado. Lembro de nunca ter sido muito fã de msn ou icq. Lembro que quando você criou seu primeiro blog eu nem sabia o que era isso. Lembro que quando entrei no jornal, em 2001, havia no máximo meia duzia de pc com internet e que tinha fila para usá-los, então grande parte do material chegava por fax e não tínhamos a facilidade de hoje de fazer uma pesquisa antes de uma entrevista qualquer. Gente, Laurinha vai me achar pre-histórica quando ouvir essas coisas!!!! rsssss

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  10. Quando terminei a 8.a série minha mãe me matriculou em um colégio técnico com ênfase numa tal “informática”. Mamãe achava que seria “a profissão do futuro” e passei um ano estudando (aí veio o Collor e papou o dinheiro de todo mundo) coisas estranhas como fluxogramas, DOS, COBOL (!), o velho wordstar, salvar tudo em disquetes para depois imprimir em uma matricial…

    Rapidinho chegou o Ruindows, mas foi uma revolução. E o meu primeiro PC foi um 486 com impressionantes 8Mb de memória e 48mb no HD, mas isso logo foi expandido para que eu pudesse passar hooooooooooooras trucidando monstros e soldados com a serra elétrica em DOOM! XD

    Bom, aí é história…o barulhinho do modem conectando à internet, os horários para conectar, o formato MP3 – quando baixar uma única música demorava 20, 30, 40 minutos! E um álbum completo, então? Lembro que eu fazia o seguinte: arranjava um desses programinhas que desligavam o PC automaticamente apenas planejando o horário. Eu pegava o link do arquivo onde o CD completo da banda estava hospedado e começava a fazer o download depois da meia-noite e programava o PC para desligar às 4, 4:30 da matina. Quando acordava ligava o computador , “seco” para ouvir o álbum da banda. Isso nem sempre dava certo, conexão caía…

    E adorei os quadrinhos!

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