Ocupe Wall Street ou a mulher na medicina

Texto de José de Souza Castro:

“Toda grande ideia apareceu, aos que temem o futuro, como loucura. Por isso, deixemos os jovens pensarem. Eles sabem o que fazem”. Desse modo conclui o filósofo Vladimir Safatle o seu artigo desta terça-feira na Folha de S. Paulo, em que comenta movimentos como o Ocupe Wall Street que se espalham pelo mundo.

Pouco antes de ler isso, eu havia tomado conhecimento, lendo um número de fevereiro de 1949 da revista “Coronet”, da história de Elizabeth Blackwell, uma inglesa que vivia desde os 11 anos de idade nos Estados Unidos. Ela trabalhava como professora do ensino fundamental e estava muito insatisfeita com a profissão.

Não é uma história recente, mas é uma história de jovens. Elizabeth tinha 26 anos quando resolveu que queria ser médica. Escreveu para 12 conhecidas escolas de medicina dos Estados Unidos. Todas se recusaram a aceitar uma mulher como aluna. Não havia precedentes. Em 1847, medicina era coisa de homem.

Porém, provavelmente para fazer hora com a cara de Elizabeth, a direção do obscuro Geneva Medical College, localizada perto da fronteira com o Canadá, aceitou conversar. E ela foi lá. Primeiro, tentou dissuadi-la daquela maluquice. Como ela insistisse, encontrou uma saída inteligente: seria aceita, desde que todos os alunos aprovassem. Na história da escola, nunca houvera unanimidade numa votação de estudantes.

Mas, desta vez a aprovação foi unânime, e Elizabeth pôde realizar seu sonho, tornando-se a primeira médica nos Estados Unidos.

Uma loucura, como deixou bem claro o Boston Medical and Surgical Journal, ao comentar o caso, na data de formatura. Escreveu que a nova médica fora induzida a sair da esfera apropriada para seu sexo e levada a “aspirar às honras e aos deveres que, pela ordem natural e pelo consenso mundial, eram exclusivamente dos homens”.

Um século depois, quando “Coronet” publicou a história dessa pioneira, havia oito mil mulheres praticando a medicina nos Estados Unidos.

Não fossem os jovens…

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