A ilusão do etanol amigável

Texto de José de Souza Castro:

O escritor Deonísio da Silva, em artigo publicado nesta semana pelo Observatório da Imprensa, lembra que no ano que vem completam-se 20 anos desde que o escritor Leonardo Boff deixou de ser frade. Sete anos antes, ele havia sido punido pela Santa Inquisição, juntamente com outros 140 teólogos que seguiam os preceitos do Concílio Vaticano II, que havia conduzido a igreja católica, por um curto período, a dedicar-se preferencialmente aos pobres. O inquisidor era o cardeal alemão Joseph Ratzinger, que se tornou o Papa Bento XVI, mais reacionário que o Pio XII dos tempos de Hitler e do latim nas missas.

Se quisesse continuar frade, Leonardo Boff teria que se calar para sempre. Uma punição terrível para um pensador, porém mais suave, em razão dos avanços da humanidade, que as penas que atingiram 1.074 pessoas no Brasil, ao longo do século 18. Entre elas, o dramaturgo brasileiro Antônio José da Silva, garroteado e queimado em Lisboa.

Se o frade Leonardo Boff não houvesse se rebelado, a punição nos atingiria também, pois estaríamos impossibilitados de ler artigos como “A ilusão de uma economia verde”, divulgado há três dias, que indica os verdadeiros rumos para ajudarmos a natureza (ou Gaia) a salvar a Terra.

“Fala-se de economia verde para evitar a questão da sustentabilidade que se encontra em oposição ao atual modo de produção e consumo. Mas no fundo, trata-se de medidas dentro do mesmo paradigma de dominação da natureza. Não existe o verde e o não verde. Todos os produtos contêm, nas várias fases de sua produção, elementos tóxicos, danosos à saúde da Terra e da sociedade. Hoje pelo método da Análise do Ciclo de Vida podemos exibir e monitorar as complexas inter-relações entre as várias etapas, da extração, do transporte, da produção, do uso e do descarte de cada produto e seus impactos ambientais. Aí fica claro que o pretendido verde não é tão verde assim. O verde representa apenas uma etapa de todo um processo. A produção nunca é de todo ecoamigável”, escreveu Boff.

Ele exemplifica com o etanol, e explica: “Ele é limpo somente na boca da bomba de abastecimento. Todo o processo de sua produção é altamente poluidor: os agrotóxicos aplicados ao solo, as queimadas, o transporte com grandes caminhões que emitem gases, as emissões das fábricas, os efluentes líquidos e o bagaço. Os pesticidas eliminam bactérias e expulsam as minhocas que são fundamentais para a regeneração os solos; elas só voltam depois de cinco anos.”

Se você se interessou, não deixe de ler o artigo na íntegra.

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