O show do Eric Clapton: na minha cabeça e na vida real.

O ingresso para o tão esperado show, comprado do primeiro dia da pré-venda. (Fotos: CMC. Clique sobre elas para ampliá-las)

Quando o Eric Clapton veio ao Brasil pela última vez, em 2001, eu ainda estava no colégio, não tinha um tostão e morava em Minas, sem conhecidos nas cidades da turnê, para me receber. Ou seja, apesar de ter ficado tristíssima por isso, não tive nenhuma condição de ir vê-lo. E já adorava seus principais hits de rock.

Nos anos seguintes, comecei a ouvir e gostar cada vez mais não só de rock, mas também de blues, e descobrir as origens daquele guitarrista inglês, seus Yardbirds e Cream, a tutoria do John Mayall, os anos de drogas e alcoolismo. Além de ouvir muito, li bastante a respeito, inclusive, é claro, a autobiografia super maltraduzida de Clapton (que se divertia “a valer” e afins).

Lamentava cada vez mais por não ter podido ir àquele show, que fazia parte da então “última turnê de Eric Clapton”, como era anunciado à época. Depois soube que ele ficou com um problema auditivo (zumbido) e pensei: acabou, ele não fará show nunca mais mesmo.

Assim, quando soube que ele viria ao Brasil, exultei. Comprei o ingresso no primeiro dia da pré-venda. Contei os dias. Minha expectativa estava acumulada em dez anos, afinal.

Eu já tinha visto o shows do B.B. King, do Paul, do Buddy Guy, do próprio John Mayall, Queen, Deep Purple, Rolling Stones, Jethro Tull, Focus… a lista de heróis é bem grande. Mas contava que o show do Eric Clapton figuraria, fácil-fácil, entre os top 3 da minha vida.

Acho que foi por isso que, quando saí do estádio ontem, após apenas 1h40 de show, minha sensação era engraçada.

Eu estava feliz, sim, com o que tinha visto e ouvido (principalmente ouvido, já que não se vê muita coisa nem com os telões, da distância da arquibancada). Mas, ao mesmo tempo, estava com a sensação de que tinha visto um excelente DVD, não um show.

Isso porque toda vez que saio de um show, saio com uma energia gigante, com mil músicas na cabeça, com a adrenalina a mil, doida pra sair correndo pelas ruas (o que invariavelmente faço). Isso sem contar que fico rouca de tanto cantar, a temperatura do corpo sobe, como se eu estivesse com febre, dá uma fome danada, fico agitada e custo a dormir.

Ontem, saí do show acompanhada de milhares de pessoas absolutamente silenciosas. Pareciam vindas de uma missa, ou de um velório. Cadê os comentários eufóricos com o colega ao lado? E a cumplicidade sorridente com o completo desconhecido que está com a música do bis ainda ressoando na cabeça? Os poucos comentários que ouvi, fora os dos meus amigos, pareciam ainda tateando que sensação engraçada era aquela, de quero-mais misturado a faltou-algo, como a que eu estava sentindo.

Comecei a relembrar o show: a bela abertura com Key to the Highway, o clássico mais clássico do blues (Hoochie Coochie Man) tocado ali, ao vivo, por um dos meus heróis da guitarra, Layla em versão lentíssima, deliciosa, Nobody Knows you when you are down and out, sensacional, Before you Accuse Me, que é uma das minhas favoritas, a nova (e alegre e meio idosa) When Somebody Thinks you’re Wonderful, a maravilhosa Little Queen of Spades, do Johnson, Cocaine, Crossroads, tantos hits.

Gravei boa parte do show e depois vou pôr aqui (com a devida censura aos meus gritos esganiçados acompanhando cada letra 😀 ), e vocês verão que, do ponto de vista da qualidade do som, da técnica, Clapton continuou perfeito. Ainda por cima com um vozeirão rouco que ele nunca teve em CD nenhum que já ouvi.

O problema foi que faltou clima de show mesmo. Que, mesmo em Hoochie Coochie Man, ninguém cantou (parecia que ninguém ali nem sabia o que estava acontecendo, sei lá!). Que o Clapton não aprendeu nem o básico “Ou-bri-ga-dou Sau Pau-lou!” que todos soltam nos shows. Que não houve interação e a energia não foi a mesma.

Em suma, foi burocrático.

Eu já sabia o repertório, não houve surpresas, não houve graças, não houve risadas, não houve coros. O público parecia mais acordado durante a “ola” de antes do show do que durante a mais agitada de todas as músicas, Cocaine. Ao final de Crossroads, como todos já sabiam que o bis só teria aquela música, as fileiras foram rapidamente se esvaziando e ninguém pediu mais um, mesmo com as luzes ainda apagadas. Porra, se todos batessem palmas como loucos ao final, cobrando mais um, será mesmo que a banda não se disporia a voltar pra um Sunshine of Your Love básico? Se todo show agora é mecânico e pré-definido, sem lugar para improvisos, posso dizer do alto dos meus parcos 26 anos, mas sem medo de errar: já não se faz mais shows como antigamente!

Até agora estou com aquele gosto estranho e engraçado na boca. De quem gostou, mas esperava beeem mais. De quem achou um desperdício, na verdade. É como se eu, como jornalista, achasse a história dos sonhos de qualquer jornalista para contar, um puta furo, e, na hora de escrever, fizesse um texto burocrático e medíocre — ou os editores decidissem transformar a manchete em notinha.

A culpa foi de quem? Do Clapton, que é mesmo introspectivo, que jamais contaria os mil causos que ouvi do B.B. King, mas que podia pelo menos ter interagido minimamente com seu público que esperou dez anos para vê-lo?

Ou do público, que parecia estar ali para ouvir “Tears in Heaven”, ou que se acomodou num set-list pronto?

Ou, ainda (e acho até, mais provável), do lugar? Sim, porque um Morumbizão daquele tamanho todo forrado de cadeiras, obrigando até a galera da pista a ouvir a tudo sentado não é nada convidativo para uma reação eufórica, para a união nos gritos do refrão de um hit atrás do outro. Talvez um lugar menor e fechado, como a Via Funchal (onde foi o show do B.B. King) fizesse muito mais sentido. Ou um lugar aberto, um pouco menor, mas sem cadeiras na pista, para que os esqueletos de pé injetassem mais ânimo naquele pessoal e cativassem mais o nem-tão-cativante querido Eric.

O importante é que entendam: sou fã, mas este não foi top 3. E, desta vez, aos 66 anos, acho que será mesmo a última turnê do tal “deus da guitarra”. E, assim, continuarei com meu gosto engraçado na boca pra sempre.

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